quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

1914-1945: a maior mortandade antropogênica já vista no Planeta Terra

Durante o período "Entre Guerras", o desenrolar das consequências da Primeira Guerra para Alemanha, Itália e Rússia, somando-se a acontecimentos nos Estados Unidos que indiretamente alimentaram as debilidades econômicas, é o que explica porque uma Segunda Guerra eclodiu tão pouco tempo depois.

O Tratado de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra nunca foi bem digerido por Alemanha e Rússia, que consideravam ter perdido territórios que entendiam ser sua posse por direito. Tais ressentimentos foram o epicentro para que duas décadas depois eclodisse a Segunda Guerra Mundial. Mas os dois não foram os únicos insatisfeitos, também houve insatisfações do lado vencedor, em um país que viria se alinhar às insatisfações alemã e russa no fim do desenrolar de tais consequências. Após a Primeira Guerra Mundial a Itália esperava ser recompensada no lado vencedor, mas ficou tão decepcionada com as negociações de paz em Paris em 1.919 que se retirou do encontro antes de seu fim. Os italianos ficaram desiludidos, entendendo que seus grandes sacrifícios humanos na guerra foram pouco recompensados. Frente a tal desconforto, havia um forte tambor nacionalista esperando para ser tocado, ainda mais diante de graves problemas econômicos e sociais que eclodiram decorrentes da depressão econômica no pós-guerra.

Quem o aproveitou, apoderando-se deste tambor e o fazendo ressoar forte, foi um jovem líder político em ascensão: Benito Mussolini. Filho de um revolucionário, herdou seu nome de um radical revolucionário do processo de independência do México (Benito Juarez). Foi professor e editor de jornais radicais, primeiro um chamado "Luta de Classes" na cidade de Forli, e depois em outro chamado "Avanti", jornal oficial do movimento socialista em Trento.

Durante a Primeira Guerra, Mussolini foi ferido pela explosão de uma granada num campo de batalha, um elemento a mais a ajudá-lo a mover as pressões psicológicas das grandes massas. Em março de 1.919, ele fundou o Partido Fascista em Milão, cuja bandeira era em favor da imposição da ordem no cenário social caótico que a Itália atravessava. Denunciava as altas taxas de desemprego, e defendia bandeiras trabalhistas contra o individualismo capitalista, mas não com uma luta através de sindicatos de trabalhadores, mas através de um estado forte, poderoso, impositor da ordem, capaz de julgar e inspirar, com um forte teor patriótico-nacionalista, para reconduzir a Itália a seus grandes dias do passado.

Acreditando na ordem imposta pela força bruta das armas, os fascistas se inspiravam na autoridade aos moldes do Império Romano. Vestiam camisas negras, combatiam grupos de socialistas, atacavam a própria polícia, feriam adversários, e tomavam o controle de repartições públicas usando a força. Em outubro de 1.922, o movimento chegou a reunir 50 mil "Camisas-Negras" nas ruas para desafiar armados a seus rivais.

Com um poder crescente, Mussolini estava em Milão quando recebeu um telegrama o convocando a ir a Roma, a convite do rei, para que fizesse parte de seu gabinete de segurança pública a fim de controlar as forças armadas junto a outros heróis de guerra. Seis semanas mais tarde, o parlamento italiano concedeu a ele e seu gabinete, por ampla maioria (rejeição apenas de socialistas e comunistas), o direito de governar por decreto durante um período de um ano sem precisar prestar contas ao parlamento. A Itália estava oficialmente sob um regime autoritário! Dissidentes foram deportados, as greves proibidas, e houve interferência nas universidades e censura nos meios de comunicação. Foi sob este autoritarismo que a Itália se reergueu do caos, passando a obter crescimento econômico e redução dos níveis de desemprego. Por conquistar o fim da desordem social, Mussolini ganhou a simpatia da ampla maioria da população, e nas eleições nacionais de 1.924 conquistou uma expressiva vitória por voto popular. Era o início a um processo de controle autoritário e antidemocrático que perduraria até o desenrolar dos fatos da Segunda Guerra Mundial.

Na Rússia a bandeira era outra, mas igualmente totalitária, sustentada por um autoritarismo extremo. Lá, as pessoas passaram a ter medo de expressar as suas ideias, pois se o governo suspeitava que qualquer cidadão tinha pensamentos considerados subversivos a respeito de assuntos como política, religião, economia, literatura e artes, tais cidadãos eram presos. Assim, vizinhos e familiares se viraram uns contra os outros! O Regime Bolchevique assumiu o nome de Regime Comunista e declarou guerra à classe média (antiga burguesia) e à elite ligada ao antigo Regime Czarista. Em novembro de 1.918, no jornal "Terror Vermelho", um chefe da polícia secreta declarava: "não são necessárias provas para justificar uma alegação de que um membro destas classes mais ricas havia agido com palavras ou atos contra o poder soviético".

Este experimento socialista às vezes estagnava, às vezes progredia, e às vezes estagnava novamente. De início, a maior parte das indústrias nas cidades foi nacionalizada e estatizada. Bancos, ferrovias privadas, estaleiros e grandes fábricas passaram a ser gerenciados pelo governo. Com alguns golpes de caneta, foi feito o maior confisco de propriedades da história da humanidade. As fábricas menores foram poupadas e permaneceram privadas. A liberdade religiosa foi atacada, e o cristianismo se tornou vítima de escárnio oficial. Muitos bispos e padres da Igreja Ortodoxa foram presos ou assassinados, porque eram considerados inimigos da revolução, o que de fato é irrefutável que eram.

As condições econômicas não tardaram em se deteriorar, com a moeda local perdendo valor. Os produtores muito rapidamente perderam interesse em produzir excedentes, já que não havia por que fazer um esforço pelo qual não seriam remunerados. Começou a haver crises de abastecimento. Embora a sociedade russa fosse predominantemente agrária, diante deste desabastecimento de produtos agrícolas que gerou crises de fome em diversas cidades, Lenin teve que admitir que os fazendeiros estavam passando por uma "crise extraordinariamente aguda", o que o levou a rever as normas do regime, ao menos temporariamente. Em março de 1.921, a política mudou, e os camponeses voltaram a receber incentivos para plantar e para vender parte de sua produção em mercado aberto, por fora do centralismo governista, no que foi chamada de Nova Política Econômica. Porém, uma severa seca impediu que a flexibilização surtisse efeito e a severa fome só foi aliviada pelo recebimento de produtos alimentícios enviados pelos Estados Unidos.

Lenin morreu em 1.924, aos 54 anos de idade, vítima de um derrame. Seu corpo foi embalsamado e colocado num mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. Ele havia triunfado graças a seu perfil focado em ações pragmáticas e de correção ideológica. Com a sua morte, qualquer reformismo foi deixado para trás. Seu mais provável sucessor natural parecia ser Leon Trotsky, mas este acabou sendo posto de lado e sendo expulso da Rússia cinco anos mais tarde. Trotsky acabou assassinado na Cidade do México em 1.940 por ordem daquele que veio a ser o efetivo sucessor de Lenin, um outro homem que usava um pseudônimo: Joseph Dzhugashvili, nascido nas montanhas do Cáucaso, na Geórgia, que havia mudado seu nome para Stalin, que significava literalmente "Homem de Aço". Ele acreditava que era o momento de reacender a chama do comunismo, e de transformar a União Soviética - um populoso país essencialmente rural - numa potência mundial.

Ele produziu em 1.928 uma campanha, a qual chamou de Plano Quinquenal, para produzir mais eletricidade, maquinário pesado, ferro, aço e carvão. Todas as metas foram atingidas em menos de 5 anos, sendo sucedido por um novo Plano Quinquenal. As grandes cidades foram dominadas pelo barulho de martelos mecânicos, serras elétricas, britadeiras, rolos compressores, guindastes e motores. Entre 1.928 e 1.940, a produção de aço, cimento e carvão da União Soviética quadruplicou. Em 1.939, o país estava em 3º lugar entre as potências industriais do mundo, um feito impressionante. O nível de alfabetização - baixíssimo no tempo dos czares - tornou-se praticamente igual ao da maioria da Europa Ocidental. A educação, avançada e técnica, era gratuita e atraía uma grande quantidade de jovens. Os serviços de saúde eram muito mais amplos e de melhor qualidade do que os de 25 anos antes.

Entretanto, isto ainda não os livrou de sérios problemas econômicos. Em 1.929, cerca de 25 milhões de pequenas fazendas familiares foram tomadas das mãos dos pequenos produtores camponeses em nome do povo (muitos destes camponeses foram assassinados sob a acusação de serem capitalistas), com as terras transformadas em fazendas coletivas inicialmente sendo intensivas em mão-de-obra, e gradativamente sendo mecanizadas, visando uma maior capacidade de produzir mais comida. As fazendas coletivas eram completamente destituídas de incentivos para que as pessoas se empenhassem, e a produção rapidamente sofreu uma queda vertiginosa, com o modelo de produção logo passando por problemas de eficiência na capacidade de gerar comida suficiente para abastecer a toda a população. Em decorrência da desordem rural no início dos Anos 1.930, uma nova onda de fome se instalou, e cerca de 10 milhões de pessoas morreram por falta de comida na União Soviética neste período, quantidade aproximadamente equivalente ao total de mortes da Primeira Guerra Mundial. Toda esta história de sucessos e fracassos das vertentes autoritárias de governo na Itália e na Rússia os levaram a ambições imperialistas.

Assim também aconteceu no terceiro país europeu que se embrenharia numa vertente de autoritarismo, aquele que viria a ser a peça central por detrás da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Antes de chegar a ele, porém, é necessário abrir um parêntese para falar dos acontecimentos econômicos de 1.929 que eclodiram nos Estados Unidos, os quais jogaram a economia mundial numa profunda espiral recessiva, aquela que daria o molho final aos descontentamentos e aspirações de retomada da grandeza de outrora que transformaram os descontamentos com os acordos de paz pós Primeira Guerra no combustível de eclosão da Segunda Guerra. Foi gasolina lançada à fogueira!

A Primeira Guerra Mundial havia enfraquecido à Europa de tal forma, que sua participação no total da população e da economia mundial havia caído consideravelmente. O centro das finanças global se mudou para os Estados Unidos da América. A dívida nacional da Grã-Bretanha aumentou 11 vezes, as de França e Itália 6 vezes. Todos os preços subiam enormemente, tendo havido hiperinflações em Áustria, Polônia, Rússia e Alemanha. Pela primeira vez a economia dos principais países europeus dependia de Nova Iorque, que como centro econômico-financeiro emergente não tinha a mesma experiência para enfrentar crises do que Londres. E o que aconteceu em 1.929 superou a qualquer outra crise econômica vista antes dela. Numa conjuntura na qual era absurdamente fácil tomar dinheiro emprestado para comprar ações na bolsa de valores, a especulação desenfreada criou uma bolha de negócios sem lastro. Em 24 de outubro de 1.929, a Bolsa de Valores de Nova Iorque abriu ativamente, sem dar sinais de problemas. Então por algum motivo - real ou não - uma histeria se alastrou e levou a uma corrida por venda de ações, levando a uma queda brusca e acelerada nos preços das ações que só aumentava a cada hora que passava. Naquele dia, o número total de ações negociadas no pregão superou em 50% o total negociado em qualquer outro dia, antes e depois, na história da bolsa. O colapso levou a uma sequência de falências de empresas, causando a mais forte retração econômica já vista, a qual se alastrou por todo o planeta. Esta recessão deu margem a várias mudanças políticas induzidas por ela por todos os lados: na América Latina, por exemplo, em 1.930 e 1.931, longas greves, marchas pelas ruas, e protestos violentos, tornaram-se frequentes, levando à derrubada de governo em 11 de seus 20 países.

Foi a depressão econômica mundial que levou o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, e seu líder Adolf Hitler, ao poder, depressão que também prejudicou de tal modo a moral e a orientação tanto de França quanto de Inglaterra, que os dois países perderam o controle sobre a Alemanha, permitindo o seu rearmamento em uma época na qual seria possível ter evitado isto. O afrouxamento aconteceu também porque o mundo vivia uma fase de conflitos bélicos raros. Entre 1.920 e 1.939 ocorreram guerras restritas a poucas nações, e guerras curtas, tendo havido três casos como exceção: a guerra implacável entre Grécia e Turquia no início dos Anos 1.920, a qual matou cerca de 50 mil pessoas, a Guerra do Chaco nas planícies da América do Sul, entre 1.932 e 1.935, envolvendo Paraguai e Bolívia, a qual deixou cerca de 130 mil mortos, e uma guerra entre China e Japão iniciada em 1.937.

Na Ásia oriental, em 1.931, o Japão havia invadido e conquistado a Manchúria, o que foi um prelúdio de sua invasão à China em 1.937. As maiores agitações bélicas efetivas, porém, estavam acontecendo longe da Eurásia: em 1932, Bolívia e Paraguai entraram em guerra, assim como Peru e Colômbia, e em 1933, os australianos do oeste tentaram dividir a Austrália em dois países. Distúrbios pequenos para a escala de acontecimentos globais que estava em marcha.

Com a Crise de 29, todo o capitalismo mundial ficou uma desordem. A grande maioria das cidades da Europa mantinha cinturões de pobreza extrema e um grande número de desempregados. Durante os Anos 1.930, as crises de abastecimento e fome em solo russo eram tidas por muitos europeus como meros acidentes de percurso, com a Rússia comunista passando a ser aclamada como a fórmula para o futuro, com discursos exaltando as fazendas coletivas e as cidades-jardim da União Soviética como um "imediato e enorme sucesso a ser copiado" em todo o Ocidente.

A “Grande Depressão” deixou marcas em um país da Europa em especial: a Alemanha. Desde 1.918 sua economia dava sinais de vulnerabilidade. A obrigação de pagar grandes reparações de guerra a seus inimigos vitoriosos foi um golpe de longo prazo em sua estabilidade. Sua economia foi ficando cada vez mais enfraquecida. Era uma nova realidade após o "Milagre Econômico Alemão", que entre 1.850 e 1.914 havia levado a nação ao topo do poder econômico europeu. Quando a Áustria-Hungria e a Alemanha começaram a ter problemas com a Rússia e a Sérvia, muito do apoio de França e Inglaterra aos russos foi um contraponto cujos reais interesses eram econômicos, na luta para manter espaços que cada vez mais a emergente economia alemã lhes tomava.

Esta debilidade econômica na Alemanha deu margem ao surgimento de novas lideranças no país: Adolf Hitler nasceu na cidade de Braunau, na Áustria, onde teve oportunidades de acesso à educação na infância acima da média para os padrões de seu tempo. Na adolescência, seguiu carreira em belas artes, tendo chegado a Viena aos 16 anos, onde teve uma carreira de pouca expressão como pintor. Mudou-se então para Munique, na Alemanha, e logo no início da Primeira Guerra Mundial se alistou no exército, seguindo para combater na frente oriental. Ele era o responsável por carregar mensagens entre as trincheiras, uma das tarefas mais arriscadas em meio às balas disparadas e as bombas explodindo. Chegou ao posto de cabo, mas acabou incapacitado pela exposição a gases tóxicos.

O destino final da Alemanha ao fim da Primeira Guerra o deixou consternado, sentindo-se traído pelos líderes da nação. Buscou então à política para através dela ajudar a reerguer o seu país, assumindo a liderança de um pequeno grupo bávaro que foi batizado como Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, com o qual organizava palanques na rua, onde afinou a sua capacidade como orador. Tentou derrubar o governo da Baviera e acabou preso. Na prisão escreveu um manifesto combinando suas memórias e propostas de solução dos problemas do país - o livro Mein Kampf ("Minha Luta", traduzido) - publicado em 1.925 e adquirido por somente algumas centenas de leitores.

Após a sua saída da prisão, Hitler voltou a se dedicar a seu partido, mas o mesmo ocupava uma posição baixa no segundo escalão do cenário político alemão, tendo em sucessivas eleições alcançado apenas uma pequena fração do total de votos. Sua promessa imutável era a de que tornaria a Alemanha grande novamente. A sua principal bandeira era o ataque ao comunismo, ao qual chamava de "conspiração judaico-bolchevique".

Quando a Depressão pós-1929 se alastrou, a Alemanha foi duramente atingida, mais do que qualquer outro grande país. Em 1.932, o rendimento industrial alemão regressou a 60% do nível que existia em 1.929. Em Berlin, Dresden e outras grandes cidades, multiplicava-se a quantidade de pessoas vestindo farrapos lutando pela subsistência nas ruas. A taxa de desemprego alcançou 30% da população. Hitler emergiu então como quem oferecia patriotismo e ações firmes. Nas eleições de 1.932, seu partido obteve surpreendentemente 18% dos votos. Numa votação seguinte no mesmo ano subiu para 37%, com o Partido Nazista obtendo a maior votação dentre todos. Em janeiro de 1.933, Hitler foi convidado para o cargo de chanceler alemão (equivalente a primeiro-ministro) em um governo de coalizão. Em agosto de 1.934, com a morte do então presidente, Adolf Hitler foi eleito com 88% dos votos para o cargo, uma vitória esmagadora!

O governo alemão passou a se utilizar massivamente do gasto público, enquanto os demais países buscavam economizar, e assim a prosperidade econômica de curto prazo se instalou com o seu governo, com o desemprego caindo drasticamente, passando a ser o mais baixo do mundo industrializado no início de 1.935.

Em paralelo, aos poucos Hitler foi mutilando à democracia alemã: os outros partidos foram extintos, os sindicatos esmagados, o medo de ser espancado, aprisionado ou humilhado em público havia se tornado parte de um novo estilo de vida. Não era fácil protestar contra a ascensão de um ditador implacável, enquanto a esperança na economia germinava e levava a crer que a Alemanha voltaria a seus dias de glória anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Hitler estava rearmando a Alemanha sem fazer segredo. Em 16 de março de 1.935, ele simplesmente anunciou unilateralmente que o Tratado de Versalhes já não era mais válido, não havendo mais restrições ao rearmamento alemão. Três meses mais tarde, conseguiu convencer a Grã-Bretanha a deixá-lo reconstruir a sua marinha até um terço da marinha inglesa. No ano seguinte, enviou seu exército para reconquistar a Renânia, sendo bem-sucedido. Em 1.938, anexou partes da Áustria e da Tchecoslováquia. Ao mesmo tempo seu antissemitismo se manifestava cada vez mais forte: os judeus controlavam as principais instituições da economia alemã. Contra as imposições capitalistas destes ao povo alemão, seu governo lançou decretos que restringiam os direitos civis de qualquer judeu, que deixava de ser considerado cidadão da Alemanha. Ciganos e homossexuais logo também se tornaram alvos de seus decretos. Este modelo, de forma mais branda, também foi seguido por Mussolini na Itália, e é verdade que tinha simpatizantes em todos os países da Europa.

Como já dito, o Tratado de Paz de Versalhes ao fim da Primeira Guerra nunca havia sido bem digerido por Alemanha e Rússia, que ainda consideravam ter perdido alguns territórios que entendiam ser sua posse por direito. Vinte anos depois tais ressentimentos levaram a uma aliança insólita, ainda que de lados ideologicamente opostos, a Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin se aliaram para recuperar os territórios que entendiam por direito ser seus. Em 1.939, as duas potências combinaram secretamente invadir a Polônia para dividi-la entre elas. Um pacto que aturdiu à Europa. A Polônia era uma das maiores nações europeias, formada a partir de territórios tomados de três grandes nações: Alemanha, Império Austro-Húngaro e Rússia, também contava com o maior contingente de judeus na Europa.

Em 1º de setembro de 1.939, Hitler invadiu a Polônia. Quinze dias depois foi a vez da Rússia completar a invasão. Os russos foram além e retomaram parte da Finlândia. Grã-Bretanha, França, Canadá, Austrália e Nova Zelândia se puseram imediatamente contrários à aliança, mas decidiram num primeiro momento não agir militarmente.

Na primavera de 1.940, o apetite conquistador de Hitler cresceu, e a Alemanha invadiu e conquistou Dinamarca e Noruega em abril, Holanda e Bélgica em maio, e se preparou para invadir a França. A Grã-Bretanha demorou a intervir, e os franceses tiveram que se defender sozinhos. Em uma ou duas semanas, as divisões motorizadas do exército alemão atravessaram terras nas quais durante os quatro anos da Primeira Guerra os combates tinham se tornado um beco sem saída. Rapidamente o exército alemão se aproximou de Paris, enquanto um exército civil de refugiados franceses fugia a pé para o sul, levando o que podiam de seus bens. Em 14 de junho de 1.940, os primeiros soldados alemães começavam a entrar na capital francesa. Quase toda a Europa Ocidental estava então em poder de Adolf Hitler, exceto alguns países como Espanha, Portugal, Irlanda, Suíça e Suécia, nações mais ou menos neutras. Em 8 de agosto foram iniciadas as ações para derrubar a Grã-Bretanha, tendo sido lançados bombardeios a áreas militares e de logística da Inglaterra e da Escócia. Em setembro houve ataque a Londres, com 400 aviões atacando a cidade. Ao longo da história, centenas de cidades tinham sido sitiadas e atacadas por artilharia, mas esta era a primeira vez na qual o coração de uma grande metrópole podia ser bombardeado diretamente pelo céu!

Logo após a queda de Paris, Stalin invadiu e tomou Lituânia, Letônia e Estônia. A Europa estava praticamente toda dividida entre alemães e seus aliados por um lado, e pelos russos de outro. De um lado, a Alemanha - com apoio de Itália, Hungria e Bulgária - tinha anexado parte da Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, Romênia, Iugoslávia e Albânia, além de Noruega e Dinamarca. Do outro lado, a Rússia tinha anexado a outra parte da Polônia, Ucrânia, Lituânia, Letônia, Estônia e Finlândia. Permaneciam neutros: Turquia, Suíça, Suécia, Espanha e Portugal. Apenas a Grã-Bretanha e o que havia sobrado da França resistiam. O alvo seguinte de Hitler era o Mar Mediterrâneo: em abril de 1.941 o exército alemão invadiu a Grécia, tomando a cidade de Atenas, e em maio tomou a ilha de Creta. Forças alemães, com apoio das tropas italianas de seu aliado, Benito Mussolini, preparavam-se para tomar o Egito, e assim dominar ao geograficamente estratégico Canal de Suez.

Mas a amizade entre Hitler e Stalin era oportunista. Ambos sempre desconfiaram um do outro. Suas ambições territoriais colidiam. O pacto ruiu em 22 de junho de 1.941, quando Hitler decidiu iniciar uma invasão à União Soviética. Durante os primeiros meses seu exército não encontrou obstáculos e conseguiu avançar rápido. Mas acabou contido por fatores naturais, a partir da chegada do inverno.

O ano de 1.941 foi chave para os rumos da guerra dali até o seu final. Inspirado pelo poder nacionalista e bélico dos alemães, os japoneses decidiram repetir o seu modelo para dominar a Ásia e a Oceania. Aproveitando a oportunidade militar, o Japão, com suas aspirações expansionistas, aliou-se a Hitler para sufocar a Rússia, aspirando invadir a União Soviética pelo leste asiático. Em Tóquio, os líderes japoneses viram que a Rússia estava fragilizada e enxergaram aquela como uma formidável oportunidade de aniquilar a seu inimigo histórico. Ao mesmo tempo aspiraram uma expansão territorial pelo Oceano Pacífico, decisão que viria a ser crucial para o rumo da Segunda Guerra Mundial.

A invasão da Rússia, a chamada “Operação Barbarossa”, em junho de 1.941, foi o último ato de triunfo da Alemanha de Adolf Hitler. Além de que o ataque à União Soviética levou, obviamente, os russos a mudarem de lado, aumentando a quantidade de oponentes à Alemanha, a logística para alimentar as duas frentes de batalha começou a gerar efeitos pelas longas distâncias que eram necessárias serem percorridas para o reabastecimento de munições. Além da mudança de lado dos soviéticos, um outro marco em 1.941 marcaria um novo rumo para a guerra, a entrada dos Estados Unidos no conflito.

Na manhã de 8 de dezembro de 1.941, o Japão atacou à base naval dos Estados Unidos de Pearl Harbor, numa ilha remota do arquipélago do Havaí. Secretamente, 6 porta-aviões japoneses cruzaram o Oceano Pacífico e iniciaram um ataque que destruiu centenas de navios e aviões norte-americanos. A única frustração japonesa é que os 3 porta-aviões dos Estados Unidos estavam em alto-mar na manhã daquele ataque, não tendo sido destruídos, como planejado, pelos submarinos do Japão.

Em 25 de dezembro de 1.941, o Japão tomou Hong Kong, e em 1º de janeiro de 1.942 invadiu às Filipinas e tomou sua capital, Manila. Na sequência se apoderaram de metade da Península da Malásia. Em 15 de fevereiro, tomaram Singapura. Em março, tomaram a ilha de Java, conquistando as Índias Orientais Holandesas. Rapidamente se aproximaram da Nova Guiné, e bombardearam portos australianos. Foi aquela que ficou sendo chamada de Guerra do Pacífico - dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial - tendo o Japão vencido batalhas contra os exércitos de Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e Austrália. O próximo passo seria atacar à Índia? Os rumos dos conflitos no Oceano Pacífico, no entanto, mudaram quando os Estados Unidos conseguiram decodificar as mensagens secretas japoneses. Com esta estratégia, conseguiram afundar a todos os porta-aviões do Japão, enquanto tinham perdido apenas um porta-aviões, conseguindo assim diminuir as chances de uma vitória nipônica.

No início de 1942, Adolf Hitler definiu uma nova missão: exterminar aos judeus, não apenas na Alemanha, mas em todos os países que havia ocupado, naquela que batizou como "Solução Final", e que ficaria registrada na história como "Holocausto". Os judeus passaram a ser enviados em trens para campos de concentração, onde passaram por experimentos científicos e/ou foram friamente executados, assassinados a sangue frio. Sustentando-se em ideologias eugênicas e no chamado “Darwinismo Social”, a Alemanha Nazista executou quase 6 milhões dos 9 milhões de judeus que viviam na Europa, além de ter executado outras 4 a 5 milhões de pessoas, entre homossexuais, ciganos, pessoas com doenças mentais e más formações no corpo, e prisioneiros de guerra.

Naquele mesmo ano de 1.942, a Alemanha começou a provar de seu próprio veneno: primeiro quando a Grã-Bretanha lhe impôs pesados bombardeios que destruíram a cidade de Colônia (Koln), e depois com os Estados Unidos tendo castigado Berlim com bombardeios ainda maiores naquele mesmo ano. Estes bombardeios acabaram com a produção industrial alemã. Em paralelo, no fim do ano as tropas alemãs foram expulsas do norte da África, e no verão de 1.943 as tropas aliadas tomaram a ilha da Sicília, imediatamente iniciando uma incursão pelo território da Itália.

O golpe final foi dado em 6 de junho de 1.944, quando se deu o "Dia D", com a invasão da Normandia realizada pela maior expedição naval da história, envolvendo 7 mil embarcações e centenas de aviões, desembarcando num primeiro momento a 133 mil soldados e outros 23 mil paraquedistas na costa francesa. No total, nas semanas subsequentes, cerca de 800 mil soldados aliados partiram para reconquistar a França e a Bélgica. Paris foi retomada no fim de agosto e Bruxelas duas semanas depois, reconquistas que iniciaram a derrocada definitiva da Alemanha.

Na outra frente de guerra, castigadas pelo rigoroso inverno, as tropas alemãs começaram a sofrer subsequentes derrotas para as tropas russas. Iniciou-se uma corrida em direção a Berlim. Todos sabiam que a reconquista de territórios definiria o direito de controle após a guerra. Estados Unidos e União Soviética avançavam derrotando as tropas alemãs que encontravam pelo caminho. Ali se iniciava a bipolaridade hegemônica que ditaria as ordens no planeta pelas décadas seguintes. Sitiado por todos os lados, e com a União Soviética já em processo de invasão de Berlim, em 30 de abril de 1.945, Hitler teria cometido suicídio numa base alemã. Dois dias depois os russos consumaram a invasão a Berlim. Em 7 de maio, a Alemanha se rendeu incondicionalmente.

A Segunda Guerra Mundial estava concluída na Europa, mas ainda não se conhecia o vencedor nem no leste da Ásia nem nos litorais do Oceano Pacífico. Partes dos territórios invadidos tinham sido retomados pelos aliados, mas ainda não havia condições para uma incursão que invadisse e derrotasse de forma definitiva ao Japão. Foi então que uma arma secreta de destruição em massa entrou em ação pela primeira vez na história.

Os Estados Unidos estavam numa corrida para desenvolver tal arma através do chamado “Projeto Manhattan”, o qual juntou cientistas com relações próximas ao povo judeu que tinham migrado para a América, todos com a disposição de construir uma arma capaz de aniquilar à Alemanha Nazista de Adolf Hitler. O alvo, porém, acabou vindo a ser outro.

Em 1.939, o judeu-alemão Albert Einstein escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos sobre o poder de destruição de uma bomba com reação nuclear em cadeia. Ali se iniciaram as pesquisas que levaram ao desenvolvimento da bomba, feitas pelo italiano Enrico Fermi, migrado para a América junto à esposa judia e seus dois filhos. O chefe da operação era o norte-americano filho de judeus Robert Oppenheimer, em cuja equipe estavam o judeu-húngaro Edward Teller e o judeu-austríaco Isidor Rabi, entre outros cientistas.

Somente em 2 de dezembro de 1.942 o reator nuclear ficou pronto, e o primeiro experimento foi programado. Mas foi somente em 1.945 que a bomba ficou completamente pronta e em condições de ser utilizada. Com a guerra vencida na Europa, e incertezas sobre os destinos dos campos de batalha no Pacífico, definiu-se por um lançamento sobre o Japão que fosse suficientemente impactante para acabar prontamente com a Segunda Guerra Mundial.

Para lançar a bomba, era necessário um avião bombardeiro pesado e de longo alcance. Foi escolhida a superfortaleza voadora B-29, capaz de voar 3 quilômetros até seu alvo e retornar à base (escolhida como sendo a ilha de Tinian, do arquipélago das Ilhas Marianas). Em 6 de agosto de 1.945, a primeira bomba foi transportada da Califórnia para lá de navio. O alvo foi escolhido num último instante: Hiroshima, a 8ª maior cidade japonesa. Às 8:15h da manhã no horário local, a bomba foi lançada, causando a maior explosão concebida até então pelo engenho humano na história mundial. A bomba, de imediato, instantaneamente, deixou quase 100 mil mortos e 70 mil feridos.

Ainda assim, os líderes japoneses não deram sinal de estar cogitando uma rendição. Três dias depois, em 9 de agosto de 1.945, uma nova bomba foi lançada, desta vez sobre a cidade de Nagasaki. Estima-se em mais de 50 mil os mortos nesta nova explosão. Entre as duas explosões, a União Soviética declarou guerra ao Japão, invadindo o território da Manchúria. Pela soma destes fatores, em 14 de agosto o Japão se rendeu incondicionalmente. A Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, deixando um saldo de 80 milhões de mortos.

Juntando a todo o período de 1.914 a 1.945, as mortes bélicas causadas de forma direta pelos conflitos armados, e as mortes causadas por efeitos indiretamente derivados destes conflitos, como a pandemia de gripe e os ciclos de fome na União Soviética, foram bem mais de 150 milhões de seres humanos que morreram, na maior mortandade antropogênica já vista na Terra.

Politicamente, as duas grandes guerras estão diretamente correlacionadas. Restringindo a uma macrovisão das principais potências econômicas envolvidas: a primeira por uma união oportunista de Inglaterra e França que se juntaram à Rússia contra a Alemanha, e a segunda por uma união oportunista da Rússia à Alemanha que acabou se voltando contra Inglaterra e França, com as influências políticas globais a partir de então sendo regidas pelo lado vitorioso ao fim da Segunda Guerra Mundial, e sob a ameaça de uma nova arma capaz de um poder de destruição nunca antes visto através de ações de seres humanos.

O planeta passou a estar então ideologicamente fragmentado entre duas visões econômicas e sociais, uma sustentada em desigualdades decorrentes das diferenças de habilidades humanas, as bases do capitalismo, cujo líder político global eram os Estados Unidos da América, e outra sustentada em igualdades independentes às diferenças de habilidades humanas, as bases do socialismo-comunismo, cuja líder política global era a União Soviética. Ambas soluções que carregavam alguma forma de injustiça nas relações humanas coletivas.

Militarmente, o primeiro choque entre estas ideologias na disputa por poder no pós-guerra se deu com o desencadeamento da Guerra da Coréia. Aquela região havia sido governada pelo Japão de 1.910 a 1.945, num período expansionista deste iniciado justamente após a vitória militar obtida sobre a Rússia no início do Século XX. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética invadiu e tomou o território da Coréia do Norte, e lá estabeleceu uma república comunista. Em 25 de junho de 1.950, a Coréia do Norte, com apoio militar da Rússia e da China, invadiu o território da Coréia do Sul, ato que oficialmente deu início ao contexto de conflito entre a capitalista Coréia do Sul e a comunista Coréia do Norte. O conflito se arrastou até julho de 1.953 e deixou mais de 900 mil mortos, sendo cerca de 750 mil do lado nortista. Sem que conseguisse uma resolução para o impasse, foi assinado um armistício que deu fim ao conflito e dividiu a Coréia em duas.

Assim, na Eurásia estava consumado um Bloco Comunista desde o Mar Adriático, na Europa, até o Oceano Pacífico, começando a partir da Alemanha Oriental, e reunindo Polônia, Tchecoslováquia, parte da Áustria, Hungria, Iugoslávia, Albânia, Bulgária, Romênia, União Soviética, China e Coréia do Norte. Na Europa, o Bloco Capitalista reunia Alemanha Ocidental, Itália, França, Grã-Bretanha, Espanha, Portugal, Bélgica, Holanda e os Países Nórdicos a oeste, e Grécia e Turquia a leste, enquanto no outro extremo da Eurásia, este era o modelo ideológico em Japão e Coréia do Sul. Um reordenamento regido por diversos conflitos militares.

Em meio a este jogo de tabuleiro global que ficou conhecido como "Guerra Fria", o comunismo fincou importante bandeira na América Central. Cuba era uma ilha que abrigava 7 milhões de habitantes. Uma revolução em 1.933 fez emergir a liderança militar de Fulgêncio Batista, que veio a ser eleito presidente. Em 1.959 foi outro líder quem o derrubou: Fidel Castro, um estudante de colégio jesuíta na juventude e formado como advogado, que tinha vivido refugiado no México. Em 1º de janeiro de 1.959, com apoio de armamentos dos Estados Unidos, ele invadiu a ilha pela mata densa e conseguiu dar um golpe de estado que acabou com o regime ditatorial comandado por Batista. Consumada a tomada de poder, sua primeira decisão foi confiscar as grandes propriedades e nacionalizar os bancos e os grandes engenhos de açúcar, para a surpresa dos norte-americanos que o tinham apoiado e financiado. A ideologia comunista conseguia a sua primeira grande vitória nas Américas.

Como contra-ataque, os Estados Unidos deram treinamento militar e armamentos a cerca de 1.500 exilados cubanos, que em abril de 1.961 tentaram uma desastrosa invasão a Cuba - a Invasão da Baía dos Porcos (Bahia de los Cochinos) - que fracassou. Como vingança, Fidel Castro abriu seu território para a instalação de uma base militar da União Soviética, a partir da qual os russos poderiam atacar o território norte-americano. Em 10 de outubro de 1.962, um avião de espionagem dos Estados Unidos identificou a presença de 10 mísseis soviéticos em Cuba, todos com capacidade para alcançar Washington. Era impossível saber se eles carregavam ogivas nucleares ou não.

Esta "Crise dos Mísseis" levou o mundo a temer a possibilidade de início de uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear com potencial para efetivamente destruir a toda a civilização humana no planeta. Em 23 de outubro de 1.962, 20 navios soviéticos foram vistos se aproximando do bloqueio naval norte-americano protegidos por um submarino. Uma das embarcações certamente levava ogivas nucleares. Em paralelo, a Europa se preparou para defender um eventual ataque a Berlim Ocidental. Uma nova guerra parecia iminente. Após dias de grande tensão, em 26 de outubro os norte-americanos sinalizaram com o fim do bloqueio naval ao território cubano e deram garantias de que não invadiriam a ilha, e os soviéticos dois dias depois aceitaram os termos, com suas embarcações recuando e se afastando de Cuba.

O jogo de tabuleiro ideológico na América Latina só cresceu desde então, com um aumento da quantidade de simpatizantes ao comunismo e à União Soviética. Como resposta, os Estados Unidos deram incentivos - através da batizada como "Operação Condor" - para a instauração de Ditaduras Militares nos países da região para garantir os direitos das propriedades privadas que sustentavam o modelo capitalista nestes países. Houve golpes de estado em 1.964 no Brasil e na Bolívia, em 1.966 na Argentina, em 1.968 no Peru, em 1.973 no Chile e no Uruguai, e um novo golpe na Argentina em 1.976. Já o Paraguai vivia sob um regime de ditadura militar desde 1.954. Foi um período de combates militarizados de enfrentamento à entrada do comunismo na América do Sul, onde ao fim prevaleceu o modelo capitalista.

Um ano após a "Crise dos Misseis", um acontecimento em Dallas, no estado do Texas, nos Estados Unidos, voltaria a gerar tensões políticas globais e o receio de um novo conflito bélico de grandes proporções. Em 22 de novembro de 1.963, o presidente norte-americano John Kennedy foi assassinado com um tiro na cabeça enquanto desfilava em carro aberto. O assassino detido, o norte-americano Lee Oswald, havia vivido na Rússia e no México. Tanto União Soviética quanto Cuba prontamente negaram qualquer vínculo ao assassinato. Nunca se decifrou quem esteve por trás do ato, e a situação foi contornada.

O capítulo seguinte da "Guerra Fria" entre norte-americanos e soviéticos se desenrolou novamente no extremo oriente da Ásia. A Guerra do Vietnã teve semelhanças à da Coréia, uma vez que ambas nasceram de uma divisão do país entre um norte comunista e um sul capitalista. Os conflitos se iniciaram em 1.955, mas tomaram uma maior dimensão a partir de 1.963, quando os Estados Unidos enviaram tropas para lutar ao lado do exército do Vietnã do Sul. União Soviética e China não enviaram soldados, mas forneceram armas e munições.

A superioridade da força aérea norte-americana era enorme, mas só servia para destruir os sistemas logísticos do adversário, não servindo para os conflitos aos moldes de guerrilha que foram travados nas densas florestas tropicais. O país tecnologicamente e militarmente mais avançado do mundo naquele momento não podia usar as suas armas de maior destruição, tendo que levar seus soldados a se embrenhar em uma guerrilha na selva. A guerra inicialmente parecia fácil de ser vencida, mas se tornou paulatinamente perdida. Em 1.973, os Estados Unidos assinaram um cessar-fogo, deram-se por vencidos, e se retiraram do Vietnã. Assim, o seu fim foi diferente ao das Coréias, que tinham terminado segregadas em duas. Com a retirada norte-americana, o Vietnã do Sul foi tomado e incorporado pelo Vietnã do Norte, formando um único país. A Guerra do Vietnã deixou um total de aproximadamente 3 milhões de mortos, sendo 1,3 milhão deles militares e 1,7 milhão de civis. Os Estados Unidos perderam 58 mil militares mortos. Ainda que bastante comemorada, aquela foi a última vitória comunista na Guerra Fria.

Na África também houve conflitos neste mesmo contexto, mas sem uma vitória de um lado ou de outro. Em 1.975 uma revolução comunista rompeu em Angola, só então libertando o país das amarras coloniais de Portugal. O principal apoiador do movimento em termos de envio de soldados foi Cuba, na revolução que representou o primeiro marco significativo de presença do comunismo na África. Desde então o país viveu uma intensa guerra civil, com envolvimento direto de tropas estrangeiras até 1.988. Entre períodos de acirramentos e de pacificações, a guerra civil no país durou de 1.975 até 2.002. Não há estatísticas sobre quantas pessoas morreram neste conflito, mas 4 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar suas residências para fugir das batalhas.

O último capítulo militar envolvendo diretamente às duas potências que lideravam a Guerra Fria se deu em 1.979, a Guerra do Afeganistão, iniciada quando a União Soviética invadiu o país com o qual tinha fronteira para destituir ao regime afegão que dominava o poder. Em situação inversa ao que havia ocorrido no Vietnã, desta vez foram os Estados Unidos quem enviaram armas e munições, mas não soldados. E mais uma vez espelhando o Vietnã, a imensa superioridade militar de um lado perdeu sua vantagem na luta de guerrilha na qual se desenhou o combate. Se os Estados Unidos tinham sofrido com tal estratégia nas selvas do Vietnã, a União Soviética viveu a mesma situação nas montanhas do Afeganistão. A guerra se arrastou de dezembro de 1.979 até fevereiro de 1.989, deixando 2 milhões de mortos. A União Soviética perdeu 14,5 mil soldados mortos (bem menos do que os 58 mil que os Estados Unidos perderam na Guerra do Vietnã). Sem obter sucesso, e sob um custo pesado, a partir de janeiro de 1.987 os soviéticos se deram por vencidos e iniciaram um processo de retirada de suas tropas da região.

Esta situação no Afeganistão carregava um contexto a mais, que era o fanatismo religioso disposto a ir às armas para sustentar as suas crenças frente a nações estrangeiras. Depois da Segunda Guerra Mundial cresceram os conflitos religiosos, em especial no Oriente Médio e seu entorno. Tais divergências partiram e derivaram de um acontecimento em especial: em novembro de 1.947, a Organização das Nações Unidas tentou reparar o sofrimento do povo judeu com o Holocausto imposto por Adolf Hitler, e aprovou a criação de um estado judeu no território da Palestina - estado de supremacia árabe-muçulmana - o qual estava sob ocupação da Inglaterra desde 1.920.

Em 14 de maio de 1.948 foi fundado o estado de Israel. Já no dia seguinte se iniciaram os conflitos, quando Egito, Síria, Jordânia, Líbano e Iraque, apoiados por Arábia Saudita e Iêmen, invadiram o recém declarado território israelense, iniciando a Guerra Árabe-Israelense de 1948, que deixou cerca de 20 mil mortos. O conflito foi vencido por Israel, mas a paz nunca se instaurou em definitivo.

Em maio de 1.967 a tensão no Oriente Médio voltou a se acirrar. O então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, restringiu a circulação de navios de carga israelenses pelo Mar Vermelho sob a alegação: "o objetivo fundamental é destruir Israel". Em 5 de junho de 1.967, a força aérea israelense impôs um bombardeio em áreas militares que destruiu a maior parte da força aérea egípcia. Nasser pediu intervenção da União Soviética, mas os russos fizeram um acordo com os Estados Unidos de que nenhuma das duas superpotências iria intervir no conflito. O acordo foi respeitado. A Guerra dos Seis Dias durou de 5 e 10 de junho, com uma vitória esmagadora de Israel que triplicou o seu território. O conflito deixou 16 mil mortos, 15 mil dos quais no lado das forças armadas árabes.

Mais uma vez uma resolução instaurada que não era definitiva: em 1.972, durante a realização dos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, no dia 5 de setembro o grupo terrorista palestino denominado "Setembro Negro" invadiu a Vila Olímpica, onde ficavam hospedados os atletas de todo o mundo, e fez reféns a 11 integrantes da equipe olímpica de Israel. Uma mal coordenada operação para tentar dar fim ao sequestro terminou com 17 mortos (os 11 reféns israelenses, 5 dos 8 terroristas palestinos, e 1 policial alemão perderam a vida). Em decorrência indireta, em 1.973 o Oriente Médio voltou a entrar em conflito, eclodindo a Guerra do Yom Kippur, quando Egito e Síria cruzaram, respectivamente, as fronteiras no Sinai e nas colinas do Golã, territórios que haviam sido capturados por Israel em 1.967 durante a Guerra dos Seis Dias. Após duas semanas de batalhas vencidas por egípcios e sírios, os israelenses conseguiram impor suas primeiras vitórias e a partir de então obtiveram uma sequência delas durante uma semana, as quais levaram o exército israelense a invadir os respectivos territórios de seus invasores até as proximidades de suas capitais (Cairo e Damasco) forçando um acordo de cessar-fogo. A guerra durou três semanas e levou a mais de 10 mil mortes, sendo 2,5 mil delas do lado vencedor, o israelense.

Durante os Anos 1.970 também passou a existir uma marca de levante nos países islâmicos contra os hábitos ocidentais. A cultura emanada sobretudo dos Estados Unidos, mas também da Europa Ocidental, era rejeitada pelos muçulmanos mais radicais, avessos ao consumismo mercantilista, à propaganda ao consumo de bebidas alcóolicas e drogas alucinógenas, à tolerância com aventuras sexuais descompromissadas e à rebeldia da juventude, todos hábitos que eles consideravam de moral frouxa, propagados pela televisão e pelo cinema.

Os países de religião islâmica não aceitavam a liberdade do Ocidente, sobretudo a tolerância ao papel das mulheres e de homossexuais na sociedade. O maior marco de levante contra tal cultura foi a Revolução Iraniana consumada em 1.979, com a imposição generalizada de condenação à pena de morte a todos aqueles que adotassem costumes contrários à religião islâmica. Em decorrência desta revolução, entre 1.980 e 1.988, o Oriente Médio vivenciou a Guerra Irã-Iraque, um conflito que deixou 1,5 milhão de mortos.

O conflito foi iniciado quando o líder militar iraquiano Saddam Hussein invadiu o território iraniano com aspirações territorialistas de expansionismo, buscando se aproveitar da crise sócio-política vivida pelo país vizinho. Curiosamente - dentro do contexto da Guerra Fria - tanto Estados Unidos quanto União Soviética forneceram armas ao Iraque, pelo desconforto perante o radicalismo religioso imposto por aquela Revolução Iraniana que a partir de 1.978 transformou o Irã de uma monarquia autocrática numa República Islâmica Teocrática, sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini (aiatolá, cujo significado é "sinal de Deus").

A Guerra Irã-Iraque foi uma das cinco guerras mais mortais da história até então, conflitando as duas principais potências militares sunitas e xiitas, uma dissidência teocrático-filosófica que retomava aos tempos da sucessão de Maomé. A cisão entre seus seguidores se deu após a morte de Maomé, em 632 d.C., sem que houvesse a designação de quem seria o seu herdeiro. A luta pela sucessão opôs os xiitas (partidários de seu genro Ali) e os sunitas (apoiadores de seu melhor amigo, Abou Bakr). Esta última corrente se impôs, defendendo a bandeira dos valores tradicionais das tribos árabes, com Abou Bakr sendo nomeado "califa". Só que ele morre dois anos depois, sendo sucedido primeiro por Omar e depois por Otham, que acaba assassinado em 656 pelos xiitas, que elevam Ali ao poder, o qual também acaba vindo a ser assassinado em 661. Desde então o conflito ideológico entre as duas correntes se arrastou por milênios.

Os países de maioria muçulmana formavam um eixo territorial desde o Oceano Atlântico até a Ásia Central, com presenças estendidas pelo Oceano Índico. Todos os países do norte da África eram de maioria muçulmana, sendo eles, de oeste para o leste: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Sudão e Egito, e com a presença também da Somália na ponta leste do continente, mais próxima ao Oriente Médio. Em toda esta extensão de terras, a única exceção era o estado de Israel. Na fronteira com a Europa, a Turquia também era de maioria islâmica. Do outro lado do Oriente Médio, o islamismo era maioria em Afeganistão, Paquistão e nas ex-colônias soviéticas de Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Cruzando a Índia, onde a maioria religiosa era hindu, do lado oposto do país a maioria era islâmica em Bangladesh, assim como era nos arquipélagos do Oceano Índico (entre a Ásia e a Oceania) que formavam a Indonésia.

Em 2 de agosto de 1.990, pouco tempo depois da vitória sobre o Irã financiada pelos Estados Unidos, Saddam Husseim, líder do Iraque, levou seu país a invadir ao vizinho Kuwait. Muito de seu otimismo se sustentava num apoio dos países árabes, ou ao menos de uma neutralidade destes. Ele acreditava que por isso os Estados Unidos não interfeririam, talvez por acreditar que pudesse haver uma possível retaliação da Rússia. O Iraque reuniu 300 mil soldados na invasão, enquanto os Estados Unidos mobilizaram 500 mil de seus soldados na Arábia Saudita. Cinco meses após a invasão ao Kuwait, o Congresso dos Estados Unidos aprovou um ataque ao Iraque, a chamada Guerra do Golfo. Foram apenas seis semanas de combate, com um bombardeio massivo, que ficou conhecido como "Operação Tempestade no Deserto". Em 28 de fevereiro de 1.991, o Iraque estava derrotado e a guerra encerrada. Mais um caso na história humana no qual sonhos com grandes triunfos levaram à cegueira de decisões estratégicas equivocadas.

Foram pouquíssimos os conflitos depois da Segunda Guerra Mundial que fugiram disto, ou de um contexto ideológico político em torno da bipolaridade entre capitalismo e socialismo-comunismo, ou de um conflito religioso. A exceção aconteceu em 1.982 nas Ilhas Falkland (para os argentinos: Ilhas Malvinas), alvo de uma guerra de grandes expectativas. A posse da pequena ilha montanhosa no sul do Oceano Atlântico, então habitada por menos de 2 mil pessoas e defendida por poucos fuzileiros da Marinha Real Inglesa, era reivindicada pela Argentina. Qualquer ajuda da Grã-Bretanha, situada a 13 mil quilômetros de distância demoraria a chegar.

Em 2 de abril de 1.982, soldados argentinos invadiram as ilhas durante a madrugada, tomando-a sem encontrar muita resistência. Num intervalo de poucas semanas partiu da Inglaterra uma frota com dois navios porta-aviões, navios destroieres e de suprimentos, submarinos nucleares e dois navios transatlânticos de passageiros adaptados para transportar tropas. Após sete semanas de traslado esta frota chegou às Ilhas Falkland, e em menos de quatro semanas o conflito chegou ao fim, com 10 mil soldados argentinos se tornando prisioneiros. Mais um caso: o excesso de confiança da Argentina levou-a a levantar estimativas equivocadas e a decisões erradas, falhando na estratégia.

Toda esta história de guerras mostra uma lição que é preciso que seja aprendida para que você saiba lidar com o instinto de competição dos seres humanos: as nações que entravam em guerra confiantes costumavam esperar uma vitória rápida, enquanto as nações que só entravam em guerra depois de muita relutância, mais interessadas em evitar a derrota do que em arrebatar a vitória, sempre pareceram mais conscientes de que poderiam estar embarcando em uma longa luta. Um dos grandes segredos para se saber lidar com conflitos na vida, independentemente do tamanho que estes tenham, é saber escolher quais brigas lutar e quais evitar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Do que se trata...

A grandiosidade da história humana nos mostra toda a tendência estrutural do que nossa espécie construiu neste planeta. Diante do tamanho colossal desta história, pode-se ter a percepção equivocada de que tudo foi uma tendência natural e irreversível. Não foi. Tudo foi o produto de escolhas infinitas de todos aqueles que aqui viveram antes de nós, simplesmente acomodadas pelo mais implacável de todos os tribunais, o tempo. Da mesma forma, o futuro será escrito pelas sementes a germinar das consequências de cada uma das nossas próprias escolhas no presente.

Somos o único que dá sentido às nossas vidas, só precisamos entender as conexões entre a cadência de tudo e as nossas próprias cadências, que são únicas. Tudo está relacionado a termos uma consciência mais ampla de como fazer nossas escolhas e tomar melhores decisões em nossas vidas. Nós construímos uma civilização como espécie, porque fomos capazes de domar aos nossos instintos animais e não deixar que eles nos controlassem, mas que nós os controlássemos, para que nos diferenciássemos de todas as demais espécies animais. Ao mesmo tempo, precisamos entender que o cerne do que nos construiu como humanidade foi a característica animal instintiva que os seres humanos trazem em sua matriz de comportamento, a qual favorece aos que detém uma maior capacidade de formação de laços sociais. Chegamos até aonde chegamos por causa da nossa capacidade de cooperação em grupo.

A nossa natureza nos diz que a nossa vida não pode ser guiada apenas pela razão, havendo que ser guiada também pela emoção. O nosso universo indica para a nossa vida que a prosperidade dela só é encontrada em tudo e em todos quando há equilíbrio e harmonização entre as oposições, num encontro entre a nossa natureza e a nossa humanidade.

Os laços sociais humanos de convivência são sustentados por uma busca por obtenção de paz e harmonia na vida, tentando encontrar um equilíbrio entre a nossa capacidade racional e a nossa estrutura sentimental em alinhamento às nossas referências sociais, que giram em torno dos padrões de comportamento esperados de você. Isto exige que você tenha um centro de consciência forte o suficiente para saber de quais forças externas se afastar e a quais se conectar.

Nossa vida é um processo de mudança contínua, seja do que nos foi culturalmente imposto em nossa formação, seja na essência do nosso "eu", aquilo que diferencia cada um de nós de tudo e todos à nossa volta. Mas sendo parte de uma espécie social de convívio em bando, nem tudo em nossas vidas será uma escolha exclusivamente nossa, cabendo a cada um de nós decidir se a condução deste processo de mudança individual contínua ao longo da vida será decisão própria - pautada por suas próprias escolhas - ou uma decisão de fora para dentro, imposta a nós pela nossa cultura.

O autoconhecimento é fundamental porque é o que nos mostra do que somos capazes, e entendendo quem somos, o que construímos e o que nos tornamos, temos a consciência de nossa capacidade, e é isto o que nos guiará para fazer as melhores escolhas possíveis, aquelas que vem a definir os caminhos e trajetórias que construirão o futuro.

Para encontrar o crescimento pessoal, é preciso buscar reconhecer todos os símbolos manifestados a nós em nossas vidas. Eles chegam a nós através das muitas tradições e crenças humanas a nós transmitidas e apresentadas, cabendo a nós buscar entendê-las, interpretá-las e utilizá-las para nos guiar sobre quais escolhas fazer, aquelas que nos proporcionam crescimento pessoal e nos guiam pelos caminhos que desejamos seguir, aqueles nos quais encontraremos satisfações e nossos verdadeiros propósitos de vida. Entender os símbolos a nós apresentados corresponde à nossa capacidade individual de compreender aqueles indícios que nos ajudarão a entender o sentido de tudo, e nos ajudarão a fazer as escolhas que nos lavam a evoluir. Este, ao final, é o principal propósito de cada uma de nossas vidas.

A capacidade de pensar corretamente é uma arma que vai te proteger com eficácia no momento das escolhas mais difíceis que você precisar tomar. O potencial interior mais elevado que temos é a capacidade de manusear a razão, sem a qual a vida aumenta em muito as chances de ser embrenhada por caminhos tortuosos e confusos. Quanto mais trazemos a sensatez e a correção para o máximo possível de tempo dentro de nossas vidas, mais resultados positivos tenderemos a obter em nosso favor, e menos equívocos tenderemos a cometer com nossas decisões. Uma profunda e constante reflexão a respeito de nós mesmos, e das formas através das quais lidamos com tudo que nos cerca, tendo clareza, coerência e o mínimo de ambiguidades em nossos atos, precisa ser um exercício constante e contínuo ao longo da vida, porque é aquilo que construirá a nossa melhor visão de mundo, aumentando as chances de que o tudo flua a nosso favor.

Precisamos ter consciência de que devemos ter coragem para enfrentar os desafios com os quais nos deparamos e ao mesmo tempo ter sensatez para saber dosar até onde estamos dispostos a assumir riscos, com boas doses de racionalidade e conhecimento, para encontrar a atitude certa para se posicionar e impor limites a tudo, para assim alcançar as conquistas desejadas. Só a sabedoria nos leva às melhores escolhas. É a partir do que vivemos e absorvemos que vamos construir um entendimento daquilo que funciona em volta de nós, e a partir disto vamos moldar a nossa personalidade individual, que estará o tempo todo em transformação, porque precisamos apresentar estes princípios às impressões dos demais com quem convivemos. Na vida, é preciso ter um constante ânimo de aprendiz, estar buscando aprender sempre coisas novas, o tempo todo, porque é isto e somente isto o que nos faz crescer. É necessário estar o tempo todo refletindo, chegando a conclusões, e submetendo estas para aqueles que te cercam, num processo contínuo de apresentar seus pontos de vista e trocá-los com os dos demais, para ensinar aquilo que a vida te mostrou com as experiências que foram só suas, e ao mesmo tempo aprender com as lições de vida que cada um dos demais teve e que são exclusivamente deles, encontrando pontos comuns para que assim estejamos sempre aprendendo uns com os outros e construindo uma coletividade melhor.

A grande lição humana é aprender a lidar com fracassos, que são algo que sempre afeta a todos e a tudo. A lição a ser aprendida é a de que são as respostas às situações enfrentadas que fazem toda a diferença! O que mais importa não é o que acontece conosco, o que mais importa é a forma como reagimos ao que acontece conosco. Ações e inações humanas são aquilo que verdadeiramente fazem a diferença, sempre! O destino repousa em suas próprias mãos e depende substancialmente de suas próprias escolhas! Temos constantemente a oportunidade de aprender com os nossos erros e mesmo os da gente distante de nós, para com eles evoluir, e assim tirar proveito para fazer a diferença, guiando-nos em direção às melhores escolhas que estão a nosso alcance.

As nossas bases de equilíbrio de sustentação se sustentam em: ter coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para suportar o que não pode ser mudado, e sabedoria para saber distinguir uma coisa da outra. Diante de fracassos, há que tirar as lições de aprendizado sobre as escolhas feitas que não deram certo, e seguir em frente na luta para seguir adiante, pois a cabeça não aguenta se nós paramos.

Nós nos desenvolvemos à medida em que focamos no aprimoramento das nossas virtudes e não nos deixamos diminuir pelo que está fora do nosso poder. Devemos aprender com os nossos erros, e a partir disto nos tornar cada vez melhores dentro do que é possível no ambiente no qual estamos imersos. Ao fim de nossas vidas, invariavelmente constatamos que o verdadeiro desenvolvimento humano não está na busca por status, riqueza ou prazeres, mas sim no crescimento interno e na construção de uma vivência harmônica e virtuosa. Há que saber diferenciar o que é meio do que é fim na hora de definir as escolhas que pavimentarão os nossos caminhos, aquele para o qual a nossa trajetória converge para aplicar nosso conhecimento e nossa aprendizagem para transformar a vida e encontrar um sentido maior para a nossa existência. Evoluímos e nos adaptamos continuamente como o agregado coletivo que nos define como humanidade, construindo a tudo, desconstruindo a tudo, e reconstruindo a tudo o tempo inteiro, devendo zelar pela sustentabilidade das soluções que viabilizam a grandiosidade do que alcançamos. É assim que devemos ser também individualmente.

Em nossa caminhada, precisamos saber que é necessário entender racionalmente quais brigas podem ser lutadas e quais são causas perdidas e precisam ser contornadas com outras estratégias que não uma conflitiva, além de ser também necessário um entendimento de quais brigas valem ser enfrentadas e quais não, para realmente só se esforçar e concentrar energias naquelas que realmente valem a pena. E uma vez que o conflito seja encarado, é preciso ter uma inteligência emocional trabalhada e ajustada para superá-lo com a minimização de consequências negativas a serem levadas adiante na vida.

Tudo ao nosso redor nos levará a alguma direção, o que faz a diferença em nossas vidas é o nosso poder de realizar escolhas. Temos a oportunidade de aprender com os erros de gente distante de nós - tanto geograficamente no espaço físico como historicamente no espaço temporal - para tirar proveito, fazer a diferença e nos guiar em direção às melhores escolhas que estão a nosso alcance. O passado é para ser aprendido, o presente é para ser vivido, e o futuro é o único que realmente importa, porque é sobre o único que temos o poder de modificar a partir das escolhas que fazemos agora!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Se há um fator onde este espírito competitivo humano desempenhou papel central foi na eclosão de tantas guerras ao longo da história

O instinto de competição é uma característica intrínseca à natureza humana. A herança de nossa natureza animal primata impulsionou a toda a espécie uma necessidade de competição natural por recursos, parceiros sexuais e status social, moldando assim o nosso comportamento e favorecendo traços como ambição e agressividade, assim como por cooperações estratégicas, uma vez que os seres humanos sempre tiveram comportamento de bando. Como já vimos, a busca por recursos incentivou o desenvolvimento da inteligência e da inovação como caminhos para a obtenção de vantagem adaptativa perante animais maiores, mais fortes e mais ferozes. Por outro lado, a disputa por parceiros alimentou uma valorização de atributos físicos e sociais desejáveis, moldando padrões de atração. E a luta por status fortaleceu hierarquias e dinâmicas de liderança, impulsionando a organização social e o progresso coletivo. O estudo da psicologia entende estes impulsos competitivos como fatores determinantes para o desenvolvimento da personalidade e a construção das relações sociais. Estudos em neurociência indicam que vitórias ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina e reforçando o comportamento competitivo, fazendo o espírito competitivo ser uma constante na raça humana, o qual moldou a construção das sociedades, impulsionou o desenvolvimento, e se tornou um fator presente nas mais diversas esferas da vida social.

Assim como a competição impulsiona o desenvolvimento, quando descontrolada, ela também pode levar a destruição, mortes em massa e sofrimento, pois se há um fator onde este espírito competitivo humano desempenhou papel central foi na eclosão de tantas guerras ao longo da história. A competição por recursos escassos - como terras férteis, água e riquezas - assim como diferenças ideológicas em torno dos modelos de sustentação de organização das sociedades humanas, foram fatores que levaram grupos e nações a entrarem em conflitos para garantir a sua subsistência e a sua prosperidade. A luta por status e poder incentivou disputas territoriais e expansionistas, alimentadas por ambição e ideais nacionalistas. A rivalidade entre culturas e religiões intensificou conflitos, que foram usados como justificativa para dominações. Psicologicamente, foi a tendência humana à lealdade grupal e a uma diferenciação primitiva entre "nós" e "eles", o que criou tensões e hostilidades que tornaram a guerra como uma consequência extrema do instinto competitivo.

Por que os seres humanos tiveram tantos conflitos extremos causadores de guerra? O historiador italiano Luigi de Porto assim definiu: "sempre ouvi dizer que a paz traz a riqueza; a riqueza, o orgulho; o orgulho, a raiva; a raiva, a guerra; a guerra, a pobreza; a pobreza, a humildade; a humildade, a paz; a paz, como já dito, traz a riqueza; e assim por diante; como um perigoso carrossel de orgulho". As guerras normalmente começam quando duas nações discordam quanto à sua força relativa, e normalmente acabam quando as nações envolvidas concordam quanto à sua força relativa. Exatamente como se fossem duas pessoas individualmente se desentendo e medindo forças, a diferença é que envolvendo uma variedade de fatores muito maior. A concordância ou a discordância resultam da combinação do mesmo grupo de fatores, com cada fator sendo capaz de promover a guerra ou a paz.

Para explicar como esta linha tênue de equilíbrio levou às complexidades e ao apogeu em conflitos bélicos no Século XX, há que se considerar o contexto já narrado de impulsão econômica a partir das inovações tecnológicas. Qual destes dois fenômenos (contemporâneos entre si) impulsionou qual: o rápido crescimento da produção industrial ou a grande explosão populacional? O aumento da população estimulou a decolagem industrial, cujas inovações por sua vez estimularam o crescimento populacional? Um não teria chegado muito longe sem o outro, mas onde foi dada a largada? Só trabalhadores de fábrica em massa poderiam operar a decolagem industrial e uma produção em escala mundial, mas só com produção industrial em massa e exportações seria possível sustentar a população crescente. Numa relação entre causas e consequências, a expansão demográfica foi uma consequência dos avanços tecnológicos que permitiram condições mais favoráveis à proliferação da vida humana, ao mesmo tempo em que este crescimento populacional consequente retroalimentava a capacidade de contínua expansão econômica e industrial.

À medida que a capacidade humana de juntar grandes aglomerações cresceu, foram intensificados, na mesma intensidade, o tamanho e a capacidade destrutiva por vias bélicas da civilização humana. Mas há uma enorme complexidade por detrás disto: não é simples mobilizar grandes exércitos de homens para se moverem juntos em direção a um campo de batalha do qual a maior parte deles não sairá com vida. É impossível organizar um exército por meio unicamente da coerção. Comandantes e soldados precisam realmente acreditar em alguma coisa pela qual lutar: família, Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro. Desde tempos muitos remotos tais feitos foram conseguidos: o exército macedônio de Alexandre, o exército romano de Júlio César, o exército huno de Átila, o exército mongol de Gêngis Khan, entre milhares de outros casos menores ao longo dos tempos.

Embora a competitividade seja fator constante no espírito humano, daí para isto vir a se tornar um conflito de grandes proporções envolve uma grande distância. Tende a haver uma correlação entre o tamanho e o nível de fragmentação das sociedades humanas, e a potencialidade para que diferenças levem a eclodir o desejo de aniquilar a um adversário. O tabuleiro da história nos mostra isto: a intensidade bélica particular em meio à fragmentação organizacional da Europa é um fato. O sociólogo russo Pitirim Sorokin se deu ao trabalho de fazer uma conta: durante mil anos, desde 901 d.C., a Rússia tinha estado em guerra por 46 anos em cada 100, e a Inglaterra, desde o tempo de Guilherme, o Conquistador (falecido em 1.087), tinha estado em guerra em algum lugar da Europa ou dos trópicos por 56 anos em cada 100.

Há alguns fatores que são reincidentes no histórico bélico da civilização humana e foram identificados por historiadores. Um deles é que as nações não estão propensas a lançar um ataque e iniciar uma guerra quando a sua posição financeira é ruim, ou quando a sua população enfrenta sérias dificuldades econômicas. Na maioria das vezes, há uma estabilidade financeira como pré-requisito para o início de um ataque que vem a culminar numa guerra. Outro fator se associa ao clima: o tempo também impacta a estratégia de ataque numa guerra. Os países ao norte do Trópico de Câncer - um território que compreende Europa, Sibéria, Japão e América do Norte - foram o palco das batalhas de pelo menos 44 guerras internacionais entre 1.840 e 1.938, e um levantamento destes ataques demonstram um padrão simples: 16 guerras na primavera, 15 no verão, 10 no outono, e somente 3 no inverno. A maior frequência é verificada nos quatro meses entre abril e julho, tendo mais da metade dos conflitos (26 de 44) sido iniciados nestes meses, sem que absolutamente nenhuma guerra tenha se iniciado entre os meses de dezembro e janeiro, quando é o ápice do inverno no Hemisfério Norte.

Que tais evidências estejam mais bem documentadas na Europa, está longe de significar que não tenham paralelos no planeta inteiro. A maior parte das provas arqueológicas e descrições orais de guerras que aconteciam antes do contato com os colonizadores europeus tornam absurdo sustentar a visão romântica de que as pessoas eram tradicionalmente pacíficas até a chegada dos europeus em seu espalhamento pelo mundo através da Era das Grandes Navegações.

Os ancestrais humanos em todos os continentes tinham um histórico de guerras e conflitos para contar, repletos de derramamento de sangue e brutalidade. Um fato, no entanto, é inquestionável: a introdução das armas de fogo, apresentadas pelos europeus, aumentou ainda mais a mortalidade das guerras. Isto é facilmente perceptível, por exemplo, nas guerras entre os maoris na Nova Zelândia entre 1.818 e 1.835, e em igual proporção tanto nas Ilhas Fiji como nas Ilhas Salomão, onde tribos usavam mosquetes em suas guerras, sendo regiões que viviam em estado de guerra endêmicos, e nas quais o "efeito europeu" foi verificado com o aumento significativo da mortalidade pelo uso posterior de machados de metal e de armas de fogo.

Uma pesquisa de causas comuns a várias guerras do Século XVIII revela um detalhe: a morte de um rei era frequentemente prenúncio de guerra, as denominadas "Guerras de Sucessão". Apenas 4 guerras de sucessão neste período não foram precedidas pela morte de um monarca: em 1.700, quando os governantes de Saxônia, Dinamarca e Rússia iniciaram uma luta armada contra a Suécia, em 1.741 quando tropas da Suécia invadiram a Rússia, em 1.786 quando Áustria e Rússia atacaram a Turquia, e em 1.792 na guerra da França contra a Áustria. Foram 8 guerras de sucessão neste período nas quais um longo reinado acabou sucedido por uma liderança visivelmente fraca.

Por outro lado, entre 1.815 e 1.939, houve 31 guerras precedidas por tumultos civis sérios buscando revoluções ou revoltas em uma das nações que entraram em conflito. Ainda que neste período também tenham acontecido guerras não precedidas por agitações civis, assim como nem sempre agitações tiveram como consequência uma guerra, tendo sido relevante a quantidade de conflitos gerados por este motivo durante o Século XIX e o início do Século XX.

Desde a Guerra dos Cem Anos, que começou em 1.328, até a Guerra do Vietnã, que durou de 1.955 a 1.975 (mais de seis séculos depois), uma causa importante e frequente de conflitos internacionais foi uma nítida tendência a favorecer a guerras no exterior como uma forma de desviar a atenção de mazelas internas de uma nação, numa busca à criação de bodes expiatórios estrangeiros para se tornarem alvos quando a manutenção de poder estava ameaçada internamente. Este é um fator a mais para explicar a dinâmica que leva disputas por poder a se transformar em conflitos de grande proporção.

Um grande fato histórico é que a Europa teve um longo período de prevalecimento de conflitos bélicos curtos e rápidos. A Guerra de Sucessão da Polônia, basicamente uma guerra inútil entre a França e a Áustria, foi seguida, em cinco anos, pela Guerra de Sucessão da Áustria, a qual depois de oito anos foi tão inconclusiva na maior parte das frentes de batalha, que o tratado de paz assinado em 1.748 praticamente confirmou a mesma situação anterior ao conflito para todos os lados. Esta guerra vã foi seguida, apenas oito anos mais tarde, pela Guerra dos Sete Anos, que terminou com uma clara vitória da Grã-Bretanha no mar e no além-mar, embora em solo europeu o resultado possa ser considerado duvidoso.

Mesmo a paz entre ingleses e franceses que se seguiu ao Tratado de Paris, em 1.763, não durou muito, terminando após quinze anos, quando a revolta das colônias norte-americanas terminou com o predomínio da Inglaterra sobre a França. Por mais de um século, não houve grandes conflitos tão decisivos quanto as guerras revolucionárias francesas, que a partir de 1.792 alastraram-se durante uma década por toda a Europa e além-mar, os quais terminaram com a França dominante no continente europeu, e a Inglaterra dominante nos mares, na América e no oriente, mas sem se resolver a questão crucial: qual era a nação mais poderosa, França ou Inglaterra? O Tratado de Amiens, assinado em 1.802, durou pouco mais de um ano, quando começaram as Guerras Napoleônicas, que finalmente produziram vencedores incontestáveis e um agradável período de paz na Europa.

Há historiadores que defendem que a Guerra dos Sete Anos não era desejada nem por Inglaterra e nem por França. O longo conflito que expulsou a França do Canadá e que preparou o caminho para a Independência dos Estados Unidos, teria sido "não intencional". As duas nações se esforçaram por um caminho de paz, porém ambas queriam mandar na América do Norte, já que para ambos os governos o controle das colônias vinha em primeiro lugar. As declarações em favor da paz que encheram as malas diplomáticas foram sinceras, mas foram sufocadas pela certeza de que haveria mais a se ganhar através da luta do que de negociações dados os interesses econômicos em torno da geração de riquezas na América do Norte.

Guerras sempre impuseram custos elevados à população civil, e a grande maioria provocou consequências internas às nações quando tais custo sobrepuseram limites aceitos pela sociedade. No Século XVIII, as revoluções nos Estados Unidos na década de 70 e na França na década de 90 foram em parte iniciadas pela revolta da população em relação aos altos impostos que as guerras anteriores tornaram necessários.

Em geral, as evidências gerais sugerem que quando o vencedor de uma guerra é forte o bastante para impor termos de um tratado de paz mais severo, a probabilidade de se prolongar o período de paz nos pós-conflitos é maior. Tratados de paz severos parecem ser basicamente o resultado de uma guerra encerrada com uma vitória decisiva. Uma vitória mais contundente tende a promover uma paz mais duradoura. Guerras decisivas deixaram o poderio militar das alianças rivais desequilibrado e mal distribuído, o que apresentou uma tendência a produzir longos períodos de paz internacional. Guerras de final duvidoso, ao contrário, tendem a produzir períodos mais curtos de paz. Durante combates mais prolongados, alianças têm maior dificuldade de derrotar a aliança rival, com muitas destas guerras terminando praticamente em impasses, com um poderio militar mais equilibrado dos dois lados.

Uma diferença vital entre as guerras dos Séculos XVIII e XIX é que neste último os conflitos tenderam a ser mais decisivos, o que explica em parte um período repleto de guerras seguido por outro de relativa tranquilidade. Enquanto no Século XVIII houve guerras longas e inconclusivas, seguidas por curtos períodos de paz, a partir de 1.815 se notam guerras mais curtas e decisivas. Fato é que os avanços tecnológicos e o aperfeiçoamento das táticas militares em função de tais avanços, contribuíram também para uma maior discrepância entre os lados envolvidos nos conflitos, estimulando as vitórias a serem mais contundentes e decisivas.

Entre 1.700 e 1.815, a Europa experimentou 7 guerras que duraram 7 anos ou mais cada uma, mas desde então nenhum conflito na Europa prolongou-se tanto, os meses de guerra passaram então a ser menos numerosos, porém mais letais. Estas 7 guerras que duraram 7 anos ou mais foram guerras gerais, isto é, travadas por muitas nações. Durante os 99 anos que separaram a derrota de Napoleão e o começo da Primeiro Guerra Mundial, houve apenas 1 guerra geral no Hemisfério Norte: a Guerra da Criméia, significativamente a mais longa na Europa naquele período.

O Século XIX foi uma época de rápidas inovações mecânicas nos armamentos. Para a indiscutível melhoria de seu poderio naval, a Inglaterra construiu navios de guerra caríssimos, que fizeram os navios anteriores parecerem impotentes. A melhor embarcação existente em 1.867 correspondia a toda a esquadra britânica de 1.857, e a melhor de 1.877 tinha o poder de fogo igual ou superior à combinação de todos os navios de guerra de dez anos antes. Em 1.905, foi lançado ao mar em Portsmouth o H.M.S. Dreadnought, um navio de guerra de 18 mil toneladas que superou tanto a todos os anteriores, que obrigou à Alemanha e à própria Grã-Bretanha a reformarem inteiramente todas as suas esquadras. Uma das facetas mais impressionantes desta era das maravilhas mecânicas foi o ganho de agilidade nas manobras de guerra. Nos navios de guerra, o vapor substituía as velas, e o ferro à madeira. Em terra, as ferrovias substituíam as carroças, e o telégrafo elétrico tomava lugar aos mensageiros. A organização dos exércitos ficou mais eficiente, e seus equipamentos foram substituídos pelo fuzil de retrocarga, pelas metralhadoras e pelos canhões. As armas estavam tão avançadas, que muitos analistas acreditavam que as guerras de longa duração pertenciam ao passado. Isto foi uma combinação de erro de leitura estratégica a um orgulho e prepotência de civilizações que erradamente passaram a se achar invencíveis, e tais equívocos, como logo será detalhado, levaram aos erros de tomada de decisão que conduziram a humanidade ao período de guerras mais destrutivas e mortais de toda a sua história, na primeira metade do Século XX, o qual quase levou a humanidade a se aniquilar. Antes de entrar neste período, no entanto, vamos nos aprofundar em fatos dos períodos imediatamente anteriores que ajudarão a uma melhor compreensão deste processo.

Considerando o conceito de guerra geral como sendo a participação de ao menos 5 potências, 3 das quais de grande porte, entre 1.700 e 1.815 houve 9 guerras gerais, e o período de 1.815 a 1.930 teve 2, a Guerra Austro-Prussiana e a Primeira Guerra Mundial. Com uma definição mais rigorosa, sendo guerra geral os conflitos envolvendo 8 nações, sendo 4 das quais de grande porte, teriam sido 6 guerras gerais entre 1.700 e 1.815, e o período de 1.815 a 1.930 teria tido somente 1, a Primeira Guerra Mundial.

Houve dois longos períodos que foram notavelmente pacíficos: um entre a Batalha de Waterloo (1.815) e as guerras curtas de 1.848 ou a Guerra da Criméia em 1.853; e o outro desde o fim da Guerra Franco-Prussiana de 1.871 até o fim do século, embora a opinião mais comum aponte o ano de 1.914, que marcou o início da Primeira Guerra Mundial, como a data de encerramento deste longo período de paz. Tais períodos de paz apontam a influência de poderosos estadistas. No primeiro período, lorde Palmerston, da Inglaterra, teria sido o pacificador, e no segundo período, Otto von Bismarck, da Alemanha. Mas os talentos de ambos como estadistas dependeram das ferramentas militares oferecidas pela nação de cada um: Palmerston tinha o apoio da mais poderosa marinha do mundo naquele momento da história, enquanto Bismarck contava com o exército mais poderoso.

A Guerra das Sete Semanas, que aconteceu entre junho e agosto de 1.866, entre Áustria e Prússia, foi uma entre algumas numa farta lista de conflitos curtos na segunda metade do Século XIX. Nos Anos 1.880 ocorreu uma ainda mais breve, uma batalha feroz com duração de apenas duas semanas entre a Sérvia e a Bulgária. Uma década depois, Grécia e Turquia lutaram um suas fronteiras montanhosas, em mais um conflito de curta duração.

A Guerra das Sete Semanas começou com a invasão da Prússia ao território da Áustria. Em menos de três semanas, mais de 200 mil prussianos ("alemães"), e mais de 200 austríacos e saxões se enfrentavam em Sadowa, perto do rio Elba. Era um confronto entre os dois maiores exércitos que já tinham sido reunidos até então na história em um campo de batalha. Em menos de 12 horas de combate, os austríacos já batiam em retirada, deixando para trás um quinto de seus homens mortos ou sendo prisioneiros dos prussianos. Três semanas depois, Áustria e Prússia aceitaram um acordo de paz. Aquele conflito de 1.866 mostrou a eficiência dos novos fuzis de antecarga em comparação aos fuzis de retrocarga dos austríacos. A tecnologia mais uma vez era fator diferencial em batalhas. Aproximadamente cinquenta anos depois, aqueles dois inimigos estariam unidos do mesmo lado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Em 1.870, a Guerra da Prússia comprovou que a meticulosa organização do sistema ferroviário era capaz de agilizar o transporte de um grande exército até o campo de batalha. A rapidez do ataque da Prússia surpreendeu à França e aos analistas militares da época em toda a Europa. Em aproximadamente 17 dias, a Alemanha deslocou à linha de frente de ataque cerca de 440 mil homens, 135 mil cavalos e 14 mil veículos de combate num comboio de 1.200 trens. Após dois meses de combate, a Prússia impôs um cerco a Paris, demonstrando como as novas técnicas militares eram implacáveis, e levavam a guerra a um outro patamar.

No século seguinte à Batalha de Waterloo, as guerras mais longas foram travadas fora do continente europeu. Na Ásia, entre 1.851 a 1.864, a Guerra Civil Taiping deixou 20 milhões de mortos na China, a partir de uma rebelião camponesa liderada por Hung Hsui-Chuan. No contexto europeu, os conflitos nas colônias começaram a dominar o calendário. Embora o número de vítimas e o custo anual de um destes embates fossem frequentemente inferiores a um mês de guerra na Europa, muitos deles se tornaram sérios e surpreendentemente difíceis de serem dominados. Talvez a mais longa guerra internacional do Século XIX tenha sido entre França e Argélia, que em 1.830 era uma república independente cujo território ia dos limites do Deserto do Saara até a acidentada costa do Mar Mediterrâneo.

Por gerações, piratas argelinos partiam de seus portos para atacar a navios e portos franceses. Em maio de 1.830, então, o governo da França enviou 9 navios de linha, 56 fragatas, corvetas e brigues, 8 barcos a vapor e uma flotilha de pequenas embarcações, no total envolvendo 37 mil homens e 4 mil cavalos. Os portos foram logo conquistados, entretanto a conquista total da Argélia só aconteceu depois de 17 anos e muitas campanhas, porque se um território pequeno com população esparsa era mais facilmente conquistado, um território extenso e com milhões de habitantes era muito mais complicado. Assim, com 965 quilômetros de extensão e então com 3 milhões de habitantes, a Argélia não era presa fácil a um invasor. Os verões extensos e o solo rochoso também favoreciam à defesa, além de que era uma nação relativamente unida pela fé em comum no islamismo. Assim, o poder do exército invasor não dependia da superioridade em diversas técnicas de guerra. A força da artilharia francesa, vital em tantas guerras na Europa, era menos devastadora na Argélia, onde o transporte de armas pesadas para o interior do país era árduo, além de ser um prenúncio em alto e bom som para a defesa sobre os planos de ataque franceses. Tudo isto, fez a guerra se prolongar pó um período muito maior do que o inicialmente esperado. Situação análoga viria a acontecer mais de um século depois com os Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Este "jogo de gato e rato" se intensificou quando estas táticas de guerrilha foram colocadas em prática pelos argelinos pela primeira vez na história, já em 1.830, assim como veio a ser feito por Cuba na guerra contra a Espanha entre 1.870 e 1.890, pelos bôeres contra a Grã-Bretanha na virada do século, e pelo Vietnã primeiro contra a França e depois contra os Estados Unidos, a partir de 1.945. A resposta das potências militares à guerrilha era sempre mandar mais reforços, um processo dispendioso e lento, e que na maioria das vezes se mostrou ao final não suficientemente eficaz.

Uma grande verdade na história das guerras é que o otimismo exagerado é fator causal da geração de conflitos. A Primeira Guerra Mundial muito provavelmente é o exemplo mais clássico. Às vésperas de uma guerra que mataria mais soldados e envolveria mais nações do que qualquer outra antes dela na história, acreditava-se que a guerra iminente seria curta, de três a seis meses no máximo. Se a duração e a crueldade da Primeira Grande Guerra tivessem sido previstas, os esforços para preservar a paz em 1.914 teriam sido muito mais vigorosos. Uma das razões pelas quais não se imaginava uma guerra longa era a crença generalizada de que a opinião pública civilizada se rebelaria contra os transtornos provocados pelo conflito. Mas o consolo seria a vitória, que ambos os lados esperavam obter convictamente. Mesmo a Rússia, a França e a Áustria, derrotadas na última guerra imponente da qual tinham participado, esperavam vencer. Enquanto os generais alemães previam que, decorridas as primeiras seis semanas do início da guerra, sua linha de frente se aproximaria de Paris, muitos generais franceses tinham certeza de que levariam mais ou menos este mesmo tempo para chegar ao rio Reno. Todas as frentes estavam otimistas às vésperas do combate, a ortodoxia era a necessidade de uma vitória rápida e decisiva, pois a impossibilidade econômica de uma guerra longa era certeza de todos.

A explicação para o otimismo se encontrava não só na série de guerras curtas travadas havia pouco tempo na Europa, como na crescente rede de integração comercial e financeira no mundo ocidental. Na posição de maior potência financeira mundial no início do Século XX, a Inglaterra acreditava que seria a última nação a sofrer as consequências de um colapso econômico decorrente da guerra. Em sua lógica, os adversários, afetados primeiro, buscariam a rendição antes de um estrago maior. Já os alemães, apostavam em sua moderna tecnologia militar, a mais avançada naquele momento, para gerar um conflito curto. Todos erraram suas previsões, e todos sofreram severas consequências.

Entre 1.860 e 1.914, praticamente todas as 9 guerras ocorridas na Europa terminaram em menos de 1 ano. As guerras registradas nas Américas também passaram a ser mais curtas do que as anteriores, ainda que não tão curtas quanto as europeias. A Guerra Civil de Secessão iniciada em 1.861 nos Estados Unidos, a qual durou até 1.865, partiu de uma longa controvérsia sobre a continuidade do uso dos fluxos de escravização dos nativos da África, e deixou 600 mil mortos. Os Estados Confederados, do sul, que eram grandes oligarquias escravocratas, tentaram a sua independência, mas acabaram derrotados pelos estados do norte. Neste período nas Américas - a década de 1.860 - tanto esta Guerra Civil Norte-Americana, como a Guerra do Paraguai e a Expedição Francesa ao México, todas estenderam-se por pelo menos 4 anos cada uma. Em 1.879, a Guerra do Pacífico, envolvendo Chile, Bolívia e Peru, também durou aproximadamente 4 anos.

Na Europa, embora muitas guerras longas no Século XVIII também tivessem se iniciado com declarações otimistas, a maioria das guerras do Século XIX tinham sido breves, e isto parece ter apagado o conhecimento de tempos mais remotos. Em 1.700, quando as províncias do norte se uniram para atacar à Suécia, uma vitória rápida parecia bem provável, mas os conflitos levaram 21 anos. Em maio de 1.702, em Londres, quando o conselho de ministros ingleses elaborou uma declaração de guerra à França, esperava uma batalha rápida e uma "boa paz em pouco tempo", a guerra durou mais de uma década. Os governantes da Rússia estavam certos de que a invasão à Polônia em 1.733 não encontraria resistência. Os líderes de Inglaterra, França, Prússia, Áustria, Portugal e Espanha quando começaram a se enfrentar em 1.756, não previam que o conflito se tornaria a Guerra dos Sete Anos.

Em 1.859, o imperador austríaco Francisco José acreditava que sua guerra contra a França e a Itália seria afortunadamente curta, e foi curta, mas para ele não foi afortunada. Em 1.866, às vésperas da guerra entre a Áustria e a Prússia, os austríacos novamente esperaram a vitória, que novamente não aconteceu. Quando os Estados Unidos e os rebeldes confederados iniciaram as lutas em 1.861, pouquíssimos líderes - ou nenhum, talvez - imaginavam uma guerra que duraria 4 anos e mataria mais de meio milhão de pessoas. De modo similar, a guerra de 1.904-1.905 entre Rússia e Japão, a guerra de 1.911-1.912 entre Itália e Turquia, e as duas Guerras dos Bálcãs em 1.912-1.913, todas cometeram o mesmo deslize da crença em conflitos rápidos. O otimismo às vésperas da Primeira Guerra Mundial fez parte de uma longa, mas quase despercebida tradição. E as lições do tempo parecem não ter sido totalmente entendidas, pois em 2.022, quando a Rússia atacou à Ucrânia, o discurso de um conflito rápido também estava no centro da retórica. Frequentemente, o extremo otimismo do início de muitas guerras está ligado ao extremo pessimismo do final delas.

Por que as guerras gerais eram frequentemente mais longas? Por algumas razões: primeiro, em um conflito com muitas nações envolvidas, a força militar tendia a ser distribuída com mais equilíbrio entre os dois lados, e quanto mais equilibradas as forças, mais improvável é uma conclusão rápida; segundo, porque uma guerra geral costumava envolver várias frentes de batalha, tanto no mar quanto em terra, dificilmente havendo vitórias contundentes em todos os palcos envolvidos, prolongando o tempo até um dos lados obter supremacia; terceiro, porque numa aliança entre muitas nações a coordenação das campanhas não tinha a mesma eficiência, por serem múltiplos tomadores de decisão, levando-se mais tempo para se obter consensos na definição das estratégias a serem escolhidas. Vamos então à narrativa dos processos que levaram às duas maiores guerras gerais da história da humanidade.

Guerra e paz são fases flutuantes de uma relação entre nações. E o oportunismo permeia todo este relacionamento. Uma ideia que nasceu no Século XIX e se fortaleceu no Século XX foi a de que a prosperidade da humanidade dependeria de discussões racionais e não de ameaças. Os alicerces da paz seriam as instituições e invenções que promoviam o intercâmbio de ideias e produtos: parlamentos, conferências internacionais, popularização da imprensa e da informação, educação compulsória, bibliotecas públicas, meios de transporte, e o comércio. Uma nação ganhava mais quando sua política comercial enriquecia seus vizinhos em vez de empobrecê-los, construindo uma interdependência entre nações, e não a rivalidade entre elas. A ignorância e os mal-entendidos é que seriam as sementes das guerras. As duas grandes guerras mundiais endossam esta visão?

A Europa vinha de um longo período de paz, entre 1.815 e 1.914 o continente havia enfrentado uma única guerra que envolveu mais do que três grandes nações, a Guerra da Criméia, que durou três anos, quando Grã-Bretanha e França tomaram partido da Turquia contra a Rússia, que permaneceu sozinha durante o confronto. Estima-se que este conflito tenha gerado aproximadamente 650 mil mortes. Entre 1.900 e 1.914, a guerra mais importante foi entre Rússia e Japão, que estavam ambos determinados a expandir os seus domínios através das frias regiões do nordeste da Ásia. Este breve conflito estourou na Manchúria em 8 de fevereiro de 1.904 e deu início a profundas mudanças políticas, acelerando o processo que levou à revolução popular na Rússia, a qual abordaremos mais detalhadamente a seguir.

Também havia agitações políticas crescentes na virada do Século XIX para o Século XX marcadas por atos terroristas do Movimento Anarquista. Em 1.894, Sadi Carnot, presidente da França, viajava de carruagem em Lyon quando um conhecido anarquista italiano, o jovem Sante Geronimo Caserio, lançou-se sobre ele e o apunhalou, matando-o. Em 1.897, o primeiro-ministro espanhol Antonio Cánovas del Castillo passava um feriado na estação de águas Santa Aguada, em Gipuzkoa, quando foi morto a tiros por outro anarquista italiano, Michele Angiolillo. Em 1.898, a imperatriz da Áustria passeava incógnita pelas ruas de Genebra - um ato inacreditável para a monarca de uma das cinco maiores potências do mundo naquele momento - quando foi apunhalada até a morte por outro anarquista italiano. Do outro lado do oceano, em 1.901 o presidente dos Estados Unidos, William McKinley, foi morto pelo anarquista Leon Czolgosz. Na história humana, o terrorismo é uma velha atividade, a qual aparece, desaparece e reaparece constantemente.

Dentro deste mesmo contexto político de tentativa de imposições ideológicas, tensões e conflitos também estavam se manifestando onde minorias étnicas num país, ou do outro lado de uma fronteira, testavam forças de forma crescente. Assim se deu naquele momento nos casos da Irlanda, na Grã-Bretanha, como também nos Bálcãs, entre eslavos e alemães, e ainda nos Alpes, entre italianos e austríacos. As duas Grandes Guerras Mundiais no Século XX eclodiram em regiões nas quais grandes potências defendiam sua soberania e seu prestígio perante outros grupos étnicos!

Nos Bálcãs, três povos e suas respectivas religiões competiam. Os turcos do Império Otomano não detinham mais o controle da região, mas grandes populações muçulmanas haviam permanecido nela. Em Sarajevo, metade da população era muçulmana e frequentava cultos em cerca de cem mesquitas. Como Sarajevo fazia parte do Império Austro-Húngaro, os muçulmanos que ali habitavam eram governados por austríacos católicos sediados em Viena. A mesma cidade abrigava uma grande população Cristã Ortodoxa, ligada à religião do Antigo Império Romano do Oriente, cuja sede havia migrado havia muitos anos de Constantinopla para a Rússia, gente leal ao novo Reino da Sérvia, do outro lado da fronteira com o Império Austro-Húngaro, numa "irmandade eslava". Foi em meio a este caldeirão de seguidores do Cristianismo Católico, do Cristianismo Ortodoxo, e do Islamismo, que eclodiu a Primeira Guerra Mundial.

Foi um patriota da "irmandade eslava" - que unia ortodoxos da Áustria-Hungria à Sérvia e à Rússia - de nome Gavrilo Princip, membro de uma sociedade secreta chamada "Mão Negra", quem recebeu do exército sérvio seis bombas e quatro revólveres para executar um atentado em Sarajevo contra o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da monarquia do Império Austro-Húngaro. Em 28 de junho de 1.914, enquanto Ferdinando fazia a inspeção militar oficial de suas tropas, acompanhado por sua esposa Sofia, numa limusine conversível que passava de capota abaixada, eles foram alvos de uma saraivada de tiros que matou ao casal real. Os austríacos ficaram revoltados! A frouxidão de controle da Sérvia foi responsabilizada pelo assassinato, com endosso indignado da Alemanha. A Sérvia pediu desculpas, porém não com rapidez suficiente.

Apenas um rio separava Belgrado, capital do país que não tinha acesso ao mar, da Áustria-Hungria. Em 29 de julho de 1.914, um mês após o assassinato, um primeiro ataque militar austríaco aconteceu sobre a capital sérvia. Prontamente a Alemanha se pôs ao lado do Império Austro-Húngaro, e a Rússia se pôs ao lado da Sérvia. Dentro de umas poucas semanas, outras potências tinham aderido ao conflito: França e Grã-Bretanha, com medo da ascensão econômica da emergente Alemanha, aliaram-se à Rússia, enquanto o Império Otomano (Turquia) e a Bulgária aliaram-se à Alemanha. Logo o Japão foi mais um a aderir contra a Alemanha, mas disponibilizando apenas a sua marinha, negando-se a enviar seu exército. A Itália, para surpresa geral, apoiou a França e Inglaterra, colocando-se contra os alemães.

O desenho do conflito inicial estava formado, de um lado um eixo central formado por Alemanha, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano, do outro os aliados eram Rússia, Sérvia, Itália, França e Grã-Bretanha (junto a suas colônias). A Bélgica tinha a intenção de ser neutra, mas invadida pela Alemanha, para que esta alcançasse Paris, foi uma mais a se alinhar a estes aliados. Entre os países neutros, na parte oriental do continente estavam Grécia, Romênia e Albânia, na parte central a Suíça, e na parte ocidental, Espanha, Portugal e Holanda, assim como os países nórdicos também se mantiveram neutros (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia). Com o decorrer dos conflitos, Portugal, Romênia e Grécia acabaram sendo forçados a abandonar a sua neutralidade.

A Alemanha no início do Século XX era a maior produtora de máquinas e produtos químicos na Europa. Inglaterra e França, incapazes de igualar o poderio industrial de seu rival, precisavam importar produtos em larga escala dos Estados Unidos, estratégia sem a qual já teriam sido derrotadas no conflito já em seu primeiro ano, derrotadas pelas fábricas, siderúrgicas, minas de carvão, oficinas de munição e estaleiros de construção naval dos alemães.

Uma economia mais produtiva possibilitava que um grande número de homens fosse incorporado rapidamente aos combates, enquanto mulheres eram deslocadas para trabalhar em fábricas de munições. Enquanto nas Guerras Napoleônicas um país dispunha de cerca de 12% de seu produto interno total para investir em seu poderio militar, na Primeira Guerra Mundial os países já conseguiam se dispor a gastar até 50% de seu produto interno. Isto fez com que o número de mortos e feridos já nos primeiros meses de combate fosse muito superior a todas as estimativas.

Em maio de 1.915, o Império Otomano decidiu deportar os armênios cristãos, que lentamente, carregando a todos os seus pertences, cruzaram da Anatólia para o Deserto da Síria. Durante o caminho, homens, mulheres e crianças foram assassinados por soldados e civis turcos, tendo morrido de 600 mil a 1 milhão de pessoas durante este genocídio. O nível de destruição era altíssimo, ninguém estimou que fosse ser tamanho. No fim de 1.916, muitas das forças em guerra passavam por um momento de descontentamento tão generalizado que possibilidades de motins eram bastante reais. As mortes eram muitas, as condições nas trincheiras durante o inverno eram abomináveis, e a vitória não parecia ao alcance de nenhum dos lados. O moral baixo dos militares contaminava a população civil. O primeiro exército a se desintegrar poderia determinar o rumo da guerra.

A península turca de Gallipoli era estratégica, porque controlava a curta e estreita rota marítima do Estreito de Dardanelos, que unia Mar Mediterrâneo e Mar Negro, com menos de 27 milhas de comprimento. Antes da Primeira Guerra Mundial começar, os alemães perceberam a importância estratégica deste controle e se aliaram à Turquia menos de uma semana antes do início dos conflitos, assinando secretamente uma aliança militar. Em abril de 1.915, tropas de Grã-Bretanha, França, Austrália e Nova Zelândia tentaram tomá-lo de alemães e turcos, mas não conseguiram. O controle impedia que a Rússia pudesse utilizar ao Mar Báltico, impedindo que seus navios levassem os grãos que alimentariam a seus aliados ocidentais, ou que os russos recebessem armas e munições por aquela via. Os russos tinham abundância de soldados, mas uma terrível escassez de armamentos pesados e de roupas apropriadas para enfrentar às baixas temperaturas do inverno rigoroso. A Rússia estava semi-estrangulada por sua geografia peculiar, e este estrangulamento econômico imposto pelo longo bloqueio de guerra culminaria com a revolução dos líderes trabalhistas que rompeu em 1.917 - a Revolução Bolchevique - o que levou à saída da Rússia do conflito.

Os bloqueios militares impostos pela guerra fizeram com que a Rússia vivesse uma ruptura na rotina de suas atividades econômicas, com a inflação atingindo níveis estratosféricos. As estradas de ferro não davam conta de oferecer carregamento de comida e suprimentos suficientes. Entre 1.913 e 1.917 o preço da farinha triplicou e do sal quintuplicou, o preço da manteiga aumentou mais de oito vezes. Muitas famílias passaram a passar fome. Na Rússia o povo sempre foi, via de regra, ultrapatriótico, mas as condições econômicas deterioradas e a possibilidade de ser derrotada no terceiro conflito consecutivo (perdeu a Guerra da Criméia nos Anos 1.850, e a guerra contra o Japão em 1.905) fizeram com que crescesse o sentimento de desapontamento em relação à família real, foco tradicional de lealdade patriótica. A popularidade do czar Nicolau II ruiu, e em março de 1.917 ele foi obrigado a abdicar.

No lugar do czar Nicolau II, uma coalizão assumiu o governo. Entretanto, membros do extremamente organizado Partido Bolchevique estavam certos de que somente eles poderiam dar esperança ao povo russo. O líder deste movimento, Vladimir Ulianov, que desde 1.901 havia adotado o pseudônimo de Lenin, vivia exilado, tendo passado períodos em Inglaterra, França, Áustria e Suíça. Em abril de 1.917, financiado pela Alemanha, Lenin e alguns companheiros regressaram clandestinamente à Rússia para formar as bases do que batizou como "uma ditadura revolucionário-democrática do proletariado e do campesinato". Ainda que ditadura e democracia fossem opostos que nunca tiveram pontos em comum, estas eram as bases ideológicas defendidas por seu movimento. No dia 6 de novembro, comandados por Leon Trotsky, os revolucionários tomaram durante a madrugada a estações de trem e de correios, a companhia telefônica, bancos e centrais de distribuição de energia elétrica, tomando São Petersburgo. Em Moscou, o Kremiln foi invadido. O golpe estava dado com sucesso, e Lenin tornava-se oficialmente o líder do primeiro Conselho de Comissários do Povo.

Não muito depois da Revolução Russa, em 1.918, Lenin assinou com Alemanha e Turquia o Tratado de Paz de Brest-Litovsk, cedendo parte de seu território a Alemanha, Romênia e Turquia. Pouco depois perdeu ainda territórios para Polônia e Finlândia, e viu as três províncias bálticas - Lituânia, Letônia e Estônia - tornarem-se independentes. A Rússia perdia assim uma vasta extensão de terras produtoras de grãos, o que intensificaria a escassez de comida.

Os Estados Unidos tentaram se manter um país neutro na Primeira Guerra Mundial, mas várias embarcações de bandeira norte-americana foram constantemente afundadas por submarinos alemães, assim em abril de 1.917 o Congresso aprovou a entrada dos Estados Unidos da América na guerra contra a Alemanha. Gradativamente os rumos do conflito estavam passando por profundas mudanças que alterariam os rumos finais.

A Alemanha, a grande potência emergente que despontava como potencial vencedora, ia se enfraquecendo cada vez mais. Em setembro de 1.918, seus aliados estavam fartos do conflito: a Bulgária assinou um armistício, o Império Austro-Húngaro estava em frangalhos e se fragmentou, com Iugoslávia, Tchecoslováquia e Hungria formando suas próprias nações; no fim de outubro foi a vez do Império Otomano (Turquia) assinar uma trégua, e logo a seguir a Áustria (o que havia restado da dissolução do Império Austro-Húngaro) fez um pedido de rendição. A Alemanha ficou sozinha!

Nos dez primeiros dias de novembro de 1.918, civis alemães fizeram um movimento crescente de amotinações, os quais levaram o imperador Wilhelm II a abdicar do poder. Em 11 de novembro a Alemanha assinou um armistício. A Primeira Guerra Mundial chegava assim ao fim. O Tratado de Versalhes restabeleceu a paz, tentando semear a construção de uma Liga das Nações como estratégia de evitar futuros conflitos.

A Primeira Guerra Mundial não foi apenas dramática enquanto durou - entre 1.914 e 1.918 deixou aproximadamente 10 milhões de mortos, entre militares e civis - mas teve também efeitos profundos, ajudando a impulsionar a Revolução Russa, sendo uma das causas da Grande Depressão Econômica a partir de 1.929 que se estendeu pelos Anos 1.930, a qual estimulou a ascensão de Adolf Hitler e do Nazismo na Alemanha, ajudando assim a provocar a Segunda Guerra Mundial, a qual acabou com o apogeu da Europa Ocidental, acelerando a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética como potências mundiais. Assim, antes de se aprofundar na Segunda Guerra Mundial, para entendê-la é fundamental se aprofundar no período entre guerras e compreender como a incapacidade de solucionar conflitos foi fator determinante para a eclosão de um conflito ainda maior.

No saldo final dos conflitos, os sérvios foram os que mais sofreram, com um em cada quatro homens entre 15 e 49 anos tendo morrido no campo de batalha. Turquia, França, Romênia e Alemanha perderam de 13% a 15% dos homens nesta faixa etária. O Império Austro-Húngaro perdeu 9%, a Itália 7% e a Grã-Bretanha 6%. Foi uma fase terrível nos anos seguintes por falta de noivos para as mulheres. Ademais, nos quatro anos durante os quais duraram a guerra, um soldado para cada quatro mortos por balas, estilhaços ou explosivos de alta potência, havia morrido por causa de alguma doença, tendo a malária tido papel de destaque. Os efeitos foram devastadores: a Primeira Guerra Mundial desfez ligações de comércio, destruiu vilarejos rurais, devastou enormes áreas de pasto e matou milhões de cabeças de gado, impactando a capacidade econômica agrícola e pecuária, avariou centenas de ferrovias e rodovias, e afundou mais navios cargueiros do que toda a quantidade que existia em 1.900. As consequências indiretas sobre a saúde pública global foram a assinatura final dos anos de conflito: após o fim da guerra um mortal surto de influenza (gripe) disseminou-se pelo mundo, atacando em especial às zonas portuárias em todo o planeta. A pandemia, que ficou batizada como "Gripe Espanhola", durou de janeiro de 1.918 a dezembro de 1.920, infectando 500 milhões de pessoas (cerca de um quarto da população mundial da época) e deixando um saldo de cerca de 50 milhões de mortos, muito mais do que os 10 milhões que tinham morrido em batalha durante toda a Primeira Guerra Mundial.

Economicamente, o grande beneficiário ao fim dos conflitos foram os Estados Unidos, cujas indústrias aumentaram enquanto seus competidores europeus estavam absorvidos pelas batalhas. O Japão também se beneficiou, e pela primeira vez em muitos séculos um país do Leste Asiático foi louvado como um dos líderes mundiais, alçando-se entre as cinco principais economias do planeta. Ao fim da guerra, a Europa tinha um grupo de novos países cujas fronteiras nacionais precisavam ser demarcadas, com uma incrível marca de 12.500 milhas de linhas novas nos mapas. Havia 27 países com novas fronteiras. O mapa da Europa às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial se restringia a Grã-Bretanha, França, Espanha e Portugal a oeste, Itália, Suíça, Bélgica e Holanda ao centro, Suécia, Noruega e Dinamarca ao norte, e a leste Alemanha, Áustria-Hungria, Sérvia (ex-principado do Império Austro-Húngaro), Romênia, Bulgária, Albânia e Grécia, com os limites com a Ásia tendo a Rússia a norte e a Turquia ao sul. Após o conflito, surgiram como novos países independentes: Finlândia, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Lituânia, Letônia e Estônia, além da divisão e formação de Áustria e Hungria como dois países separados.

A Primeira Guerra Mundial foi longa por causa dos impasses nas trincheiras, com a mudança das tecnologias tendo forçado a um foco na defesa, para dificultar a agilidade de deslocamento das tropas. Ao seu final, o Tratado de Versalhes condenou formalmente a Alemanha e seus aliados como agressores. Os líderes alemães tiveram de concordar com as duras condições impostas como punição a seu país pela agressão praticada, num suposto ato de defesa da moralidade internacional. Suas colônias ultramarinas foram confiscadas e os territórios distribuídos entre cinco vizinhos europeus, navios de guerra alemães foram destruídos, e forças estrangeiras ocuparam uma vasta faixa de seu território.