Viajar pela jornada humana amadurece a nossa consciência, evidenciando-nos como a evolução em grupo da civilização deixou lições que unem todas as características aqui apresentadas, oferecendo-nos lições. Esta evolução ordenou a formação e a convivência dentro de um bando global tão grande quanto foi possível de ser viabilizado, e nos mostra o que é a essência da construção de relacionamentos humanos.
Nossa história neste planeta nos ensina que poderes precisam vir acompanhados de compromissos com deveres que protejam a coletividade de abusos praticados por eventuais detentores do poder, uma vez que o interesse final pelo qual se deve zelar precisa ser sempre o coletivo, que é o que nos proporciona evolução. Os alicerces têm que estar sustentados sob responsabilidade e respeito mútuo, atendendo a princípios de legalidade, com uma atuação de forma a se zelar pela moralidade ética de compromisso com o todo, da forma a mais honesta possível, e seguindo um dever de eficiência e qualidade, com transparência e compromisso com os interesses comuns da totalidade.
Ao longo da história, a humanidade construiu, gradativamente, uma coletividade racional e justa. Mutável, em constante transformação, mas sob determinados pilares de ideais e valores sustentados pelo conhecimento humano que foi sendo acumulado. Sem uma ideologia lógica, qualquer transformação ou revolução deixa de ser verdadeira e permanente, restringindo-se a atos de força isolados que se esvairão com o vento. Como bem afirmou certa vez a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt: "embora a violência seja capaz de destruir o poder, jamais poderá substituí-lo". As mudanças que se mantem e se frutificam, resistindo ao teste do tempo, não são construídas pela força, mas pela harmonização racionalizada do coletivo humano. Serve para o todo, serve individualmente para você. O poder das ideias é e será sempre testado, e assim deve ser, se vencer tais enfrentamentos, garantirá espaço entre a crença vigente da civilização, ao menos até quando voltem a ser testados novamente.
As sementes desta consciência global coletiva amadureceram de forma mais enfática mundialmente após as traumáticas destruições impostas pelas Guerras Mundiais da primeira metade do Século XX. Longe ainda de um consenso pleno, sob uma forma altamente heterogênea, e ainda sob muitas ameaças conflitivas, mas sob as primeiras diretrizes participativas de uma ampla maioria de povos na construção de uma coordenação e uma gestão em esforço comum de toda a humanidade, pela primeira vez a nível verdadeiramente planetário.
O viés de crescimento acelerado era uma força intensa que parecia imparável! Se por um lado nunca num século havia morrido tantas pessoas pela violência das guerras, por outro a principal característica do Século XX foi a consolidação de aceleração do crescimento populacional do planeta, num ritmo que adentrou pelo Século XXI: quando Júlio César foi designado Imperador de Roma, em 47 a.C., estima-se que a população mundial era de 250 milhões; foi somente em 1.837 que a população global teria superado a 1 bilhão de pessoas; em 1.927 ultrapassou os 2 bilhões, em 1.959 passou de 3 bilhões, em 1.974 de 4 bilhões, em 1.987 de 5 bilhões, em 2.000 superou 6 bilhões, em 2.010 passou a marca de 7 bilhões, e em 2.022 já eram mais de 8 bilhões de pessoas vivendo no Planeta Terra! É um crescimento exponencial impressionante!
Tempos nos quais a raça humana viveu uma explosão de densidade populacional como nunca vista em toda a sua história! Foi o avanço da tecnologia o que viabilizou que o Planeta Terra pudesse sustentar mais seres humanos, com a abertura de vastos territórios com uso de novos meios para mover pessoas e coisas, usando novas maneiras de aumentar a produtividade de uso do solo e assim cultivar mais alimentos, e usando a ciência para prover soluções de saúde. O crescimento populacional, em contraposição, podia ser domado de uma maneira economicamente cada vez mais barata e fácil através das escolhas das pessoas por mais qualidade de vida, sem que elas tivessem que restringir seus apetites naturais. Ainda assim, cresceu-se a um ritmo nunca antes visto.
Esta explosão de crescimento da população foi fator de intensificação de transformações. Quando os mais jovens são muito mais numerosos do que os mais velhos, é normal que as convenções sejam cada vez mais questionadas, contestadas e, em alguns casos, subvertidas. Por isto, uma das marcas do Século XX também foi a existência de intensas Revoluções Culturais, causadas por esta explosão demográfica jamais antes experimentada na história humana, e que remexeram muitas das convenções construídas nos séculos anteriores. Era necessário um grande fluxo de transformações para conciliar tantas diferenças, e elas se manifestaram das mais diferentes formas, num laboratório coletivo por busca de soluções conciliatórias, sobretudo porque a consciência coletiva havia amadurecido a níveis nunca antes testados.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo presenciou o fim definitivo das amarras políticas do Colonialismo Europeu. Em meio a tal processo, um líder em especial se destacou pela ideologia que empregou na luta para libertar as amarras políticas de seu país: como anteriormente já narrado, Mahatma Gandhi aplicou a ideologia de não-violência para dar fim às amarras políticas da Índia em relação à Inglaterra. Filho de uma família de comerciantes em Bombaim, estudou advocacia em Londres e exerceu o ofício na África do Sul, até regressar a seu país para se engajar na luta de libertação nacional, pregando a resistência não violenta e a libertação espiritual em relação a bens materiais. Foi assim que em 1.947 a Índia conseguiu a sua independência, ainda que não da forma como Gandhi desejou, como uma nação unida, pois conflitos religiosos sangrentos entre muçulmanos e hindus levaram à fragmentação da região, com o surgimento de duas novas nações islâmicas independentes, Paquistão e Bangladesh.
Após este legado libertador e de luta pacifista, a Índia voltou a ser novamente inovadora quando em 1.966 uma mulher foi eleita como primeira-ministra: Indira Gandhi. Filha de Jawaharlal Nehru, primeiro ‘primeiro-ministro’ eleito após a independência do país, carregava o sobrenome Gandhi por casualidade, tendo o adquirido após se casar com Feroze Gandhi, que não tinha qualquer parentesco com Mahatma Gandhi. Ela hindu e ele parsi, eles formaram a união de duas seitas que na cultura local não tinham o hábito de permitir casamentos fora de seus respectivos grupos. Líder carismática, Indira se manteve 15 anos como primeira-ministra. Em 1.984, ela acabou sucumbida pela violência, assassinada por seus próprios guarda-costas, da seita sikh. Apesar da tragédia, a abertura política de acesso do gênero feminino ao poder apresentava-se de forma definitiva como um fato irreversível a nível mundial.
Outro marco importante de ruptura, este ligado às segregações por razões raciais, deu-se na África do Sul, que era a economia mais próspera do continente africano, controlada por uma minoria de pele branca herdada do colonialismo inglês, que a partir de 1.948 impôs um regime segregacionista sustentado por ideais preconceituosas de "supremacia da raça branca". No regime batizado como Apartheid era proibido o casamento interracial, pessoas de raça negra não podiam frequentar universidades, usar os mesmos transportes públicos ou frequentar os mesmos ambientes. A luta pelo fim deste regime acabou levando a conflitos armados. O líder desta insurreição foi Nélson Mandela, que por causa dela acabou preso em 1.964. Um processo parecido ocorreu nos Estados Unidos, onde uma forma similar da mesma ideologia segregava o convívio social de brancos e pretos, onde quem liderou a insurreição em favor dos direitos civis foi Martin Luther King, que acabou assassinado em 1.968 em Memphis. Ambos semearam uma luta contra o racismo e em favor de direitos civis igualitários. Mandela saiu da prisão, e em 1.994 se tornou o presidente da África do Sul. Tal feito representou um símbolo de amadurecimento do entendimento coletivo de que a segregação e o preconceito não podiam mais ser aceitos.
Foi um século repleto de amadurecimento de conceitos sociais e políticos. No início do Século XX, juntos, o Império Britânico (o qual incluía a Índia) e a China, tinham, cada um, 400 milhões de habitantes, abrigando, em conjunto, a metade da população mundial. Em extensão territorial, o Império Russo havia crescido muito rápido, estendendo-se desde o Mar Báltico, na Europa, até o Oceano Pacífico, no extremo oriente da Ásia. Em tamanho geográfico, somente o Império Britânico o excedia. Tal abrangência e rapidez de crescimento deram a muitos a sensação de que o século que se iniciava seria dominado pela Rússia. Porém, no Século XXI o personagem principal que atuou como verdadeiro transformador das relações econômicas e de poder foi outro. Para entender a mudança de dinâmica vivida, em especial a partir do ano 2.001, nossa atenção e nosso foco são forçados a se voltar para a China.
O país sempre foi quase um subcontinente dentro do continente asiático. A partir de 1.935 havia emergido a liderança de um jovem camponês de nome Mao Tsé-Tung no Partido Comunista Chinês. Quando o Japão invadiu a China, em 1.937, nacionalistas e comunistas uniram forças e lutaram juntos contra o inimigo estrangeiro. Os japoneses tomaram a metade leste do país, com os comunistas conseguindo impor uma resistência no extremo oeste. Foi em meio a esta resistência que cresceu a liderança de Mao Tsé-Tung. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram forçados a se retirar, e nacionalistas e comunistas chineses iniciaram uma guerra civil pelo controle do país. Em outubro de 1.949, o exército de Mao Tsé-Tung venceu esta guerra civil, passando a controlar a quase totalidade da China, com as forças do general Chiang Kai-Shek, líder nacionalista e capitalista, ficando acuadas na região onde instituíram uma república própria, a ilha de Taiwan.
Durante o "Grande Salto para Frente" na China comunista, Mao Tsé Tung conseguiu avanços, reduzindo significativamente a incidência de doenças infecciosas e do analfabetismo. Por outro lado, viveu um grande colapso econômico agrícola muito parecido ao vivido na União Soviética, o qual causou a morte pela fome, entre 1.958 e 1.961, de entre 30 e 50 milhões de chineses, sem que haja uma estatística precisando exatamente quantos foram.
Mao Tsé Tung já havia morrido (morreu em 1.976, aos 82 anos) quando o colapso da União Soviética durante os Anos 1.980 forçou o país a precisar fazer severos ajustes em seu modelo econômico. Politicamente continuou sendo uma autocracia, sob um regime autoritário, e cheio de particularidades restritivas para gerir aquela que era a maior população de uma nação no mundo. Além de suas fronteiras, a China se integrou à economia capitalista global somente em 2.001, quando ingressou na Organização Mundial do Comércio, abrindo a sua economia para as relações econômicas com o exterior e impondo uma nova ordem global, uma vez que ingressava com um mercado de 1,3 bilhão de pessoas em seu território e com trabalhadores com um nível salarial enormemente inferior aos dos demais países, o que por conseguinte lhe permitia custos de produção muito inferiores e uma maior competitividade via preço em escala global. O mundo viveu então, entre 2.001 e 2.008, uma explosão de liquidez econômica como vista em poucos momentos de sua história.
Antes de voltarmos a tal ponto, cabe abrir um parêntesis para demonstrar quais foram as ferramentas tentadas para a construção de uma coordenação e uma gestão de esforços por um convívio harmônico entre nações após as destruições colossais impostas pela Segunda Guerra Mundial. Após o fim dos conflitos, deu-se fim à fracassada Liga das Nações, que havia sido instituída após a Primeira Guerra Mundial, e foi fundada a Organização da Nações Unidas (ONU), numa nova tentativa para mediar as articulações políticas globais. Em paralelo, militarmente foram formados dois grupos de cooperação: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), altamente dependente militarmente dos Estados Unidos, e o Pacto de Varsóvia, articulado pela União Soviética como cooperação de defesa do Bloco Comunista.
Após os estouros das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão, os indícios apontam que as armas nucleares contribuíram mais em favor de haver paz do que de haver guerra. Mas basta um louco ou um líder excessivamente confiante para subverter estes indícios. A Era Nuclear ofereceu uma instável mistura de perigo e segurança, sendo tão enganoso ignorar os sinais de segurança quanto esquecer o perigo.
As nações, conjuntamente, chegaram à conclusão de que as perdas seriam muito superiores aos ganhos num conflito generalizado de larga escala. Assim, pode-se concluir que a paz não depende de negociações, mas de uma previsão de quais são os custos e os benefícios do conflito, passando pela avaliação da capacidade do inimigo e da conclusão sobre as vantagens e desvantagens do emprego da força militar para a redistribuição de poder. Era preciso então, mais do que tudo, reforçar os esforços para a construção de uma paz duradoura.
Após o fim da Segunda Guerra, com as rendições e os acordos de paz assinados, houve uma união internacional em busca de um reordenamento mundial. A proposta de construção desta nova ordem foi elaborada durante a Conferência de Bretton Woods, realizada nos Estados Unidos, na qual foram criadas duas instituições vinculadas à ONU, o Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O primeiro visando prover desenvolvimento econômico através de empréstimos de longo prazo a taxas de juros facilitadas, com o objetivo de acabar com a pobreza, melhorar a distribuição de renda e reduzir as desigualdades econômicas. O segundo visando prover uma cooperação monetária global em favor de uma estabilização financeira e monetária capaz de diminuir as oscilações cambiais e, assim, prover uma estabilidade capaz de viabilizar um maior crescimento econômico e uma maior geração de empregos.
Complementarmente, o terceiro tripé deste plano de desenvolvimento global visava reduzir as barreiras tarifárias e ampliar o comércio internacional, e para isto foi buscada a criação de uma Organização Internacional de Comércio (OIC). Após diversas rodadas de negociação entre 1.946 e 1.948, ficou claro que não havia consenso suficiente para ampliar a liberalização das trocas comerciais internacionais, e o plano de criação da OIC acabou abortado. Porém, de tais rodadas emergiu o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), o qual regulou as relações de comércio internacional durante quatro décadas, até 1.994, quando enfim se chegou a um consenso para a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC).
Durante todo este esforço de ampliação da cooperação internacional, intensificaram-se as relações de integração econômica, com nações assinando acordos de formação de Áreas de Livre Comércio (nas quais são eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias entre os países membros) e de Uniões Aduaneiras (nas quais além de serem eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias, também é adotada uma tarifa externa comum entre países membros). Esta conjuntura acabou evoluindo para que fosse criado na Europa primeiro um Mercado Comum (no qual há livre circulação de fatores de produção e de produtos entre os países membros, não havendo barreiras à circulação de bens, serviços, pessoas e capitais) e posteriormente, já nos Anos 1.990, com a evolução do modelo para a adoção de uma União Econômica (na qual há uma completa eliminação de barreiras comerciais e uma coordenação de políticas econômicas fiscal e monetária válidas a todos os membros, com regras comuns de coordenação das políticas orçamentárias e controles das políticas econômicas). Foi assim que foi formada a União Europeia, algo que era impensável no contexto de divergências que predominou na primeira metade do Século XX.
Nos Anos 1.960 tinha havido um primeiro movimento, com a formação de um mercado comum de comércio entre França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Em 1.973, Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca juntaram-se ao grupo. Nos Anos 1.980, mais três países aderiram - Espanha, Portugal e Grécia - e o grupo passou a ser chamado de "Comunidade Econômica Europeia", um bloco de comércio que passou a ter tanto uma população quanto um mercado interno que eram superiores aos dos Estados Unidos. Nos Anos 1.990 a comunidade econômica amadureceu e houve a consolidação do projeto de formação da União Europeia, com a adoção do euro como moeda única da região, num processo de integração como nunca antes visto pela humanidade.
O esforço para superar divergências e construir uma paz internacional duradoura também usou a prática esportiva na busca de uma competição saudável e do zelo por respeito mútuo entre os povos. Este esforço foi buscar inspiração na Grécia Antiga, onde tinham sido disputados pela primeira vez os Jogos Olímpicos. Curiosamente, este foi um esforço anterior até mesmo à Primeira Guerra Mundial, tendo a primeira edição na era moderna sido disputada em 1.896 justamente em Atenas, na Grécia. Decidiu-se pela realização das edições de quatro em quatro anos. Antes da Primeira Guerra Mundial houve cinco Olimpíadas, quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. No período “Entre Guerras” houve outras cinco edições, outra vez tendo sido quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial a utilização dos Jogos Olímpicos como ferramenta diplomática de construção e estímulo a relações de paz foi intensificada. Após quatro edições consecutivas na Europa no pós-guerra, em 1.964 as Olimpíadas foram disputadas pela primeira vez na Ásia, em Tóquio, no Japão, tendo depois, em 1.968, sido pela primeira vez na América Latina, jogadas na Cidade do México. O evento tornou-se uma celebração global de fraternidade entre os povos.
Houve um propósito por trás da escolha de tal meio. Os filósofos estoicos, na Grécia Antiga, afirmavam que todos os seres humanos tinham razão e capacidade de boa vontade, qualidades que nos distinguiam de todas as outras criaturas vivas, e por isso deviam ser tratados com igualdade. Levou mais ou menos 2.500 anos para que este conceito e o seu entendimento se generalizassem na raça humana, ao menos em linhas gerais. O esforço para a construção de relações de respeito mútuo entre os povos, através do qual se buscava uma estabilidade nas relações suficientes para esfriar o potencial autodestruidor desenvolvido pela humanidade, estava sustentado em se implementar direitos fundamentais para autorregular o sistema internacional. Seus princípios visavam primeiro uma liberdade individual para que cada ser humano potencializasse suas habilidades próprias, sob direitos iguais de todos perante as leis de ordenamento coletivo, independentemente das origens de cada um.
Sobre tais pilares foram construídas leis de direitos individuais, direitos civis e direitos políticos, construindo-se princípios de cooperação, sustentados num reconhecimento das diferenças econômicas por privação de acesso às capacidades básicas. Esta realidade impunha a necessidade de ações para garantir condições mínimas para que todos pudessem desenvolver as suas capacidades, por isto foram elaboradas políticas visando focar em agir sobre os desiguais conforme as suas desigualdades, provendo-lhes acesso a alimentação, educação, saúde e lazer como meios provedores das condições básicas mínimas para o desenvolvimento humano. Desenharam-se ações visando fortalecer as relações entre direitos sociais e econômicos favoráveis ao fortalecimento das relações coletivas, incentivando a solidariedade e a fraternidade como direitos difusos, transcendentes até sobre as esferas da cidadania e das individualidades, de forma a se zelar por uma humanização de direitos não individual mas sim coletiva, incluindo nas leis a temas nas esferas de equilíbrios ambientais e de zelo pelo patrimônio histórico e cultural da humanidade.
Tais esforços propiciaram uma revolução em termos de massificação do conhecimento: os países com padrão econômico de vida mais alto instituíram pela primeira vez na história uma frequência escolar obrigatória e uma erradicação do trabalho infantil. Os frutos de tal decisão foram se espalhando ao longo do século para as regiões economicamente mais frágeis, propiciando uma grande e lenta transformação de longo prazo.
A vida era precária, sobretudo fora do eixo de países mais desenvolvidos. A taxa de mortalidade de crianças e de pessoas de meia-idade era alta. As calamidades naturais eram frequentes. Havia períodos de fome severa, sobretudo na Ásia e na África. Pragas batiam constantemente às portas das cidades. Mais da metade das pessoas que viviam no planeta nunca tinham visitado a um médico em suas vidas.
Durante cerca de 200 mil anos a expectativa média de vida das pessoas no Planeta Terra foi inferior aos 30 anos. Com os avanços de padrão alimentar, saneamento, higiene e pelos avanços da medicina, a esperança de vida passou a subir já a partir do Século XIX, tendo em 1.900 alcançado aproximadamente 32 anos. À medida na qual a educação básica ficou mais disponível a todos, uma população educada tendia a viver mais, sendo mais capaz de compreender como cuidar melhor de si mesma e de seus filhos. Assim, ao fim do Século XX, a expectativa de vida média mais do que duplicou em relação a este patamar, passando a ser de 66,5 anos, na média de todos os habitantes da civilização humana.
O comércio e os investimentos internacionais se tornaram de suma importância, e por via deles a paz se tornou mais lucrativa do que a guerra. Nunca antes a paz havia sido tão lucrativa! Foram esforços, portanto, que obtiveram muitos resultados positivos na segunda metade do Século XX, mas que esbarraram em um entrave em especial: a diversidade de crenças religiosas.
O Século XXI se iniciou com isto sendo sinalizado mais uma vez na história humana através de ações de terrorismo, que sempre apareceram, continuam aparecendo, e provavelmente sempre aparecerão, quando um grupo de insatisfeitos com os rumos que estão sendo dados pela coletividade decide tentar implodir a toda a estrutura vigente. Em 11 de setembro de 2.001, uma frente radical da crença islâmica sequestrou e lançou aviões, com todos os passageiros dentro, contra as duas torres gêmeas que eram o símbolo de grandeza da cidade de Nova Iorque, principal artéria econômica daquele momento no Ocidente. Foi um sinal claro do quão desafiador e difícil é um processo de integração de bilhões de pessoas, lembrando como a amplitude da diversidade humana sempre foi complexa em tentativas de construção de consensos, neste caso manifestados por entraves impostos por diferenças de pensamento religioso.
As diversidades religiosas sempre foram fator de alta complexidade para a integração entre povos distintos. No início do Século XXI, o Budismo e o Cristianismo eram as religiões mundiais com maior número de adeptos. Ambas pregavam que a vida terrestre era imperfeita, e que a morte não era o fim da vida, havendo uma vida após a morte numa outra esfera espiritual infinitamente mais gratificante. A maior divergência a tais formas de pensamento estava manifestada no Islamismo, que após o seu surgimento e a sua expansão militar e territorial, fincou suas bases de crescimento e grandiosidade através do Império Otomano, que, com base a partir de Constantinopla, dominou boa parte da Ásia Menor, da Península Arábica, e um pedaço do norte da África e dos Bálcãs. Foi este império aquele que tinha se tornado o mais poderoso defensor do islamismo.
Ainda que dentro do Cristianismo não houvesse uma unidade, uma vez que as três grandes potências econômicas mundiais naquele momento - Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos - eram protestantes e não católicas, pode-se dizer que estas eram as três maiores e mais influentes crenças religiosas do planeta, e elas encaravam os padrões de relacionamento coletivo e social por óticas bastante divergentes quanto ao entendimento de relacionamento entre as relações mundanas e forças divinas superiores. A maior divergência, no entanto, como já falado, tinha raízes políticas e conflitivas perante o Judaísmo e a presença no estado de Israel no Oriente Médio. E tamanhas divergências de opinião só endossavam o quão distante se estava da possibilidade de qualquer consenso.
O Século XX foi o período de maiores transformações na história humana em termos de integração logística e de conexão de informações, fatores que evidenciaram ainda mais as diferenças. Dois avanços tecnológicos se destacarem neste processo: os aviões, que encurtaram distâncias e viabilizaram uma maior intensidade de contatos multiculturais, e os televisores, que permitiram as pessoas conhecerem qualquer lugar sem sair de suas casas, com imagens e informações fluindo em tempo real.
A aviação civil emergiu em junho de 1.939, quando a Pan American Airways inaugurou o primeiro voo comercial cruzando o Oceano Atlântico, através de um hidroavião de quatro motores com capacidade para 22 passageiros. A Segunda Guerra Mundial conteve a expansão dos voos civis, mas após o fim da guerra seu caminho de expansão voltou a ser crescente. Entretanto, naquela época ainda era bem mais barato cruzar os mares por navio do que por avião. As viagens aéreas começaram a ter preços mais populares nos Estados Unidos e na Europa somente a partir de 1.955, e nas demais regiões do planeta ao longo dos Anos 1.960. Com isso, as relações passavam a ser verdadeiramente globais já não mais para os representantes políticos e diplomáticos das nações, chegando também à sociedade civil.
Este desenrolar de acontecimentos mundiais foi acompanhado pela expansão da tecnologia que levou imagens a todas as partes do planeta: a televisão. Em 1.949, a quantidade de televisores nos Estados Unidos se restringia a 1 milhão de aparelhos. Em 1.959, este número saltou para 50 milhões, o que representava mais do que a soma total de aparelhos existentes em todos os demais países do mundo. Com a corrida espacial, a nova tecnologia de satélites de transmissão permitiu que as imagens fossem transmitidas muito mais rapidamente, até que logo pôde haver transmissões ao vivo. A partir disto, a novidade ganhou aceleração a nível global. O marco foi a transmissão da abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1.964, que, como já mencionado, foi a primeira Olimpíada a ter sido realizada fora do eixo Europa-Estados Unidos. Foi o alcance humano da órbita da Terra o que acelerou a massificação de acesso à informação.
O período de bipolaridade global batizado como "Guerra Fria" representou, além dos embates ideológicos, uma era dominada por muita propaganda. A principal se tornou a corrida de exploração espacial, que envolveu fortes investimentos de ambos os lados. Em 4 de outubro de 1.957, uma pequena nave russa não tripulada chamada "Sputnik I" completou em 95 minutos uma volta na órbita terrestre, com seus sons tendo sido capturados por radialistas amadores de todo o planeta. Em 3 de novembro de 1.957, o bem maior "Sputnik II" entrou em órbita levando uma cadela (que não resistiu com vida ao experimento). Em janeiro de 1.959, uma nave russa não tripulada se acercou à Lua, mas acabou se chocando com o solo durante a tentativa de aproximação. Em 12 de abril de 1.961 pela primeira vez uma nave tripulada entrou na órbita da Terra, a nave "Vostok I" levava o russo Yury Gagarin, de 27 anos (curiosamente, Gagarin morreria 7 anos depois num acidente de avião). Depois deste feito, os Estados Unidos aumentaram seus investimentos em pesquisa científica espacial, e durante os Anos 1.960 avançaram, culminando a terem sido os primeiros a terem colocado dois homens na superfície da Lua: após ser lançada em 16 de julho pelo foguete "Saturno V", em 20 de julho de 1.969 a missão "Apollo 11" foi bem-sucedida, com Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornando os dois primeiros seres humanos a colocar os pés numa estrutura rochosa fora do Planeta Terra, "um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade". A engenhosidade humana havia chegado à Lua, o satélite natural do planeta.
Com esta massificação de acesso à informação, a segunda metade do Século XX foi marcada por uma intensificação das divergências ideológicas quanto à forma mais eficiente de organização econômica das sociedades humanas, ainda que o rumo dos acontecimentos ao longo do século tenha inclinado tais debates claramente mais para um lado. Apesar das graves crises de abastecimento vividas de tempos em tempos, foi somente a partir dos Anos 1.970 que o comunismo começou a dar sinais de fragilidade na União Soviética. Os altos gastos militares e de propaganda começaram a gerar consequências negativas, agravadas pelas consequências da escalada inflacionária que a disparada do preço do petróleo gerou sobre a situação econômica.
Os membros do governo dispunham de mordomias que a quase totalidade da população não tinha acesso. Os cidadãos comuns viviam em apartamentos apertados e abarrotados, com pão e batata compondo a base de sua dieta, na qual até frutas e vegetais eram escassos. Passou a existir uma economia paralela nos subterrâneos da sociedade soviética, com produtos desviados a um mercado negro, considerado ilegal. Em muitos lugares de trabalho, o absentismo se tornou frequente. Não havia estímulo à produtividade: por que trabalhar mais para ao final receber o mesmo do que aqueles que tinham trabalhado pouco? O ideal socialista começava a dar sinais estruturais de caminhada à implosão. Embora a publicidade oficial afirmasse princípios de igualdade entre todos, a ampla maioria dos líderes não viviam sob tais preceitos. Não havia sentido em ressaltar a abnegação do indivíduo pelo bem de toda a comunidade quando os líderes políticos locais se davam luxos e o mercado negro tomava conta até de atividades cuja competência cabia ao Estado.
O colapso político e econômico da União Soviética chegou ao ápice com a eclosão do acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril de 1.986, no território na Ucrânia. A partir de 1.987, aumentaram as manifestações de descontentamento nos países comunistas do Leste Europeu, com manifestações nacionalistas que sinalizavam uma revolta com as condições econômicas e uma ânsia por liberdade de expressão. Como resposta, em 1.987 foi iniciada na União Soviética uma política de renovação para tentar reverter os problemas econômicos enfrentados. Foi o tiro de misericórdia no regime.
O símbolo definitivo de implosão do comunismo foi a destruição do "Muro de Berlim". Desde o fim da Segunda Guerra Mundial a Alemanha e a sua capital permaneciam divididas em duas: Berlim Ocidental, e sua maior pujança econômica, era cada vez mais o destino de alemães orientais após o fim da guerra, pessoas que buscavam uma melhor qualidade de vida e maiores liberdades individuais. O nível de imigrantes chegou a 10 mil por mês, com a Alemanha Oriental tendo perdido 10 milhões de habitantes em uma década. Seu parlamento aprovou então que fossem colocados guardas armados para impedir a migração. Na madrugada de 13 de agosto de 1.961, foi colocada uma larga proteção de arame farpado, que aos poucos foi sendo substituída por um muro de tijolos e concreto, com arames farpados na parte superior. Estava edificado o Muro de Berlim, que separou então fisicamente as duas Alemanhas.
Em 8 de novembro de 1.989 houve a primeira ruptura do Bloco Comunista: a Alemanha Oriental era o país do bloco com melhores condições econômicas, mas foi lá que nesta data o governo cedeu, anunciando que a população estava livre para deixar o país se assim desejasse. Na manhã seguinte, uma escavadeira começou a derrubar o Muro de Berlim, que fragmentava a cidade. Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1.990, as duas Alemanhas se reunificavam num único país. Em 1.989 a onda de mudança também passou pela China, mas por lá não prosperou, tendo havido uma forte repressão do governo, com um grande massacre de civis por forças militares após uma tentativa de rebelião ocorrida na Praça da Paz Celestial.
Mas a implosão do bloco era irreversível. Em 1.990 os três países bálticos da União Soviética - Lituânia, Letônia e Estônia - conseguiram suas independências e se separaram da União Soviética. No mesmo ano a Iugoslávia entrou em colapso, levando a uma guerra civil que a fragmentou em cinco diferentes países, de acordo às maiorias étnicas e religiosas de cada área: Sérvia e Montenegro (que por uma década ainda manteria o nome Iugoslávia, tendo então ainda vindo a se fragmentar em duas nações), Croácia, Bósnia, Eslovênia e Macedônia do Norte. Pouco depois foi a vez da Tchecoslováquia se fragmentar em duas: República Tcheca e Eslováquia. Em 1.991 foi a vez da União Soviética deixar de existir, com a Rússia vendo o território passar a ter nações independentes como Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia na parte europeia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão na parte fronteiriça ao Oriente Médio, e na parte asiática com as repúblicas de Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão.
O paradoxal é que se por um lado foi um século repleto de tantas agitações e rupturas, por outro ele foi marcado por esforços globais de integração e governança coletiva que nunca antes na história tinham sido tentados. Ainda que persistissem muitas diferenças e divergências, a integração e a conexão globais promovidas durante o Século XX forçaram uma busca de ordenamento nas relações capaz de gerar zelo pelo respeito mútuo e pela manutenção de paz. Foi um esforço coletivo, envolvendo a todas as nações.
Conseguiu-se um primeiro memorando de entendimento mínimo já a partir da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas a partir de dezembro de 1.948, a qual foi aprovada por 48 países. Naquela oportunidade apenas oito países se abstiveram de aprová-la: a África do Sul, cuja política interna vigente de segregação racial (apartheid) não se alinhava com tais regras, a Arábia Saudita por discordar do fato de que a carta defendia a liberdade religiosa e a igualdade entre os sexos, e o grupo formado por União Soviética, Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Iugoslávia e Tchecoslováquia, que não aceitava a determinação da liberdade de ir e vir entre fronteiras mencionada nos termos da declaração.
A ascensão dos direitos humanos foi uma obra lenta para derrubar abusos e arbitrariedades. Ela foi um produto do processo de formação e amadurecimento da civilização em favor do respeito à coletividade, fruto de um autoconhecimento coletivo que evoluiu com a história, representando a consciência humana de sua relação com tudo.
Qualquer discussão sensata sobre qualquer assunto depende de consenso sobre critérios, da forma de apresentação de argumentos, e dos limites até onde pode chegar uma discussão. Não somos todos iguais, temos diferenças individuais marcadas e marcantes entre nós, mas ninguém é melhor do que ninguém. Como o poeta inglês William Shakespeare colocou em sua obra: "se fossem misturados os nossos diversos sangues, seria impossível distingui-los pela cor, pelo peso ou pelo ardor. De que depende, pois, essa diferença que os separa? É pela qualidade que devemos classificas a tudo, não pelo título".
Sem bases morais não há determinação entre o certo e o errado, pois não há paradigma algum. A ausência de valores ameaça qualquer estabelecimento de um mundo civilizado, pois sem valores morais o autor de qualquer crime não dimensiona a gravidade do mais bárbaro dos atos, seja um assassinato, um estupro ou o que seja. A vida humana fica brutalizada e animalesca, como a de feras numa savana que caçam, matam, devoram suas presas a céu aberto e se recostam sob a sombra de uma árvore à espera de recuperar-se até poder realizar uma próxima caçada. É a mesma ausência de sentido que sente um psicopata que escolhe uma vítima aleatória para matar, executa, e depois vai comprar um sorvete ou uma pizza absolutamente sem qualquer capacidade de sentir algum remorso. A civilidade construída pelas sociedades humanas é aquilo que separa a nossa humanidade de nossa natureza animal. É o que faz com que ainda que tenhamos ambas as vertentes dentro de nós, consigamos dar-lhes convivência em nosso interior sem que nos autodestruamos. Não por acaso, tanto os déspotas quanto os psicopatas, o primeiro que buscam é destruir as bases morais civilizatórias vigentes para que assim possam satisfazer a seus desejos íntimos de tirania.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1.789, marco da Revolução Francesa, havia colocado logo em seu artigo 1º que "os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos, as diferenças sociais só podem ser fundamentadas no interesse comum", complementando primeiro em seu artigo 4º, que determinava que "a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outros, assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem tem como única baliza a que assegura aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos", e posteriormente no fim do artigo 6º, ao afirmar que "todos os cidadãos são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo a sua capacidade, e sem outra distinção além de suas virtudes e seus talentos (pessoais)". Estas foram as bases dos parâmetros sociais para a humanidade em seus esforços de construção de uma governança global coordenada.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos determinou em seu artigo 25º que "todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e a serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença de invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle; assim como a maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistências especiais".
Desde então o entendimento global veio amadurecendo e ampliando a consciência coletiva, buscando soluções economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente equilibradas. O fruto de décadas de trabalho conjunto da comunidade internacional foi a definição dos seguintes objetivos coletivos para o desenvolvimento mundial: acabar com a pobreza na humanidade, erradicar a fome, estreitar distâncias e reduzir as desigualdades econômicas entre os povos, promover condições sociais para a igualdade econômica entre gêneros no acesso aos meios de produção, gerar condições de emprego pleno e produtivo, e opções de trabalho decente a todos os seres humanos, prover saúde, bem-estar, educação de qualidade, e acesso a água e saneamento para todas as sociedades humanas, garantir uma produção de energia limpa, renovável e acessível, desenvolver uma infraestrutura resiliente em todas as economias por todo o planeta, zelar para que as cidades e centros urbanos sejam inclusivas e seguras, estimular opções de consumo sustentável, conservar os oceanos, assim como a todos os ecossistemas, estabilizar as mudanças climáticas provocadas pelos poluentes produzidos por ação humana, viabilizar parcerias globais, e zelar por paz e justiça em toda a Terra. Uma agenda ousada e complexa de ser implementada, só viável a partir de uma ampliação da consciência humana coletiva e da existência de um maior respeito entre diferenças ideológicas e diversidades culturais.
Qualquer processo de transformação só acontece por intermédio das pessoas, sendo a educação um de seus vetores mais relevantes. Para que algo se consubstancie na prática, é requerido que as pessoas entendam a dinâmica das mudanças, que sejam educados conforme uma realidade, para a partir disto haver o amadurecimento de uma consciência coletiva capaz de unificar os povos e prover níveis civilizados de resolução de conflitos a um nível suficiente para um convívio sob algum nível de paz.
Todas as intensas transformações vividas pela humanidade em meio a um ritmo exponencialmente crescente da população foram muito intensas, desde a economia que dá sustento ao tamanho desta população, passando pela velocidade dos avanços tecnológicos e de tratamento de dados, e pelo volume de informações que chegam a cada um de nós diariamente, tudo isto exige um amadurecimento de nossa consciência, tanto sobre nós mesmos e nosso papel em meio a este turbilhão de fatos, quanto em nossa relação com tudo o que nos cerca.
Por todos os lados o mundo vive novos paradigmas humanos, através de soluções que buscam beneficiar e integrar cada vez mais a sistemas inteiros. A abordagem centrada nos seres humanos já não bastava mais, e foi ampliada para uma centrada no Planeta Terra inteiro, considerando ecossistemas, coletividades e impactos de longo prazo que viabilizem a continuidade desta história na direção de novas e contínuas expansões. Só que é necessário a consciência de que sem as escolhas certas, coletivamente podemos entrar em períodos de retração e desconstrução, numa implosão humanitária coletiva que poderia vir a custar a maior quantidade de vidas humanas da história! Cada um de nós tem um papel individual a cumprir nesta história, porque a totalidade da civilização nada mais é do que a soma das individualidades do todo. A consciência coletiva é a soma dos fragmentos de consciência que existe dentro de cada um de nós.
Quando você para e reflete para embarcar numa viagem de entendimento de quem realmente você é, os pensamentos, sentimentos e impressões das experiências vividas se derramam em sua consciência. Quando você se concentra nestas imagens mentais, elas se tornam parte de uma estrutura complexa onde antes não havia nada. Você revisita fatos desde quando a sua memória conseguiu começar a processá-los, aos quais, quase que inconscientemente, você ainda se agarra. Você pegou todas estas suas lembranças e as arrumou de forma ordenada e disse que isso é o que você é. Mas você não é estes acontecimentos, você é aquele que os experimentou. Você não precisa se apegar às suas experiências para se construir como pessoa, este é apenas um conceito de si atrás do qual você se esconde. E o objetivo desta jornada aqui narrada era, ao final, mostrar isto a você.
O interior de nossa psique é um lugar muito complexo e sofisticado. É cheio de forças conflitantes em constante mudança devido a estímulos externos e internos. Isso resulta numa ampla variedade de necessidades, medos e desejos fluindo em períodos relativamente curtos de tempo. Por isso é comum não haver clareza suficiente e haver dificuldade para entender o que realmente acontece dentro de si. É muita coisa ao mesmo tempo, todas as relações de causa e efeito entre todos os diversos pensamentos, emoções e níveis de energia afetando estados de espírito, desejos, gostos e aversões, causando entusiasmos e letargias.
A partir do momento que a evolução coletiva da humanidade seguiu um caminho de supervalorização da construção da imagem individual, as pessoas ficaram mais preocupadas efetivamente com qual imagem aqueles com quem elas se importam construíram a respeito delas. Foi assim que nós passamos a ser bem recompensados por sermos bons em construir um modelo de forma absolutamente correta e se comportar com coerência, de forma que cada um pudesse "construir alguém". A reflexão correta a ser feita é: por que fazemos o que fazemos? É em cima disto que deve estar a sustentação da consciência humana.
É possível constantemente ajustar seus pensamentos através de autoconhecimento para construir a consciência de quem efetivamente somos. É disto que precisamos: construir as nossas conexões em torno do que efetivamente somos, e não da imagem que o todo espera que seja construída. Para isto, só precisamos entender como queremos construir a nossa relação individual com o todo, partindo do entendimento de como o todo se relaciona conosco em termos de nosso universo, nossa natureza, nossa humanidade, nossa terra, nossa crença, nosso conhecimento, nossa coragem, nossa maldade, nossos fracassos, nossas habilidades e nossos instintos competitivos, tudo aquilo que envolve o que nos faz humanos. Quando passamos a nos tornar verdadeiramente mais espiritualizados, cada um de nós passa a ser muito diferente de todo mundo. Aquilo que todos querem, você não quer. Porque agora você construiu efetivamente a consciência do que verdadeiramente você quer, do que te diferencia de tudo.
Todas as vezes que fazemos uma escolha em nossas vidas, sobretudo naquelas mais complicadas, que fogem à rotina "piloto automático" do dia a dia, temos que nos perguntar: qual caminho me fará mais feliz? Esta é a questão principal! Mas a reflexão não pode parar nesta pergunta. É preciso se fazer uma segunda pergunta também: quais os riscos esta escolha me traz? O que este caminho pode me trazer de perda se eu o percorrer? Eu estou disposto a assumir o risco de perder aquilo que um outro caminho tirará de mim? Em qualquer escolha, ganha-se algo, mas também se perde algo. As respostas serão tanto racionais quanto emocionais. Há que equilibrá-las para encontrar o que que você realmente quer.
É preciso ponderar entre o que se ganhará e o que se perderá. Nenhuma escolha traz para a vida só ganhos ou só perdas, todas, absolutamente todas, trazem ganhos e perdas ao mesmo tempo. Sabendo qual caminho parece ser o que te trará mais felicidade e sabendo quais perdas você está colocando no tabuleiro de decisões da sua vida, a reflexão final é: o que este caminho me trará de verdadeiramente significativo? Sabendo quais são as opções do que há para se ganhar e para se perder, você está pronto para decidir.
Simplificando assim, pode parecer fácil, mas não é. A vida nos mostra que a sua complexidade se esconde por trás das coisas simples. Ter consciência muitas vezes é mais complicado do que à primeira vista pode parecer. O lugar aonde isto mais se manifesta, só como um exemplo, é no amor. É onde o supersimples e o extremamente complexo se tocam.
Vejamos um caso hipotético: um ser humano desejava plenamente o amor, e estava convicto que o segredo da vida seria desfrutar todos os amores que a vida lhe iria trazer. Convicto, sempre se atirou sobre as oportunidades pelas quais se sentiu atraído. Casou-se dez vezes. Teve um filho em cada casamento. Todas as vezes que se casou novamente, deixou para trás uma criança pequena nos braços do cônjuge, convicto de que só assim poderia se dedicar de corpo e alma, o mais intensamente possível, ao novo amor. Ao fim da vida olhou para trás e viu sua trajetória. Viveu com seus dez cônjuges o máximo de amor que a vida lhe proporcionou individualmente. Entretanto, encontrou nos rastros de seu caminho a dez filhos lamuriosos e tristes porque nunca tiveram uma das duas pontas de criação e estabilidade emocional em suas vidas. Só então entendeu que não havia vivido todos os amores que a vida lhe havia trazido como pensava haver vivido. Não viveu plenamente em estado de consciência. Faltou-lhe um pequeno pedaço na pergunta que se fez antes de tomar suas decisões: o que realmente me faz feliz? Na ampla maioria das vezes, é um simples "realmente" o que esconde muita complexidade por trás das escolhas mais importantes e simples a serem feitas.
É necessário sempre estar consciente de que mesmo com todas estas ponderações, ainda existirá o risco de se tomar decisões erradas. Mas estando consciente de que nada é definitivo e que tudo pode ser transformado, desde que haja responsabilidade e respeito pelos próximos, se você estiver com seu coração aberto para a mudança, seu único guia é e sempre será a sua consciência. E não há forma igual e replicável para todos, porque cada indivíduo é único. A resposta que existe para você, existe somente para você! Seu papel na vida é encontrá-la!