terça-feira, 10 de março de 2026

Como se estabeleceram os esforços de construção de uma governança e uma gestão globais, numa busca de conciliação das diversidades de todos os povos

Viajar pela jornada humana amadurece a nossa consciência, evidenciando-nos como a evolução em grupo da civilização deixou lições que unem todas as características aqui apresentadas, oferecendo-nos lições. Esta evolução ordenou a formação e a convivência dentro de um bando global tão grande quanto foi possível de ser viabilizado, e nos mostra o que é a essência da construção de relacionamentos humanos.

Nossa história neste planeta nos ensina que poderes precisam vir acompanhados de compromissos com deveres que protejam a coletividade de abusos praticados por eventuais detentores do poder, uma vez que o interesse final pelo qual se deve zelar precisa ser sempre o coletivo, que é o que nos proporciona evolução. Os alicerces têm que estar sustentados sob responsabilidade e respeito mútuo, atendendo a princípios de legalidade, com uma atuação de forma a se zelar pela moralidade ética de compromisso com o todo, da forma a mais honesta possível, e seguindo um dever de eficiência e qualidade, com transparência e compromisso com os interesses comuns da totalidade.

Ao longo da história, a humanidade construiu, gradativamente, uma coletividade racional e justa. Mutável, em constante transformação, mas sob determinados pilares de ideais e valores sustentados pelo conhecimento humano que foi sendo acumulado. Sem uma ideologia lógica, qualquer transformação ou revolução deixa de ser verdadeira e permanente, restringindo-se a atos de força isolados que se esvairão com o vento. Como bem afirmou certa vez a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt: "embora a violência seja capaz de destruir o poder, jamais poderá substituí-lo". As mudanças que se mantem e se frutificam, resistindo ao teste do tempo, não são construídas pela força, mas pela harmonização racionalizada do coletivo humano. Serve para o todo, serve individualmente para você. O poder das ideias é e será sempre testado, e assim deve ser, se vencer tais enfrentamentos, garantirá espaço entre a crença vigente da civilização, ao menos até quando voltem a ser testados novamente.

As sementes desta consciência global coletiva amadureceram de forma mais enfática mundialmente após as traumáticas destruições impostas pelas Guerras Mundiais da primeira metade do Século XX. Longe ainda de um consenso pleno, sob uma forma altamente heterogênea, e ainda sob muitas ameaças conflitivas, mas sob as primeiras diretrizes participativas de uma ampla maioria de povos na construção de uma coordenação e uma gestão em esforço comum de toda a humanidade, pela primeira vez a nível verdadeiramente planetário.

O viés de crescimento acelerado era uma força intensa que parecia imparável! Se por um lado nunca num século havia morrido tantas pessoas pela violência das guerras, por outro a principal característica do Século XX foi a consolidação de aceleração do crescimento populacional do planeta, num ritmo que adentrou pelo Século XXI: quando Júlio César foi designado Imperador de Roma, em 47 a.C., estima-se que a população mundial era de 250 milhões; foi somente em 1.837 que a população global teria superado a 1 bilhão de pessoas; em 1.927 ultrapassou os 2 bilhões, em 1.959 passou de 3 bilhões, em 1.974 de 4 bilhões, em 1.987 de 5 bilhões, em 2.000 superou 6 bilhões, em 2.010 passou a marca de 7 bilhões, e em 2.022 já eram mais de 8 bilhões de pessoas vivendo no Planeta Terra! É um crescimento exponencial impressionante!

Tempos nos quais a raça humana viveu uma explosão de densidade populacional como nunca vista em toda a sua história! Foi o avanço da tecnologia o que viabilizou que o Planeta Terra pudesse sustentar mais seres humanos, com a abertura de vastos territórios com uso de novos meios para mover pessoas e coisas, usando novas maneiras de aumentar a produtividade de uso do solo e assim cultivar mais alimentos, e usando a ciência para prover soluções de saúde. O crescimento populacional, em contraposição, podia ser domado de uma maneira economicamente cada vez mais barata e fácil através das escolhas das pessoas por mais qualidade de vida, sem que elas tivessem que restringir seus apetites naturais. Ainda assim, cresceu-se a um ritmo nunca antes visto.

Esta explosão de crescimento da população foi fator de intensificação de transformações. Quando os mais jovens são muito mais numerosos do que os mais velhos, é normal que as convenções sejam cada vez mais questionadas, contestadas e, em alguns casos, subvertidas. Por isto, uma das marcas do Século XX também foi a existência de intensas Revoluções Culturais, causadas por esta explosão demográfica jamais antes experimentada na história humana, e que remexeram muitas das convenções construídas nos séculos anteriores. Era necessário um grande fluxo de transformações para conciliar tantas diferenças, e elas se manifestaram das mais diferentes formas, num laboratório coletivo por busca de soluções conciliatórias, sobretudo porque a consciência coletiva havia amadurecido a níveis nunca antes testados.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo presenciou o fim definitivo das amarras políticas do Colonialismo Europeu. Em meio a tal processo, um líder em especial se destacou pela ideologia que empregou na luta para libertar as amarras políticas de seu país: como anteriormente já narrado, Mahatma Gandhi aplicou a ideologia de não-violência para dar fim às amarras políticas da Índia em relação à Inglaterra. Filho de uma família de comerciantes em Bombaim, estudou advocacia em Londres e exerceu o ofício na África do Sul, até regressar a seu país para se engajar na luta de libertação nacional, pregando a resistência não violenta e a libertação espiritual em relação a bens materiais. Foi assim que em 1.947 a Índia conseguiu a sua independência, ainda que não da forma como Gandhi desejou, como uma nação unida, pois conflitos religiosos sangrentos entre muçulmanos e hindus levaram à fragmentação da região, com o surgimento de duas novas nações islâmicas independentes, Paquistão e Bangladesh.

Após este legado libertador e de luta pacifista, a Índia voltou a ser novamente inovadora quando em 1.966 uma mulher foi eleita como primeira-ministra: Indira Gandhi. Filha de Jawaharlal Nehru, primeiro ‘primeiro-ministro’ eleito após a independência do país, carregava o sobrenome Gandhi por casualidade, tendo o adquirido após se casar com Feroze Gandhi, que não tinha qualquer parentesco com Mahatma Gandhi. Ela hindu e ele parsi, eles formaram a união de duas seitas que na cultura local não tinham o hábito de permitir casamentos fora de seus respectivos grupos. Líder carismática, Indira se manteve 15 anos como primeira-ministra. Em 1.984, ela acabou sucumbida pela violência, assassinada por seus próprios guarda-costas, da seita sikh. Apesar da tragédia, a abertura política de acesso do gênero feminino ao poder apresentava-se de forma definitiva como um fato irreversível a nível mundial.

Outro marco importante de ruptura, este ligado às segregações por razões raciais, deu-se na África do Sul, que era a economia mais próspera do continente africano, controlada por uma minoria de pele branca herdada do colonialismo inglês, que a partir de 1.948 impôs um regime segregacionista sustentado por ideais preconceituosas de "supremacia da raça branca". No regime batizado como Apartheid era proibido o casamento interracial, pessoas de raça negra não podiam frequentar universidades, usar os mesmos transportes públicos ou frequentar os mesmos ambientes. A luta pelo fim deste regime acabou levando a conflitos armados. O líder desta insurreição foi Nélson Mandela, que por causa dela acabou preso em 1.964. Um processo parecido ocorreu nos Estados Unidos, onde uma forma similar da mesma ideologia segregava o convívio social de brancos e pretos, onde quem liderou a insurreição em favor dos direitos civis foi Martin Luther King, que acabou assassinado em 1.968 em Memphis. Ambos semearam uma luta contra o racismo e em favor de direitos civis igualitários. Mandela saiu da prisão, e em 1.994 se tornou o presidente da África do Sul. Tal feito representou um símbolo de amadurecimento do entendimento coletivo de que a segregação e o preconceito não podiam mais ser aceitos.

Foi um século repleto de amadurecimento de conceitos sociais e políticos. No início do Século XX, juntos, o Império Britânico (o qual incluía a Índia) e a China, tinham, cada um, 400 milhões de habitantes, abrigando, em conjunto, a metade da população mundial. Em extensão territorial, o Império Russo havia crescido muito rápido, estendendo-se desde o Mar Báltico, na Europa, até o Oceano Pacífico, no extremo oriente da Ásia. Em tamanho geográfico, somente o Império Britânico o excedia. Tal abrangência e rapidez de crescimento deram a muitos a sensação de que o século que se iniciava seria dominado pela Rússia. Porém, no Século XXI o personagem principal que atuou como verdadeiro transformador das relações econômicas e de poder foi outro. Para entender a mudança de dinâmica vivida, em especial a partir do ano 2.001, nossa atenção e nosso foco são forçados a se voltar para a China.

O país sempre foi quase um subcontinente dentro do continente asiático. A partir de 1.935 havia emergido a liderança de um jovem camponês de nome Mao Tsé-Tung no Partido Comunista Chinês. Quando o Japão invadiu a China, em 1.937, nacionalistas e comunistas uniram forças e lutaram juntos contra o inimigo estrangeiro. Os japoneses tomaram a metade leste do país, com os comunistas conseguindo impor uma resistência no extremo oeste. Foi em meio a esta resistência que cresceu a liderança de Mao Tsé-Tung. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram forçados a se retirar, e nacionalistas e comunistas chineses iniciaram uma guerra civil pelo controle do país. Em outubro de 1.949, o exército de Mao Tsé-Tung venceu esta guerra civil, passando a controlar a quase totalidade da China, com as forças do general Chiang Kai-Shek, líder nacionalista e capitalista, ficando acuadas na região onde instituíram uma república própria, a ilha de Taiwan.

Durante o "Grande Salto para Frente" na China comunista, Mao Tsé Tung conseguiu avanços, reduzindo significativamente a incidência de doenças infecciosas e do analfabetismo. Por outro lado, viveu um grande colapso econômico agrícola muito parecido ao vivido na União Soviética, o qual causou a morte pela fome, entre 1.958 e 1.961, de entre 30 e 50 milhões de chineses, sem que haja uma estatística precisando exatamente quantos foram.

Mao Tsé Tung já havia morrido (morreu em 1.976, aos 82 anos) quando o colapso da União Soviética durante os Anos 1.980 forçou o país a precisar fazer severos ajustes em seu modelo econômico. Politicamente continuou sendo uma autocracia, sob um regime autoritário, e cheio de particularidades restritivas para gerir aquela que era a maior população de uma nação no mundo. Além de suas fronteiras, a China se integrou à economia capitalista global somente em 2.001, quando ingressou na Organização Mundial do Comércio, abrindo a sua economia para as relações econômicas com o exterior e impondo uma nova ordem global, uma vez que ingressava com um mercado de 1,3 bilhão de pessoas em seu território e com trabalhadores com um nível salarial enormemente inferior aos dos demais países, o que por conseguinte lhe permitia custos de produção muito inferiores e uma maior competitividade via preço em escala global. O mundo viveu então, entre 2.001 e 2.008, uma explosão de liquidez econômica como vista em poucos momentos de sua história.

Antes de voltarmos a tal ponto, cabe abrir um parêntesis para demonstrar quais foram as ferramentas tentadas para a construção de uma coordenação e uma gestão de esforços por um convívio harmônico entre nações após as destruições colossais impostas pela Segunda Guerra Mundial. Após o fim dos conflitos, deu-se fim à fracassada Liga das Nações, que havia sido instituída após a Primeira Guerra Mundial, e foi fundada a Organização da Nações Unidas (ONU), numa nova tentativa para mediar as articulações políticas globais. Em paralelo, militarmente foram formados dois grupos de cooperação: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), altamente dependente militarmente dos Estados Unidos, e o Pacto de Varsóvia, articulado pela União Soviética como cooperação de defesa do Bloco Comunista.

Após os estouros das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão, os indícios apontam que as armas nucleares contribuíram mais em favor de haver paz do que de haver guerra. Mas basta um louco ou um líder excessivamente confiante para subverter estes indícios. A Era Nuclear ofereceu uma instável mistura de perigo e segurança, sendo tão enganoso ignorar os sinais de segurança quanto esquecer o perigo.

As nações, conjuntamente, chegaram à conclusão de que as perdas seriam muito superiores aos ganhos num conflito generalizado de larga escala. Assim, pode-se concluir que a paz não depende de negociações, mas de uma previsão de quais são os custos e os benefícios do conflito, passando pela avaliação da capacidade do inimigo e da conclusão sobre as vantagens e desvantagens do emprego da força militar para a redistribuição de poder. Era preciso então, mais do que tudo, reforçar os esforços para a construção de uma paz duradoura.

Após o fim da Segunda Guerra, com as rendições e os acordos de paz assinados, houve uma união internacional em busca de um reordenamento mundial. A proposta de construção desta nova ordem foi elaborada durante a Conferência de Bretton Woods, realizada nos Estados Unidos, na qual foram criadas duas instituições vinculadas à ONU, o Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O primeiro visando prover desenvolvimento econômico através de empréstimos de longo prazo a taxas de juros facilitadas, com o objetivo de acabar com a pobreza, melhorar a distribuição de renda e reduzir as desigualdades econômicas. O segundo visando prover uma cooperação monetária global em favor de uma estabilização financeira e monetária capaz de diminuir as oscilações cambiais e, assim, prover uma estabilidade capaz de viabilizar um maior crescimento econômico e uma maior geração de empregos.

Complementarmente, o terceiro tripé deste plano de desenvolvimento global visava reduzir as barreiras tarifárias e ampliar o comércio internacional, e para isto foi buscada a criação de uma Organização Internacional de Comércio (OIC). Após diversas rodadas de negociação entre 1.946 e 1.948, ficou claro que não havia consenso suficiente para ampliar a liberalização das trocas comerciais internacionais, e o plano de criação da OIC acabou abortado. Porém, de tais rodadas emergiu o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), o qual regulou as relações de comércio internacional durante quatro décadas, até 1.994, quando enfim se chegou a um consenso para a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC).

Durante todo este esforço de ampliação da cooperação internacional, intensificaram-se as relações de integração econômica, com nações assinando acordos de formação de Áreas de Livre Comércio (nas quais são eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias entre os países membros) e de Uniões Aduaneiras (nas quais além de serem eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias, também é adotada uma tarifa externa comum entre países membros). Esta conjuntura acabou evoluindo para que fosse criado na Europa primeiro um Mercado Comum (no qual há livre circulação de fatores de produção e de produtos entre os países membros, não havendo barreiras à circulação de bens, serviços, pessoas e capitais) e posteriormente, já nos Anos 1.990, com a evolução do modelo para a adoção de uma União Econômica (na qual há uma completa eliminação de barreiras comerciais e uma coordenação de políticas econômicas fiscal e monetária válidas a todos os membros, com regras comuns de coordenação das políticas orçamentárias e controles das políticas econômicas). Foi assim que foi formada a União Europeia, algo que era impensável no contexto de divergências que predominou na primeira metade do Século XX.

Nos Anos 1.960 tinha havido um primeiro movimento, com a formação de um mercado comum de comércio entre França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Em 1.973, Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca juntaram-se ao grupo. Nos Anos 1.980, mais três países aderiram - Espanha, Portugal e Grécia - e o grupo passou a ser chamado de "Comunidade Econômica Europeia", um bloco de comércio que passou a ter tanto uma população quanto um mercado interno que eram superiores aos dos Estados Unidos. Nos Anos 1.990 a comunidade econômica amadureceu e houve a consolidação do projeto de formação da União Europeia, com a adoção do euro como moeda única da região, num processo de integração como nunca antes visto pela humanidade.

O esforço para superar divergências e construir uma paz internacional duradoura também usou a prática esportiva na busca de uma competição saudável e do zelo por respeito mútuo entre os povos. Este esforço foi buscar inspiração na Grécia Antiga, onde tinham sido disputados pela primeira vez os Jogos Olímpicos. Curiosamente, este foi um esforço anterior até mesmo à Primeira Guerra Mundial, tendo a primeira edição na era moderna sido disputada em 1.896 justamente em Atenas, na Grécia. Decidiu-se pela realização das edições de quatro em quatro anos. Antes da Primeira Guerra Mundial houve cinco Olimpíadas, quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. No período “Entre Guerras” houve outras cinco edições, outra vez tendo sido quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial a utilização dos Jogos Olímpicos como ferramenta diplomática de construção e estímulo a relações de paz foi intensificada. Após quatro edições consecutivas na Europa no pós-guerra, em 1.964 as Olimpíadas foram disputadas pela primeira vez na Ásia, em Tóquio, no Japão, tendo depois, em 1.968, sido pela primeira vez na América Latina, jogadas na Cidade do México. O evento tornou-se uma celebração global de fraternidade entre os povos.

Houve um propósito por trás da escolha de tal meio. Os filósofos estoicos, na Grécia Antiga, afirmavam que todos os seres humanos tinham razão e capacidade de boa vontade, qualidades que nos distinguiam de todas as outras criaturas vivas, e por isso deviam ser tratados com igualdade. Levou mais ou menos 2.500 anos para que este conceito e o seu entendimento se generalizassem na raça humana, ao menos em linhas gerais. O esforço para a construção de relações de respeito mútuo entre os povos, através do qual se buscava uma estabilidade nas relações suficientes para esfriar o potencial autodestruidor desenvolvido pela humanidade, estava sustentado em se implementar direitos fundamentais para autorregular o sistema internacional. Seus princípios visavam primeiro uma liberdade individual para que cada ser humano potencializasse suas habilidades próprias, sob direitos iguais de todos perante as leis de ordenamento coletivo, independentemente das origens de cada um.

Sobre tais pilares foram construídas leis de direitos individuais, direitos civis e direitos políticos, construindo-se princípios de cooperação, sustentados num reconhecimento das diferenças econômicas por privação de acesso às capacidades básicas. Esta realidade impunha a necessidade de ações para garantir condições mínimas para que todos pudessem desenvolver as suas capacidades, por isto foram elaboradas políticas visando focar em agir sobre os desiguais conforme as suas desigualdades, provendo-lhes acesso a alimentação, educação, saúde e lazer como meios provedores das condições básicas mínimas para o desenvolvimento humano. Desenharam-se ações visando fortalecer as relações entre direitos sociais e econômicos favoráveis ao fortalecimento das relações coletivas, incentivando a solidariedade e a fraternidade como direitos difusos, transcendentes até sobre as esferas da cidadania e das individualidades, de forma a se zelar por uma humanização de direitos não individual mas sim coletiva, incluindo nas leis a temas nas esferas de equilíbrios ambientais e de zelo pelo patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Tais esforços propiciaram uma revolução em termos de massificação do conhecimento: os países com padrão econômico de vida mais alto instituíram pela primeira vez na história uma frequência escolar obrigatória e uma erradicação do trabalho infantil. Os frutos de tal decisão foram se espalhando ao longo do século para as regiões economicamente mais frágeis, propiciando uma grande e lenta transformação de longo prazo.

A vida era precária, sobretudo fora do eixo de países mais desenvolvidos. A taxa de mortalidade de crianças e de pessoas de meia-idade era alta. As calamidades naturais eram frequentes. Havia períodos de fome severa, sobretudo na Ásia e na África. Pragas batiam constantemente às portas das cidades. Mais da metade das pessoas que viviam no planeta nunca tinham visitado a um médico em suas vidas.

Durante cerca de 200 mil anos a expectativa média de vida das pessoas no Planeta Terra foi inferior aos 30 anos. Com os avanços de padrão alimentar, saneamento, higiene e pelos avanços da medicina, a esperança de vida passou a subir já a partir do Século XIX, tendo em 1.900 alcançado aproximadamente 32 anos. À medida na qual a educação básica ficou mais disponível a todos, uma população educada tendia a viver mais, sendo mais capaz de compreender como cuidar melhor de si mesma e de seus filhos. Assim, ao fim do Século XX, a expectativa de vida média mais do que duplicou em relação a este patamar, passando a ser de 66,5 anos, na média de todos os habitantes da civilização humana.

O comércio e os investimentos internacionais se tornaram de suma importância, e por via deles a paz se tornou mais lucrativa do que a guerra. Nunca antes a paz havia sido tão lucrativa! Foram esforços, portanto, que obtiveram muitos resultados positivos na segunda metade do Século XX, mas que esbarraram em um entrave em especial: a diversidade de crenças religiosas.

O Século XXI se iniciou com isto sendo sinalizado mais uma vez na história humana através de ações de terrorismo, que sempre apareceram, continuam aparecendo, e provavelmente sempre aparecerão, quando um grupo de insatisfeitos com os rumos que estão sendo dados pela coletividade decide tentar implodir a toda a estrutura vigente. Em 11 de setembro de 2.001, uma frente radical da crença islâmica sequestrou e lançou aviões, com todos os passageiros dentro, contra as duas torres gêmeas que eram o símbolo de grandeza da cidade de Nova Iorque, principal artéria econômica daquele momento no Ocidente. Foi um sinal claro do quão desafiador e difícil é um processo de integração de bilhões de pessoas, lembrando como a amplitude da diversidade humana sempre foi complexa em tentativas de construção de consensos, neste caso manifestados por entraves impostos por diferenças de pensamento religioso.

As diversidades religiosas sempre foram fator de alta complexidade para a integração entre povos distintos. No início do Século XXI, o Budismo e o Cristianismo eram as religiões mundiais com maior número de adeptos. Ambas pregavam que a vida terrestre era imperfeita, e que a morte não era o fim da vida, havendo uma vida após a morte numa outra esfera espiritual infinitamente mais gratificante. A maior divergência a tais formas de pensamento estava manifestada no Islamismo, que após o seu surgimento e a sua expansão militar e territorial, fincou suas bases de crescimento e grandiosidade através do Império Otomano, que, com base a partir de Constantinopla, dominou boa parte da Ásia Menor, da Península Arábica, e um pedaço do norte da África e dos Bálcãs. Foi este império aquele que tinha se tornado o mais poderoso defensor do islamismo.

Ainda que dentro do Cristianismo não houvesse uma unidade, uma vez que as três grandes potências econômicas mundiais naquele momento - Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos - eram protestantes e não católicas, pode-se dizer que estas eram as três maiores e mais influentes crenças religiosas do planeta, e elas encaravam os padrões de relacionamento coletivo e social por óticas bastante divergentes quanto ao entendimento de relacionamento entre as relações mundanas e forças divinas superiores. A maior divergência, no entanto, como já falado, tinha raízes políticas e conflitivas perante o Judaísmo e a presença no estado de Israel no Oriente Médio. E tamanhas divergências de opinião só endossavam o quão distante se estava da possibilidade de qualquer consenso.

O Século XX foi o período de maiores transformações na história humana em termos de integração logística e de conexão de informações, fatores que evidenciaram ainda mais as diferenças. Dois avanços tecnológicos se destacarem neste processo: os aviões, que encurtaram distâncias e viabilizaram uma maior intensidade de contatos multiculturais, e os televisores, que permitiram as pessoas conhecerem qualquer lugar sem sair de suas casas, com imagens e informações fluindo em tempo real.

A aviação civil emergiu em junho de 1.939, quando a Pan American Airways inaugurou o primeiro voo comercial cruzando o Oceano Atlântico, através de um hidroavião de quatro motores com capacidade para 22 passageiros. A Segunda Guerra Mundial conteve a expansão dos voos civis, mas após o fim da guerra seu caminho de expansão voltou a ser crescente. Entretanto, naquela época ainda era bem mais barato cruzar os mares por navio do que por avião. As viagens aéreas começaram a ter preços mais populares nos Estados Unidos e na Europa somente a partir de 1.955, e nas demais regiões do planeta ao longo dos Anos 1.960. Com isso, as relações passavam a ser verdadeiramente globais já não mais para os representantes políticos e diplomáticos das nações, chegando também à sociedade civil.

Este desenrolar de acontecimentos mundiais foi acompanhado pela expansão da tecnologia que levou imagens a todas as partes do planeta: a televisão. Em 1.949, a quantidade de televisores nos Estados Unidos se restringia a 1 milhão de aparelhos. Em 1.959, este número saltou para 50 milhões, o que representava mais do que a soma total de aparelhos existentes em todos os demais países do mundo. Com a corrida espacial, a nova tecnologia de satélites de transmissão permitiu que as imagens fossem transmitidas muito mais rapidamente, até que logo pôde haver transmissões ao vivo. A partir disto, a novidade ganhou aceleração a nível global. O marco foi a transmissão da abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1.964, que, como já mencionado, foi a primeira Olimpíada a ter sido realizada fora do eixo Europa-Estados Unidos. Foi o alcance humano da órbita da Terra o que acelerou a massificação de acesso à informação.

O período de bipolaridade global batizado como "Guerra Fria" representou, além dos embates ideológicos, uma era dominada por muita propaganda. A principal se tornou a corrida de exploração espacial, que envolveu fortes investimentos de ambos os lados. Em 4 de outubro de 1.957, uma pequena nave russa não tripulada chamada "Sputnik I" completou em 95 minutos uma volta na órbita terrestre, com seus sons tendo sido capturados por radialistas amadores de todo o planeta. Em 3 de novembro de 1.957, o bem maior "Sputnik II" entrou em órbita levando uma cadela (que não resistiu com vida ao experimento). Em janeiro de 1.959, uma nave russa não tripulada se acercou à Lua, mas acabou se chocando com o solo durante a tentativa de aproximação. Em 12 de abril de 1.961 pela primeira vez uma nave tripulada entrou na órbita da Terra, a nave "Vostok I" levava o russo Yury Gagarin, de 27 anos (curiosamente, Gagarin morreria 7 anos depois num acidente de avião). Depois deste feito, os Estados Unidos aumentaram seus investimentos em pesquisa científica espacial, e durante os Anos 1.960 avançaram, culminando a terem sido os primeiros a terem colocado dois homens na superfície da Lua: após ser lançada em 16 de julho pelo foguete "Saturno V", em 20 de julho de 1.969 a missão "Apollo 11" foi bem-sucedida, com Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornando os dois primeiros seres humanos a colocar os pés numa estrutura rochosa fora do Planeta Terra, "um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade". A engenhosidade humana havia chegado à Lua, o satélite natural do planeta.

Com esta massificação de acesso à informação, a segunda metade do Século XX foi marcada por uma intensificação das divergências ideológicas quanto à forma mais eficiente de organização econômica das sociedades humanas, ainda que o rumo dos acontecimentos ao longo do século tenha inclinado tais debates claramente mais para um lado. Apesar das graves crises de abastecimento vividas de tempos em tempos, foi somente a partir dos Anos 1.970 que o comunismo começou a dar sinais de fragilidade na União Soviética. Os altos gastos militares e de propaganda começaram a gerar consequências negativas, agravadas pelas consequências da escalada inflacionária que a disparada do preço do petróleo gerou sobre a situação econômica.

Os membros do governo dispunham de mordomias que a quase totalidade da população não tinha acesso. Os cidadãos comuns viviam em apartamentos apertados e abarrotados, com pão e batata compondo a base de sua dieta, na qual até frutas e vegetais eram escassos. Passou a existir uma economia paralela nos subterrâneos da sociedade soviética, com produtos desviados a um mercado negro, considerado ilegal. Em muitos lugares de trabalho, o absentismo se tornou frequente. Não havia estímulo à produtividade: por que trabalhar mais para ao final receber o mesmo do que aqueles que tinham trabalhado pouco? O ideal socialista começava a dar sinais estruturais de caminhada à implosão. Embora a publicidade oficial afirmasse princípios de igualdade entre todos, a ampla maioria dos líderes não viviam sob tais preceitos. Não havia sentido em ressaltar a abnegação do indivíduo pelo bem de toda a comunidade quando os líderes políticos locais se davam luxos e o mercado negro tomava conta até de atividades cuja competência cabia ao Estado.

O colapso político e econômico da União Soviética chegou ao ápice com a eclosão do acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril de 1.986, no território na Ucrânia. A partir de 1.987, aumentaram as manifestações de descontentamento nos países comunistas do Leste Europeu, com manifestações nacionalistas que sinalizavam uma revolta com as condições econômicas e uma ânsia por liberdade de expressão. Como resposta, em 1.987 foi iniciada na União Soviética uma política de renovação para tentar reverter os problemas econômicos enfrentados. Foi o tiro de misericórdia no regime.

O símbolo definitivo de implosão do comunismo foi a destruição do "Muro de Berlim". Desde o fim da Segunda Guerra Mundial a Alemanha e a sua capital permaneciam divididas em duas: Berlim Ocidental, e sua maior pujança econômica, era cada vez mais o destino de alemães orientais após o fim da guerra, pessoas que buscavam uma melhor qualidade de vida e maiores liberdades individuais. O nível de imigrantes chegou a 10 mil por mês, com a Alemanha Oriental tendo perdido 10 milhões de habitantes em uma década. Seu parlamento aprovou então que fossem colocados guardas armados para impedir a migração. Na madrugada de 13 de agosto de 1.961, foi colocada uma larga proteção de arame farpado, que aos poucos foi sendo substituída por um muro de tijolos e concreto, com arames farpados na parte superior. Estava edificado o Muro de Berlim, que separou então fisicamente as duas Alemanhas.

Em 8 de novembro de 1.989 houve a primeira ruptura do Bloco Comunista: a Alemanha Oriental era o país do bloco com melhores condições econômicas, mas foi lá que nesta data o governo cedeu, anunciando que a população estava livre para deixar o país se assim desejasse. Na manhã seguinte, uma escavadeira começou a derrubar o Muro de Berlim, que fragmentava a cidade. Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1.990, as duas Alemanhas se reunificavam num único país. Em 1.989 a onda de mudança também passou pela China, mas por lá não prosperou, tendo havido uma forte repressão do governo, com um grande massacre de civis por forças militares após uma tentativa de rebelião ocorrida na Praça da Paz Celestial.

Mas a implosão do bloco era irreversível. Em 1.990 os três países bálticos da União Soviética - Lituânia, Letônia e Estônia - conseguiram suas independências e se separaram da União Soviética. No mesmo ano a Iugoslávia entrou em colapso, levando a uma guerra civil que a fragmentou em cinco diferentes países, de acordo às maiorias étnicas e religiosas de cada área: Sérvia e Montenegro (que por uma década ainda manteria o nome Iugoslávia, tendo então ainda vindo a se fragmentar em duas nações), Croácia, Bósnia, Eslovênia e Macedônia do Norte. Pouco depois foi a vez da Tchecoslováquia se fragmentar em duas: República Tcheca e Eslováquia. Em 1.991 foi a vez da União Soviética deixar de existir, com a Rússia vendo o território passar a ter nações independentes como Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia na parte europeia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão na parte fronteiriça ao Oriente Médio, e na parte asiática com as repúblicas de Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão.

O paradoxal é que se por um lado foi um século repleto de tantas agitações e rupturas, por outro ele foi marcado por esforços globais de integração e governança coletiva que nunca antes na história tinham sido tentados. Ainda que persistissem muitas diferenças e divergências, a integração e a conexão globais promovidas durante o Século XX forçaram uma busca de ordenamento nas relações capaz de gerar zelo pelo respeito mútuo e pela manutenção de paz. Foi um esforço coletivo, envolvendo a todas as nações.

Conseguiu-se um primeiro memorando de entendimento mínimo já a partir da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas a partir de dezembro de 1.948, a qual foi aprovada por 48 países. Naquela oportunidade apenas oito países se abstiveram de aprová-la: a África do Sul, cuja política interna vigente de segregação racial (apartheid) não se alinhava com tais regras, a Arábia Saudita por discordar do fato de que a carta defendia a liberdade religiosa e a igualdade entre os sexos, e o grupo formado por União Soviética, Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Iugoslávia e Tchecoslováquia, que não aceitava a determinação da liberdade de ir e vir entre fronteiras mencionada nos termos da declaração.

A ascensão dos direitos humanos foi uma obra lenta para derrubar abusos e arbitrariedades. Ela foi um produto do processo de formação e amadurecimento da civilização em favor do respeito à coletividade, fruto de um autoconhecimento coletivo que evoluiu com a história, representando a consciência humana de sua relação com tudo.

Qualquer discussão sensata sobre qualquer assunto depende de consenso sobre critérios, da forma de apresentação de argumentos, e dos limites até onde pode chegar uma discussão. Não somos todos iguais, temos diferenças individuais marcadas e marcantes entre nós, mas ninguém é melhor do que ninguém. Como o poeta inglês William Shakespeare colocou em sua obra: "se fossem misturados os nossos diversos sangues, seria impossível distingui-los pela cor, pelo peso ou pelo ardor. De que depende, pois, essa diferença que os separa? É pela qualidade que devemos classificas a tudo, não pelo título".

Sem bases morais não há determinação entre o certo e o errado, pois não há paradigma algum. A ausência de valores ameaça qualquer estabelecimento de um mundo civilizado, pois sem valores morais o autor de qualquer crime não dimensiona a gravidade do mais bárbaro dos atos, seja um assassinato, um estupro ou o que seja. A vida humana fica brutalizada e animalesca, como a de feras numa savana que caçam, matam, devoram suas presas a céu aberto e se recostam sob a sombra de uma árvore à espera de recuperar-se até poder realizar uma próxima caçada. É a mesma ausência de sentido que sente um psicopata que escolhe uma vítima aleatória para matar, executa, e depois vai comprar um sorvete ou uma pizza absolutamente sem qualquer capacidade de sentir algum remorso. A civilidade construída pelas sociedades humanas é aquilo que separa a nossa humanidade de nossa natureza animal. É o que faz com que ainda que tenhamos ambas as vertentes dentro de nós, consigamos dar-lhes convivência em nosso interior sem que nos autodestruamos. Não por acaso, tanto os déspotas quanto os psicopatas, o primeiro que buscam é destruir as bases morais civilizatórias vigentes para que assim possam satisfazer a seus desejos íntimos de tirania.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1.789, marco da Revolução Francesa, havia colocado logo em seu artigo 1º que "os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos, as diferenças sociais só podem ser fundamentadas no interesse comum", complementando primeiro em seu artigo 4º, que determinava que "a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outros, assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem tem como única baliza a que assegura aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos", e posteriormente no fim do artigo 6º, ao afirmar que "todos os cidadãos são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo a sua capacidade, e sem outra distinção além de suas virtudes e seus talentos (pessoais)". Estas foram as bases dos parâmetros sociais para a humanidade em seus esforços de construção de uma governança global coordenada.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos determinou em seu artigo 25º que "todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e a serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença de invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle; assim como a maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistências especiais".

Desde então o entendimento global veio amadurecendo e ampliando a consciência coletiva, buscando soluções economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente equilibradas. O fruto de décadas de trabalho conjunto da comunidade internacional foi a definição dos seguintes objetivos coletivos para o desenvolvimento mundial: acabar com a pobreza na humanidade, erradicar a fome, estreitar distâncias e reduzir as desigualdades econômicas entre os povos, promover condições sociais para a igualdade econômica entre gêneros no acesso aos meios de produção, gerar condições de emprego pleno e produtivo, e opções de trabalho decente a todos os seres humanos, prover saúde, bem-estar, educação de qualidade, e acesso a água e saneamento para todas as sociedades humanas, garantir uma produção de energia limpa, renovável e acessível, desenvolver uma infraestrutura resiliente em todas as economias por todo o planeta, zelar para que as cidades e centros urbanos sejam inclusivas e seguras, estimular opções de consumo sustentável, conservar os oceanos, assim como a todos os ecossistemas, estabilizar as mudanças climáticas provocadas pelos poluentes produzidos por ação humana, viabilizar parcerias globais, e zelar por paz e justiça em toda a Terra. Uma agenda ousada e complexa de ser implementada, só viável a partir de uma ampliação da consciência humana coletiva e da existência de um maior respeito entre diferenças ideológicas e diversidades culturais.

Qualquer processo de transformação só acontece por intermédio das pessoas, sendo a educação um de seus vetores mais relevantes. Para que algo se consubstancie na prática, é requerido que as pessoas entendam a dinâmica das mudanças, que sejam educados conforme uma realidade, para a partir disto haver o amadurecimento de uma consciência coletiva capaz de unificar os povos e prover níveis civilizados de resolução de conflitos a um nível suficiente para um convívio sob algum nível de paz.

Todas as intensas transformações vividas pela humanidade em meio a um ritmo exponencialmente crescente da população foram muito intensas, desde a economia que dá sustento ao tamanho desta população, passando pela velocidade dos avanços tecnológicos e de tratamento de dados, e pelo volume de informações que chegam a cada um de nós diariamente, tudo isto exige um amadurecimento de nossa consciência, tanto sobre nós mesmos e nosso papel em meio a este turbilhão de fatos, quanto em nossa relação com tudo o que nos cerca.

Por todos os lados o mundo vive novos paradigmas humanos, através de soluções que buscam beneficiar e integrar cada vez mais a sistemas inteiros. A abordagem centrada nos seres humanos já não bastava mais, e foi ampliada para uma centrada no Planeta Terra inteiro, considerando ecossistemas, coletividades e impactos de longo prazo que viabilizem a continuidade desta história na direção de novas e contínuas expansões. Só que é necessário a consciência de que sem as escolhas certas, coletivamente podemos entrar em períodos de retração e desconstrução, numa implosão humanitária coletiva que poderia vir a custar a maior quantidade de vidas humanas da história! Cada um de nós tem um papel individual a cumprir nesta história, porque a totalidade da civilização nada mais é do que a soma das individualidades do todo. A consciência coletiva é a soma dos fragmentos de consciência que existe dentro de cada um de nós.

Quando você para e reflete para embarcar numa viagem de entendimento de quem realmente você é, os pensamentos, sentimentos e impressões das experiências vividas se derramam em sua consciência. Quando você se concentra nestas imagens mentais, elas se tornam parte de uma estrutura complexa onde antes não havia nada. Você revisita fatos desde quando a sua memória conseguiu começar a processá-los, aos quais, quase que inconscientemente, você ainda se agarra. Você pegou todas estas suas lembranças e as arrumou de forma ordenada e disse que isso é o que você é. Mas você não é estes acontecimentos, você é aquele que os experimentou. Você não precisa se apegar às suas experiências para se construir como pessoa, este é apenas um conceito de si atrás do qual você se esconde. E o objetivo desta jornada aqui narrada era, ao final, mostrar isto a você.

O interior de nossa psique é um lugar muito complexo e sofisticado. É cheio de forças conflitantes em constante mudança devido a estímulos externos e internos. Isso resulta numa ampla variedade de necessidades, medos e desejos fluindo em períodos relativamente curtos de tempo. Por isso é comum não haver clareza suficiente e haver dificuldade para entender o que realmente acontece dentro de si. É muita coisa ao mesmo tempo, todas as relações de causa e efeito entre todos os diversos pensamentos, emoções e níveis de energia afetando estados de espírito, desejos, gostos e aversões, causando entusiasmos e letargias.

A partir do momento que a evolução coletiva da humanidade seguiu um caminho de supervalorização da construção da imagem individual, as pessoas ficaram mais preocupadas efetivamente com qual imagem aqueles com quem elas se importam construíram a respeito delas. Foi assim que nós passamos a ser bem recompensados por sermos bons em construir um modelo de forma absolutamente correta e se comportar com coerência, de forma que cada um pudesse "construir alguém". A reflexão correta a ser feita é: por que fazemos o que fazemos? É em cima disto que deve estar a sustentação da consciência humana.

É possível constantemente ajustar seus pensamentos através de autoconhecimento para construir a consciência de quem efetivamente somos. É disto que precisamos: construir as nossas conexões em torno do que efetivamente somos, e não da imagem que o todo espera que seja construída. Para isto, só precisamos entender como queremos construir a nossa relação individual com o todo, partindo do entendimento de como o todo se relaciona conosco em termos de nosso universo, nossa natureza, nossa humanidade, nossa terra, nossa crença, nosso conhecimento, nossa coragem, nossa maldade, nossos fracassos, nossas habilidades e nossos instintos competitivos, tudo aquilo que envolve o que nos faz humanos. Quando passamos a nos tornar verdadeiramente mais espiritualizados, cada um de nós passa a ser muito diferente de todo mundo. Aquilo que todos querem, você não quer. Porque agora você construiu efetivamente a consciência do que verdadeiramente você quer, do que te diferencia de tudo.

Todas as vezes que fazemos uma escolha em nossas vidas, sobretudo naquelas mais complicadas, que fogem à rotina "piloto automático" do dia a dia, temos que nos perguntar: qual caminho me fará mais feliz? Esta é a questão principal! Mas a reflexão não pode parar nesta pergunta. É preciso se fazer uma segunda pergunta também: quais os riscos esta escolha me traz? O que este caminho pode me trazer de perda se eu o percorrer? Eu estou disposto a assumir o risco de perder aquilo que um outro caminho tirará de mim? Em qualquer escolha, ganha-se algo, mas também se perde algo. As respostas serão tanto racionais quanto emocionais. Há que equilibrá-las para encontrar o que que você realmente quer.

É preciso ponderar entre o que se ganhará e o que se perderá. Nenhuma escolha traz para a vida só ganhos ou só perdas, todas, absolutamente todas, trazem ganhos e perdas ao mesmo tempo. Sabendo qual caminho parece ser o que te trará mais felicidade e sabendo quais perdas você está colocando no tabuleiro de decisões da sua vida, a reflexão final é: o que este caminho me trará de verdadeiramente significativo? Sabendo quais são as opções do que há para se ganhar e para se perder, você está pronto para decidir.

Simplificando assim, pode parecer fácil, mas não é. A vida nos mostra que a sua complexidade se esconde por trás das coisas simples. Ter consciência muitas vezes é mais complicado do que à primeira vista pode parecer. O lugar aonde isto mais se manifesta, só como um exemplo, é no amor. É onde o supersimples e o extremamente complexo se tocam.

Vejamos um caso hipotético: um ser humano desejava plenamente o amor, e estava convicto que o segredo da vida seria desfrutar todos os amores que a vida lhe iria trazer. Convicto, sempre se atirou sobre as oportunidades pelas quais se sentiu atraído. Casou-se dez vezes. Teve um filho em cada casamento. Todas as vezes que se casou novamente, deixou para trás uma criança pequena nos braços do cônjuge, convicto de que só assim poderia se dedicar de corpo e alma, o mais intensamente possível, ao novo amor. Ao fim da vida olhou para trás e viu sua trajetória. Viveu com seus dez cônjuges o máximo de amor que a vida lhe proporcionou individualmente. Entretanto, encontrou nos rastros de seu caminho a dez filhos lamuriosos e tristes porque nunca tiveram uma das duas pontas de criação e estabilidade emocional em suas vidas. Só então entendeu que não havia vivido todos os amores que a vida lhe havia trazido como pensava haver vivido. Não viveu plenamente em estado de consciência. Faltou-lhe um pequeno pedaço na pergunta que se fez antes de tomar suas decisões: o que realmente me faz feliz? Na ampla maioria das vezes, é um simples "realmente" o que esconde muita complexidade por trás das escolhas mais importantes e simples a serem feitas.

É necessário sempre estar consciente de que mesmo com todas estas ponderações, ainda existirá o risco de se tomar decisões erradas. Mas estando consciente de que nada é definitivo e que tudo pode ser transformado, desde que haja responsabilidade e respeito pelos próximos, se você estiver com seu coração aberto para a mudança, seu único guia é e sempre será a sua consciência. E não há forma igual e replicável para todos, porque cada indivíduo é único. A resposta que existe para você, existe somente para você! Seu papel na vida é encontrá-la!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lições de equacionamento de conflitos

A ampla maioria dos seres humanos não quer a guerra e deseja buscar a paz constantemente, mas não há como evitar que em algum momento da vida conflitos acontecerão. Para lidar com eles, é necessário equilíbrio e inteligência emocionais.

Ainda que as escalas de relações sejam tão distintas, os conflitos globais ao longo da história oferecem várias lições aplicáveis à solução de desavenças cotidianas, pois os princípios fundamentais de conflito - interesses divergentes, falhas de comunicação, preconceitos culturais enraizados e diferenças de visão na hora de cooperação - são universais e intrínsecos à natureza humana. Há duas primeiras lições de entendimento para reflexão e aplicação na vida pessoal: é necessário um entendimento racionalizado de quais brigas podem ser lutadas e quais são causas perdidas e precisam ser contornadas com outras estratégias que não uma conflitiva, e é necessário um entendimento de quais brigas valem ser enfrentadas e quais não, para realmente só se esforçar e concentrar energias naquelas que realmente valem a pena.

Respondidas tais perspectivas, passa a ser o mais importante a consciência de que ouvir genuinamente a perspectiva do outro lado é crucial para construir confiança e respeito, e assim conciliar divergências de pontos de vista que evitem ou ao menos minimizem conflitos. Esta prática ajuda a desarmar tensões e a entender as reais e mais profundas motivações do que cada um realmente quer. Junto a isto, é crucial buscar escutar, interpretar e entender as visões de observadores imparciais que estejam fora do conflito, o que é um quesito diferencial e fundamental, pois ajuda a construir argumentos que facilitarão à racionalidade de um diálogo de construção de consensos, trazendo novas perspectivas e diminuindo a parcialidade enviesada pelas emoções.

Encontrar o foco do que se quer e do que realmente se busca é outra grande lição que a conciliação de grandes conflitos traz em ensinamentos para o nível individual e pessoal. É vital encontrar o foco em interesses específicos e não em posições inflexíveis, é o que constrói negociações eficazes, quando os envolvidos se concentram nos interesses subjacentes, aquelas necessidades e preocupações específicas, em vez de manter posições fixas. Explorar o "por quê" de cada posição ajuda a encontrar as soluções no meio-termo, e buscar formas de proporcionar um ganho mútuo em meio às divergências também é vital, já que soluções em que todos entendam e sintam algum nível de vitória minimizam ressentimentos posteriores, construindo benefícios duradouros.

Assim como num contexto global, onde entender as normas culturais e os valores de distintos povos supera preconceitos, nos conflitos pessoais, respeitar o contexto, a história e a visão de mundo dos outros minimiza julgamentos precipitados e evita mal-entendidos. É crucial entender que tanto a construção quanto a reconstrução de confiança são processos que levam tempo e exigem um esforço continuado. O foco tem que ser o de transformar divergências em oportunidades de crescimento e de entendimento mútuo, e isto envolve uma forja de respeito a uma diversidade de pensamentos e às diferenças culturais envolvidas.

A resolução de divergências envolve a capacidade de conectar argumentos e elaborar consensos que viabilizem a evolução, o crescimento e o desenvolvimento. Uma clara definição e entendimento de qual é a real natureza de um problema vai lhe poupar tempo e energia. Para isto, é preciso ter humildade para se estar aberto e disposto a aprender com o que o outro lado está argumentando.

É necessário se apegar a conhecimentos para entender a todos os fatores que estão em volta de cada situação e entender a todos os elementos envolvidos por detrás das posições sustentadas. Isto é o que viabiliza um foco em soluções e não em apontar os culpados, fator crucial para se desvencilhar da existência de uma carga emocional maior do que a racional.

É preciso construir argumentações sustentadas por uma construção racionalizada das causas e das consequências envolvidas, deixando claro os benefícios mútuos de se encontrar as soluções. É uma construção contínua, na qual desenvolver a capacidade de escutar e interpretar têm uma total relação com a capacidade de se ter empatia, para que, a partir disto, ajuste-se o poder de comunicação, fator chave para a solução de problemas.

Estas soluções emanam da capacidade de racionalizar as relações envolvidas em torno dos benefícios buscados por cada lado. Com uma compreensão do todo, consegue-se ser assertivo na comunicação, o que vem a ser o passo mais importante para contornar a causa raiz dos problemas e solucioná-los.

Diante de situações problemáticas, se o debate por uma solução seguir o caminho de assertividade e da superação, com uma percepção clara das causas e com foco objetivo em soluções e resoluções, será obtida uma fluidez na construção de relacionamentos que terá rumo e direção corretos e saudáveis.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

1914-1945: a maior mortandade antropogênica já vista no Planeta Terra

Durante o período "Entre Guerras", o desenrolar das consequências da Primeira Guerra para Alemanha, Itália e Rússia, somando-se a acontecimentos nos Estados Unidos que indiretamente alimentaram as debilidades econômicas, é o que explica porque uma Segunda Guerra eclodiu tão pouco tempo depois.

O Tratado de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra nunca foi bem digerido por Alemanha e Rússia, que consideravam ter perdido territórios que entendiam ser sua posse por direito. Tais ressentimentos foram o epicentro para que duas décadas depois eclodisse a Segunda Guerra Mundial. Mas os dois não foram os únicos insatisfeitos, também houve insatisfações do lado vencedor, em um país que viria se alinhar às insatisfações alemã e russa no fim do desenrolar de tais consequências. Após a Primeira Guerra Mundial a Itália esperava ser recompensada no lado vencedor, mas ficou tão decepcionada com as negociações de paz em Paris em 1.919 que se retirou do encontro antes de seu fim. Os italianos ficaram desiludidos, entendendo que seus grandes sacrifícios humanos na guerra foram pouco recompensados. Frente a tal desconforto, havia um forte tambor nacionalista esperando para ser tocado, ainda mais diante de graves problemas econômicos e sociais que eclodiram decorrentes da depressão econômica no pós-guerra.

Quem o aproveitou, apoderando-se deste tambor e o fazendo ressoar forte, foi um jovem líder político em ascensão: Benito Mussolini. Filho de um revolucionário, herdou seu nome de um radical revolucionário do processo de independência do México (Benito Juarez). Foi professor e editor de jornais radicais, primeiro um chamado "Luta de Classes" na cidade de Forli, e depois em outro chamado "Avanti", jornal oficial do movimento socialista em Trento.

Durante a Primeira Guerra, Mussolini foi ferido pela explosão de uma granada num campo de batalha, um elemento a mais a ajudá-lo a mover as pressões psicológicas das grandes massas. Em março de 1.919, ele fundou o Partido Fascista em Milão, cuja bandeira era em favor da imposição da ordem no cenário social caótico que a Itália atravessava. Denunciava as altas taxas de desemprego, e defendia bandeiras trabalhistas contra o individualismo capitalista, mas não com uma luta através de sindicatos de trabalhadores, mas através de um estado forte, poderoso, impositor da ordem, capaz de julgar e inspirar, com um forte teor patriótico-nacionalista, para reconduzir a Itália a seus grandes dias do passado.

Acreditando na ordem imposta pela força bruta das armas, os fascistas se inspiravam na autoridade aos moldes do Império Romano. Vestiam camisas negras, combatiam grupos de socialistas, atacavam a própria polícia, feriam adversários, e tomavam o controle de repartições públicas usando a força. Em outubro de 1.922, o movimento chegou a reunir 50 mil "Camisas-Negras" nas ruas para desafiar armados a seus rivais.

Com um poder crescente, Mussolini estava em Milão quando recebeu um telegrama o convocando a ir a Roma, a convite do rei, para que fizesse parte de seu gabinete de segurança pública a fim de controlar as forças armadas junto a outros heróis de guerra. Seis semanas mais tarde, o parlamento italiano concedeu a ele e seu gabinete, por ampla maioria (rejeição apenas de socialistas e comunistas), o direito de governar por decreto durante um período de um ano sem precisar prestar contas ao parlamento. A Itália estava oficialmente sob um regime autoritário! Dissidentes foram deportados, as greves proibidas, e houve interferência nas universidades e censura nos meios de comunicação. Foi sob este autoritarismo que a Itália se reergueu do caos, passando a obter crescimento econômico e redução dos níveis de desemprego. Por conquistar o fim da desordem social, Mussolini ganhou a simpatia da ampla maioria da população, e nas eleições nacionais de 1.924 conquistou uma expressiva vitória por voto popular. Era o início a um processo de controle autoritário e antidemocrático que perduraria até o desenrolar dos fatos da Segunda Guerra Mundial.

Na Rússia a bandeira era outra, mas igualmente totalitária, sustentada por um autoritarismo extremo. Lá, as pessoas passaram a ter medo de expressar as suas ideias, pois se o governo suspeitava que qualquer cidadão tinha pensamentos considerados subversivos a respeito de assuntos como política, religião, economia, literatura e artes, tais cidadãos eram presos. Assim, vizinhos e familiares se viraram uns contra os outros! O Regime Bolchevique assumiu o nome de Regime Comunista e declarou guerra à classe média (antiga burguesia) e à elite ligada ao antigo Regime Czarista. Em novembro de 1.918, no jornal "Terror Vermelho", um chefe da polícia secreta declarava: "não são necessárias provas para justificar uma alegação de que um membro destas classes mais ricas havia agido com palavras ou atos contra o poder soviético".

Este experimento socialista às vezes estagnava, às vezes progredia, e às vezes estagnava novamente. De início, a maior parte das indústrias nas cidades foi nacionalizada e estatizada. Bancos, ferrovias privadas, estaleiros e grandes fábricas passaram a ser gerenciados pelo governo. Com alguns golpes de caneta, foi feito o maior confisco de propriedades da história da humanidade. As fábricas menores foram poupadas e permaneceram privadas. A liberdade religiosa foi atacada, e o cristianismo se tornou vítima de escárnio oficial. Muitos bispos e padres da Igreja Ortodoxa foram presos ou assassinados, porque eram considerados inimigos da revolução, o que de fato é irrefutável que eram.

As condições econômicas não tardaram em se deteriorar, com a moeda local perdendo valor. Os produtores muito rapidamente perderam interesse em produzir excedentes, já que não havia por que fazer um esforço pelo qual não seriam remunerados. Começou a haver crises de abastecimento. Embora a sociedade russa fosse predominantemente agrária, diante deste desabastecimento de produtos agrícolas que gerou crises de fome em diversas cidades, Lenin teve que admitir que os fazendeiros estavam passando por uma "crise extraordinariamente aguda", o que o levou a rever as normas do regime, ao menos temporariamente. Em março de 1.921, a política mudou, e os camponeses voltaram a receber incentivos para plantar e para vender parte de sua produção em mercado aberto, por fora do centralismo governista, no que foi chamada de Nova Política Econômica. Porém, uma severa seca impediu que a flexibilização surtisse efeito e a severa fome só foi aliviada pelo recebimento de produtos alimentícios enviados pelos Estados Unidos.

Lenin morreu em 1.924, aos 54 anos de idade, vítima de um derrame. Seu corpo foi embalsamado e colocado num mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. Ele havia triunfado graças a seu perfil focado em ações pragmáticas e de correção ideológica. Com a sua morte, qualquer reformismo foi deixado para trás. Seu mais provável sucessor natural parecia ser Leon Trotsky, mas este acabou sendo posto de lado e sendo expulso da Rússia cinco anos mais tarde. Trotsky acabou assassinado na Cidade do México em 1.940 por ordem daquele que veio a ser o efetivo sucessor de Lenin, um outro homem que usava um pseudônimo: Joseph Dzhugashvili, nascido nas montanhas do Cáucaso, na Geórgia, que havia mudado seu nome para Stalin, que significava literalmente "Homem de Aço". Ele acreditava que era o momento de reacender a chama do comunismo, e de transformar a União Soviética - um populoso país essencialmente rural - numa potência mundial.

Ele produziu em 1.928 uma campanha, a qual chamou de Plano Quinquenal, para produzir mais eletricidade, maquinário pesado, ferro, aço e carvão. Todas as metas foram atingidas em menos de 5 anos, sendo sucedido por um novo Plano Quinquenal. As grandes cidades foram dominadas pelo barulho de martelos mecânicos, serras elétricas, britadeiras, rolos compressores, guindastes e motores. Entre 1.928 e 1.940, a produção de aço, cimento e carvão da União Soviética quadruplicou. Em 1.939, o país estava em 3º lugar entre as potências industriais do mundo, um feito impressionante. O nível de alfabetização - baixíssimo no tempo dos czares - tornou-se praticamente igual ao da maioria da Europa Ocidental. A educação, avançada e técnica, era gratuita e atraía uma grande quantidade de jovens. Os serviços de saúde eram muito mais amplos e de melhor qualidade do que os de 25 anos antes.

Entretanto, isto ainda não os livrou de sérios problemas econômicos. Em 1.929, cerca de 25 milhões de pequenas fazendas familiares foram tomadas das mãos dos pequenos produtores camponeses em nome do povo (muitos destes camponeses foram assassinados sob a acusação de serem capitalistas), com as terras transformadas em fazendas coletivas inicialmente sendo intensivas em mão-de-obra, e gradativamente sendo mecanizadas, visando uma maior capacidade de produzir mais comida. As fazendas coletivas eram completamente destituídas de incentivos para que as pessoas se empenhassem, e a produção rapidamente sofreu uma queda vertiginosa, com o modelo de produção logo passando por problemas de eficiência na capacidade de gerar comida suficiente para abastecer a toda a população. Em decorrência da desordem rural no início dos Anos 1.930, uma nova onda de fome se instalou, e cerca de 10 milhões de pessoas morreram por falta de comida na União Soviética neste período, quantidade aproximadamente equivalente ao total de mortes da Primeira Guerra Mundial. Toda esta história de sucessos e fracassos das vertentes autoritárias de governo na Itália e na Rússia os levaram a ambições imperialistas.

Assim também aconteceu no terceiro país europeu que se embrenharia numa vertente de autoritarismo, aquele que viria a ser a peça central por detrás da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Antes de chegar a ele, porém, é necessário abrir um parêntese para falar dos acontecimentos econômicos de 1.929 que eclodiram nos Estados Unidos, os quais jogaram a economia mundial numa profunda espiral recessiva, aquela que daria o molho final aos descontentamentos e aspirações de retomada da grandeza de outrora que transformaram os descontamentos com os acordos de paz pós Primeira Guerra no combustível de eclosão da Segunda Guerra. Foi gasolina lançada à fogueira!

A Primeira Guerra Mundial havia enfraquecido à Europa de tal forma, que sua participação no total da população e da economia mundial havia caído consideravelmente. O centro das finanças global se mudou para os Estados Unidos da América. A dívida nacional da Grã-Bretanha aumentou 11 vezes, as de França e Itália 6 vezes. Todos os preços subiam enormemente, tendo havido hiperinflações em Áustria, Polônia, Rússia e Alemanha. Pela primeira vez a economia dos principais países europeus dependia de Nova Iorque, que como centro econômico-financeiro emergente não tinha a mesma experiência para enfrentar crises do que Londres. E o que aconteceu em 1.929 superou a qualquer outra crise econômica vista antes dela. Numa conjuntura na qual era absurdamente fácil tomar dinheiro emprestado para comprar ações na bolsa de valores, a especulação desenfreada criou uma bolha de negócios sem lastro. Em 24 de outubro de 1.929, a Bolsa de Valores de Nova Iorque abriu ativamente, sem dar sinais de problemas. Então por algum motivo - real ou não - uma histeria se alastrou e levou a uma corrida por venda de ações, levando a uma queda brusca e acelerada nos preços das ações que só aumentava a cada hora que passava. Naquele dia, o número total de ações negociadas no pregão superou em 50% o total negociado em qualquer outro dia, antes e depois, na história da bolsa. O colapso levou a uma sequência de falências de empresas, causando a mais forte retração econômica já vista, a qual se alastrou por todo o planeta. Esta recessão deu margem a várias mudanças políticas induzidas por ela por todos os lados: na América Latina, por exemplo, em 1.930 e 1.931, longas greves, marchas pelas ruas, e protestos violentos, tornaram-se frequentes, levando à derrubada de governo em 11 de seus 20 países.

Foi a depressão econômica mundial que levou o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, e seu líder Adolf Hitler, ao poder, depressão que também prejudicou de tal modo a moral e a orientação tanto de França quanto de Inglaterra, que os dois países perderam o controle sobre a Alemanha, permitindo o seu rearmamento em uma época na qual seria possível ter evitado isto. O afrouxamento aconteceu também porque o mundo vivia uma fase de conflitos bélicos raros. Entre 1.920 e 1.939 ocorreram guerras restritas a poucas nações, e guerras curtas, tendo havido três casos como exceção: a guerra implacável entre Grécia e Turquia no início dos Anos 1.920, a qual matou cerca de 50 mil pessoas, a Guerra do Chaco nas planícies da América do Sul, entre 1.932 e 1.935, envolvendo Paraguai e Bolívia, a qual deixou cerca de 130 mil mortos, e uma guerra entre China e Japão iniciada em 1.937.

Na Ásia oriental, em 1.931, o Japão havia invadido e conquistado a Manchúria, o que foi um prelúdio de sua invasão à China em 1.937. As maiores agitações bélicas efetivas, porém, estavam acontecendo longe da Eurásia: em 1932, Bolívia e Paraguai entraram em guerra, assim como Peru e Colômbia, e em 1933, os australianos do oeste tentaram dividir a Austrália em dois países. Distúrbios pequenos para a escala de acontecimentos globais que estava em marcha.

Com a Crise de 29, todo o capitalismo mundial ficou uma desordem. A grande maioria das cidades da Europa mantinha cinturões de pobreza extrema e um grande número de desempregados. Durante os Anos 1.930, as crises de abastecimento e fome em solo russo eram tidas por muitos europeus como meros acidentes de percurso, com a Rússia comunista passando a ser aclamada como a fórmula para o futuro, com discursos exaltando as fazendas coletivas e as cidades-jardim da União Soviética como um "imediato e enorme sucesso a ser copiado" em todo o Ocidente.

A “Grande Depressão” deixou marcas em um país da Europa em especial: a Alemanha. Desde 1.918 sua economia dava sinais de vulnerabilidade. A obrigação de pagar grandes reparações de guerra a seus inimigos vitoriosos foi um golpe de longo prazo em sua estabilidade. Sua economia foi ficando cada vez mais enfraquecida. Era uma nova realidade após o "Milagre Econômico Alemão", que entre 1.850 e 1.914 havia levado a nação ao topo do poder econômico europeu. Quando a Áustria-Hungria e a Alemanha começaram a ter problemas com a Rússia e a Sérvia, muito do apoio de França e Inglaterra aos russos foi um contraponto cujos reais interesses eram econômicos, na luta para manter espaços que cada vez mais a emergente economia alemã lhes tomava.

Esta debilidade econômica na Alemanha deu margem ao surgimento de novas lideranças no país: Adolf Hitler nasceu na cidade de Braunau, na Áustria, onde teve oportunidades de acesso à educação na infância acima da média para os padrões de seu tempo. Na adolescência, seguiu carreira em belas artes, tendo chegado a Viena aos 16 anos, onde teve uma carreira de pouca expressão como pintor. Mudou-se então para Munique, na Alemanha, e logo no início da Primeira Guerra Mundial se alistou no exército, seguindo para combater na frente oriental. Ele era o responsável por carregar mensagens entre as trincheiras, uma das tarefas mais arriscadas em meio às balas disparadas e as bombas explodindo. Chegou ao posto de cabo, mas acabou incapacitado pela exposição a gases tóxicos.

O destino final da Alemanha ao fim da Primeira Guerra o deixou consternado, sentindo-se traído pelos líderes da nação. Buscou então à política para através dela ajudar a reerguer o seu país, assumindo a liderança de um pequeno grupo bávaro que foi batizado como Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, com o qual organizava palanques na rua, onde afinou a sua capacidade como orador. Tentou derrubar o governo da Baviera e acabou preso. Na prisão escreveu um manifesto combinando suas memórias e propostas de solução dos problemas do país - o livro Mein Kampf ("Minha Luta", traduzido) - publicado em 1.925 e adquirido por somente algumas centenas de leitores.

Após a sua saída da prisão, Hitler voltou a se dedicar a seu partido, mas o mesmo ocupava uma posição baixa no segundo escalão do cenário político alemão, tendo em sucessivas eleições alcançado apenas uma pequena fração do total de votos. Sua promessa imutável era a de que tornaria a Alemanha grande novamente. A sua principal bandeira era o ataque ao comunismo, ao qual chamava de "conspiração judaico-bolchevique".

Quando a Depressão pós-1929 se alastrou, a Alemanha foi duramente atingida, mais do que qualquer outro grande país. Em 1.932, o rendimento industrial alemão regressou a 60% do nível que existia em 1.929. Em Berlin, Dresden e outras grandes cidades, multiplicava-se a quantidade de pessoas vestindo farrapos lutando pela subsistência nas ruas. A taxa de desemprego alcançou 30% da população. Hitler emergiu então como quem oferecia patriotismo e ações firmes. Nas eleições de 1.932, seu partido obteve surpreendentemente 18% dos votos. Numa votação seguinte no mesmo ano subiu para 37%, com o Partido Nazista obtendo a maior votação dentre todos. Em janeiro de 1.933, Hitler foi convidado para o cargo de chanceler alemão (equivalente a primeiro-ministro) em um governo de coalizão. Em agosto de 1.934, com a morte do então presidente, Adolf Hitler foi eleito com 88% dos votos para o cargo, uma vitória esmagadora!

O governo alemão passou a se utilizar massivamente do gasto público, enquanto os demais países buscavam economizar, e assim a prosperidade econômica de curto prazo se instalou com o seu governo, com o desemprego caindo drasticamente, passando a ser o mais baixo do mundo industrializado no início de 1.935.

Em paralelo, aos poucos Hitler foi mutilando à democracia alemã: os outros partidos foram extintos, os sindicatos esmagados, o medo de ser espancado, aprisionado ou humilhado em público havia se tornado parte de um novo estilo de vida. Não era fácil protestar contra a ascensão de um ditador implacável, enquanto a esperança na economia germinava e levava a crer que a Alemanha voltaria a seus dias de glória anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Hitler estava rearmando a Alemanha sem fazer segredo. Em 16 de março de 1.935, ele simplesmente anunciou unilateralmente que o Tratado de Versalhes já não era mais válido, não havendo mais restrições ao rearmamento alemão. Três meses mais tarde, conseguiu convencer a Grã-Bretanha a deixá-lo reconstruir a sua marinha até um terço da marinha inglesa. No ano seguinte, enviou seu exército para reconquistar a Renânia, sendo bem-sucedido. Em 1.938, anexou partes da Áustria e da Tchecoslováquia. Ao mesmo tempo seu antissemitismo se manifestava cada vez mais forte: os judeus controlavam as principais instituições da economia alemã. Contra as imposições capitalistas destes ao povo alemão, seu governo lançou decretos que restringiam os direitos civis de qualquer judeu, que deixava de ser considerado cidadão da Alemanha. Ciganos e homossexuais logo também se tornaram alvos de seus decretos. Este modelo, de forma mais branda, também foi seguido por Mussolini na Itália, e é verdade que tinha simpatizantes em todos os países da Europa.

Como já dito, o Tratado de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra nunca havia sido bem digerido por Alemanha e Rússia, que ainda consideravam ter perdido alguns territórios que entendiam ser sua posse por direito. Vinte anos depois tais ressentimentos levaram a uma aliança insólita, ainda que de lados ideologicamente opostos, a Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin se aliaram para recuperar os territórios que entendiam por direito ser seus. Em 1.939, as duas potências combinaram secretamente invadir a Polônia para dividi-la entre elas. Um pacto que aturdiu à Europa. A Polônia era uma das maiores nações europeias, formada a partir de territórios tomados de três grandes nações: Alemanha, Império Austro-Húngaro e Rússia, também contava com o maior contingente de judeus na Europa.

Em 1º de setembro de 1.939, Hitler invadiu a Polônia. Quinze dias depois foi a vez da Rússia completar a invasão. Os russos foram além e retomaram parte da Finlândia. Grã-Bretanha, França, Canadá, Austrália e Nova Zelândia se puseram imediatamente contrários à aliança, mas decidiram num primeiro momento não agir militarmente.

Na primavera de 1.940, o apetite conquistador de Hitler cresceu, e a Alemanha invadiu e conquistou Dinamarca e Noruega em abril, Holanda e Bélgica em maio, e se preparou para invadir a França. A Grã-Bretanha demorou a intervir, e os franceses tiveram que se defender sozinhos. Em uma ou duas semanas, as divisões motorizadas do exército alemão atravessaram terras nas quais durante os quatro anos da Primeira Guerra os combates tinham se tornado um beco sem saída. Rapidamente o exército alemão se aproximou de Paris, enquanto um exército civil de refugiados franceses fugia a pé para o sul, levando o que podiam de seus bens. Em 14 de junho de 1.940, os primeiros soldados alemães começavam a entrar na capital francesa. Quase toda a Europa Ocidental estava então em poder de Adolf Hitler, exceto alguns países como Espanha, Portugal, Irlanda, Suíça e Suécia, nações mais ou menos neutras. Em 8 de agosto foram iniciadas as ações para derrubar a Grã-Bretanha, tendo sido lançados bombardeios a áreas militares e de logística da Inglaterra e da Escócia. Em setembro houve ataque a Londres, com 400 aviões atacando a cidade. Ao longo da história, centenas de cidades tinham sido sitiadas e atacadas por artilharia, mas esta era a primeira vez na qual o coração de uma grande metrópole podia ser bombardeado diretamente pelo céu!

Logo após a queda de Paris, Stalin invadiu e tomou Lituânia, Letônia e Estônia. A Europa estava praticamente toda dividida entre alemães e seus aliados por um lado, e pelos russos de outro. De um lado, a Alemanha - com apoio de Itália, Hungria e Bulgária - tinha anexado parte da Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, Romênia, Iugoslávia e Albânia, além de Noruega e Dinamarca. Do outro lado, a Rússia tinha anexado a outra parte da Polônia, Ucrânia, Lituânia, Letônia, Estônia e Finlândia. Permaneciam neutros: Turquia, Suíça, Suécia, Espanha e Portugal. Apenas a Grã-Bretanha e o que havia sobrado da França resistiam. O alvo seguinte de Hitler era o Mar Mediterrâneo: em abril de 1.941 o exército alemão invadiu a Grécia, tomando a cidade de Atenas, e em maio tomou a ilha de Creta. Forças alemães, com apoio das tropas italianas de seu aliado, Benito Mussolini, preparavam-se para tomar o Egito, e assim dominar ao geograficamente estratégico Canal de Suez.

Mas a amizade entre Hitler e Stalin era oportunista. Ambos sempre desconfiaram um do outro. Suas ambições territoriais colidiam. O pacto ruiu em 22 de junho de 1.941, quando Hitler decidiu iniciar uma invasão à União Soviética. Durante os primeiros meses seu exército não encontrou obstáculos e conseguiu avançar rápido. Mas acabou contido por fatores naturais, a partir da chegada do inverno.

O ano de 1.941 foi chave para os rumos da guerra dali até o seu final. Inspirado pelo poder nacionalista e bélico dos alemães, os japoneses decidiram repetir o seu modelo para dominar a Ásia e a Oceania. Aproveitando a oportunidade militar, o Japão, com suas aspirações expansionistas, aliou-se a Hitler para sufocar a Rússia, aspirando invadir a União Soviética pelo leste asiático. Em Tóquio, os líderes japoneses viram que a Rússia estava fragilizada e enxergaram aquela como uma formidável oportunidade de aniquilar a seu inimigo histórico. Ao mesmo tempo aspiraram uma expansão territorial pelo Oceano Pacífico, decisão que viria a ser crucial para o rumo da Segunda Guerra Mundial.

A invasão da Rússia, a chamada “Operação Barbarossa”, em junho de 1.941, foi o último ato de triunfo da Alemanha de Adolf Hitler. Além de que o ataque à União Soviética levou, obviamente, os russos a mudarem de lado, aumentando a quantidade de oponentes à Alemanha, a logística para alimentar as duas frentes de batalha começou a gerar efeitos pelas longas distâncias que eram necessárias serem percorridas para o reabastecimento de munições. Além da mudança de lado dos soviéticos, um outro marco em 1.941 marcaria um novo rumo para a guerra, a entrada dos Estados Unidos no conflito.

Na manhã de 8 de dezembro de 1.941, o Japão atacou à base naval dos Estados Unidos de Pearl Harbor, numa ilha remota do arquipélago do Havaí. Secretamente, 6 porta-aviões japoneses cruzaram o Oceano Pacífico e iniciaram um ataque que destruiu centenas de navios e aviões norte-americanos. A única frustração japonesa é que os 3 porta-aviões dos Estados Unidos estavam em alto-mar na manhã daquele ataque, não tendo sido destruídos, como planejado, pelos submarinos do Japão.

Em 25 de dezembro de 1.941, o Japão tomou Hong Kong, e em 1º de janeiro de 1.942 invadiu às Filipinas e tomou sua capital, Manila. Na sequência se apoderaram de metade da Península da Malásia. Em 15 de fevereiro, tomaram Singapura. Em março, tomaram a ilha de Java, conquistando as Índias Orientais Holandesas. Rapidamente se aproximaram da Nova Guiné, e bombardearam portos australianos. Foi aquela que ficou sendo chamada de Guerra do Pacífico - dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial - tendo o Japão vencido batalhas contra os exércitos de Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e Austrália. O próximo passo seria atacar à Índia? Os rumos dos conflitos no Oceano Pacífico, no entanto, mudaram quando os Estados Unidos conseguiram decodificar as mensagens secretas japoneses. Com esta estratégia, conseguiram afundar a todos os porta-aviões do Japão, enquanto tinham perdido apenas um porta-aviões, conseguindo assim diminuir as chances de uma vitória nipônica.

No início de 1942, Adolf Hitler definiu uma nova missão: exterminar aos judeus, não apenas na Alemanha, mas em todos os países que havia ocupado, naquela que batizou como "Solução Final", e que ficaria registrada na história como "Holocausto". Os judeus passaram a ser enviados em trens para campos de concentração, onde passaram por experimentos científicos e/ou foram friamente executados, assassinados a sangue frio. Sustentando-se em ideologias eugênicas e no chamado “Darwinismo Social”, a Alemanha Nazista executou quase 6 milhões dos 9 milhões de judeus que viviam na Europa, além de ter executado outras 4 a 5 milhões de pessoas, entre homossexuais, ciganos, pessoas com doenças mentais e más formações no corpo, e prisioneiros de guerra.

Naquele mesmo ano de 1.942, a Alemanha começou a provar de seu próprio veneno: primeiro quando a Grã-Bretanha lhe impôs pesados bombardeios que destruíram a cidade de Colônia (Koln), e depois com os Estados Unidos tendo castigado Berlim com bombardeios ainda maiores naquele mesmo ano. Estes bombardeios acabaram com a produção industrial alemã. Em paralelo, no fim do ano as tropas alemãs foram expulsas do norte da África, e no verão de 1.943 as tropas aliadas tomaram a ilha da Sicília, imediatamente iniciando uma incursão pelo território da Itália.

O golpe final foi dado em 6 de junho de 1.944, quando se deu o "Dia D", com a invasão da Normandia realizada pela maior expedição naval da história, envolvendo 7 mil embarcações e centenas de aviões, desembarcando num primeiro momento a 133 mil soldados e outros 23 mil paraquedistas na costa francesa. No total, nas semanas subsequentes, cerca de 800 mil soldados aliados partiram para reconquistar a França e a Bélgica. Paris foi retomada no fim de agosto e Bruxelas duas semanas depois, reconquistas que iniciaram a derrocada definitiva da Alemanha.

Na outra frente de guerra, castigadas pelo rigoroso inverno, as tropas alemãs começaram a sofrer subsequentes derrotas para as tropas russas. Iniciou-se uma corrida em direção a Berlim. Todos sabiam que a reconquista de territórios definiria o direito de controle após a guerra. Estados Unidos e União Soviética avançavam derrotando as tropas alemãs que encontravam pelo caminho. Ali se iniciava a bipolaridade hegemônica que ditaria as ordens no planeta pelas décadas seguintes. Sitiado por todos os lados, e com a União Soviética já em processo de invasão de Berlim, em 30 de abril de 1.945, Hitler teria cometido suicídio numa base alemã. Dois dias depois os russos consumaram a invasão a Berlim. Em 7 de maio, a Alemanha se rendeu incondicionalmente.

A Segunda Guerra Mundial estava concluída na Europa, mas ainda não se conhecia o vencedor nem no leste da Ásia nem nos litorais do Oceano Pacífico. Partes dos territórios invadidos tinham sido retomados pelos aliados, mas ainda não havia condições para uma incursão que invadisse e derrotasse de forma definitiva ao Japão. Foi então que uma arma secreta de destruição em massa entrou em ação pela primeira vez na história.

Os Estados Unidos estavam numa corrida para desenvolver tal arma através do chamado “Projeto Manhattan”, o qual juntou cientistas com relações próximas ao povo judeu que tinham migrado para a América, todos com a disposição de construir uma arma capaz de aniquilar à Alemanha Nazista de Adolf Hitler. O alvo, porém, acabou vindo a ser outro.

Em 1.939, o judeu-alemão Albert Einstein escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos sobre o poder de destruição de uma bomba com reação nuclear em cadeia. Ali se iniciaram as pesquisas que levaram ao desenvolvimento da bomba, feitas pelo italiano Enrico Fermi, migrado para a América junto à esposa judia e seus dois filhos. O chefe da operação era o norte-americano filho de judeus Robert Oppenheimer, em cuja equipe estavam o judeu-húngaro Edward Teller e o judeu-austríaco Isidor Rabi, entre outros cientistas.

Somente em 2 de dezembro de 1.942 o reator nuclear ficou pronto, e o primeiro experimento foi programado. Mas foi somente em 1.945 que a bomba ficou completamente pronta e em condições de ser utilizada. Com a guerra vencida na Europa, e incertezas sobre os destinos dos campos de batalha no Pacífico, definiu-se por um lançamento sobre o Japão que fosse suficientemente impactante para acabar prontamente com a Segunda Guerra Mundial.

Para lançar a bomba, era necessário um avião bombardeiro pesado e de longo alcance. Foi escolhida a superfortaleza voadora B-29, capaz de voar 3 quilômetros até seu alvo e retornar à base (escolhida como sendo a ilha de Tinian, do arquipélago das Ilhas Marianas). Em 6 de agosto de 1.945, a primeira bomba foi transportada da Califórnia para lá de navio. O alvo foi escolhido num último instante: Hiroshima, a 8ª maior cidade japonesa. Às 8:15h da manhã no horário local, a bomba foi lançada, causando a maior explosão concebida até então pelo engenho humano na história mundial. A bomba, de imediato, instantaneamente, deixou quase 100 mil mortos e 70 mil feridos.

Ainda assim, os líderes japoneses não deram sinal de estar cogitando uma rendição. Três dias depois, em 9 de agosto de 1.945, uma nova bomba foi lançada, desta vez sobre a cidade de Nagasaki. Estima-se em mais de 50 mil os mortos nesta nova explosão. Entre as duas explosões, a União Soviética declarou guerra ao Japão, invadindo o território da Manchúria. Pela soma destes fatores, em 14 de agosto o Japão se rendeu incondicionalmente. A Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, deixando um saldo de 80 milhões de mortos.

Juntando a todo o período de 1.914 a 1.945, as mortes bélicas causadas de forma direta pelos conflitos armados, e as mortes causadas por efeitos indiretamente derivados destes conflitos, como a pandemia de gripe e os ciclos de fome na União Soviética, foram bem mais de 150 milhões de seres humanos que morreram, na maior mortandade antropogênica já vista na Terra.

Politicamente, as duas grandes guerras estão diretamente correlacionadas. Restringindo a uma macrovisão das principais potências econômicas envolvidas: a primeira por uma união oportunista de Inglaterra e França que se juntaram à Rússia contra a Alemanha, e a segunda por uma união oportunista da Rússia à Alemanha que acabou se voltando contra Inglaterra e França, com as influências políticas globais a partir de então sendo regidas pelo lado vitorioso ao fim da Segunda Guerra Mundial, e sob a ameaça de uma nova arma capaz de um poder de destruição nunca antes visto através de ações de seres humanos.

O planeta passou a estar então ideologicamente fragmentado entre duas visões econômicas e sociais, uma sustentada em desigualdades decorrentes das diferenças de habilidades humanas, as bases do capitalismo, cujo líder político global eram os Estados Unidos da América, e outra sustentada em igualdades independentes às diferenças de habilidades humanas, as bases do socialismo-comunismo, cuja líder política global era a União Soviética. Ambas soluções que carregavam alguma forma de injustiça nas relações humanas coletivas.

Militarmente, o primeiro choque entre estas ideologias na disputa por poder no pós-guerra se deu com o desencadeamento da Guerra da Coréia. Aquela região havia sido governada pelo Japão de 1.910 a 1.945, num período expansionista deste iniciado justamente após a vitória militar obtida sobre a Rússia no início do Século XX. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética invadiu e tomou o território da Coréia do Norte, e lá estabeleceu uma república comunista. Em 25 de junho de 1.950, a Coréia do Norte, com apoio militar da Rússia e da China, invadiu o território da Coréia do Sul, ato que oficialmente deu início ao contexto de conflito entre a capitalista Coréia do Sul e a comunista Coréia do Norte. O conflito se arrastou até julho de 1.953 e deixou mais de 900 mil mortos, sendo cerca de 750 mil do lado nortista. Sem que conseguisse uma resolução para o impasse, foi assinado um armistício que deu fim ao conflito e dividiu a Coréia em duas.

Assim, na Eurásia estava consumado um Bloco Comunista desde o Mar Adriático, na Europa, até o Oceano Pacífico, começando a partir da Alemanha Oriental, e reunindo Polônia, Tchecoslováquia, parte da Áustria, Hungria, Iugoslávia, Albânia, Bulgária, Romênia, União Soviética, China e Coréia do Norte. Na Europa, o Bloco Capitalista reunia Alemanha Ocidental, Itália, França, Grã-Bretanha, Espanha, Portugal, Bélgica, Holanda e os Países Nórdicos a oeste, e Grécia e Turquia a leste, enquanto no outro extremo da Eurásia, este era o modelo ideológico em Japão e Coréia do Sul. Um reordenamento regido por diversos conflitos militares.

Em meio a este jogo de tabuleiro global que ficou conhecido como "Guerra Fria", o comunismo fincou importante bandeira na América Central. Cuba era uma ilha que abrigava 7 milhões de habitantes. Uma revolução em 1.933 fez emergir a liderança militar de Fulgêncio Batista, que veio a ser eleito presidente. Em 1.959 foi outro líder quem o derrubou: Fidel Castro, um estudante de colégio jesuíta na juventude e formado como advogado, que tinha vivido refugiado no México. Em 1º de janeiro de 1.959, com apoio de armamentos dos Estados Unidos, ele invadiu a ilha pela mata densa e conseguiu dar um golpe de estado que acabou com o regime ditatorial comandado por Batista. Consumada a tomada de poder, sua primeira decisão foi confiscar as grandes propriedades e nacionalizar os bancos e os grandes engenhos de açúcar, para a surpresa dos norte-americanos que o tinham apoiado e financiado. A ideologia comunista conseguia a sua primeira grande vitória nas Américas.

Como contra-ataque, os Estados Unidos deram treinamento militar e armamentos a cerca de 1.500 exilados cubanos, que em abril de 1.961 tentaram uma desastrosa invasão a Cuba - a Invasão da Baía dos Porcos (Bahia de los Cochinos) - que fracassou. Como vingança, Fidel Castro abriu seu território para a instalação de uma base militar da União Soviética, a partir da qual os russos poderiam atacar o território norte-americano. Em 10 de outubro de 1.962, um avião de espionagem dos Estados Unidos identificou a presença de 10 mísseis soviéticos em Cuba, todos com capacidade para alcançar Washington. Era impossível saber se eles carregavam ogivas nucleares ou não.

Esta "Crise dos Mísseis" levou o mundo a temer a possibilidade de início de uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear com potencial para efetivamente destruir a toda a civilização humana no planeta. Em 23 de outubro de 1.962, 20 navios soviéticos foram vistos se aproximando do bloqueio naval norte-americano protegidos por um submarino. Uma das embarcações certamente levava ogivas nucleares. Em paralelo, a Europa se preparou para defender um eventual ataque a Berlim Ocidental. Uma nova guerra parecia iminente. Após dias de grande tensão, em 26 de outubro os norte-americanos sinalizaram com o fim do bloqueio naval ao território cubano e deram garantias de que não invadiriam a ilha, e os soviéticos dois dias depois aceitaram os termos, com suas embarcações recuando e se afastando de Cuba.

O jogo de tabuleiro ideológico na América Latina só cresceu desde então, com um aumento da quantidade de simpatizantes ao comunismo e à União Soviética. Como resposta, os Estados Unidos deram incentivos - através da batizada como "Operação Condor" - para a instauração de Ditaduras Militares nos países da região para garantir os direitos das propriedades privadas que sustentavam o modelo capitalista nestes países. Houve golpes de estado em 1.964 no Brasil e na Bolívia, em 1.966 na Argentina, em 1.968 no Peru, em 1.973 no Chile e no Uruguai, e um novo golpe na Argentina em 1.976. Já o Paraguai vivia sob um regime de ditadura militar desde 1.954. Foi um período de combates militarizados de enfrentamento à entrada do comunismo na América do Sul, onde ao fim prevaleceu o modelo capitalista.

Um ano após a "Crise dos Misseis", um acontecimento em Dallas, no estado do Texas, nos Estados Unidos, voltaria a gerar tensões políticas globais e o receio de um novo conflito bélico de grandes proporções. Em 22 de novembro de 1.963, o presidente norte-americano John Kennedy foi assassinado com um tiro na cabeça enquanto desfilava em carro aberto. O assassino detido, o norte-americano Lee Oswald, havia vivido na Rússia e no México. Tanto União Soviética quanto Cuba prontamente negaram qualquer vínculo ao assassinato. Nunca se decifrou quem esteve por trás do ato, e a situação foi contornada.

O capítulo seguinte da "Guerra Fria" entre norte-americanos e soviéticos se desenrolou novamente no extremo oriente da Ásia. A Guerra do Vietnã teve semelhanças à da Coréia, uma vez que ambas nasceram de uma divisão do país entre um norte comunista e um sul capitalista. Os conflitos se iniciaram em 1.955, mas tomaram uma maior dimensão a partir de 1.963, quando os Estados Unidos enviaram tropas para lutar ao lado do exército do Vietnã do Sul. União Soviética e China não enviaram soldados, mas forneceram armas e munições.

A superioridade da força aérea norte-americana era enorme, mas só servia para destruir os sistemas logísticos do adversário, não servindo para os conflitos aos moldes de guerrilha que foram travados nas densas florestas tropicais. O país tecnologicamente e militarmente mais avançado do mundo naquele momento não podia usar as suas armas de maior destruição, tendo que levar seus soldados a se embrenhar em uma guerrilha na selva. A guerra inicialmente parecia fácil de ser vencida, mas se tornou paulatinamente perdida. Em 1.973, os Estados Unidos assinaram um cessar-fogo, deram-se por vencidos, e se retiraram do Vietnã. Assim, o seu fim foi diferente ao das Coréias, que tinham terminado segregadas em duas. Com a retirada norte-americana, o Vietnã do Sul foi tomado e incorporado pelo Vietnã do Norte, formando um único país. A Guerra do Vietnã deixou um total de aproximadamente 3 milhões de mortos, sendo 1,3 milhão deles militares e 1,7 milhão de civis. Os Estados Unidos perderam 58 mil militares mortos. Ainda que bastante comemorada, aquela foi a última vitória comunista na Guerra Fria.

Na África também houve conflitos neste mesmo contexto, mas sem uma vitória de um lado ou de outro. Em 1.975 uma revolução comunista rompeu em Angola, só então libertando o país das amarras coloniais de Portugal. O principal apoiador do movimento em termos de envio de soldados foi Cuba, na revolução que representou o primeiro marco significativo de presença do comunismo na África. Desde então o país viveu uma intensa guerra civil, com envolvimento direto de tropas estrangeiras até 1.988. Entre períodos de acirramentos e de pacificações, a guerra civil no país durou de 1.975 até 2.002. Não há estatísticas sobre quantas pessoas morreram neste conflito, mas 4 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas residências para fugir das batalhas.

O último capítulo militar envolvendo diretamente às duas potências que lideravam a Guerra Fria se deu em 1.979, a Guerra do Afeganistão, iniciada quando a União Soviética invadiu o país com o qual tinha fronteira para destituir ao regime afegão que dominava o poder. Em situação inversa ao que havia ocorrido no Vietnã, desta vez foram os Estados Unidos quem enviaram armas e munições, mas não soldados. E mais uma vez espelhando o Vietnã, a imensa superioridade militar de um lado perdeu sua vantagem na luta de guerrilha na qual se desenhou o combate. Se os Estados Unidos tinham sofrido com tal estratégia nas selvas do Vietnã, a União Soviética viveu a mesma situação nas montanhas do Afeganistão. A guerra se arrastou de dezembro de 1.979 até fevereiro de 1.989, deixando 2 milhões de mortos. A União Soviética perdeu 14,5 mil soldados mortos (bem menos do que os 58 mil que os Estados Unidos perderam na Guerra do Vietnã). Sem obter sucesso, e sob um custo pesado, a partir de janeiro de 1.987 os soviéticos se deram por vencidos e iniciaram um processo de retirada de suas tropas da região.

Esta situação no Afeganistão carregava um contexto a mais, que era o fanatismo religioso disposto a ir às armas para sustentar as suas crenças frente a nações estrangeiras. Depois da Segunda Guerra Mundial cresceram os conflitos religiosos, em especial no Oriente Médio e seu entorno. Tais divergências partiram e derivaram de um acontecimento em especial: em novembro de 1.947, a Organização das Nações Unidas tentou reparar o sofrimento do povo judeu com o Holocausto imposto por Adolf Hitler, e aprovou a criação de um estado judeu no território da Palestina - estado de supremacia árabe-muçulmana - o qual estava sob ocupação da Inglaterra desde 1.920.

Em 14 de maio de 1.948 foi fundado o estado de Israel. Já no dia seguinte se iniciaram os conflitos, quando Egito, Síria, Jordânia, Líbano e Iraque, apoiados por Arábia Saudita e Iêmen, invadiram o recém declarado território israelense, iniciando a Guerra Árabe-Israelense de 1948, que deixou cerca de 20 mil mortos. O conflito foi vencido por Israel, mas a paz nunca se instaurou em definitivo.

Em maio de 1.967 a tensão no Oriente Médio voltou a se acirrar. O então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, restringiu a circulação de navios de carga israelenses pelo Mar Vermelho sob a alegação: "o objetivo fundamental é destruir Israel". Em 5 de junho de 1.967, a força aérea israelense impôs um bombardeio em áreas militares que destruiu a maior parte da força aérea egípcia. Nasser pediu intervenção da União Soviética, mas os russos fizeram um acordo com os Estados Unidos de que nenhuma das duas superpotências iria intervir no conflito. O acordo foi respeitado. A Guerra dos Seis Dias durou de 5 e 10 de junho, com uma vitória esmagadora de Israel que triplicou o seu território. O conflito deixou 16 mil mortos, 15 mil dos quais no lado das forças armadas árabes.

Mais uma vez uma resolução instaurada que não era definitiva: em 1.972, durante a realização dos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, no dia 5 de setembro o grupo terrorista palestino denominado "Setembro Negro" invadiu a Vila Olímpica, onde ficavam hospedados os atletas de todo o mundo, e fez reféns a 11 integrantes da equipe olímpica de Israel. Uma mal coordenada operação para tentar dar fim ao sequestro terminou com 17 mortos (os 11 reféns israelenses, 5 dos 8 terroristas palestinos, e 1 policial alemão perderam a vida). Em decorrência indireta, em 1.973 o Oriente Médio voltou a entrar em conflito, eclodindo a Guerra do Yom Kippur, quando Egito e Síria cruzaram, respectivamente, as fronteiras no Sinai e nas colinas do Golã, territórios que haviam sido capturados por Israel em 1.967 durante a Guerra dos Seis Dias. Após duas semanas de batalhas vencidas por egípcios e sírios, os israelenses conseguiram impor suas primeiras vitórias e a partir de então obtiveram uma sequência delas durante uma semana, as quais levaram o exército israelense a invadir os respectivos territórios de seus invasores até as proximidades de suas capitais (Cairo e Damasco) forçando um acordo de cessar-fogo. A guerra durou três semanas e levou a mais de 10 mil mortes, sendo 2,5 mil delas do lado vencedor, o israelense.

Durante os Anos 1.970 também passou a existir uma marca de levante nos países islâmicos contra os hábitos ocidentais. A cultura emanada sobretudo dos Estados Unidos, mas também da Europa Ocidental, era rejeitada pelos muçulmanos mais radicais, avessos ao consumismo mercantilista, à propaganda ao consumo de bebidas alcóolicas e drogas alucinógenas, à tolerância com aventuras sexuais descompromissadas e à rebeldia da juventude, todos hábitos que eles consideravam de moral frouxa, propagados pela televisão e pelo cinema.

Os países de religião islâmica não aceitavam a liberdade do Ocidente, sobretudo a tolerância ao papel das mulheres e de homossexuais na sociedade. O maior marco de levante contra tal cultura foi a Revolução Iraniana consumada em 1.979, com a imposição generalizada de condenação à pena de morte a todos aqueles que adotassem costumes contrários à religião islâmica. Em decorrência desta revolução, entre 1.980 e 1.988, o Oriente Médio vivenciou a Guerra Irã-Iraque, um conflito que deixou 1,5 milhão de mortos.

O conflito foi iniciado quando o líder militar iraquiano Saddam Hussein invadiu o território iraniano com aspirações territorialistas de expansionismo, buscando se aproveitar da crise sócio-política vivida pelo país vizinho. Curiosamente - dentro do contexto da Guerra Fria - tanto Estados Unidos quanto União Soviética forneceram armas ao Iraque, pelo desconforto perante o radicalismo religioso imposto por aquela Revolução Iraniana que a partir de 1.978 transformou o Irã de uma monarquia autocrática numa República Islâmica Teocrática, sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini (aiatolá, cujo significado é "sinal de Deus").

A Guerra Irã-Iraque foi uma das cinco guerras mais mortais da história até então, conflitando as duas principais potências militares sunitas e xiitas, uma dissidência teocrático-filosófica que retomava aos tempos da sucessão de Maomé. A cisão entre seus seguidores se deu após a morte de Maomé, em 632 d.C., sem que houvesse a designação de quem seria o seu herdeiro. A luta pela sucessão opôs os xiitas (partidários de seu genro Ali) e os sunitas (apoiadores de seu melhor amigo, Abou Bakr). Esta última corrente se impôs, defendendo a bandeira dos valores tradicionais das tribos árabes, com Abou Bakr sendo nomeado "califa". Só que ele morre dois anos depois, sendo sucedido primeiro por Omar e depois por Otham, que acaba assassinado em 656 pelos xiitas, que elevam Ali ao poder, o qual também acaba vindo a ser assassinado em 661. Desde então o conflito ideológico entre as duas correntes se arrastou por milênios.

Os países de maioria muçulmana formavam um eixo territorial desde o Oceano Atlântico até a Ásia Central, com presenças estendidas pelo Oceano Índico. Todos os países do norte da África eram de maioria muçulmana, sendo eles, de oeste para o leste: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Sudão e Egito, e com a presença também da Somália na ponta leste do continente, mais próxima ao Oriente Médio. Em toda esta extensão de terras, a única exceção era o estado de Israel. Na fronteira com a Europa, a Turquia também era de maioria islâmica. Do outro lado do Oriente Médio, o islamismo era maioria em Afeganistão, Paquistão e nas ex-colônias soviéticas de Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Cruzando a Índia, onde a maioria religiosa era hindu, do lado oposto do país a maioria era islâmica em Bangladesh, assim como era nos arquipélagos do Oceano Índico (entre a Ásia e a Oceania) que formavam a Indonésia.

Em 2 de agosto de 1.990, pouco tempo depois da vitória sobre o Irã financiada pelos Estados Unidos, Saddam Husseim, líder do Iraque, levou seu país a invadir ao vizinho Kuwait. Muito de seu otimismo se sustentava num apoio dos países árabes, ou ao menos de uma neutralidade destes. Ele acreditava que por isso os Estados Unidos não interfeririam, talvez por acreditar que pudesse haver uma possível retaliação da Rússia. O Iraque reuniu 300 mil soldados na invasão, enquanto os Estados Unidos mobilizaram 500 mil de seus soldados na Arábia Saudita. Cinco meses após a invasão ao Kuwait, o Congresso dos Estados Unidos aprovou um ataque ao Iraque, a chamada Guerra do Golfo. Foram apenas seis semanas de combate, com um bombardeio massivo, que ficou conhecido como "Operação Tempestade no Deserto". Em 28 de fevereiro de 1.991, o Iraque estava derrotado e a guerra encerrada. Mais um caso na história humana no qual sonhos com grandes triunfos levaram à cegueira de decisões estratégicas equivocadas.

Foram pouquíssimos os conflitos depois da Segunda Guerra Mundial que fugiram disto, ou de um contexto ideológico político em torno da bipolaridade entre capitalismo e socialismo-comunismo, ou de um conflito religioso. A exceção aconteceu em 1.982 nas Ilhas Falkland (para os argentinos: Ilhas Malvinas), alvo de uma guerra de grandes expectativas. A posse da pequena ilha montanhosa no sul do Oceano Atlântico, então habitada por menos de 2 mil pessoas e defendida por poucos fuzileiros da Marinha Real Inglesa, era reivindicada pela Argentina. Qualquer ajuda da Grã-Bretanha, situada a 13 mil quilômetros de distância demoraria a chegar.

Em 2 de abril de 1.982, soldados argentinos invadiram as ilhas durante a madrugada, tomando-a sem encontrar muita resistência. Num intervalo de poucas semanas partiu da Inglaterra uma frota com dois navios porta-aviões, navios destroieres e de suprimentos, submarinos nucleares e dois navios transatlânticos de passageiros adaptados para transportar tropas. Após sete semanas de traslado esta frota chegou às Ilhas Falkland, e em menos de quatro semanas o conflito chegou ao fim, com 10 mil soldados argentinos se tornando prisioneiros. Mais um caso: o excesso de confiança da Argentina levou-a a levantar estimativas equivocadas e a decisões erradas, falhando na estratégia.

Toda esta história de guerras mostra uma lição que é preciso que seja aprendida para que você saiba lidar com o instinto de competição dos seres humanos: as nações que entravam em guerra confiantes costumavam esperar uma vitória rápida, enquanto as nações que só entravam em guerra depois de muita relutância, mais interessadas em evitar a derrota do que em arrebatar a vitória, sempre pareceram mais conscientes de que poderiam estar embarcando em uma longa luta. Um dos grandes segredos para se saber lidar com conflitos na vida, independentemente do tamanho que estes tenham, é saber escolher quais brigas lutar e quais evitar.