domingo, 12 de julho de 2026

Homo juluensis: as primeiras descobertas sobre ancestrais humanos de cabeça grande


Em 2024 e 2025, Xiujie Wu e Christopher J. Bae foram os primeiros a proporem um quadro interpretativo diferenciado para um conjunto de fósseis do Pleistoceno médio/tardio encontrados no Leste Asiático que agrupa material anteriormente tratado de forma fragmentária, sobretudo os restos encontrados em Xujiayao e Xuchang, na China. Sob a designação informal e divulgada ao público como "Homo juluensis" (em mandarim jú lú significa "cabeça grande" ou "grande crânio"). A proposta buscou organizar variações morfológicas e ampliar a discussão sobre onde situar populações enigmáticas como os denisovanos no espectro taxonômico regional. Resumindo as evidências publicadas com foco em capacidade craniana, características dentárias, idades e locais das descobertas, quais são os argumentos comparativos entre Homo juluensis frente ao que se sabe sobre Homo sapiens, neandertais, denisovanos e Homo longi. As conclusões até aqui ainda estão bem longe de ser um consenso universal dentro do meio científico.

Os fósseis que embasam a proposta foram encontrados em vários sítios do Leste Asiático, especialmente Xujiayao (Nihewan Basin, norte da China) e Xuchang (centro da China), com materiais adicionais apontados como possivelmente afins (por exemplo: Penghu 1 — Taiwan, e o manuscrito mandibular de Xiahe associado antes a denisovanos). As idades relacionadas ao conjunto variam conforme o sítio: datas publicadas para Xujiayao apontam para o final do Pleistoceno Médio (entre 200 e 160 mil anos em algumas estimativas) enquanto Xuchang tem idades estimadas dentro do intervalo tardio do Pleistoceno médio a tardio (entre 220 e 100 mil anos, dependendo do elemento e do método). Autores que sintetizam o registro colocam a presença dessa “forma” em uma janela ampla de cerca de 300 mil anos atrás até possivelmente 50 mil anos em interpretações mais abrangentes. Estes valores vêm dos estudos de reavaliação dos contextos estratigráficos e dos modelos cronológicos recentes. Estas análises ainda estão longe de um consenso, há variação entre trabalhos e análises realizadas, por isso as faixas citadas são amplas e as interpretações cronológicas são mais conservadoras.

A principal característica apontada por estes estudos é a capacidade craniana ("a grande cabeça"), o grande volume craniano atribuído a alguns espécimes de Xujiayao e Xuchang. Estimativas divulgadas em discussões científicas e em resumos técnicos mencionam valores significativamente acima da média para hominíneos contemporâneos: alguns relatos colocam estimativas de ~1.300–1.700 mL para fragmentos cranianos reconstruídos (este número de ~1.700 mL tem sido citado para descrever a impressionante dimensão do teto craniano de um dos espécimes reconstruídos). É importante frisar que essas estimativas variam segundo o método de reconstrução, o estado de compressão do fóssil e a atribuição a indivíduos inteiros; logo, embora o padrão geral seja "crânio amplo e relativamente grande", o valor absoluto tem muita margem de erro.

Comparativamente: a média moderna de Homo sapiens gira em torno de 1.200–1.450 mL (com variação populacional), neandertais exibem médias frequentemente próximas a 1.400–1.600 mL, e muitos hominíneos do Pleistoceno médio mostram capacidades menores (populações de Homo erectus tipicamente vão de menos de 1.100 a 1.200 mL). Assim, o caráter "grande cabeça" de alguns dos espécimes do Leste Asiático os coloca entre os maiores cranialmente conhecidos para o intervalo temporal em que viveram, ainda que a forma (baixa vs alta, base larga vs estreita) seja tão relevante quanto o volume em interpretações funcionais e filogenéticas.

Os autores que revisaram o material descrevem dentes relativamente grandes, incisivos com tendência "em pá" (shovel-shaped incisors), e uma ramo mandibular largo em alguns dos pedaços de mandíbula — traços que combinam caracteres primitivos (robustez dental) e caracteres derivados comparáveis a populações neandertais/denisovanas. O espécime Xiahe (mandíbula tibetana) — já associado a denisovanos por evidência genética em trabalhos prévios — é citado como morfologicamente coerente com esse eixo de variação asiático, reforçando a hipótese de que um conjunto regional de populações robustas com dentes grandes possa representar uma linhagem diferenciada no Leste Asiático.

Dentição grande e incisivos "em pá" (shovel-shaped), especialmente nos dentes superiores centrais e laterais, cuja face posterior (lingual) apresenta margens laterais elevadas (chamadas cristas marginais) e depressão central (como uma concavidade). Estes são também traços frequentes em diferentes linhagens dentro do grupo "Homo" (incluindo algumas populações de neandertais e grupos arcaicos asiáticos) então esses caracteres sozinhos não são diagnósticos de espécie nova, embora sirvam para compor o mosaico morfológico que os autores usam para justificar uma unidade taxonômica.

Há que se destacar também a anatomia do ouvido interno e outras características cranianas. Além do volume craniano e da dentição, os estudos destacam caracteres do osso temporal e do labirinto ósseo (a estrutura do ouvido interno) que, em alguns elementos, lembram traços neandertais (semelhanças no formato do labirinto). Outras descrições incluem um perfil craniano baixo e largo, linhas temporais bem definidas, e um occipital pouco proeminente (toro occipital fraco). Essa combinação — crânio volumoso porém baixo e largo, elementos do ouvido com afinidades neandertais, dentes robustos — compõe o que os autores chamam de "forma nova de hominídeo de grande cérebro".

Wu & Bae (PaleoAnthropology, 2024) propõem que se trate o material como representativo de uma forma distinta — a referida na comunicação científica e popular como Homo juluensis — para que assim melhor se organize a variação do Pleistoceno asiático, analisando-os como fósseis atribuídos dispersamente (Xujiayao, Xuchang, Penghu, Xiahe) mas pertencentes a uma mesma "linha". Em um trabalho de âmbito maior (Nature Communications), Bae sintetiza padrões regionais e sugere que essa gradeção morfológica ajuda a "dar sentido" da variabilidade tardia do Pleistoceno no Leste Asiático. Contudo, muitos especialistas enfatizam cautela: a criação de uma nova espécie exige diagnósticos claros e, idealmente, mais elementos associados (crânio-mandíbula-postcrania) e/ou suporte molecular. Até agora, o argumento é morfológico e comparativo — robusto em observações, mas aberto a alternativas: polimorfismo regional, mistura/introgressão entre populações (incluindo interações com denisovanos e fluxos genéticos com sapiens) e preservação diferencial podem explicar parte da variação. Comentários de revisores e de especialistas da área salientam que a proposta é "provocativa e útil" para debate, mas não resolve todas as incertezas.

Comparativamente:

- os Homo sapiens (humanos antomicamente modernos) tendem a apresentar crânios mais altos e globais, arcos superciliares menos pronunciados (em média), e uma morfologia facial retraída quando comparada a muitos arcaicos. O conjunto Xujiayao/Xuchang mostra mistura de traços modernos e arcaicos (grande cérebro, mas morfologia baixa e larga), o que dificulta atribuições simples. Em termos temporais, os Homo sapiens já circulavam fora da África em pulsos variáveis após aproximadamente 200 mil anos atrás, mas as interações com populações asiáticas arcaicas no registro fóssil e genético são complexas.

- os Homo neanderthalensis (neandertais) morfologicamente têm crânios longos e baixos, rostos projetados em alguns elementos, e capacidades cranianas comparáveis (frequentemente altas). O labirinto ósseo e certas características do osso temporal em Xujiayao lembram traços neandertais, sugerindo convergência funcional ou parentesco distante. Ainda assim, neandertais são predominantemente europeus e ocidentais. As semelhanças com fósseis asiáticos podem resultar de homoplasia (caráteres independentes) ou de ancestralidade compartilhada.

- os Denisovanos foram identificados primariamente por DNA de fósseis achados na caverna de Denisova e por poucos restos morfológicos (a mandíbula de Xiahe, com afinidades morfológicas ao material asiático robusto). A proposta de agrupar Xiahe, Penghu e Xujiayao sugere que o "Homo juluensis" podem representar a expressão fóssil regional de populações relacionadas aos denisovanos — o que seria um grande avanço porque os denisovanos eram, até recentemente, majoritariamente tão só um "sinal genético". Porém, sem DNA recuperado dos crânios de Xujiayao e Xuchang, a ligação permanece hipotética.

- os Homo longi (o "Homem de Harbin") é outra taxonomia proposto a partir de um crânio robusto do nordeste da China. Bae & colaboradores discutem a diferenciação regional entre conjuntos. Alguns estudos têm agrupado Harbin/Dali/Jinniushan com Homo longi e Xujiayao/Xuchang numa "divisão" distinta. Em suma, o Homo juluensis não é automaticamente um sinônimo de Homo longi, as duas propostas representam tentativas diferentes de ordenar o mosaico asiático.




A revista PaleoAnthropology (Wu & Bae, 2024) publicou uma descrição detalhada do material de Xujiayao e seus caracteres morfológicos, enfatizando o padrão de "crânio grande e baixo" e as combinações dentárias/mandibulares que os autores interpretam como uma forma regional coerente. Este artigo foi peça central na sustentação da ideia de uma "forma nova" do Leste Asiático. Já a revista Nature Communications (Bae et al., 2024) ofereceu uma moldura mais ampla, integrando múltiplos sítios, propondo um rearranjo interpretativo da variabilidade e discutindo implicações biogeográficas (como a possível inclusão de denisovanos nessa rede de populações). A publicação em Nature Communications ajudou a colocar o debate em foco global, reforçando que a "confusão sistemática do Pleistoceno médio/tardio" merece revisões cuidadosas. Estes dois tipos de contribuição — descrição morfológica detalhada (PaleoAnthropology) e síntese regional ampla (Nature Communications) — foram complementares: a primeira fornece os dados, e a segunda o enquadramento evolutivo e as hipóteses sobre como diferentes fósseis se relacionam numa escala continental.

Quanto a um diagnóstico de espécie, a criação formal de uma nova espécie requer diagnósticos robustos e, idealmente, um conjunto de caracteres exclusivos. Até o momento, o Homo juluensis é uma proposta útil para discutir variação, mas muitos especialistas pedem mais dados (postcrania, amostras associadas, DNA). Atrapalha por enquanto a ausência de DNA em muitos espécimes. A grande vantagem dos estudos sobre denisovanos foi a genética. Sem DNA para Xujiayao/Xuchang não é possível afirmar filogeneticamente que eles são denisovanos ou parentais diretos. Muitos crânios asiáticos do Pleistoceno médio/tardio estão fragmentados ou comprimidos. Reconstruções volumétricas (por exemplo: estimativas de 1.700 mL para um espécime) dependem de modelagem e, portanto, trazem incertezas, assim, interpretá-las exige cautela. O Pleistoceno tardio foi um período de migrações e contatos, com mistura de genes por cruzamentos entre populações arcaicas e modernas. Estudos futuros de paleogenética, análises de isótopos e novas escavações serão decisivos.

A proposta de Homo juluensis (a "forma de grande crânio" do Leste Asiático) representa um esforço importante para organizar um conjunto problemático de fósseis que não se encaixavam bem nas categorias tradicionais. As maiores contribuições até agora são: (i) a documentação morfológica detalhada dos fósseis de Xujiayao/Xuchang; (ii) a tentativa de contextualizá-los num panorama continental que inclui denisovanos e Homo longi; e (iii) a ênfase em que a variabilidade asiática do Pleistoceno médio/tardio é real e complexa — exigindo abordagens integradas. Entretanto, a proposta permanece contestada e provisória: o campo precisará de mais dados (especialmente genética e material associado) antes de transformar a hipótese em consenso taxonômico. A literatura recente fornece uma primeira base para debates produtivos e aponta caminhos claros para novas pesquisas.



Leituras selecionadas:

Wu, X. & Bae, C. J. Xujiayao Homo: A New Form of Large Brained Hominin in Eastern Asia. PaleoAnthropology (Early view, 2024). 
paleoanthropology.org

Bae, C. J. et al. Making sense of eastern Asian Late Quaternary hominin variability. Nature Communications (2024). 
Nature

Estudos sobre datação e contexto estratigráfico do Xujiayao site (e.g., Ao et al., 2017 — discussão de idades). 
ScienceDirect

Sínteses e discussões acessíveis por especialistas (ex.: blog de John Hawks, comentários sobre estimativas de volume craniano e implicações).

sábado, 6 de junho de 2026

Um grande dilúvio apocalíptico no passado da humanidade


São muitas as tradições orais em todas as partes do Planeta Terra que conservaram versões de histórias orais transmitidas de geração e geração, muito anteriores à invenção da escrita pelos seres humanos que contam sobre um grande evento cataclísmico no passado que destruiu uma boa parte da espécie humana. Abaixo estão reproduzidos alguns trechos que descrevem tais histórias. O primeiro foi publicado na Revista Super Interessante sob o título "Dilúvio: a verdade por trás do mais universal dos mitos". Complementarmente estão as narrativas do blog "Ensinar História", de Joelza Ester Domingues. E na sequência, relatos das narrativas sobre dilúvios nas mitologias maias, incas e astecas, reproduzindo tradições de povos antepassados das Américas.

Tempos após a criação do mundo, deus se cansa da obra e decide varrer a humanidade com um grande dilúvio. Mas um herói é escolhido para ser salvo com sua família. Deus ordena que ele construa uma arca e carregue nela um casal de cada espécie de animal para todos darem continuidade à vida após a catástrofe. Ao final do dilúvio, esse escolhido solta uma pomba, para averiguar se há terra firme perto.

Você conhece essa história. Mas talvez não saiba o nome do protagonista. Porque ele não se chama Noé. Atende por "Atrahasis". Noé não foi o primeiro proprietário da arca. O mito do dilúvio é bem mais antigo que a própria Bíblia.

Essa história foi escrita 18 séculos antes de Cristo, em mais de mil anos antes da Bíblia, no Épico de Atrahasis. Na verdade, o tal herói não tem exatamente um nome, mas um título. Atrahasis significa "grande sábio" em acádio, o idioma da Babilônia.

O deus que ordenou o dilúvio também é outro. Seu nome é Enlil. Ele decidiu destruir a vida na Terra por um motivo mais comum em condomínios do que em textos sagrados: a humanidade estava fazendo muito barulho e não deixava ele dormir. Foi um outro deus, chamado Enki, que avisou Atrahasis do futuro desastre e ordenou a construção da arca.

Essa narrativa também está presente na Epopeia de Gilgamesh. Essa foi escrita um pouco depois, 13 séculos antes de Cristo, retomando o relato original de 500 anos antes. Nessa história, o rei da Suméria encontra um homem chamado Utnapishtim, que nada mais é do que uma outra versão do próprio Atrahasis. Gilgamesh vai em busca do homem, que além de ultrassábio é imortal, em um busca da receita da vida eterna. Ao longo da conversa, Utnapishtim conta que presenciou o grande dilúvio.

Essas narrativas são as precursoras da versão protagonizada por Noé. Para entender como elas deram origem à história diluviana mais famosa de todas, é preciso dar um passo atrás. Bem atrás: para o berço da civilização. O registro do mito diluvial é quase tão antigo quanto a própria escrita. As literaturas de Atrahasis e Gilgamesh não foram contadas em livros de papel. Elas estão imortalizadas em tabletes de argila, gravados com uma espécie de carimbo, o cunho. Em vez do abecedário, são riscos e triângulos que dão formato ao texto – é o alfabeto cuneiforme, considerado a forma de escrita mais antiga da humanidade.

A escrita surgiu a apenas mil quilômetros de onde Jesus viria a nascer, mas 32 séculos antes. Foi nas margens dos rios Tigre e Eufrates que alguns grupos humanos se acomodaram para criar o que viriam a ser as primeiras cidades da história: Ur, Eridu e Uruk – essa última, inclusive, inspirou o nome que a região tem hoje, o Iraque. Pela primeira vez, o homem adaptava a natureza ao seu estilo de vida, e não o contrário. Se hoje você tem água encanada, consulta o horóscopo e consegue ler este texto, agradeça aos criadores dessas primeiras cidades, os sumérios.

Eles desenvolveram tecnologias revolucionárias, a começar pela escrita. Primeiro, ela era apenas uma representação literal daquilo que existia em volta – basicamente desenhos de animais e objetos. A vida urbana trouxe mais comércio, mais estoques, contas a pagar, mais exércitos a manejar. E os sumérios foram adaptando sua grafia de modo que ela representasse ideias cada vez mais complexas. Com o tempo, as figuras passaram a representar não objetos, mas sons. E podiam ser recombinadas, num código quase mágico, capaz de reproduzir toda a fala humana. Nascia a escrita.

O detalhe é que esse processo levou milhares de anos. Por isso há um salto tão grande entre os primórdios da escrita e o registro das primeiras literaturas épicas e fantásticas. A narrativa do dilúvio contida no Épico de Atrahasis provavelmente já existia antes, mas era repassada oralmente. O surgimento da escrita só possibilitou que ela fosse passada para o papel – ou melhor, para a argila.

Aí não deu outra: a história se espalhou como um best-seller pelo mundo antigo. As grandes cidades da Mesopotâmia eram os principais eixos comerciais e econômicos de seu tempo. Gente de todas as regiões ia até lá para fazer comércio e acabava levando um pouco da cultura local para casa. Não é de se espantar que uma narrativa tão imponente como a do grande dilúvio universal fizesse sucesso na época.

A mesma narrativa foi traduzida, reinventada, recontada e ressignificada em diversas religiões e culturas. A mitologia grega possui Deucalião, o filho de Prometeu que constrói um barco para se salvar do dilúvio de Zeus. A mitologia nórdica também tem sua versão – é só trocar a água por sangue. Ela está presente até no hinduísmo, quando o deus Vishnu encarna na forma de um peixe para avisar a um humano que o dilúvio está por vir.

E, é claro, existe a versão que você bem conhece. Noé nada mais é do que um Atrahasis moderno. Moderno porque, para os escrivães da Bíblia hebraica, os tempos sumérios estavam quase tão distantes deles quanto a Idade Média. É provável que as histórias do Gênesis tenham sido escritas por volta do século 7 ou 6 a.C., 700 anos depois da narrativa de Gilgamesh, que por sua vez vem 500 anos depois de Atrahasis.

Não coincidentemente, os hebreus estavam na Mesopotâmia bem nessa época. O imperador Nabucodonosor II escravizou e deportou o povo hebreu para as margens do Tigre e do Eufrates. O território que abrigava Ur, Uruk e Eridu agora não se chamava mais Suméria, tinha mudado de nome para Babilônia.

"Os antepassados dos hebreus já tinham contato com a cultura e religião da Mesopotâmia antes, mas é provável que eles só tenham fixado as narrativas da Bíblia durante o cativeiro. Os exilados hebreus, afinal, eram uma elite que precisava permanecer unida, ter algo em comum", diz Pedro Paulo Funari, professor de história antiga e arqueologia na Universidade de Campinas (Unicamp).

A Bíblia não esconde de onde vem a inspiração dos escritos sagrados. Segundo o Velho Testamento, o próprio Abraão, patriarca dos hebreus, nasceu em Ur. O mito da criação do homem a partir do barro também já estava registrado em outra passagem do Épico de Atrahasis. "A inspiração mesopotâmica está presente do início do Gênesis até o dilúvio de Noé. Elas não pretendem ser registros históricos, estão ali como relatos mitológicos que servem como alegoria para passar um ensinamento", diz Pedro Paulo Funari.

A presença de relatos diluvianos entre os mesopotâmicos, hebreus, gregos e outros povos não é indicativo histórico de um dilúvio universal, foi inspirado em enchentes e inundações recorrentes, como dos próprios rios Tigre e Eufrates, bem onde estavam aquelas primeiras civilizações. Para as religiões, o importante não é a veracidade da história, e sim a simbologia que a destruição pelas águas carrega. A água era um símbolo forte entre mesopotâmicos. Na língua suméria, a água era representada pelo mesmo ideograma de fertilidade. A cheia anual do Rio Tigre tinha até um deus dedicado a ela, um certo Ningirsu. Gilgamesh era chamado de o quinto rei sumério "após o dilúvio".

A ideia do dilúvio servia como marcador temporal. Os registros sumérios dividem seus reis entre aqueles que governaram antes e depois da enchente universal. Os monarcas antediluvianos, de acordo com as lendas, reinavam por mais de 2 mil anos cada um. As listas de reis só passam a registrar tempos de governo mais plausíveis para depois da catástrofe.

"O dilúvio, para eles, dividia a história da humanidade em duas: uma época fora do comum, e o tempo em que a humanidade assumiu as características atuais", diz Jacyntho Lins Brandão, autor da tradução brasileira da Epopeia de Gilgamesh. É exatamente o que acontece na história bíblica. Antes do dilúvio, o mundo era repleto de gigantes, e de homens que viviam por séculos – não é só Matusalém, o personagem-sinônimo de idade avançada; o próprio Adão, de acordo com a mitologia do Gênesis, viveu até os 930 anos. Depois do reset aquático, o mundo bíblico ficou mais realista.

O conceito do dilúvio talvez ilustre outro divisor de águas: a própria invenção da escrita. Antes, com as histórias e tradições repassadas oralmente, era mais difícil distinguir onde acabava a fantasia e começava a realidade. E parte da fantasia acabou registrada como verdade em documentos formais, como as listas que pretendiam informar quanto tempo cada rei reinou.

Não é só isso. Também tem o fato de que as histórias eram bem antigas já. De acordo com a arqueologia, o Gilgamesh de verdade teria governado os sumérios entre 2,8 mil e 2,5 mil anos antes de Cristo. Mas a epopeia na qual ele aparece como herói só foi escrita mil anos depois. É como se alguém de hoje tentasse descrever a Europa da Idade Média se baseando apenas em relatos orais.

O dilúvio universal, como dissemos, pode não ter existido. Mas nem por isso ele deixa de ser universal. Histórias bem parecidas também surgiram espontaneamente em populações que não tiveram contato com a Mesopotâmia. Os chineses possuem dezenas de narrativas diluviais. Os astecas diziam que o dilúvio foi responsável por transformar humanos em peixes. Para a tribo Lakota, da América do Norte, o único sobrevivente ao dilúvio foi um corvo. Os aborígenes da Austrália transmitem sua história do dilúvio em forma de conto para crianças: um sapo tinha bebido toda a água do mundo, e acabou soltando tudo de uma vez.

Até as tribos indígenas brasileiras possuem suas versões. Os tupinambás acreditavam em dois grandes dilúvios. A lenda começa com um "incêndio universal", que criou as ondulações da Terra. Até então, ela não tinha relevo. Depois veio um dilúvio, que apagou o fogo e tornou tudo habitável novamente. O segundo dilúvio tupinambá é mais na linha mesopotâmica: veio o aguaceiro, os rios subiram, e só alguns humanos conseguiram se salvar – escalando coqueiros e palmeiras.

O fato é que todos estes mitos são alegorias para dois sentimentos bem universais: o medo de que tudo acabe, e a esperança de que sempre há um recomeço.

Na mitologia grega, Zeus quis destruir os homens da idade do bronze, por causa de suas perversidades e vícios. Enviou pois um grande dilúvio e pediu ajuda a seu irmão, Poseidon, deus dos mares. As águas dos rios e dos mares inundaram toda a terra, engolindo rebanhos, casa, homens e animais. O titã Prometeu - uma raça gigantesca que habitou a terra no início dos tempos - advertiu seu filho Deucalião, o mais justo dos homens, e Pirra, a mais virtuosa das mulheres, sobre o dilúvio. Instruiu o casal a construir uma grande arca onde, durante nove dias e nove noites, flutuaram sobre as águas do dilúvio. Acabaram por encalhar nas montanhas do Parnaso.

Terminada a inundação, Zeus lhes enviou Hermes, concedendo-lhes a satisfação de um desejo. Deucalião pediu que renovasse a humanidade. Foi-lhes ordenado, então, que atirassem pedras, os ossos da Terra, que é a mãe comum de todos os humanos. Os dois apanharam pedras e começaram a atirá-las para trás sobre seus ombros: das que Deucalião atirou nasceram homens, das que Pirra nasceram as mulheres.

Na Ásia, a mitologia hindu, na região da Índia, narra que o deus Vishnu por dez vezes desceu à terra, a cada vez assumindo uma forma diferente, isto é, apresentando-se sob novo avatar como animal, humano ou a mistura de ambos. O primeiro avatar foi o peixe Matsya. Conta-se que um dia, o sábio Manu, fazia suas abluções quando um pequeno peixe nadou até suas mãos. O pequeno animal suplicou que o levasse consigo e cuidasse dele. Ele colocou o peixe numa jarra, mas o animal cresceu de tal modo que foi necessário transportá-lo a um tanque, no dia seguinte já não cabia no tanque e passou para um lago, e no outro dia o lago já era pequeno para contê-lo. "Leve-me para o mar", disse o peixe a Manu, que obedeceu e, como recompensa, Matsya advertiu-o do dilúvio que aconteceria em breve e cobriria toda a terra. Enviou-lhe um grande barco e deu-lhe a ordem para nele colocar um casal de cada espécie vivente e sementes de todas as plantas, mandando-o entrar no barco. Logo que Manu embarcou, o Oceano submergiu. Via-se apenas Matsya - o deus Vishnu, sob a forma de um grande peixe unicorne - com escamas de ouro. Manu amarrou-se ao chifre do grande peixe usando a serpente Vasuki. E a humanidade, os animais e as plantas foram assim salvos da destruição geral.

Na América do Sul, na mitologia inca, o grande deus criador Viracocha fez a terra e o céu, criando a primeira humanidade. Ordenou que os homens guardassem harmonia entre si, obedecessem a um código moral e o servissem e honrassem. Uma parte das suas criaturas, contudo, deixou-se dominar pelo orgulho e entregou-se a maldades, vícios e devassidão. Encolerizado, Viracocha transformou os devassos em pedras, outros em animais e afogou os demais. Mandou em seguida o grande dilúvio - chamado Uno Pachacuti - para cobrir o mundo. Poupou três indivíduos destinados ao repovoamento. Quando as águas desapareceram, Viracocha criou uma nova humanidade e mando-a povoar diferentes regiões.

Na América do Norte, a mitologia asteca narra que no começo não havia o Universo tal como o conhecemos, havia um grande vazio escuro. Os deuses decidiram criar a tudo, porém, para isso, a energia original teria que vir do sacrifício de uma das divindades. O deus Tecuciztecatl se ofereceu e seria honrado, tornando-se o Sol. Entretanto, na hora do sacrifício ele refugou, e um outro deus mais humilde, Nanahuatzin, pulou no fogo. Tecuciztecatl, envergonhado, pulou atrás e assim, nos primórdios, foram criados dois sóis. Mas a covardia inicial de Tecuciztecatl irritou os demais deuses e ele acabou rebaixado a não brilhar tanto e a ficar no céu apenas de noite, sendo a Lua. A Terra e seus elementos, a partir da energia disponível, foram criados. A pedido do Sol, os três deuses mais importantes do panteão asteca - Quetzalcoatl, Tlaloc e Tezcatlipoca - imolaram-se e se autosacrificaram para que fosse criado o Universo com sua força original.

Mas na narrativa, este mundo criado também acabou destruído, e não uma, mas várias vezes, para que os deuses aperfeiçoassem a sua criação. Na quarta destruição do mundo no mito asteca, causada por um grande dilúvio (destruição através das águas), Coxcox e sua esposa Xochiquetzal, teriam sido os únicos sobreviventes da inundação, tendo se refugiado no tronco oco de um cipreste, que flutuou sobre a água e finalmente aportou em uma montanha em Culhuacan, aonde recriaram toda a espécie humana.

A mitologia asteca tem evidente influência da mitologia maia, que a antecedeu em alguns séculos. Na mitologia dos maias, os mitos e lendas foram esculpidos em pedra e em cerâmica, além de terem sido registrados em folhas de casca de árvore (chamados "códices"). Sua narrativa sagrada é o Popul Vuh, que é parecido a um compêndio de histórias inter-relacionadas. Seus deuses maiores eram Tzakól, que criou o universo, e Bitól, que deu as formas das coisas. A terceira divindade era Gucumatz ou, como é mais conhecida, Kukulkán (a "Serpente Emplumada").

No princípio ainda havia outros dois deuses importantes: Huracán ("aquele que tem uma só perna"), que era o Deus do vento, da tempestade e do foro, e que foi quem provocou a "Grande Inundação" (um dilúvio), por ordem dos demais deuses, enfurecidos que estavam pelas seguidas desobediências da criação original. Poucos se salvaram do desastre. Foi então Tepeu o deus que ajudou na reconstrução terrestre.

A narrativa do Popol Vuh segue então com os heróis Hunahpú e Ixbalanqué, irmãos gêmeos, que superaram muitos desafios e conseguiram até mesmo derrotar aos deuses do Xibalbá, o Submundo Maia. Deste modo, os gêmeos conseguiram "limpar" as trevas do mundo e, como prêmio, ascenderam aos céus e se tornaram o Sol (Hunahpú) e a Lua (Ixbalanqué). O pai dos gêmeos chamava-se Uno Hunahpú, que junto a seu irmão Siete Hunahpú passavam todo o tempo com jogos de bola, o que incomodou aos deuses do Xibalbá, que tentaram parar com o barulho que faziam ao jogar. Toda a mitologia mais se resume a uma luta entre o bem e o mal como origem do mundo e da vida, um movimento eterno do qual não podemos escapar, com a mística do jogo da bola emergindo como peça fundamental no Popol Vuh para a resolução de conflitos.

Não importa para onde se olhe, descrições de um dilúvio cataclísmico que destruiu o mundo podem ser encontradas em quase todas as culturas antigas... Este fato histórico é uma evidência clara de como muitas das culturas mais antigas do mundo têm histórias que descrevem um Grande Dilúvio que devastou civilizações anteriores no Planeta Terra.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Gunung Padang, os mistérios por detrás das ruínas na Indonésia


Análises recentes levaram cientistas da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia (BRIN) a acreditar que a estrutura conhecida como Gunung Padang - que significa “montanha do esclarecimento” - construída no topo de um vulcão extinto em Java, a ilha mais populosa da Indonésia, seria muito mais antiga do que Stonehenge, na Inglaterra, ou do que as grandes pirâmides de Gizé, no Egito, ambas com cerca de 5 mil anos. Assim, seria a estrutura monolítica (uma construção ou estátua feita de um único pedaço de material, geralmente rocha) mais antiga do mundo inteiro.

Eles acreditam que o cronograma de construção foi aproximadamente o seguinte:

- a construção teria começado em algum momento do último período glacial (um período em que a Terra estava mais fria), há pelo menos 16 mil anos, mas estimando que tal construção teria sido há 27 mil anos;

- a parte central da estrutura teria sido provavelmente construída entre 25 mil e 14 mil a.C., mas teria abandonada por vários milhares de anos;

- a construção teria começado novamente por volta de 7.900 a 6.100 a.C., época na qual os construtores parecem ter enterrado partes do local de propósito;

- a pirâmide teria sido concluída por volta de 2.000 a 1.100 a.C., com o acréscimo dos terraços de pedra que podem ser vistos hoje na superfície do vulcão.


O geólogo Danny Hilman Natawidjaja, pesquisador do BRIN, diz que a construção foi feita em forma de pirâmide em camadas. Ele e sua equipe coletaram amostras de solo nas profundezas do morro e estão confiantes na validade do resultado, principalmente devido ao alto teor de matéria orgânica encontrada. Natawidjaja destaca que "os construtores da Unidade 3 e da Unidade 2 em Gunung Padang devem ter possuído notáveis ​​capacidades de alvenaria, que não se alinham com as culturas tradicionais de caçadores-coletores". No entanto, diversos arqueólogos discordam das conclusões da pesquisa de Natawidjaja - um deles é indonésio Lutfi Yondri, que considera errônea a conclusão de que Gunung Padang é uma pirâmide enterrada: "A Indonésia já teve uma cultura piramidal? Não. Os habitantes do arquipélago têm punden berundak (terraços de pedra)", disse Yondri em entrevista à rede inglesa BBC. Terraços de pedra são estruturas rochosas em forma de mesa usadas para cerimônias de adoração aos ancestrais. Acredita-se que Gunung Padang era usado para este tipo ritual. Gunung Padang seria então, de fato, um conjunto de terraços de pedra, em vez de uma pirâmide.

A região de Gunung Padang possui uma história antiga, tendo sido habitada e retrabalhada diversas vezes ao longo do tempo. Assim, as escavações revelaram diferentes camadas, cada uma mais antiga do que a outra. Logo abaixo da superfície está a camada mais rasa da estrutura, chamada de Unidade 1, mais recente que algumas pirâmides do Egito e relativa a uma sociedade humana que habitou o local por volta do ano 600 a.C.. No entanto, o trabalho desenvolvido por esses indivíduos apenas encobriria o que foi feito anteriormente, que está a 4 ou 5 metros de profundidade, e remonta a 4.700 a.C., esta camada, a Unidade 2, porém, também teria 'escondido' uma mais antiga: a Unidade 3, a cerca de 10 metros abaixo da superfície, datada de 10 mil a.C. E mais abaixo, sua camada mais profunda, parece ter sido construída em 25.000 a.C.. Se a datação estiver correta, seria uma descoberta que mudaria tudo que se sabe sobre a história da civilização humana. Isso porque a construção poderia ser anterior à mais antiga civilização conhecida, a Mesopotâmia, de 5.000 a.C., e até mesmo à última Era Glacial, que terminou em 11.500 a.C.. Ou seja, caso todas as afirmações feitas no estudo sejam provadas, a Indonésia poderia passar a ser considerada o berço da mais antiga civilização que o mundo já conheceu. Vale mencionar ainda que o país asiático também abriga a arte rupestre mais antiga conhecida, com 45,5 mil anos.

Outro fator que chamou bastante atenção no local foi o fato de os pesquisadores terem encontrado o que seria uma antiga mistura de cimento, utilizada para colar as pedras de Gunung Padang, composta por argila, sílica e ferro. Ou seja, a tecnologia de fusão do ferro estaria em uso bem antes do início da Idade do Ferro (1.200 a.C. - 550 a.C.), ao passo que outros povos da região foram descritos utilizando ferramentas primitivas, de osso, há apenas 7 mil anos.

Entre os anos de 7.900 e 6.100 a.C., a fase seguinte, Unidade 3, foi "deliberadamente enterrada com preenchimentos substanciais de solo". A Unidade 2, a próxima camada de pilares de pedra, degraus e terraço, surgiu entre os anos 6.000 e 5.500 a.C.. Já a camada final, Unidade 1, é mais jovem que algumas pirâmides do Egito, sendo concluída entre 2.000 e 1.100 a.C.. É importante ressaltar que a região já teve intensa atividade vulcânica no passado.


Fotos do Morro de Gunung Padang, e das ruínas de basalto no local:








Ilustrações de como se acredita que seria a estrutura no local:




terça-feira, 14 de abril de 2026

Mitologia de Incas, Maias e Astecas: Quetzalcoatl, Viracocha e Kukulkan


Mitologia Inca (Peru, Bolívia e Equador)

VIRACOCHA é uma das divindades mais importantes e misteriosas da mitologia inca. Ele é considerado o deus criador supremo, responsável pela criação do universo, do céu, da terra, e de todas as formas de vida. Na cosmovisão inca, Viracocha era o deus primordial, que criou não apenas os seres humanos, mas também as outras divindades menores que governavam diferentes aspectos da natureza e da vida dos incas.

Segundo a mitologia, Viracocha teria emergido do lago Titicaca, ou, em outras versões, das águas do oceano Pacífico, em tempos muito antigos, quando o mundo ainda estava em caos. Ele trouxe ordem ao universo criando a luz, os céus e a terra, e depois formou o primeiro grupo de seres humanos. No entanto, insatisfeito com sua criação inicial, Viracocha destruiu esses primeiros humanos em um grande dilúvio e criou uma nova humanidade a partir de pedra. Após essa criação, ele ensinou os homens sobre cultura, moralidade, agricultura e artes, e viajou pelo mundo disfarçado de mendigo, espalhando sabedoria e civilização.

Viracocha também está associado ao mito da criação de vários povos andinos e às grandes façanhas atribuídas aos governantes incas, como o oitavo governante, Pachacuti, que adotou o nome Viracocha Inca em homenagem ao deus.

Ao contrário de outras divindades incas que eram relacionadas a fenômenos naturais mais específicos, como o sol (Inti) ou a terra (Pachamama), Viracocha representava o princípio cósmico universal, sendo reverenciado não apenas pela sua criação, mas também por ser o deus das tempestades e dos trovões, simbolizando seu poder destrutivo e criador ao mesmo tempo.

Ele é retratado como um homem barbudo e vestindo túnicas, características incomuns nas representações indígenas, o que levou alguns estudiosos a especular sobre influências culturais externas. No entanto, o culto a Viracocha já era praticado muito antes da chegada dos espanhóis, o que reforça sua origem autêntica na cultura andina.

Viracocha era reverenciado principalmente nas regiões altas dos Andes, especialmente em Tiwanaku, um importante centro religioso na atual Bolívia, antes da ascensão do Império Inca. Embora Inti, o deus do sol, tenha se tornado a divindade mais venerada no auge do Império Inca, Viracocha permaneceu uma figura reverenciada como o criador original e uma entidade superior na hierarquia dos deuses incas.

Simbolizações de Viracocha


Mitologia Asteca (Região Central do México)

QUETZALCÓATL, na mitologia mesoamericana, é uma das divindades mais importantes, representando o deus do vento, da sabedoria, das artes e do conhecimento. Seu nome em náuatle significa “Serpente Emplumada”, e ele é frequentemente retratado como uma serpente coberta de penas de quetzal, uma ave nativa das florestas tropicais da América Central. A figura de Quetzalcóatl é central nas mitologias asteca e tolteca, mas também aparece em outras culturas mesoamericanas, como os maias e os olmecas.

A relação entre Quetzalcóatl e a cidade de Cholula é profunda. Cholula foi um importante centro religioso e cultural antes da chegada dos espanhóis, e a Pirâmide de Cholula, também conhecida como Tlachihualtepetl, foi originalmente dedicada a essa divindade. O culto a Quetzalcóatl em Cholula remonta a séculos antes da conquista espanhola, e a cidade era vista como um dos principais santuários do deus.

Segundo a tradição tolteca, Quetzalcóatl era um deus criador e também associado à ordem cósmica. Ele tinha uma contraparte destrutiva, Tezcatlipoca, com quem muitas vezes estava em conflito. A mitologia conta que Quetzalcóatl foi um deus benevolente, responsável pela criação da humanidade e pelo desenvolvimento da civilização, introduzindo conhecimentos como a agricultura e as artes. No entanto, devido a um engano ou traição, ele teria sido exilado, prometendo retornar no futuro. Essa profecia de retorno foi usada pelos espanhóis, como Hernán Cortés, que foram confundidos pelos astecas com o retorno da divindade devido à sua chegada de leste, uma direção associada a Quetzalcóatl.

Cholula, sendo um dos centros religiosos mais importantes, foi um local significativo para a adoração de Quetzalcóatl. O grande templo-pirâmide era um dos maiores santuários em honra à Serpente Emplumada. Quando os espanhóis chegaram a Cholula em 1519, eles encontraram uma cidade rica em cultura e profundamente ligada à veneração desse deus, o que se refletia na importância da pirâmide. Após a conquista, no entanto, a pirâmide foi encoberta e uma igreja católica foi construída em seu topo, simbolizando a imposição da nova ordem religiosa.

Quetzalcóatl também simboliza o ciclo de criação e destruição que permeia a mitologia mesoamericana, e sua relação com Cholula reforça essa conexão entre os mundos material e espiritual. Cholula era vista não apenas como um centro político e econômico, mas principalmente como um lugar de peregrinação espiritual, onde o legado de Quetzalcóatl e sua promessa de sabedoria e renovação reverberava por toda a Mesoamérica.

Simbolizações de Quetzalcóatl


VIRACOCHA vs QUETZALCÓATL

Viracocha pode ser associado a Quetzalcoatl em vários aspectos, apesar de pertencerem a culturas diferentes (Viracocha aos incas e Quetzalcoatl aos mesoamericanos, como os astecas e maias). Ambos são considerados deuses criadores, com características semelhantes no papel que desempenham na cosmogonia e na organização do mundo.

Similaridades entre Viracocha e Quetzalcoatl:

1. Criadores do Mundo e da Humanidade: Tanto Viracocha quanto Quetzalcoatl são descritos como deuses criadores. Viracocha criou o universo e os seres humanos no mito inca, enquanto Quetzalcoatl, nas mitologias asteca e tolteca, é associado à criação dos humanos e à introdução da civilização, como o conhecimento da agricultura e das artes.

2. Deuses Civilizadores: Ambos não apenas criaram o mundo, mas também ajudaram a civilizar a humanidade. Viracocha ensinou os primeiros humanos sobre cultura, agricultura e moralidade, assim como Quetzalcoatl, que é descrito como um deus benevolente, responsável por trazer o conhecimento e as artes para os povos mesoamericanos.

3. Viagens e Disfarces: Há lendas que descrevem Viracocha vagando pelo mundo disfarçado de um homem comum, muitas vezes vestindo trajes humildes e pregando moralidade. Da mesma forma, Quetzalcoatl é retratado como um deus que viaja, ensinando e compartilhando sabedoria com os povos da Mesoamérica. Esses mitos de um deus que caminha pela terra conectam ambos a uma função de mestres divinos.

4. Aparências Similares: Viracocha e Quetzalcoatl são frequentemente descritos como figuras que se destacam por suas características físicas. Viracocha é, em algumas tradições, descrito como um homem barbudo, o que é incomum para as representações indígenas andinas. Já Quetzalcoatl, embora frequentemente representado como uma serpente emplumada, também é, em certos contextos, retratado como um homem barbudo e de pele clara. Esse traço físico incomum gerou especulações sobre influências externas, embora seja mais provável que esses aspectos façam parte das cosmologias locais.

5. Relação com as Tempestades e Fenômenos Naturais: Viracocha, além de ser o deus criador, também é associado às tempestades, trovões e ao poder destrutivo da natureza, uma característica que também se encontra em Quetzalcoatl, que, além de seu papel como deus civilizador, está associado ao vento e à chuva nas tradições mesoamericanas.

Diferenças Culturais:

Apesar das semelhanças, existem diferenças importantes que refletem as características culturais distintas entre os incas e os povos mesoamericanos. Por exemplo, Quetzalcoatl era adorado no contexto de uma religião complexa que envolvia sacrifícios humanos, enquanto a adoração a Viracocha, embora envolvesse rituais, parece ter um tom menos violento e mais filosófico.

Conexão Simbólica:

A associação simbólica entre os dois deuses pode ser vista como uma manifestação da importância que as antigas civilizações das Américas davam ao conceito de um deus criador benevolente, que traz ordem ao caos e civilização à humanidade. Embora não haja evidência direta de uma conexão cultural entre os dois, suas figuras desempenham papéis similares nas cosmovisões de suas respectivas civilizações.

Assim, Viracocha e Quetzalcoatl podem ser vistos como deuses paralelos, refletindo ideias semelhantes de criação, civilização e ordem, adaptadas às necessidades e ao ambiente de cada cultura.



Mitologia Maia (Sul do México e América Central)

Na mitologia maia, há uma divindade que tem várias semelhanças com Quetzalcoatl, chamada KUKULKAN. Assim como Quetzalcoatl, Kukulkan é uma serpente emplumada e desempenha um papel central nas crenças religiosas e cosmológicas dos maias.

Similaridades entre KUKULKAN e QUTZALCÓATL:

1. Serpente Emplumada: tanto Kukulkan quanto Quetzalcoatl são representados como serpentes gigantes cobertas de penas de quetzal, o que lhes confere uma combinação simbólica de características celestiais (representadas pelas penas) e terrestres (representadas pela serpente). Essa figura híbrida sugere uma conexão entre os céus e a terra, o que era fundamental nas cosmologias mesoamericanas.

2. Deus Civilizador: assim como Quetzalcoatl, Kukulkan é visto como um deus que trouxe conhecimentos importantes à humanidade. Ele foi associado à criação da civilização e à introdução de práticas culturais, como a agricultura, a astronomia e a escrita. Isso reflete o papel dos deuses como professores que orientam os humanos no desenvolvimento da sociedade.

3. Templos Dedicados: Kukulkan é honrado em várias cidades maias, mas sua representação mais famosa é encontrada em Chichén Itzá, um importante centro cerimonial maia na Península de Yucatán. O Templo de Kukulkan, também conhecido como “El Castillo”, é uma pirâmide escalonada dedicada à divindade, com uma arquitetura que reflete a profunda conexão dos maias com a astronomia. Durante os equinócios, a luz do sol cria um efeito de sombra nas escadas da pirâmide, que parece mostrar uma serpente descendo os degraus.

4. Associações Cósmicas: Kukulkan, como Quetzalcoatl, também é associado ao vento, à chuva e à fertilidade, desempenhando um papel fundamental nos ciclos naturais que garantem a vida. Em algumas tradições, ele também está vinculado à criação do mundo e ao estabelecimento da ordem cósmica.

Diferenças Culturais:

Embora Quetzalcoatl e Kukulkan compartilhem muitas características, suas representações específicas variam de acordo com as culturas que os adoravam. Quetzalcoatl tinha um papel mais central entre os astecas e toltecas, enquanto Kukulkan era predominante nas tradições maias. Também é importante notar que as práticas religiosas e os mitos variavam entre as diferentes regiões e períodos da civilização maia.

Em resumo, Kukulkan é a contraparte maia de Quetzalcoatl, e ambos compartilham muitos atributos como deuses criadores e civilizadores, representados pela figura icônica da serpente emplumada.


Simbolizações de Kukulkan


terça-feira, 10 de março de 2026

Como se estabeleceram os esforços de construção de uma governança e uma gestão globais, numa busca de conciliação das diversidades de todos os povos

Viajar pela jornada humana amadurece a nossa consciência, evidenciando-nos como a evolução em grupo da civilização deixou lições que unem todas as características aqui apresentadas, oferecendo-nos lições. Esta evolução ordenou a formação e a convivência dentro de um bando global tão grande quanto foi possível de ser viabilizado, e nos mostra o que é a essência da construção de relacionamentos humanos.

Nossa história neste planeta nos ensina que poderes precisam vir acompanhados de compromissos com deveres que protejam a coletividade de abusos praticados por eventuais detentores do poder, uma vez que o interesse final pelo qual se deve zelar precisa ser sempre o coletivo, que é o que nos proporciona evolução. Os alicerces têm que estar sustentados sob responsabilidade e respeito mútuo, atendendo a princípios de legalidade, com uma atuação de forma a se zelar pela moralidade ética de compromisso com o todo, da forma a mais honesta possível, e seguindo um dever de eficiência e qualidade, com transparência e compromisso com os interesses comuns da totalidade.

Ao longo da história, a humanidade construiu, gradativamente, uma coletividade racional e justa. Mutável, em constante transformação, mas sob determinados pilares de ideais e valores sustentados pelo conhecimento humano que foi sendo acumulado. Sem uma ideologia lógica, qualquer transformação ou revolução deixa de ser verdadeira e permanente, restringindo-se a atos de força isolados que se esvairão com o vento. Como bem afirmou certa vez a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt: "embora a violência seja capaz de destruir o poder, jamais poderá substituí-lo". As mudanças que se mantem e se frutificam, resistindo ao teste do tempo, não são construídas pela força, mas pela harmonização racionalizada do coletivo humano. Serve para o todo, serve individualmente para você. O poder das ideias é e será sempre testado, e assim deve ser, se vencer tais enfrentamentos, garantirá espaço entre a crença vigente da civilização, ao menos até quando voltem a ser testados novamente.

As sementes desta consciência global coletiva amadureceram de forma mais enfática mundialmente após as traumáticas destruições impostas pelas Guerras Mundiais da primeira metade do Século XX. Longe ainda de um consenso pleno, sob uma forma altamente heterogênea, e ainda sob muitas ameaças conflitivas, mas sob as primeiras diretrizes participativas de uma ampla maioria de povos na construção de uma coordenação e uma gestão em esforço comum de toda a humanidade, pela primeira vez a nível verdadeiramente planetário.

O viés de crescimento acelerado era uma força intensa que parecia imparável! Se por um lado nunca num século havia morrido tantas pessoas pela violência das guerras, por outro a principal característica do Século XX foi a consolidação de aceleração do crescimento populacional do planeta, num ritmo que adentrou pelo Século XXI: quando Júlio César foi designado Imperador de Roma, em 47 a.C., estima-se que a população mundial era de 250 milhões; foi somente em 1.837 que a população global teria superado a 1 bilhão de pessoas; em 1.927 ultrapassou os 2 bilhões, em 1.959 passou de 3 bilhões, em 1.974 de 4 bilhões, em 1.987 de 5 bilhões, em 2.000 superou 6 bilhões, em 2.010 passou a marca de 7 bilhões, e em 2.022 já eram mais de 8 bilhões de pessoas vivendo no Planeta Terra! É um crescimento exponencial impressionante!

Tempos nos quais a raça humana viveu uma explosão de densidade populacional como nunca vista em toda a sua história! Foi o avanço da tecnologia o que viabilizou que o Planeta Terra pudesse sustentar mais seres humanos, com a abertura de vastos territórios com uso de novos meios para mover pessoas e coisas, usando novas maneiras de aumentar a produtividade de uso do solo e assim cultivar mais alimentos, e usando a ciência para prover soluções de saúde. O crescimento populacional, em contraposição, podia ser domado de uma maneira economicamente cada vez mais barata e fácil através das escolhas das pessoas por mais qualidade de vida, sem que elas tivessem que restringir seus apetites naturais. Ainda assim, cresceu-se a um ritmo nunca antes visto.

Esta explosão de crescimento da população foi fator de intensificação de transformações. Quando os mais jovens são muito mais numerosos do que os mais velhos, é normal que as convenções sejam cada vez mais questionadas, contestadas e, em alguns casos, subvertidas. Por isto, uma das marcas do Século XX também foi a existência de intensas Revoluções Culturais, causadas por esta explosão demográfica jamais antes experimentada na história humana, e que remexeram muitas das convenções construídas nos séculos anteriores. Era necessário um grande fluxo de transformações para conciliar tantas diferenças, e elas se manifestaram das mais diferentes formas, num laboratório coletivo por busca de soluções conciliatórias, sobretudo porque a consciência coletiva havia amadurecido a níveis nunca antes testados.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo presenciou o fim definitivo das amarras políticas do Colonialismo Europeu. Em meio a tal processo, um líder em especial se destacou pela ideologia que empregou na luta para libertar as amarras políticas de seu país: como anteriormente já narrado, Mahatma Gandhi aplicou a ideologia de não-violência para dar fim às amarras políticas da Índia em relação à Inglaterra. Filho de uma família de comerciantes em Bombaim, estudou advocacia em Londres e exerceu o ofício na África do Sul, até regressar a seu país para se engajar na luta de libertação nacional, pregando a resistência não violenta e a libertação espiritual em relação a bens materiais. Foi assim que em 1.947 a Índia conseguiu a sua independência, ainda que não da forma como Gandhi desejou, como uma nação unida, pois conflitos religiosos sangrentos entre muçulmanos e hindus levaram à fragmentação da região, com o surgimento de duas novas nações islâmicas independentes, Paquistão e Bangladesh.

Após este legado libertador e de luta pacifista, a Índia voltou a ser novamente inovadora quando em 1.966 uma mulher foi eleita como primeira-ministra: Indira Gandhi. Filha de Jawaharlal Nehru, primeiro ‘primeiro-ministro’ eleito após a independência do país, carregava o sobrenome Gandhi por casualidade, tendo o adquirido após se casar com Feroze Gandhi, que não tinha qualquer parentesco com Mahatma Gandhi. Ela hindu e ele parsi, eles formaram a união de duas seitas que na cultura local não tinham o hábito de permitir casamentos fora de seus respectivos grupos. Líder carismática, Indira se manteve 15 anos como primeira-ministra. Em 1.984, ela acabou sucumbida pela violência, assassinada por seus próprios guarda-costas, da seita sikh. Apesar da tragédia, a abertura política de acesso do gênero feminino ao poder apresentava-se de forma definitiva como um fato irreversível a nível mundial.

Outro marco importante de ruptura, este ligado às segregações por razões raciais, deu-se na África do Sul, que era a economia mais próspera do continente africano, controlada por uma minoria de pele branca herdada do colonialismo inglês, que a partir de 1.948 impôs um regime segregacionista sustentado por ideais preconceituosas de "supremacia da raça branca". No regime batizado como Apartheid era proibido o casamento interracial, pessoas de raça negra não podiam frequentar universidades, usar os mesmos transportes públicos ou frequentar os mesmos ambientes. A luta pelo fim deste regime acabou levando a conflitos armados. O líder desta insurreição foi Nélson Mandela, que por causa dela acabou preso em 1.964. Um processo parecido ocorreu nos Estados Unidos, onde uma forma similar da mesma ideologia segregava o convívio social de brancos e pretos, onde quem liderou a insurreição em favor dos direitos civis foi Martin Luther King, que acabou assassinado em 1.968 em Memphis. Ambos semearam uma luta contra o racismo e em favor de direitos civis igualitários. Mandela saiu da prisão, e em 1.994 se tornou o presidente da África do Sul. Tal feito representou um símbolo de amadurecimento do entendimento coletivo de que a segregação e o preconceito não podiam mais ser aceitos.

Foi um século repleto de amadurecimento de conceitos sociais e políticos. No início do Século XX, juntos, o Império Britânico (o qual incluía a Índia) e a China, tinham, cada um, 400 milhões de habitantes, abrigando, em conjunto, a metade da população mundial. Em extensão territorial, o Império Russo havia crescido muito rápido, estendendo-se desde o Mar Báltico, na Europa, até o Oceano Pacífico, no extremo oriente da Ásia. Em tamanho geográfico, somente o Império Britânico o excedia. Tal abrangência e rapidez de crescimento deram a muitos a sensação de que o século que se iniciava seria dominado pela Rússia. Porém, no Século XXI o personagem principal que atuou como verdadeiro transformador das relações econômicas e de poder foi outro. Para entender a mudança de dinâmica vivida, em especial a partir do ano 2.001, nossa atenção e nosso foco são forçados a se voltar para a China.

O país sempre foi quase um subcontinente dentro do continente asiático. A partir de 1.935 havia emergido a liderança de um jovem camponês de nome Mao Tsé-Tung no Partido Comunista Chinês. Quando o Japão invadiu a China, em 1.937, nacionalistas e comunistas uniram forças e lutaram juntos contra o inimigo estrangeiro. Os japoneses tomaram a metade leste do país, com os comunistas conseguindo impor uma resistência no extremo oeste. Foi em meio a esta resistência que cresceu a liderança de Mao Tsé-Tung. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram forçados a se retirar, e nacionalistas e comunistas chineses iniciaram uma guerra civil pelo controle do país. Em outubro de 1.949, o exército de Mao Tsé-Tung venceu esta guerra civil, passando a controlar a quase totalidade da China, com as forças do general Chiang Kai-Shek, líder nacionalista e capitalista, ficando acuadas na região onde instituíram uma república própria, a ilha de Taiwan.

Durante o "Grande Salto para Frente" na China comunista, Mao Tsé Tung conseguiu avanços, reduzindo significativamente a incidência de doenças infecciosas e do analfabetismo. Por outro lado, viveu um grande colapso econômico agrícola muito parecido ao vivido na União Soviética, o qual causou a morte pela fome, entre 1.958 e 1.961, de entre 30 e 50 milhões de chineses, sem que haja uma estatística precisando exatamente quantos foram.

Mao Tsé Tung já havia morrido (morreu em 1.976, aos 82 anos) quando o colapso da União Soviética durante os Anos 1.980 forçou o país a precisar fazer severos ajustes em seu modelo econômico. Politicamente continuou sendo uma autocracia, sob um regime autoritário, e cheio de particularidades restritivas para gerir aquela que era a maior população de uma nação no mundo. Além de suas fronteiras, a China se integrou à economia capitalista global somente em 2.001, quando ingressou na Organização Mundial do Comércio, abrindo a sua economia para as relações econômicas com o exterior e impondo uma nova ordem global, uma vez que ingressava com um mercado de 1,3 bilhão de pessoas em seu território e com trabalhadores com um nível salarial enormemente inferior aos dos demais países, o que por conseguinte lhe permitia custos de produção muito inferiores e uma maior competitividade via preço em escala global. O mundo viveu então, entre 2.001 e 2.008, uma explosão de liquidez econômica como vista em poucos momentos de sua história.

Antes de voltarmos a tal ponto, cabe abrir um parêntesis para demonstrar quais foram as ferramentas tentadas para a construção de uma coordenação e uma gestão de esforços por um convívio harmônico entre nações após as destruições colossais impostas pela Segunda Guerra Mundial. Após o fim dos conflitos, deu-se fim à fracassada Liga das Nações, que havia sido instituída após a Primeira Guerra Mundial, e foi fundada a Organização da Nações Unidas (ONU), numa nova tentativa para mediar as articulações políticas globais. Em paralelo, militarmente foram formados dois grupos de cooperação: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), altamente dependente militarmente dos Estados Unidos, e o Pacto de Varsóvia, articulado pela União Soviética como cooperação de defesa do Bloco Comunista.

Após os estouros das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão, os indícios apontam que as armas nucleares contribuíram mais em favor de haver paz do que de haver guerra. Mas basta um louco ou um líder excessivamente confiante para subverter estes indícios. A Era Nuclear ofereceu uma instável mistura de perigo e segurança, sendo tão enganoso ignorar os sinais de segurança quanto esquecer o perigo.

As nações, conjuntamente, chegaram à conclusão de que as perdas seriam muito superiores aos ganhos num conflito generalizado de larga escala. Assim, pode-se concluir que a paz não depende de negociações, mas de uma previsão de quais são os custos e os benefícios do conflito, passando pela avaliação da capacidade do inimigo e da conclusão sobre as vantagens e desvantagens do emprego da força militar para a redistribuição de poder. Era preciso então, mais do que tudo, reforçar os esforços para a construção de uma paz duradoura.

Após o fim da Segunda Guerra, com as rendições e os acordos de paz assinados, houve uma união internacional em busca de um reordenamento mundial. A proposta de construção desta nova ordem foi elaborada durante a Conferência de Bretton Woods, realizada nos Estados Unidos, na qual foram criadas duas instituições vinculadas à ONU, o Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O primeiro visando prover desenvolvimento econômico através de empréstimos de longo prazo a taxas de juros facilitadas, com o objetivo de acabar com a pobreza, melhorar a distribuição de renda e reduzir as desigualdades econômicas. O segundo visando prover uma cooperação monetária global em favor de uma estabilização financeira e monetária capaz de diminuir as oscilações cambiais e, assim, prover uma estabilidade capaz de viabilizar um maior crescimento econômico e uma maior geração de empregos.

Complementarmente, o terceiro tripé deste plano de desenvolvimento global visava reduzir as barreiras tarifárias e ampliar o comércio internacional, e para isto foi buscada a criação de uma Organização Internacional de Comércio (OIC). Após diversas rodadas de negociação entre 1.946 e 1.948, ficou claro que não havia consenso suficiente para ampliar a liberalização das trocas comerciais internacionais, e o plano de criação da OIC acabou abortado. Porém, de tais rodadas emergiu o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês), o qual regulou as relações de comércio internacional durante quatro décadas, até 1.994, quando enfim se chegou a um consenso para a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC).

Durante todo este esforço de ampliação da cooperação internacional, intensificaram-se as relações de integração econômica, com nações assinando acordos de formação de Áreas de Livre Comércio (nas quais são eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias entre os países membros) e de Uniões Aduaneiras (nas quais além de serem eliminadas as barreiras tarifárias e não tarifárias, também é adotada uma tarifa externa comum entre países membros). Esta conjuntura acabou evoluindo para que fosse criado na Europa primeiro um Mercado Comum (no qual há livre circulação de fatores de produção e de produtos entre os países membros, não havendo barreiras à circulação de bens, serviços, pessoas e capitais) e posteriormente, já nos Anos 1.990, com a evolução do modelo para a adoção de uma União Econômica (na qual há uma completa eliminação de barreiras comerciais e uma coordenação de políticas econômicas fiscal e monetária válidas a todos os membros, com regras comuns de coordenação das políticas orçamentárias e controles das políticas econômicas). Foi assim que foi formada a União Europeia, algo que era impensável no contexto de divergências que predominou na primeira metade do Século XX.

Nos Anos 1.960 tinha havido um primeiro movimento, com a formação de um mercado comum de comércio entre França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Em 1.973, Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca juntaram-se ao grupo. Nos Anos 1.980, mais três países aderiram - Espanha, Portugal e Grécia - e o grupo passou a ser chamado de "Comunidade Econômica Europeia", um bloco de comércio que passou a ter tanto uma população quanto um mercado interno que eram superiores aos dos Estados Unidos. Nos Anos 1.990 a comunidade econômica amadureceu e houve a consolidação do projeto de formação da União Europeia, com a adoção do euro como moeda única da região, num processo de integração como nunca antes visto pela humanidade.

O esforço para superar divergências e construir uma paz internacional duradoura também usou a prática esportiva na busca de uma competição saudável e do zelo por respeito mútuo entre os povos. Este esforço foi buscar inspiração na Grécia Antiga, onde tinham sido disputados pela primeira vez os Jogos Olímpicos. Curiosamente, este foi um esforço anterior até mesmo à Primeira Guerra Mundial, tendo a primeira edição na era moderna sido disputada em 1.896 justamente em Atenas, na Grécia. Decidiu-se pela realização das edições de quatro em quatro anos. Antes da Primeira Guerra Mundial houve cinco Olimpíadas, quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. No período “Entre Guerras” houve outras cinco edições, outra vez tendo sido quatro disputadas na Europa e uma nos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial a utilização dos Jogos Olímpicos como ferramenta diplomática de construção e estímulo a relações de paz foi intensificada. Após quatro edições consecutivas na Europa no pós-guerra, em 1.964 as Olimpíadas foram disputadas pela primeira vez na Ásia, em Tóquio, no Japão, tendo depois, em 1.968, sido pela primeira vez na América Latina, jogadas na Cidade do México. O evento tornou-se uma celebração global de fraternidade entre os povos.

Houve um propósito por trás da escolha de tal meio. Os filósofos estoicos, na Grécia Antiga, afirmavam que todos os seres humanos tinham razão e capacidade de boa vontade, qualidades que nos distinguiam de todas as outras criaturas vivas, e por isso deviam ser tratados com igualdade. Levou mais ou menos 2.500 anos para que este conceito e o seu entendimento se generalizassem na raça humana, ao menos em linhas gerais. O esforço para a construção de relações de respeito mútuo entre os povos, através do qual se buscava uma estabilidade nas relações suficientes para esfriar o potencial autodestruidor desenvolvido pela humanidade, estava sustentado em se implementar direitos fundamentais para autorregular o sistema internacional. Seus princípios visavam primeiro uma liberdade individual para que cada ser humano potencializasse suas habilidades próprias, sob direitos iguais de todos perante as leis de ordenamento coletivo, independentemente das origens de cada um.

Sobre tais pilares foram construídas leis de direitos individuais, direitos civis e direitos políticos, construindo-se princípios de cooperação, sustentados num reconhecimento das diferenças econômicas por privação de acesso às capacidades básicas. Esta realidade impunha a necessidade de ações para garantir condições mínimas para que todos pudessem desenvolver as suas capacidades, por isto foram elaboradas políticas visando focar em agir sobre os desiguais conforme as suas desigualdades, provendo-lhes acesso a alimentação, educação, saúde e lazer como meios provedores das condições básicas mínimas para o desenvolvimento humano. Desenharam-se ações visando fortalecer as relações entre direitos sociais e econômicos favoráveis ao fortalecimento das relações coletivas, incentivando a solidariedade e a fraternidade como direitos difusos, transcendentes até sobre as esferas da cidadania e das individualidades, de forma a se zelar por uma humanização de direitos não individual mas sim coletiva, incluindo nas leis a temas nas esferas de equilíbrios ambientais e de zelo pelo patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Tais esforços propiciaram uma revolução em termos de massificação do conhecimento: os países com padrão econômico de vida mais alto instituíram pela primeira vez na história uma frequência escolar obrigatória e uma erradicação do trabalho infantil. Os frutos de tal decisão foram se espalhando ao longo do século para as regiões economicamente mais frágeis, propiciando uma grande e lenta transformação de longo prazo.

A vida era precária, sobretudo fora do eixo de países mais desenvolvidos. A taxa de mortalidade de crianças e de pessoas de meia-idade era alta. As calamidades naturais eram frequentes. Havia períodos de fome severa, sobretudo na Ásia e na África. Pragas batiam constantemente às portas das cidades. Mais da metade das pessoas que viviam no planeta nunca tinham visitado a um médico em suas vidas.

Durante cerca de 200 mil anos a expectativa média de vida das pessoas no Planeta Terra foi inferior aos 30 anos. Com os avanços de padrão alimentar, saneamento, higiene e pelos avanços da medicina, a esperança de vida passou a subir já a partir do Século XIX, tendo em 1.900 alcançado aproximadamente 32 anos. À medida na qual a educação básica ficou mais disponível a todos, uma população educada tendia a viver mais, sendo mais capaz de compreender como cuidar melhor de si mesma e de seus filhos. Assim, ao fim do Século XX, a expectativa de vida média mais do que duplicou em relação a este patamar, passando a ser de 66,5 anos, na média de todos os habitantes da civilização humana.

O comércio e os investimentos internacionais se tornaram de suma importância, e por via deles a paz se tornou mais lucrativa do que a guerra. Nunca antes a paz havia sido tão lucrativa! Foram esforços, portanto, que obtiveram muitos resultados positivos na segunda metade do Século XX, mas que esbarraram em um entrave em especial: a diversidade de crenças religiosas.

O Século XXI se iniciou com isto sendo sinalizado mais uma vez na história humana através de ações de terrorismo, que sempre apareceram, continuam aparecendo, e provavelmente sempre aparecerão, quando um grupo de insatisfeitos com os rumos que estão sendo dados pela coletividade decide tentar implodir a toda a estrutura vigente. Em 11 de setembro de 2.001, uma frente radical da crença islâmica sequestrou e lançou aviões, com todos os passageiros dentro, contra as duas torres gêmeas que eram o símbolo de grandeza da cidade de Nova Iorque, principal artéria econômica daquele momento no Ocidente. Foi um sinal claro do quão desafiador e difícil é um processo de integração de bilhões de pessoas, lembrando como a amplitude da diversidade humana sempre foi complexa em tentativas de construção de consensos, neste caso manifestados por entraves impostos por diferenças de pensamento religioso.

As diversidades religiosas sempre foram fator de alta complexidade para a integração entre povos distintos. No início do Século XXI, o Budismo e o Cristianismo eram as religiões mundiais com maior número de adeptos. Ambas pregavam que a vida terrestre era imperfeita, e que a morte não era o fim da vida, havendo uma vida após a morte numa outra esfera espiritual infinitamente mais gratificante. A maior divergência a tais formas de pensamento estava manifestada no Islamismo, que após o seu surgimento e a sua expansão militar e territorial, fincou suas bases de crescimento e grandiosidade através do Império Otomano, que, com base a partir de Constantinopla, dominou boa parte da Ásia Menor, da Península Arábica, e um pedaço do norte da África e dos Bálcãs. Foi este império aquele que tinha se tornado o mais poderoso defensor do islamismo.

Ainda que dentro do Cristianismo não houvesse uma unidade, uma vez que as três grandes potências econômicas mundiais naquele momento - Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos - eram protestantes e não católicas, pode-se dizer que estas eram as três maiores e mais influentes crenças religiosas do planeta, e elas encaravam os padrões de relacionamento coletivo e social por óticas bastante divergentes quanto ao entendimento de relacionamento entre as relações mundanas e forças divinas superiores. A maior divergência, no entanto, como já falado, tinha raízes políticas e conflitivas perante o Judaísmo e a presença no estado de Israel no Oriente Médio. E tamanhas divergências de opinião só endossavam o quão distante se estava da possibilidade de qualquer consenso.

O Século XX foi o período de maiores transformações na história humana em termos de integração logística e de conexão de informações, fatores que evidenciaram ainda mais as diferenças. Dois avanços tecnológicos se destacarem neste processo: os aviões, que encurtaram distâncias e viabilizaram uma maior intensidade de contatos multiculturais, e os televisores, que permitiram as pessoas conhecerem qualquer lugar sem sair de suas casas, com imagens e informações fluindo em tempo real.

A aviação civil emergiu em junho de 1.939, quando a Pan American Airways inaugurou o primeiro voo comercial cruzando o Oceano Atlântico, através de um hidroavião de quatro motores com capacidade para 22 passageiros. A Segunda Guerra Mundial conteve a expansão dos voos civis, mas após o fim da guerra seu caminho de expansão voltou a ser crescente. Entretanto, naquela época ainda era bem mais barato cruzar os mares por navio do que por avião. As viagens aéreas começaram a ter preços mais populares nos Estados Unidos e na Europa somente a partir de 1.955, e nas demais regiões do planeta ao longo dos Anos 1.960. Com isso, as relações passavam a ser verdadeiramente globais já não mais para os representantes políticos e diplomáticos das nações, chegando também à sociedade civil.

Este desenrolar de acontecimentos mundiais foi acompanhado pela expansão da tecnologia que levou imagens a todas as partes do planeta: a televisão. Em 1.949, a quantidade de televisores nos Estados Unidos se restringia a 1 milhão de aparelhos. Em 1.959, este número saltou para 50 milhões, o que representava mais do que a soma total de aparelhos existentes em todos os demais países do mundo. Com a corrida espacial, a nova tecnologia de satélites de transmissão permitiu que as imagens fossem transmitidas muito mais rapidamente, até que logo pôde haver transmissões ao vivo. A partir disto, a novidade ganhou aceleração a nível global. O marco foi a transmissão da abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1.964, que, como já mencionado, foi a primeira Olimpíada a ter sido realizada fora do eixo Europa-Estados Unidos. Foi o alcance humano da órbita da Terra o que acelerou a massificação de acesso à informação.

O período de bipolaridade global batizado como "Guerra Fria" representou, além dos embates ideológicos, uma era dominada por muita propaganda. A principal se tornou a corrida de exploração espacial, que envolveu fortes investimentos de ambos os lados. Em 4 de outubro de 1.957, uma pequena nave russa não tripulada chamada "Sputnik I" completou em 95 minutos uma volta na órbita terrestre, com seus sons tendo sido capturados por radialistas amadores de todo o planeta. Em 3 de novembro de 1.957, o bem maior "Sputnik II" entrou em órbita levando uma cadela (que não resistiu com vida ao experimento). Em janeiro de 1.959, uma nave russa não tripulada se acercou à Lua, mas acabou se chocando com o solo durante a tentativa de aproximação. Em 12 de abril de 1.961 pela primeira vez uma nave tripulada entrou na órbita da Terra, a nave "Vostok I" levava o russo Yury Gagarin, de 27 anos (curiosamente, Gagarin morreria 7 anos depois num acidente de avião). Depois deste feito, os Estados Unidos aumentaram seus investimentos em pesquisa científica espacial, e durante os Anos 1.960 avançaram, culminando a terem sido os primeiros a terem colocado dois homens na superfície da Lua: após ser lançada em 16 de julho pelo foguete "Saturno V", em 20 de julho de 1.969 a missão "Apollo 11" foi bem-sucedida, com Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornando os dois primeiros seres humanos a colocar os pés numa estrutura rochosa fora do Planeta Terra, "um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade". A engenhosidade humana havia chegado à Lua, o satélite natural do planeta.

Com esta massificação de acesso à informação, a segunda metade do Século XX foi marcada por uma intensificação das divergências ideológicas quanto à forma mais eficiente de organização econômica das sociedades humanas, ainda que o rumo dos acontecimentos ao longo do século tenha inclinado tais debates claramente mais para um lado. Apesar das graves crises de abastecimento vividas de tempos em tempos, foi somente a partir dos Anos 1.970 que o comunismo começou a dar sinais de fragilidade na União Soviética. Os altos gastos militares e de propaganda começaram a gerar consequências negativas, agravadas pelas consequências da escalada inflacionária que a disparada do preço do petróleo gerou sobre a situação econômica.

Os membros do governo dispunham de mordomias que a quase totalidade da população não tinha acesso. Os cidadãos comuns viviam em apartamentos apertados e abarrotados, com pão e batata compondo a base de sua dieta, na qual até frutas e vegetais eram escassos. Passou a existir uma economia paralela nos subterrâneos da sociedade soviética, com produtos desviados a um mercado negro, considerado ilegal. Em muitos lugares de trabalho, o absentismo se tornou frequente. Não havia estímulo à produtividade: por que trabalhar mais para ao final receber o mesmo do que aqueles que tinham trabalhado pouco? O ideal socialista começava a dar sinais estruturais de caminhada à implosão. Embora a publicidade oficial afirmasse princípios de igualdade entre todos, a ampla maioria dos líderes não viviam sob tais preceitos. Não havia sentido em ressaltar a abnegação do indivíduo pelo bem de toda a comunidade quando os líderes políticos locais se davam luxos e o mercado negro tomava conta até de atividades cuja competência cabia ao Estado.

O colapso político e econômico da União Soviética chegou ao ápice com a eclosão do acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril de 1.986, no território na Ucrânia. A partir de 1.987, aumentaram as manifestações de descontentamento nos países comunistas do Leste Europeu, com manifestações nacionalistas que sinalizavam uma revolta com as condições econômicas e uma ânsia por liberdade de expressão. Como resposta, em 1.987 foi iniciada na União Soviética uma política de renovação para tentar reverter os problemas econômicos enfrentados. Foi o tiro de misericórdia no regime.

O símbolo definitivo de implosão do comunismo foi a destruição do "Muro de Berlim". Desde o fim da Segunda Guerra Mundial a Alemanha e a sua capital permaneciam divididas em duas: Berlim Ocidental, e sua maior pujança econômica, era cada vez mais o destino de alemães orientais após o fim da guerra, pessoas que buscavam uma melhor qualidade de vida e maiores liberdades individuais. O nível de imigrantes chegou a 10 mil por mês, com a Alemanha Oriental tendo perdido 10 milhões de habitantes em uma década. Seu parlamento aprovou então que fossem colocados guardas armados para impedir a migração. Na madrugada de 13 de agosto de 1.961, foi colocada uma larga proteção de arame farpado, que aos poucos foi sendo substituída por um muro de tijolos e concreto, com arames farpados na parte superior. Estava edificado o Muro de Berlim, que separou então fisicamente as duas Alemanhas.

Em 8 de novembro de 1.989 houve a primeira ruptura do Bloco Comunista: a Alemanha Oriental era o país do bloco com melhores condições econômicas, mas foi lá que nesta data o governo cedeu, anunciando que a população estava livre para deixar o país se assim desejasse. Na manhã seguinte, uma escavadeira começou a derrubar o Muro de Berlim, que fragmentava a cidade. Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1.990, as duas Alemanhas se reunificavam num único país. Em 1.989 a onda de mudança também passou pela China, mas por lá não prosperou, tendo havido uma forte repressão do governo, com um grande massacre de civis por forças militares após uma tentativa de rebelião ocorrida na Praça da Paz Celestial.

Mas a implosão do bloco era irreversível. Em 1.990 os três países bálticos da União Soviética - Lituânia, Letônia e Estônia - conseguiram suas independências e se separaram da União Soviética. No mesmo ano a Iugoslávia entrou em colapso, levando a uma guerra civil que a fragmentou em cinco diferentes países, de acordo às maiorias étnicas e religiosas de cada área: Sérvia e Montenegro (que por uma década ainda manteria o nome Iugoslávia, tendo então ainda vindo a se fragmentar em duas nações), Croácia, Bósnia, Eslovênia e Macedônia do Norte. Pouco depois foi a vez da Tchecoslováquia se fragmentar em duas: República Tcheca e Eslováquia. Em 1.991 foi a vez da União Soviética deixar de existir, com a Rússia vendo o território passar a ter nações independentes como Ucrânia, Bielorrússia e Moldávia na parte europeia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão na parte fronteiriça ao Oriente Médio, e na parte asiática com as repúblicas de Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão.

O paradoxal é que se por um lado foi um século repleto de tantas agitações e rupturas, por outro ele foi marcado por esforços globais de integração e governança coletiva que nunca antes na história tinham sido tentados. Ainda que persistissem muitas diferenças e divergências, a integração e a conexão globais promovidas durante o Século XX forçaram uma busca de ordenamento nas relações capaz de gerar zelo pelo respeito mútuo e pela manutenção de paz. Foi um esforço coletivo, envolvendo a todas as nações.

Conseguiu-se um primeiro memorando de entendimento mínimo já a partir da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas a partir de dezembro de 1.948, a qual foi aprovada por 48 países. Naquela oportunidade apenas oito países se abstiveram de aprová-la: a África do Sul, cuja política interna vigente de segregação racial (apartheid) não se alinhava com tais regras, a Arábia Saudita por discordar do fato de que a carta defendia a liberdade religiosa e a igualdade entre os sexos, e o grupo formado por União Soviética, Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Iugoslávia e Tchecoslováquia, que não aceitava a determinação da liberdade de ir e vir entre fronteiras mencionada nos termos da declaração.

A ascensão dos direitos humanos foi uma obra lenta para derrubar abusos e arbitrariedades. Ela foi um produto do processo de formação e amadurecimento da civilização em favor do respeito à coletividade, fruto de um autoconhecimento coletivo que evoluiu com a história, representando a consciência humana de sua relação com tudo.

Qualquer discussão sensata sobre qualquer assunto depende de consenso sobre critérios, da forma de apresentação de argumentos, e dos limites até onde pode chegar uma discussão. Não somos todos iguais, temos diferenças individuais marcadas e marcantes entre nós, mas ninguém é melhor do que ninguém. Como o poeta inglês William Shakespeare colocou em sua obra: "se fossem misturados os nossos diversos sangues, seria impossível distingui-los pela cor, pelo peso ou pelo ardor. De que depende, pois, essa diferença que os separa? É pela qualidade que devemos classificas a tudo, não pelo título".

Sem bases morais não há determinação entre o certo e o errado, pois não há paradigma algum. A ausência de valores ameaça qualquer estabelecimento de um mundo civilizado, pois sem valores morais o autor de qualquer crime não dimensiona a gravidade do mais bárbaro dos atos, seja um assassinato, um estupro ou o que seja. A vida humana fica brutalizada e animalesca, como a de feras numa savana que caçam, matam, devoram suas presas a céu aberto e se recostam sob a sombra de uma árvore à espera de recuperar-se até poder realizar uma próxima caçada. É a mesma ausência de sentido que sente um psicopata que escolhe uma vítima aleatória para matar, executa, e depois vai comprar um sorvete ou uma pizza absolutamente sem qualquer capacidade de sentir algum remorso. A civilidade construída pelas sociedades humanas é aquilo que separa a nossa humanidade de nossa natureza animal. É o que faz com que ainda que tenhamos ambas as vertentes dentro de nós, consigamos dar-lhes convivência em nosso interior sem que nos autodestruamos. Não por acaso, tanto os déspotas quanto os psicopatas, o primeiro que buscam é destruir as bases morais civilizatórias vigentes para que assim possam satisfazer a seus desejos íntimos de tirania.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1.789, marco da Revolução Francesa, havia colocado logo em seu artigo 1º que "os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos, as diferenças sociais só podem ser fundamentadas no interesse comum", complementando primeiro em seu artigo 4º, que determinava que "a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique a outros, assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem tem como única baliza a que assegura aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos", e posteriormente no fim do artigo 6º, ao afirmar que "todos os cidadãos são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo a sua capacidade, e sem outra distinção além de suas virtudes e seus talentos (pessoais)". Estas foram as bases dos parâmetros sociais para a humanidade em seus esforços de construção de uma governança global coordenada.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos determinou em seu artigo 25º que "todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e a serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença de invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle; assim como a maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistências especiais".

Desde então o entendimento global veio amadurecendo e ampliando a consciência coletiva, buscando soluções economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente equilibradas. O fruto de décadas de trabalho conjunto da comunidade internacional foi a definição dos seguintes objetivos coletivos para o desenvolvimento mundial: acabar com a pobreza na humanidade, erradicar a fome, estreitar distâncias e reduzir as desigualdades econômicas entre os povos, promover condições sociais para a igualdade econômica entre gêneros no acesso aos meios de produção, gerar condições de emprego pleno e produtivo, e opções de trabalho decente a todos os seres humanos, prover saúde, bem-estar, educação de qualidade, e acesso a água e saneamento para todas as sociedades humanas, garantir uma produção de energia limpa, renovável e acessível, desenvolver uma infraestrutura resiliente em todas as economias por todo o planeta, zelar para que as cidades e centros urbanos sejam inclusivas e seguras, estimular opções de consumo sustentável, conservar os oceanos, assim como a todos os ecossistemas, estabilizar as mudanças climáticas provocadas pelos poluentes produzidos por ação humana, viabilizar parcerias globais, e zelar por paz e justiça em toda a Terra. Uma agenda ousada e complexa de ser implementada, só viável a partir de uma ampliação da consciência humana coletiva e da existência de um maior respeito entre diferenças ideológicas e diversidades culturais.

Qualquer processo de transformação só acontece por intermédio das pessoas, sendo a educação um de seus vetores mais relevantes. Para que algo se consubstancie na prática, é requerido que as pessoas entendam a dinâmica das mudanças, que sejam educados conforme uma realidade, para a partir disto haver o amadurecimento de uma consciência coletiva capaz de unificar os povos e prover níveis civilizados de resolução de conflitos a um nível suficiente para um convívio sob algum nível de paz.

Todas as intensas transformações vividas pela humanidade em meio a um ritmo exponencialmente crescente da população foram muito intensas, desde a economia que dá sustento ao tamanho desta população, passando pela velocidade dos avanços tecnológicos e de tratamento de dados, e pelo volume de informações que chegam a cada um de nós diariamente, tudo isto exige um amadurecimento de nossa consciência, tanto sobre nós mesmos e nosso papel em meio a este turbilhão de fatos, quanto em nossa relação com tudo o que nos cerca.

Por todos os lados o mundo vive novos paradigmas humanos, através de soluções que buscam beneficiar e integrar cada vez mais a sistemas inteiros. A abordagem centrada nos seres humanos já não bastava mais, e foi ampliada para uma centrada no Planeta Terra inteiro, considerando ecossistemas, coletividades e impactos de longo prazo que viabilizem a continuidade desta história na direção de novas e contínuas expansões. Só que é necessário a consciência de que sem as escolhas certas, coletivamente podemos entrar em períodos de retração e desconstrução, numa implosão humanitária coletiva que poderia vir a custar a maior quantidade de vidas humanas da história! Cada um de nós tem um papel individual a cumprir nesta história, porque a totalidade da civilização nada mais é do que a soma das individualidades do todo. A consciência coletiva é a soma dos fragmentos de consciência que existe dentro de cada um de nós.

Quando você para e reflete para embarcar numa viagem de entendimento de quem realmente você é, os pensamentos, sentimentos e impressões das experiências vividas se derramam em sua consciência. Quando você se concentra nestas imagens mentais, elas se tornam parte de uma estrutura complexa onde antes não havia nada. Você revisita fatos desde quando a sua memória conseguiu começar a processá-los, aos quais, quase que inconscientemente, você ainda se agarra. Você pegou todas estas suas lembranças e as arrumou de forma ordenada e disse que isso é o que você é. Mas você não é estes acontecimentos, você é aquele que os experimentou. Você não precisa se apegar às suas experiências para se construir como pessoa, este é apenas um conceito de si atrás do qual você se esconde. E o objetivo desta jornada aqui narrada era, ao final, mostrar isto a você.

O interior de nossa psique é um lugar muito complexo e sofisticado. É cheio de forças conflitantes em constante mudança devido a estímulos externos e internos. Isso resulta numa ampla variedade de necessidades, medos e desejos fluindo em períodos relativamente curtos de tempo. Por isso é comum não haver clareza suficiente e haver dificuldade para entender o que realmente acontece dentro de si. É muita coisa ao mesmo tempo, todas as relações de causa e efeito entre todos os diversos pensamentos, emoções e níveis de energia afetando estados de espírito, desejos, gostos e aversões, causando entusiasmos e letargias.

A partir do momento que a evolução coletiva da humanidade seguiu um caminho de supervalorização da construção da imagem individual, as pessoas ficaram mais preocupadas efetivamente com qual imagem aqueles com quem elas se importam construíram a respeito delas. Foi assim que nós passamos a ser bem recompensados por sermos bons em construir um modelo de forma absolutamente correta e se comportar com coerência, de forma que cada um pudesse "construir alguém". A reflexão correta a ser feita é: por que fazemos o que fazemos? É em cima disto que deve estar a sustentação da consciência humana.

É possível constantemente ajustar seus pensamentos através de autoconhecimento para construir a consciência de quem efetivamente somos. É disto que precisamos: construir as nossas conexões em torno do que efetivamente somos, e não da imagem que o todo espera que seja construída. Para isto, só precisamos entender como queremos construir a nossa relação individual com o todo, partindo do entendimento de como o todo se relaciona conosco em termos de nosso universo, nossa natureza, nossa humanidade, nossa terra, nossa crença, nosso conhecimento, nossa coragem, nossa maldade, nossos fracassos, nossas habilidades e nossos instintos competitivos, tudo aquilo que envolve o que nos faz humanos. Quando passamos a nos tornar verdadeiramente mais espiritualizados, cada um de nós passa a ser muito diferente de todo mundo. Aquilo que todos querem, você não quer. Porque agora você construiu efetivamente a consciência do que verdadeiramente você quer, do que te diferencia de tudo.

Todas as vezes que fazemos uma escolha em nossas vidas, sobretudo naquelas mais complicadas, que fogem à rotina "piloto automático" do dia a dia, temos que nos perguntar: qual caminho me fará mais feliz? Esta é a questão principal! Mas a reflexão não pode parar nesta pergunta. É preciso se fazer uma segunda pergunta também: quais os riscos esta escolha me traz? O que este caminho pode me trazer de perda se eu o percorrer? Eu estou disposto a assumir o risco de perder aquilo que um outro caminho tirará de mim? Em qualquer escolha, ganha-se algo, mas também se perde algo. As respostas serão tanto racionais quanto emocionais. Há que equilibrá-las para encontrar o que que você realmente quer.

É preciso ponderar entre o que se ganhará e o que se perderá. Nenhuma escolha traz para a vida só ganhos ou só perdas, todas, absolutamente todas, trazem ganhos e perdas ao mesmo tempo. Sabendo qual caminho parece ser o que te trará mais felicidade e sabendo quais perdas você está colocando no tabuleiro de decisões da sua vida, a reflexão final é: o que este caminho me trará de verdadeiramente significativo? Sabendo quais são as opções do que há para se ganhar e para se perder, você está pronto para decidir.

Simplificando assim, pode parecer fácil, mas não é. A vida nos mostra que a sua complexidade se esconde por trás das coisas simples. Ter consciência muitas vezes é mais complicado do que à primeira vista pode parecer. O lugar aonde isto mais se manifesta, só como um exemplo, é no amor. É onde o supersimples e o extremamente complexo se tocam.

Vejamos um caso hipotético: um ser humano desejava plenamente o amor, e estava convicto que o segredo da vida seria desfrutar todos os amores que a vida lhe iria trazer. Convicto, sempre se atirou sobre as oportunidades pelas quais se sentiu atraído. Casou-se dez vezes. Teve um filho em cada casamento. Todas as vezes que se casou novamente, deixou para trás uma criança pequena nos braços do cônjuge, convicto de que só assim poderia se dedicar de corpo e alma, o mais intensamente possível, ao novo amor. Ao fim da vida olhou para trás e viu sua trajetória. Viveu com seus dez cônjuges o máximo de amor que a vida lhe proporcionou individualmente. Entretanto, encontrou nos rastros de seu caminho a dez filhos lamuriosos e tristes porque nunca tiveram uma das duas pontas de criação e estabilidade emocional em suas vidas. Só então entendeu que não havia vivido todos os amores que a vida lhe havia trazido como pensava haver vivido. Não viveu plenamente em estado de consciência. Faltou-lhe um pequeno pedaço na pergunta que se fez antes de tomar suas decisões: o que realmente me faz feliz? Na ampla maioria das vezes, é um simples "realmente" o que esconde muita complexidade por trás das escolhas mais importantes e simples a serem feitas.

É necessário sempre estar consciente de que mesmo com todas estas ponderações, ainda existirá o risco de se tomar decisões erradas. Mas estando consciente de que nada é definitivo e que tudo pode ser transformado, desde que haja responsabilidade e respeito pelos próximos, se você estiver com seu coração aberto para a mudança, seu único guia é e sempre será a sua consciência. E não há forma igual e replicável para todos, porque cada indivíduo é único. A resposta que existe para você, existe somente para você! Seu papel na vida é encontrá-la!