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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

História da Ocupação Humana das Américas

 
Fonte: site Arqueologia e Pré-História
Autor: J. C. Moreno de Sousa



A ocupação do continente americano à luz dos novos dados genéticos e o sensacionalismo midiático

Novos dados corroboram a ideia de que a genética ameríndia já estava presente em grupos paleoíndios, mas o registro arqueológico como um todo deve ser considerado para entender essa história.

A rota de vários dos primeiros grupos humanos que
chegaram no continente americano foi o estreito de Bering


Dia 08 de Novembro de 2018, foram publicados dois artigos científicos – um na revista prestigiada revista Science e outro na também prestigiada revista Cell – que geraram muito material para a mídia jornalística usufruir e, como é de costume, distorcer boa parte do discurso científico com matérias cujas manchetes são bastante sensacionalistas (com algumas exceções de algumas poucas reportagens muito bem elaboradas).  Mas afinal, o que foi realmente que os cientistas publicaram?


Os novos dados genéticos de povos paleoíndios e a “reconstrução” de sua história

Os novos artigos publicados apresentam dados da análise genética de mais de 60 esqueletos (alguns deles perdidos recentemente no incêndio do Museu Nacional) datados do final do Pleistoceno e do Holoceno Médio (entre 13 mil e 5 mil anos atrás, aproximadamente) e indicam dados bastante similares. Os dois artigos defendem que há similaridades de traços genéticos entre os primeiros grupos paleoíndios e os grupos ameríndios.

Paleoíndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano que antecedem o advento da agricultura e cerâmica, geralmente datados entre 13 mil e 5 mil anos, sendo que alguns poucos sítio arqueológicos (como os da região de Lagoa Santa) mostram uma persistência desse grupos até cerca de 1 mil anos atrás.

Ameríndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano cujos traços culturais remetem a atividades horticultoras e a presença de  indústrias cerâmicas, que se espalharam pelo continente há menos de 4 mil anos atrás, ainda que alguns poucos sítios arqueológicos apresentem evidências que remontem a até 6 mil anos atrás na Amazônia. Basicamente, esses traços culturais ameríndios são aqueles que também observamos na grande maioria das populações indígenas existentes atualmente e nas outras registradas nos últimos séculos desde a chegada dos europeus a partir do ano de 1492.

Em resumo, os artigos mostram que os grupos paleoíndios já possuíam a genética que os grupos ameríndios apresentavam (e ainda apresentam). Ainda que diferenças possam ser apontadas no genes paleoíndios e ameríndios e diversas linhagens tenham surgido desde o primeiros paleoíndios, a similaridade genética ainda é maior entre paleoíndios e ameríndios do que entre paleoíndios e outros grupos humanos de fora do continente americano. Os novos dados são extremamente importantes para a arqueologia do nosso continente.

Essa descoberta não é exatamente inédita, ao contrário do que muitos jornais tem divulgado. Outros artigos científicos já apresentaram dados de genoma de populações paleoamericana e que chegavam a essa mesma conclusão, incluindo dados de esqueletos do Alaska, e até mesmo do único esqueleto supostamente Clovis, de modo que estes novos artigos apenas corroboram para esta ideia, comparando os novos dados com os dados anteriormente publicados e ampliam a nossa gama de conhecimento acerca da ocupação inicial do continente americano.

Um problema por trás dos novos artigos, ou mais especificamente daquele publicado na revista Cell, é o seu título “Reconstructing the Deep Population History of Central and South America” (em português: Reconstruindo a História Profunda da América Central e do Sul). O titulo lembra aquelas manchetes sensacionalistas de jornais, e quem não lê o artigo de fato leva a crer que absolutamente tudo o que a ciência já recuperou dessa história é inválido. E isso está longe de ser verdade, principalmente pelo fato de que o artigo não leva em consideração nenhuma das inúmeras evidências arqueológicas que construíram a história das populações humanas que habitaram o continente desde há pelo menos 20 mil anos atrás. Infelizmente, os artigos tentam reconstruir essa história considerando a Cultura Clovis (datada entre 13,2 e 12,5 mil anos atrás) como ponto inicial da ocupação das Américas – algo que já foi refutado e superado pela maioria dos arqueólogos.

Ainda que o DNA seja um tipo de evidência arqueológica muito importante, não se pode excluir as demais evidências, principalmente as culturais, para a construção (ou reconstrução) da história de um povo ou de vários grupos humanos. E estes novos artigos estão muito longe de reconstruírem a história humana no continente americano, uma vez que as discussões dos artigos tentam refutar apenas os resultados das evidências de morfologia craniana.


Mas o que dizem os dados da morfologia craniana?

Cerca de 20 anos atrás, o bioantropólogo brasileiro Dr. Walter Neves (fundador e ex-coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, IB-USP), a partir da análise dos crânios das populações pré-históricas da região de Lagoa Santa (Minas Gerais), percebeu que os crânios das primeiras populações do continente americano não se assemelhavam àquelas dos grupos indígenas mais recentes – os grupos ameríndios. Na verdade, os crânios destes indivíduos, incluindo Luzia, eram muito mais similares com os crânios de populações contemporâneas do continente africano e da região da Melanésia (Austrália a ilhas próximas). Em algum momento parece haver uma substituição na população em termo biológicos. Os crânios de morfologia africana/melanésia desapareceram e surgiram os ameríndios. Com o passar dos anos novas pesquisas realizadas por Neves, colaboradores e outros autores vieram a corroborar todos estes dados.

Essa similaridade entre paleoíndios, africanos e melanésios em termos da morfologia craniana jamais foi questionada, nem mesmo pelos novos artigos sobre genética. O que estes novos artigos desafiam é o modelo proposto por Neves para ocupação do continente. Para Neves, a ocupação do continente teria ocorrido, inicialmente, no final do Pleistoceno, de povos que saíram da África, passaram pela Ásia (onde parte dessa população ficou), passaram pelo estreito de Bering e chegaram na América do Norte e consecutivamente foram descendo o continente. Uma segunda onda migratória teria ocorrido milhares de anos depois, de povos vindos da Ásia que já possuíam crânios com morfologia similar a dos asiáticos atuais. Estes asiáticos teriam chegado no continente americano também passando pelo estreito de Bering e teriam dado origem aos povos ameríndios.

Os dados genéticos contradizem esse modelo, uma vez que indicam que os grupos que chegaram há cerca de 13 mil anos já possuíam genoma ameríndio. Mas ainda não explicam a razão de serem fenotipicamente distintos. Ou seja, se o genoma paleoíndio e o ameríndio são tão similares, porque os crânios são tão diferentes? Certamente alguns dos coautores destes artigos (ou pelo menos alguns deles) reconhecem  este problema, já que também participaram destas análises de morfologia craniana.

Afinal, nem sempre genética e morfologia craniana vão fornecer dados equivalentes (e não precisam). A forma do crânio é apenas um dos traços fenotípicos proporcionados pelo genótipo.  Veja só o exemplo que os Botocudos nos proporcionam: Eles eram  culturalmente ameríndios, apresentavam a morfologia africana/melanésia, e ainda tinham traços de DNA polinésio. A genética por si só não conta, ou “reconstrói” toda essa história.


Mas e quanto às demais evidências arqueológicas?

Sítios arqueológicos ainda mais antigos, mas que não há esqueletos preservados, comprovam que o continente americano já vem sendo ocupado muito antes de Clovis. A região da Serra da Capivara, no Piauí, concentra sítios arqueológicos como o Boqueirão da Pedra Furada e a Toca da Tira Péia, com artefatos de pedra lascada simples (seixos lascados) que remontam a até pelo menos 22 mil anos (8 mil anos antes de Clovis). Mas existem evidências de até 50 mil anos nestes mesmos sítios.

Exemplos de artefatos de pedra lascada datados em 20 mil anos na região da Serra da Capivara

Adornos de colar feitos em osso de preguiça gigante,
datados em 20 mil anos, no sítio Santa Elina, Mato Grosso


O sítio arqueológico Santa Elina, no Mato Grosso, apresenta artefatos de pedra lascada (lascas retocadas de calcário) e até mesmo adorno de colares produzidos por polimento em ossos de preguiça gigante. O sítio data em pelo menos 25 mil anos (10 mil anos antes de Clovis).O sítio Monte Verde, no Chile, apresenta artefatos bastante similares àqueles encontrados na Serra da Capivara, e data de pelo menos 18 mil anos (3 mil anos mais antigo que Clovis).

Mais recentemente, foi descoberto o sítio Chiquihuite Cave, com artefatos líticos simples, em calcário, de até 33 mil anos atrás.

Os sítios Gault e Friedkin, no Texas, Estados Unidos, apresentam uma ocupação densa da Cultura Clovis. Mas também apresentam vestígios de uma ocupação ainda mais antiga com presença de pontas pedunculadas produzidas sob uma tecnologia lítica muito distinta de Clovis, que data em até 7 mil anos antes de Clovis. Sem contar nos inúmeros sítios com presença de artefatos conhecidos como “Folhas de Louro” encontrados em sítios no leste da América do Norte e que possuem uma ancestralidade clara na cultura Solutreense da Europa, dada a similaridade tecnológica.

Estes são apenas alguns exemplos de sítios arqueológicos que apresentam evidências que descartam qualquer modelo de ocupação inicial da América que considere Clovis como a primeira cultura arqueológica do continente, ou que o continente só tenha sido ocupado há pouco menos de 15 mil anos. Ou seja, independente de quantas ondas migratórias de povos vindos por Bering tenham ocorrido, independente de seu genótipo, independente do seu fenótipo, a história do início da ocupação do continente é ainda mais antiga, e não pode ser resumida àquilo que apenas os vestígios biológicos nos dizem. Existe uma história de mudanças e persistências culturais que começou há mais de 20 mil anos.


Então qual é o modelo correto de ocupação das Américas?

A chegada dos humanos no continente americano pelo estreito de Bering é indiscutível. As pessoas definitivamente atravessaram a região em algum momento pouco antes da Cultura Clovis se espalhar pela América do Norte e diversas outras culturas arqueológicas se espalharem pelo resto do continente. E é bem provável também que as pessoas não tenham atravessado esse estreito apenas uma vez, de modo que elas poderiam ir e vir por essa rota várias vezes ao longo de milênios. Se diversos animais da Megafauna já haviam feito isso antes, o que impede os humanos de terem realizado a mesma façanha?

Exemplos de artefatos conhecidos como “Folha de Louro” encontrados em sítios
da cultura Solutreense, no sudoeste Europeu, datados entre 22 e 18 mil anos atrás


Também há agora evidências que apontam uma segunda rota de chegada no continente americano. Essa outra rota é uma hipótese elaborada com base em diversos dados da tecnologia lítica e até mesmo de estudos genéticos (os quais não foram discutidos nos artigos publicados esta semana). Estudos conduzidos pelos arqueólogos Dr. Dennis Stanford (Smithsonian Institute) (in memoriam) e Dr. Bruce Bradley (University of Exeter) mostram que as Folhas de Louro encontradas em sítios de até 20 mil anos no leste dos Estados Unidos são tecnologicamente idênticas às Folhas de Louro da Cultura Solutreense no sudoeste Europeu que remonta em até 22 mil anos, indicando uma ancestralidade em termos culturais. De alguma maneira, a tecnologia Solutreense chegou na América do Norte alguns milhares de anos depois de ter surgido na Europa. Os dados também mostram que os artefatos líticos da Cultura Clovis tem sua ancestralidade na Cultura Solutreense, uma vez que compartilham de mais de 40 traços tecnologicamente similares, dos quais a maioria não é encontrada em nenhuma outra cultura arqueológica no mundo.


Exemplos de artefatos pré-Clovis conhecidos como “Folha de Louro”
encontrados em sítios do leste dos Estados Unidos


No fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 alguns geneticistas realizaram algumas análises de nativos americanos e perceberam que há um gene nos nativos americanos do leste da América do Norte (gene X2a) que possui sua ancestralidade no sudoeste Europeu (mesma região da cultura Solutreense). Uma vez que o Gene X2a é uma mutação que ocorreu já em território americano, e sua proximidade geográfica com seu ancestral (gene X) está no sudoeste Europeu, fica claro que em algum momento do Holoceno Inicial ou Médio uma travessia transatlântica foi realizada. Logo, a hipótese de rotas marítimas ainda mais antigas entre a América do Norte e a Europa é fortalecida, principalmente ao se considerar que há cerca de 20 mil anos atrás havia uma camada de gelo que interligava os dois continentes e havia abundante fonte de alimentação no meio do caminho, facilitando o fluxo de pessoas nessa rota. Esses dados genéticos não foram discutidos nos artigos da Science e da Cell.



Localização geográfica dos genes X e X2 durante o Holoceno Inicial e Médio


E também desconsideram os dados publicados no European Journal of Human Genetics, que atesta uma relação entre o genoma de paleoíndios e europeus que suportam a hipótese de uma travessia trans-atlântica.


A análise filogenética aponta uma maior similaridade e provável relação de ancestralidade
 entre grupos paleolíticos europeus e paleoamericanos. Fonte: Wei et al. (2018)


Também é importante notar que nenhuma cultura arqueológica na América do Sul apresentam traços tecnológicos que remetam a uma possível ancestralidade com a Cultura Clovis. Mesmo que exista algum traço genético que tenha vindo dos grupos Clovis, os traços culturais não vieram. Ou pelo menos ainda não existem dados que apresentam essas similaridades. Muitos trabalhos ainda precisam ser feitos antes de bater o martelo nessa questão. Alguns deles já estão demonstrando que, pelo menos no território Brasileiro, as ocupações humanas mais densas que se iniciaram há cerca de 13 mil anos são caracterizadas por culturas arqueológicas bastante distintas, e sem traços de ancestralidade em lugar nenhum.


Exemplos de pontas da Cultura Clovis, datadas entre 13 e 12 mil anos

Mais recentemente, um artigo liderado por pesquisadores do Instituto de Biociências da USP publicado na PNAS comprovou a presença de genes australo-melanésios em grupos indígenas viventes da Amazônia, o que indica que em algum momento do passado grupos do Pacífico migraram até chegar à América do Sul. Esta evidência fortalece a hipótese proposta anteriormente por Walter Neves de que os primeiros grupos no continente sul americano teriam uma relação de ancestralidade com grupos do Pacífico.


Afinal, qual é a relação entre a Cultura Clovis e a Cultura Lagoassantense?

Quase nenhuma. A única relação parece mesmo ser essa apresentada pelos novos artigos. O DNA de alguns esqueletos de Lagoa Santa compartilham de uma mesma ancestralidade que o garoto de Anzick. O garoto de Anzick é o único “esqueleto” já encontrado associado de maneira forçada à cultura Clovis – forçada, pois ele possui cerca de 12,7 mil anos (poucos séculos antes da Cultura Clovis desaparecer), e nenhum artefato Clovis estava associado a ele. Todo o genoma geralmente associado a Clovis por esses pesquisadores está, na verdade, associado apenas a este indivíduo cuja associação cultural é desconhecida. Infelizmente, apenas a calota craniana foi preservada, impossibilitando até mesmo a análise morfológica do crânio. E pra infelicidade dos cientistas, anos atrás (em 2014) ele foi reenterrado devido a uma reivindicação de grupos indígenas que acreditavam que um de seus ancestrais havia sido exumado, desrespeitando sua cultura.


Exemplo de lâmina de machado polido encontrado na região de Lagoa Santa, datado em 11 mil anos


Como já foi dito, nenhuma cultura arqueológica sul-americana compartilha de traços  culturais com Clovis. Uma similaridade genética com apenas um indivíduo, ainda que seja importante, não diz muito a respeito da história das culturas arqueológicas sul-americanas. A cultura Lagoassantense não é definida pela sua biologia, mas sim pela sua… cultura! Já sabemos hoje que a cultura Lagoassantense surgiu há cerca de 12,5 mil anos, e que outros grupos culturais já haviam passado pelo local, ainda que não houvessem se estabelecido por lá. A cultura Lagoassantense persistiu até cerca de 1 mil anos, quando parece ter desaparecido. Ela é bem definida atualmente pela sua grande diversidade nos rituais mortuários, por uma dieta bastante diversificada, pela produção de alguns tipos de registros rupestres (incluindo aquele com a datação mais antiga do continente) e por uma indústria lítica cuja tecnologia é bem distinta das demais culturas arqueológicas sul americanas. Um artigo publicado poucas semanas antes dos artigos da Science e da Cell definiu a tecnologia da indústria lítica Lagoassantense. Estes grupos produziam mais de 90% de seus artefatos em lascas provenientes de pequenos cristais de quartzo – que só são encontrados em locais bem afastados dos sítios. Eventualmente produziam algumas lâminas de machado polido, as mais antigas já registradas no continente americano, e que até pouco tempo atrás eram pensadas como artefatos exclusivos de grupos ameríndios. Não há nada nesta cultura arqueológica que remeta a qualquer similaridade com a Cultura Clovis.


Onde Luzia se encaixa em meio a tudo isso?

A nossa querida Luzia, tragicamente destruída pelo incêndio no Museu Nacional junto com diversos outros esqueletos de Lagoa Santa, mas felizmente recuperada (ainda que apenas parcialmente) tem pouca participação nessa história toda. É verdade que ela é famosa não só por ser o esqueleto mais antigo do continente – status esse que ela divide agora com o esqueleto de Naia, uma mulher datada em 13 mil anos numa caverna marinha no México – mas também por ter sido a primeira com reconstituição facial. Reconstituição essa realizada a partir da sua morfologia craniana, mas com diversos traços artísticos produzidos com base no modelo proposto por Walter Neves. Ou seja, a cara de Luzia como ela é sempre divulgada é resultado de uma reconstituição que tinha como objetivo fazer ela se assemelhar com uma pessoa aborígene da melanésia (Austrália e ilhas próximas).

O esqueleto de Naia foi encontrado em uma caverna submersa no México


A verdade é que todas as reconstituições são feitas com base na interpretação que o artista ou alguns pesquisadores possuem sobre um indivíduo. Afinal, não sabemos como era o formato do nariz, das orelhas, dos lábios, cor da pele, cor dos olhos, cabelo, etc… As vezes a genética até consegue identificar esses aspectos, como foi o caso do Homem de Cheddar. O Homem de Cheddar é um esqueleto datado de 14 mil anos na Inglaterra, cujo DNA preservado possibilitou identificar a cor da sua pele: ele era negro! Será então que há 14 mil anos atrás os grupos paleoíndios também tinham a pele negra? Não sabemos. A morfologia craniana não é capaz de responder nada além da própria forma do crânio. E a genética ainda não chegou a nenhuma conclusão quanto a isso. Ainda que a similaridade genética seja com a de grupos indígenas, que possuem uma cor de pele morena (ou parda, como prefiram chamar), nada indica que entre os traços similares estão os genes de cor da pele, ou mesmo do tamanho do nariz, das orelhas, do tipo de cabelo, etc etc…

Reconstituição facial do Homem de Cheddar, esqueleto encontrado na Inglaterra datado em 14 mil anos


Pensando nisso um outro indivíduo de Lagoa Santa teve sua reconstituição facial produzida. Desta vez um homem, mas não tão antigo quanto Luzia. Este tem “apenas” 9 mil anos, e sua reconstituição foi pensada para algo mais “generalizado”, que não remeta tanto aos traços aborígenes da reconstituição de Luzia. Mas a verdade é que ainda não temos dados o suficiente para saber qual era a verdadeira aparência destes indivíduos. Ambas as reconstituições são apostas válidas.

Luzia não foi reconstituída novamente, não ganhou uma “nova cara”, diferente do que muitas manchetes de jornal afirmam, e seu DNA jamais foi analisado. Não por falta de tentativa! Alguns dentes dela já haviam sido sacrificados em busca de DNA, com a esperança de que ainda houvesse colágeno preservando o DNA dela. Não obtivemos sucesso… Luzia não preservou DNA, infelizmente. Se ainda havia DNA em algum lugar do seu esqueleto que ainda não havia sido sacrificado pela ciência, agora certamente não há mais. O que restou após o incêndio está em cacos que passaram por alta temperatura. E há de preservar ao máximo essa mulher que ainda luta para ficar, de alguma forma, viva na história do Brasil e das Américas.



SOBRE O AUTOR:
João Carlos Moreno de Sousa é arqueólogo. Atualmente é pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (IB-USP). Bacharel em Arqueologia pelo Instituto Goiano de Pre-História e Antropologia da PUC GO, Mestre em arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Doutor em arqueologia pelo Museu Nacional-UFRJ com doutorado sanduíche (PDSE) pela University of Exeter (Reino Unido). Sua área de especialidade é a análise de indústrias líticas e o período paleoíndio brasileiro, com diversos artigos científicos publicado sobre assunto. Também possui experiência em arqueologia experimental, arqueologia cognitiva e divulgação científica da arqueologia.




Veja também:







História da Ocupação Humana das Américas


Fonte: site Arqueologia e Pré-História
Autor: J. C. Moreno de Sousa



EVIDÊNCIA GENÉTICA AUSTRALO-MELANÉSIA EM GRUPOS NATIVOS DA AMÉRICA DO SUL
Novos dados colaboram para o complexo quebra-peças da ocupação inicial das Américas.

Hipótese proposta por Silva e colaboradores sobre a ocupação pré-colonial
das Américas com base na evidência genética. Ilustração de Tiago Ferraz.


No dia 29 de março (2021) foi publicado no periódico científico internacional PNAS, um artigo apresentando novas evidências da presença de genes australo-melanésios em povos nativos da América do Sul, em especial da costa do Pacífico e da Amazônia. O estudo foi realizado por um grupo de pesquisadores brasileiros.

A presença destes genes de povos nativos da região da Austrália e da Melanésia já havia sido detectada em povos nativos da Amazônia anteriormente por Pontus  Skoglund e colaboradores. Estes dados foram publicados na revista Nature em 2015. De acordo com esse estudo, seria necessária a existência de pelo menos duas populações para explicar a diversidade genética nativa-americana, as quais teriam vindo pela Beríngia, mas uma delas seria formada por uma população que sofreu miscigenação na própria Beríngia, ou até mesmo na Sibéria como apontam novas evidência publicadas em 2020 por Chao Ning e colaboradores na revista bioRxiv. De acordo com o trabalho de Skoglund e colaboradores, essa miscigenação ancestral teria envolvido grupos relacionados aos primeiros americanos a chegarem às Américas e um ramo irmão dos australo-melanésios contemporâneos. Posteriormente, esta segunda população teria então entrado nas Américas a partir da Beríngia e se miscigenado mais intensamente com os ancestrais de algumas populações Amazônicas.

“Nosso trabalho vem, portanto, primeiramente demonstrar que a contribuição desta ancestralidade é muito mais difundida no continente sul-americano do que se pensava, estando presente em ambos os lados da cordilheira dos Andes”, disse o doutorando Marcos Araújo Castro e Silva do Instituto de Biociências da USP (autor principal do novo artigo) em entrevista exclusiva para o Arqueologia e Pré-História. “Os resultados também corroboram as evidências de que esta ancestralidade foi introduzida nas Américas a partir de migrações ainda no Holoceno inicial (ou mesmo em período anterior), isto porque a detecção do sinal em populações da Costa do Pacífico e da Amazônia, as quais divergiram muito provavelmente a aproximadamente 6-8.000 anos atrás, indica que a presença desta ancestralidade remonta pelo menos a essa idade”.


AS HIPÓTESES DA OCUPAÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DO CONTINENTE AMERICANO

Estudos multidisciplinares da arqueologia nas últimas décadas, com base em diversas linhas de evidência, mas principalmente da antiga tecnologia de pedras lascadas e dos estudos da anatomia de esqueletos antigos, resultaram em diversas propostas sobre como e por onde teriam chegado os primeiros grupos humanos nas América, sendo a maioria destas propostas tendo a Beríngia como a principal rota de entrada. Atualmente, as evidências paleoambientais apontam que a entrada pela Beríngia teria sido, a princípio, obrigatoriamente por navegação pela costa, uma vez que até pelo menos 12,6 mil anos atrás o caminho até o interior do continente estaria bloqueado pelos glaciais, e a única área onde não havia gelo (o ice-free corridor) era um ambiente inóspito, sem nenhuma presença sequer de vegetais ou outros animais. Ou seja, uma ocupação vinda por terra só seria possível mais ou menos na mesma época em que a famosa Cultura Clovis, na América do Norte, já estava desaparecendo. Estudos das últimas três décadas também apontam uma travessia transatlântica vinda do sudeste europeu (mais especificamente de grupos associados à cultura Solutreense), que deixou evidência cultural de sua ocupação na costa atlântica da América do Norte (e que viria a causar certa influência na Cultura Clovis), uma possível variação anatômica em esqueletos da América do Norte e, de acordo com alguns pesquisadores, até possível evidência genética. Para a América do Sul, todas as evidências para sítios de até 13 mil anos de antiguidade apontam para grupos que desceram da América do Norte diretamente para cá, produzindo uma grande diversidade cultural, mas com esqueletos que possuem uma anatomia majoritariamente australo-melanésia. Na América do Norte, essa anatomia seria muito mais diversificada antes de 8 mil anos, apresentando esqueletos de anatomia australo-melanésia, europeia e asiática.

A presença de humanos na América do Sul antes de 13 mil anos também já é conhecida (como os sítios de Monte Verde, no Chile; Santa Elina, no Mato-Grosso; Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí; e Taima-Taima, na Venezuela). Evidências antigas assim também foram encontras na América do Norte (como nos sítios de Meadowcraft, no nordeste dos EUA; Page Ladson, no sudeste dos EUA; Topper, no sudeste dos EUA; Debra L. Friedkin, no sul dos EUA; Gault, no sul dos EUA;  Chiquihuite cave, no México; entre outros localizados principalmente na costa leste dos EUA). Mas as evidências de uma dezena de sítios tão antigos são muito escassas em comparação às centenas de sítios datados entre 13,5 e 8 mil anos atrás nas Américas. Estas ocupações mais antigas de 13,5 mil anos eram provavelmente de populações muito menores, e das quais ainda não há base suficiente para boas hipóteses sobre sua chegada às Américas.

Já com relação aos grupos de maior população, que chegaram entre 13,5 e 13 mil anos e ocuparam todas as partes do continente americano, estudos com base na cronologia das ocupações indicam uma ocupação muito rápida, o que poderia ser explicado por rotas que permitem essa velocidade, principalmente a navegação pela costa e grandes rios.

“Nossos modelos de história populacional indicam que a hipótese de povoamento do continente Americano (e sul-americano) pela rota da Costa do Pacífico é a mais provável, em comparação a uma possível expansão pelo interior do continente”, afirma Silva. “Nossos resultados portanto delimitam mais claramente no tempo (de ~8,000 anos atrás até a entrada na América a pelo menos ~15.000 anos atrás) e no espaço (povoamento pela rota da costa do Pacífico) como ocorreu a introdução da ancestralidade Y e desta forma pode guiar o surgimento de novas hipóteses a serem testadas. Além disso, nós também demonstramos que existe grande variabilidade do sinal entre diferentes populações e também entre indivíduos das mesmas populações, e por fim não encontramos nenhuma relação entre a presença desta ancestralidade e a diversidade etnolinguística”.

Considerando apenas a anatomia dos esqueletos, principalmente a morfologia craniana, o bioantropólogo brasileiro Walter Neves e colaboradores notam que na maior parte do continente sul-americano os primeiros grupos nativos (paleoamericanos) compartilhavam de um mesmo padrão de características morfológicas – o mesmo padrão encontrado em grupos australo-melanésios. No entanto os grupos nativos mais recentes (ameríndios), não apresentam as mesmas características, tendo uma morfologia craniana mais asiática, com exceção de alguns poucos grupos, como os Botocudos, que mantém a morfologia australo-melanésia. De acordo com Neves e colaboradores, essa mudança morfológica poderia ser explicada pela chegada de uma nova população no continente sul-americano durante o Holoceno Médio (entre 8 mil e 4 mil anos atrás).

Em 2018, um artigo publicado por Posth e colaboradores na revista Cell, apresentou dados de amostras de DNA antigo de indivíduos de todo o continente americano e de vários períodos. Apesar dos inúmeros problemas apontados por arqueólogos na interpretação desses dados devido à omissão de dados de outras linhas de evidência, o estudo não encontrou evidências que suportam a existência de uma linhagem genética distinta dos outros Nativos Americanos que explique a morfologia dos crânios paleoamericanos. “As análises [de Posth e colaboradores] indicam que houve uma substituição dêmica a partir de 9000 anos atrás, substituindo a população inicial, que apresentava maior afinidade com o indivíduo de Anzick-1” ¹, reforça Silva.

“Quando foi feito esse achado inicial, em 2015, de que algumas populações do sul da Amazônia tinham uma afinidade maior com australo-melanésios em comparação com outros grupos nativos americanos, foi um resultado bastante intrigante. Era uma contribuição pequena (menos de 6%), mas estava lá, baseada em análises robustas e com bastante suporte estatístico. O mesmo ocorreu em 2018, com a análise de DNA antigo do material da Caverna do Sumidouro, de 10 mil anos, em Lagoa Santa. Até aí, mesmo para os geneticistas, o sinal australo-melanésio tinha um caráter meio anedótico e desconexo, quase uma curiosidade”, disse o geneticista Thomaz Pinotti, doutorando da Universidade de Copenhagen (Dinamarca) que não teve envolvimento com o estudo. O estudo de 2018 a que Pinotti se refere é aquele publicado por Moreno-Mayar e colaboradores na revista Science, do qual ele foi coautor.

O já mencionado estudo de 2015, de Skoglund e colaboradores, inferiu que algumas populações amazônicas teriam sido formadas por pelo menos duas populações distintas: Uma população inteiramente formada pela ancestralidade dos primeiros nativo americanos e uma segunda população envolvendo uma mistura entre os primeiros (ou grupos proximamente relacionados a eles) e um ramo irmão dos atuais Australasianos, dando origem à “população Y”, que teria um grande componente não-beringiano.

“O nosso artigo refina esses resultados, e demonstra que a ancestralidade Y já chegou às Américas introgredida no genoma dos Primeiros Americanos, resultado de uma miscigenação ainda na Beríngia ou mesmo antes disso. Sendo assim, pode-se dizer que a ancestralidade australasiana, ou Y, sempre teve baixa frequência na América. Além disso, nenhuma associação entre a ancestralidade Y e a morfologia paleoamericana foi demonstrada, somando-se a isso o fato de que nem todos os indivíduos que apresentam esta morfologia apresentam este sinal de afinidade genética, eu diria que nosso trabalho não corrobora a hipótese de Neves, pelo menos à luz das evidências atuais”, defende Silva.

Ainda que as evidências genéticas não corroborem exatamente a hipótese de Walter Neves, as evidências da mudança na morfologia craniana continuam sem uma explicação em termos genéticos.


A AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIAS NA AMÉRICA DO NORTE E CENTRAL

Uma das preocupações nos dados do trabalho de Silva e colaboradores é ausência de evidências na América Central e na América do Norte, já que seria esperado que os genes de povos do Pacífico fossem encontrados nesses subcontinentes, uma vez que eles também propõem a vinda pela Beríngia.

“Nossos resultados evidenciam que a hipótese de povoamento do continente americano pela rota da costa do Pacífico é a mais provável para a chegada dessa ancestralidade na América do Sul. Assim, é possível explicar a ausência desta ancestralidade na América Central e do Norte utilizando as próprias premissas desta hipótese, segundo as quais, em linhas gerais, os primeiros americanos teriam permanecido apenas na costa do Pacífico e áreas adjacentes devido às suas estratégias de subsistência e outros aspectos culturais adaptados à vida no litoral. Por este motivo, pelo menos inicialmente a expansão teria ocorrido apenas através da costa do Pacífico, desde o Alasca até o sul do Chile, o que é suportado por evidências arqueológicas como o sítio de Monte Verde no sul do Chile”, ² disse Silva. Neste sentido, a hipótese de Silva e colaboradores vai ao encontro de vários arqueólogos que defendem a ocupação da América do Sul inicialmente pela costa, cujos sítios mais antigos estariam hoje embaixo d’água, já que desde então o nível do mar subiu mais de 100 m, e por isso não temos evidências de ocupação em todos os lugares da atual costa.

No entanto, a ausência destes genes por todo o continente pode ter uma outra explicação. “Uma possibilidade alternativa, mas não exclusiva, leva em consideração que grande parte das povos nativos americanos foram dizimados durante o processo de colonização europeia, de modo que hoje existe apenas uma fração da diversidade genética do passado, o que possivelmente pode ter ocultado a presença desta ancestralidade em algumas regiões onde de fato esteve presente no período pré-colonial”, explica Silva.

“Sua ausência [se referindo aos genes] na América do Norte segue sendo desafiadora, e não dá para dizer que entendemos completamente a natureza desse sinal”, afirma Pinotti.


A IMPORTÂNCIA DA GENÉTICA DE GRUPOS NATIVO-AMERICANOS

Se você perguntar para um arqueólogo qual a importância de estudar grupos nativo-americanos, a maioria das respostas tenderá para a importância da história e evolução biocultural de grupos dos quais muitos de nós temos alguma ancestralidade. Outros focarão sobre a importância destes grupos em questões ambientais e/ou injustiças cometidas durante o período colonial que refletem e continuarão refletindo em nossas sociedades. Esta não é uma pergunta comumente feito à geneticistas.

Para Silva, que é geneticista: “A construção do conhecimento sobre a história dos povos nativos da América, sobretudo por parte dos brasileiros, é de extrema importância para valorização destes povos indígenas. Mas a geração deste conhecimento deve ser combinada a iniciativas de divulgação científica, como essa [da rede Arqueologia e Pré-História], de modo a permitir o acesso mais amplo da população. As populações indígenas e não-indígenas, sobretudo as latino-americanas, tiveram a sua história apagada ou contada apenas a partir da perspectiva e da ancestralidade dos colonizadores europeus, negligenciando na maior parte as suas origens nativo-americanas e africanas. Assim, resgatar a história destas ancestralidades a partir da perspectiva da informação genômica é um passo bastante significativo. Além disso, este trabalho foi planejado e executado de forma totalmente independente pelo nosso grupo, o qual é formado apenas por pesquisadores brasileiros, o que contribui para a emancipação da ciência brasileira e da nossa capacidade de utilizar as ferramentas de ponta na pesquisa em genômica, para contribuir com o resgate da nossa história”.

Ao tratar especificamente do genoma destes povos, de acordo com Silva “o conhecimento sobre a diversidade genética de populações humanas é imprescindível para a compreensão de diversos aspectos da saúde humana, como por exemplo para poder estimar a prevalência de certas doenças não apenas para as comunidades indígenas, mas também das população brasileira como um todo, dado os brasileiros apresentam em média 7-9% de ancestralidade nativa-americana”.

Também de acordo com Silva, nos últimos anos o custo médio do sequenciamento genético vem reduzindo bastante. “Isso possibilita que grandes contingentes populacionais sejam sequenciados (inclusive a população inteira de alguns países), e em pouco tempo se tornarão realidade avanços científicos como a medicina personalizada, onde por exemplo medicamentos e tratamentos poderão ser desenvolvidos de forma a se adequar às características genéticas de cada indivíduo ou grupo populacional, aumentando assim a eficácia dos tratamentos e reduzindo os riscos, como as reações adversas”, afirma. “Neste sentido, o estudo da diversidade genética nativa americana é indispensável e se tornará cada vez mais essencial para guiar o desenvolvimento de políticas públicas de saúde, para a melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento de tratamentos mais adequados tanto dos povos indígenas, quanto das populações não-indígenas”.

Essa importância sobre o estudo de povos nativos foi, inclusive um dos fatores que levou a equipe brasileira a realizar o estudo. “Os povos nativos americanos têm sido historicamente negligenciados e sub-representados em estudos da diversidade genética e evolução de populações humanas. Essa baixa representatividade nos painéis globais de dados genômicos leva a uma série de problemas, gerando por exemplo vieses na aplicação dos resultados de estudos de associação de marcadores genéticos moleculares a fenótipos, incluindo fenótipos de relevância médica, isto porque boa parte destes estudos é conduzida em populações europeias, cuja frequência e distribuição das variantes genéticas difere significativamente daquelas de populações nativas americanas”, afirma Silva. “A falta de dados sobre populações nativas da América, e também de amostras de indivíduos antigos, é particularmente problemática para o estudo da história profunda destas populações, dado que partes essenciais do quebra-cabeças da história podem estar sendo completamente ignoradas por não estarem presentes nos dados”.

Para o pesquisador, este artigo e outros trabalhos anteriores do grupo de pesquisas fazem parte de um esforço para aumentar a representatividade dos estudos sobre a diversidade genética das populações indígenas e não-indígenas brasileiras, essencialmente através:
1. De uma melhor amostragem de povos nativos (e miscigenados) de diferentes e corregiões;
2. Da produção de dados genômicos a partir de técnicas de ponta, em quantidade e qualidade suficientes para permitir o estudo de aspectos históricos, demográficos e evolutivos;
3. Da análise da diversidade genética.

“Neste trabalho especificamente visamos investigar a distribuição da ancestralidade Y entre e dentro dos principais grupos etnolinguísticos da América do Sul e Central. Num primeiro momento nosso foco estava nas populações amazônicas e do planalto central brasileiro, onde esperávamos ser possível também encontrar este sinal. Foi portanto uma surpresa quando identificamos este sinal numa população da costa do Pacífico, separada pela cordilheira dos Andes das populações onde essa ancestralidade havia sido identificada anteriormente, nesse momento nós percebemos que havia uma história mais complexa a ser contada e com possíveis implicações sobre o povoamento inicial do continente americano”, diz Silva.

Para Thomaz Pinotti, que tem se debruçado sobre os estudos de paleogenética das Américas, “a importância do trabalho de Marcos Silva e colaboradores é o de ser o primeiro a abordar o problema em um caráter continental e demonstrar que o sinal em populações modernas não está restrito à Amazônia. Também está na costa pacífica do Peru e entre os Xavante, no MT. E de que talvez seja algo presente, em maior ou menor nível, em vários povos indígenas da América do Sul”. Para Pinotti, isso reforçaria a possibilidade de ser um componente presente nos primeiros povos a chegarem no continente, por uma via beringiana. “Pensando num quebra-cabeça em que começamos a montar pelas bordas, eu diria que o sinal australo-melanésio é uma das peças do meio, em que ainda não sabemos bem onde elas entram na figura final, ou que imagem formam. O trabalho do Marcos é um importante passo nessa direção, em que vão se basear os próximos estudos com DNA antigo e moderno, abordando o processo inicial de ocupação das Américas”, completa.


O DIÁLOGO ENTRE ARQUEÓLOGOS E GENETICISTAS

Uma das principais críticas feitas por arqueólogos nos últimos anos tem sido especialmente sobre os estudos realizados por geneticistas sobre antigos grupos humanos, que apesar de produzirem dados importantes para a arqueologia, geralmente realizam interpretações sobre grupos antigos considerando apenas a linha de evidência da genética, ignorando um século de pesquisas realizadas por arqueólogos a partir de diversas outras linhas de pesquisa.

“Seria bastante interessante e produtivo a interação de pesquisadores destas diferentes áreas, inclusive para o aprendizado destes em relação às metodologias de análise e interpretação dos dados, o que certamente diminuiria os erros de interpretação e possibilitaria uma maior colaboração. Neste sentido, nosso grupo sempre tenta conciliar diferentes áreas do conhecimento na interpretação dos dados genéticos”, afirma Silva.

O já mencionado artigo de Posth e colaboradores publicado em 2018 chegou a ser debatido em congressos posteriores sobre a omissão de outras linhas de evidência ao tratar da ocupação inicial das Américas e a necessidade de maior debate de geneticistas com arqueólogos, principalmente nos últimos anos em que arqueólogos também têm se debruçado sobre a arqueogenética.

“Acredito que a pesquisa sobre a história e pré-história requer inevitavelmente uma abordagem multidisciplinar. Mesmo antes das metodologias genéticas passarem a ser usadas para investigar questões destas áreas, o corpo de evidências já era formado não apenas pela arqueologia e história mas também pela integração de outras ciências (e.g. linguística, antropologia, etnografia, paleoclimatologia e paleobotânica). Desta forma, a genética deveria, na minha opinião, ser entendida apenas como mais uma ferramenta nesse conjunto, sendo que ela tem um poder maior para responder um conjunto específico e não necessariamente exclusivo de questões, o que obviamente também é o caso das outras ciências”, defende Silva. “Neste sentido, eu acredito que, precisamos de mais abordagens multidisciplinares tanto para evitar a interpretação incorreta da literatura de outras áreas do conhecimento, quanto para que as diferentes fontes de evidências possam ser integradas e interpretadas em conjunto da melhor maneira possível, de modo que idealmente nenhuma linha de evidência seja ignorada e que toda a informação disponível possa ser usada para preencher as lacunas que inevitavelmente fazem parte do que é possível se conhecer a partir de apenas uma ciência”.

Neste sentido, a busca pelo diálogo não deve partir apenas da arqueologia, mesmo que esta seja uma ciência multidisciplinar por natureza. Geneticistas estão finalmente buscando dialogar com os arqueólogos. Afinal, mesmo que dados obtidos por diferentes linhas de evidência sejam discordantes, não se pode tomar apenas uma delas como verdade absoluta. É preciso montar todas as peças do quebra-peça para entender a história de nossos ancestrais. Ou seja, é preciso que todas as linhas de evidência sejam consideradas na discussão da ocupação pré-colonial das Américas. A evidência genética é apenas mais uma das muitas estudadas pelos especialistas no tema e não deve ser vista como algo que reescreve a história profunda das Américas, mas algo que deve ser somado às outras evidências produzidas por pesquisadores há mais de um século.


NOTAS
Anzick-1 se refere a uma craniana de uma criança encontrada em um sítio com artefatos típicos da cultura Clovis, em Montana, EUA. No entanto, dentre os problemas em associar este indivíduo com a Cultura Clovis então o fato dos achados não serem provenientes de uma escavação arqueológica (sem registro da localização exata dos artefatos e dos restos humanos) e sua cronologia, já que apesar da recentemente tentativa de datar a calota craniana e os artefatos feitos em chifres de veado resultaram em apenas uma das amostras obterem datas contemporâneas, enquanto outras 3 amostras apontaram idades mil anos mais recentes. Três das quatro amostras obtidas do crânio resultaram em idades entre 12 mil e 11,2 mil anos. A quarta amostra resultou em uma data entre 12,9 e 12,7 mil anos. Neste sentido, parece haver um problema na quarta amostra. Todas as amostras de artefatos Clovis datam entre 13,1 e 12,7 mil anos.

O sítio arqueológico Monte Verde tem datas que ultrapassam 18 mil anos, e com pesquisas em andamento que podem evidenciar ocupações muito mais antigas de até 33 mil anos.


SOBRE O AUTOR DA MATÉRIA:
J. C. Moreno de Sousa é arqueólogo, especialista em tecnologia de pedras lascadas e no estudo da ocupação inicial das Américas, pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Foi criador da rede de divulgação científica Arqueologia e Pré-História, da qual participa atualmente como colaborador.




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