sábado, 6 de junho de 2026

Um grande dilúvio apocalíptico no passado da humanidade


São muitas as tradições orais em todas as partes do Planeta Terra que conservaram versões de histórias orais transmitidas de geração e geração, muito anteriores à invenção da escrita pelos seres humanos que contam sobre um grande evento cataclísmico no passado que destruiu uma boa parte da espécie humana. Abaixo estão reproduzidos alguns trechos que descrevem tais histórias. O primeiro foi publicado na Revista Super Interessante sob o título "Dilúvio: a verdade por trás do mais universal dos mitos". Complementarmente estão as narrativas do blog "Ensinar História", de Joelza Ester Domingues. E na sequência, relatos das narrativas sobre dilúvios nas mitologias maias, incas e astecas, reproduzindo tradições de povos antepassados das Américas.

Tempos após a criação do mundo, deus se cansa da obra e decide varrer a humanidade com um grande dilúvio. Mas um herói é escolhido para ser salvo com sua família. Deus ordena que ele construa uma arca e carregue nela um casal de cada espécie de animal para todos darem continuidade à vida após a catástrofe. Ao final do dilúvio, esse escolhido solta uma pomba, para averiguar se há terra firme perto.

Você conhece essa história. Mas talvez não saiba o nome do protagonista. Porque ele não se chama Noé. Atende por "Atrahasis". Noé não foi o primeiro proprietário da arca. O mito do dilúvio é bem mais antigo que a própria Bíblia.

Essa história foi escrita 18 séculos antes de Cristo, em mais de mil anos antes da Bíblia, no Épico de Atrahasis. Na verdade, o tal herói não tem exatamente um nome, mas um título. Atrahasis significa "grande sábio" em acádio, o idioma da Babilônia.

O deus que ordenou o dilúvio também é outro. Seu nome é Enlil. Ele decidiu destruir a vida na Terra por um motivo mais comum em condomínios do que em textos sagrados: a humanidade estava fazendo muito barulho e não deixava ele dormir. Foi um outro deus, chamado Enki, que avisou Atrahasis do futuro desastre e ordenou a construção da arca.

Essa narrativa também está presente na Epopeia de Gilgamesh. Essa foi escrita um pouco depois, 13 séculos antes de Cristo, retomando o relato original de 500 anos antes. Nessa história, o rei da Suméria encontra um homem chamado Utnapishtim, que nada mais é do que uma outra versão do próprio Atrahasis. Gilgamesh vai em busca do homem, que além de ultrassábio é imortal, em um busca da receita da vida eterna. Ao longo da conversa, Utnapishtim conta que presenciou o grande dilúvio.

Essas narrativas são as precursoras da versão protagonizada por Noé. Para entender como elas deram origem à história diluviana mais famosa de todas, é preciso dar um passo atrás. Bem atrás: para o berço da civilização. O registro do mito diluvial é quase tão antigo quanto a própria escrita. As literaturas de Atrahasis e Gilgamesh não foram contadas em livros de papel. Elas estão imortalizadas em tabletes de argila, gravados com uma espécie de carimbo, o cunho. Em vez do abecedário, são riscos e triângulos que dão formato ao texto – é o alfabeto cuneiforme, considerado a forma de escrita mais antiga da humanidade.

A escrita surgiu a apenas mil quilômetros de onde Jesus viria a nascer, mas 32 séculos antes. Foi nas margens dos rios Tigre e Eufrates que alguns grupos humanos se acomodaram para criar o que viriam a ser as primeiras cidades da história: Ur, Eridu e Uruk – essa última, inclusive, inspirou o nome que a região tem hoje, o Iraque. Pela primeira vez, o homem adaptava a natureza ao seu estilo de vida, e não o contrário. Se hoje você tem água encanada, consulta o horóscopo e consegue ler este texto, agradeça aos criadores dessas primeiras cidades, os sumérios.

Eles desenvolveram tecnologias revolucionárias, a começar pela escrita. Primeiro, ela era apenas uma representação literal daquilo que existia em volta – basicamente desenhos de animais e objetos. A vida urbana trouxe mais comércio, mais estoques, contas a pagar, mais exércitos a manejar. E os sumérios foram adaptando sua grafia de modo que ela representasse ideias cada vez mais complexas. Com o tempo, as figuras passaram a representar não objetos, mas sons. E podiam ser recombinadas, num código quase mágico, capaz de reproduzir toda a fala humana. Nascia a escrita.

O detalhe é que esse processo levou milhares de anos. Por isso há um salto tão grande entre os primórdios da escrita e o registro das primeiras literaturas épicas e fantásticas. A narrativa do dilúvio contida no Épico de Atrahasis provavelmente já existia antes, mas era repassada oralmente. O surgimento da escrita só possibilitou que ela fosse passada para o papel – ou melhor, para a argila.

Aí não deu outra: a história se espalhou como um best-seller pelo mundo antigo. As grandes cidades da Mesopotâmia eram os principais eixos comerciais e econômicos de seu tempo. Gente de todas as regiões ia até lá para fazer comércio e acabava levando um pouco da cultura local para casa. Não é de se espantar que uma narrativa tão imponente como a do grande dilúvio universal fizesse sucesso na época.

A mesma narrativa foi traduzida, reinventada, recontada e ressignificada em diversas religiões e culturas. A mitologia grega possui Deucalião, o filho de Prometeu que constrói um barco para se salvar do dilúvio de Zeus. A mitologia nórdica também tem sua versão – é só trocar a água por sangue. Ela está presente até no hinduísmo, quando o deus Vishnu encarna na forma de um peixe para avisar a um humano que o dilúvio está por vir.

E, é claro, existe a versão que você bem conhece. Noé nada mais é do que um Atrahasis moderno. Moderno porque, para os escrivães da Bíblia hebraica, os tempos sumérios estavam quase tão distantes deles quanto a Idade Média. É provável que as histórias do Gênesis tenham sido escritas por volta do século 7 ou 6 a.C., 700 anos depois da narrativa de Gilgamesh, que por sua vez vem 500 anos depois de Atrahasis.

Não coincidentemente, os hebreus estavam na Mesopotâmia bem nessa época. O imperador Nabucodonosor II escravizou e deportou o povo hebreu para as margens do Tigre e do Eufrates. O território que abrigava Ur, Uruk e Eridu agora não se chamava mais Suméria, tinha mudado de nome para Babilônia.

"Os antepassados dos hebreus já tinham contato com a cultura e religião da Mesopotâmia antes, mas é provável que eles só tenham fixado as narrativas da Bíblia durante o cativeiro. Os exilados hebreus, afinal, eram uma elite que precisava permanecer unida, ter algo em comum", diz Pedro Paulo Funari, professor de história antiga e arqueologia na Universidade de Campinas (Unicamp).

A Bíblia não esconde de onde vem a inspiração dos escritos sagrados. Segundo o Velho Testamento, o próprio Abraão, patriarca dos hebreus, nasceu em Ur. O mito da criação do homem a partir do barro também já estava registrado em outra passagem do Épico de Atrahasis. "A inspiração mesopotâmica está presente do início do Gênesis até o dilúvio de Noé. Elas não pretendem ser registros históricos, estão ali como relatos mitológicos que servem como alegoria para passar um ensinamento", diz Pedro Paulo Funari.

A presença de relatos diluvianos entre os mesopotâmicos, hebreus, gregos e outros povos não é indicativo histórico de um dilúvio universal, foi inspirado em enchentes e inundações recorrentes, como dos próprios rios Tigre e Eufrates, bem onde estavam aquelas primeiras civilizações. Para as religiões, o importante não é a veracidade da história, e sim a simbologia que a destruição pelas águas carrega. A água era um símbolo forte entre mesopotâmicos. Na língua suméria, a água era representada pelo mesmo ideograma de fertilidade. A cheia anual do Rio Tigre tinha até um deus dedicado a ela, um certo Ningirsu. Gilgamesh era chamado de o quinto rei sumério "após o dilúvio".

A ideia do dilúvio servia como marcador temporal. Os registros sumérios dividem seus reis entre aqueles que governaram antes e depois da enchente universal. Os monarcas antediluvianos, de acordo com as lendas, reinavam por mais de 2 mil anos cada um. As listas de reis só passam a registrar tempos de governo mais plausíveis para depois da catástrofe.

"O dilúvio, para eles, dividia a história da humanidade em duas: uma época fora do comum, e o tempo em que a humanidade assumiu as características atuais", diz Jacyntho Lins Brandão, autor da tradução brasileira da Epopeia de Gilgamesh. É exatamente o que acontece na história bíblica. Antes do dilúvio, o mundo era repleto de gigantes, e de homens que viviam por séculos – não é só Matusalém, o personagem-sinônimo de idade avançada; o próprio Adão, de acordo com a mitologia do Gênesis, viveu até os 930 anos. Depois do reset aquático, o mundo bíblico ficou mais realista.

O conceito do dilúvio talvez ilustre outro divisor de águas: a própria invenção da escrita. Antes, com as histórias e tradições repassadas oralmente, era mais difícil distinguir onde acabava a fantasia e começava a realidade. E parte da fantasia acabou registrada como verdade em documentos formais, como as listas que pretendiam informar quanto tempo cada rei reinou.

Não é só isso. Também tem o fato de que as histórias eram bem antigas já. De acordo com a arqueologia, o Gilgamesh de verdade teria governado os sumérios entre 2,8 mil e 2,5 mil anos antes de Cristo. Mas a epopeia na qual ele aparece como herói só foi escrita mil anos depois. É como se alguém de hoje tentasse descrever a Europa da Idade Média se baseando apenas em relatos orais.

O dilúvio universal, como dissemos, pode não ter existido. Mas nem por isso ele deixa de ser universal. Histórias bem parecidas também surgiram espontaneamente em populações que não tiveram contato com a Mesopotâmia. Os chineses possuem dezenas de narrativas diluviais. Os astecas diziam que o dilúvio foi responsável por transformar humanos em peixes. Para a tribo Lakota, da América do Norte, o único sobrevivente ao dilúvio foi um corvo. Os aborígenes da Austrália transmitem sua história do dilúvio em forma de conto para crianças: um sapo tinha bebido toda a água do mundo, e acabou soltando tudo de uma vez.

Até as tribos indígenas brasileiras possuem suas versões. Os tupinambás acreditavam em dois grandes dilúvios. A lenda começa com um "incêndio universal", que criou as ondulações da Terra. Até então, ela não tinha relevo. Depois veio um dilúvio, que apagou o fogo e tornou tudo habitável novamente. O segundo dilúvio tupinambá é mais na linha mesopotâmica: veio o aguaceiro, os rios subiram, e só alguns humanos conseguiram se salvar – escalando coqueiros e palmeiras.

O fato é que todos estes mitos são alegorias para dois sentimentos bem universais: o medo de que tudo acabe, e a esperança de que sempre há um recomeço.

Na mitologia grega, Zeus quis destruir os homens da idade do bronze, por causa de suas perversidades e vícios. Enviou pois um grande dilúvio e pediu ajuda a seu irmão, Poseidon, deus dos mares. As águas dos rios e dos mares inundaram toda a terra, engolindo rebanhos, casa, homens e animais. O titã Prometeu - uma raça gigantesca que habitou a terra no início dos tempos - advertiu seu filho Deucalião, o mais justo dos homens, e Pirra, a mais virtuosa das mulheres, sobre o dilúvio. Instruiu o casal a construir uma grande arca onde, durante nove dias e nove noites, flutuaram sobre as águas do dilúvio. Acabaram por encalhar nas montanhas do Parnaso.

Terminada a inundação, Zeus lhes enviou Hermes, concedendo-lhes a satisfação de um desejo. Deucalião pediu que renovasse a humanidade. Foi-lhes ordenado, então, que atirassem pedras, os ossos da Terra, que é a mãe comum de todos os humanos. Os dois apanharam pedras e começaram a atirá-las para trás sobre seus ombros: das que Deucalião atirou nasceram homens, das que Pirra nasceram as mulheres.

Na Ásia, a mitologia hindu, na região da Índia, narra que o deus Vishnu por dez vezes desceu à terra, a cada vez assumindo uma forma diferente, isto é, apresentando-se sob novo avatar como animal, humano ou a mistura de ambos. O primeiro avatar foi o peixe Matsya. Conta-se que um dia, o sábio Manu, fazia suas abluções quando um pequeno peixe nadou até suas mãos. O pequeno animal suplicou que o levasse consigo e cuidasse dele. Ele colocou o peixe numa jarra, mas o animal cresceu de tal modo que foi necessário transportá-lo a um tanque, no dia seguinte já não cabia no tanque e passou para um lago, e no outro dia o lago já era pequeno para contê-lo. "Leve-me para o mar", disse o peixe a Manu, que obedeceu e, como recompensa, Matsya advertiu-o do dilúvio que aconteceria em breve e cobriria toda a terra. Enviou-lhe um grande barco e deu-lhe a ordem para nele colocar um casal de cada espécie vivente e sementes de todas as plantas, mandando-o entrar no barco. Logo que Manu embarcou, o Oceano submergiu. Via-se apenas Matsya - o deus Vishnu, sob a forma de um grande peixe unicorne - com escamas de ouro. Manu amarrou-se ao chifre do grande peixe usando a serpente Vasuki. E a humanidade, os animais e as plantas foram assim salvos da destruição geral.

Na América do Sul, na mitologia inca, o grande deus criador Viracocha fez a terra e o céu, criando a primeira humanidade. Ordenou que os homens guardassem harmonia entre si, obedecessem a um código moral e o servissem e honrassem. Uma parte das suas criaturas, contudo, deixou-se dominar pelo orgulho e entregou-se a maldades, vícios e devassidão. Encolerizado, Viracocha transformou os devassos em pedras, outros em animais e afogou os demais. Mandou em seguida o grande dilúvio - chamado Uno Pachacuti - para cobrir o mundo. Poupou três indivíduos destinados ao repovoamento. Quando as águas desapareceram, Viracocha criou uma nova humanidade e mando-a povoar diferentes regiões.

Na América do Norte, a mitologia asteca narra que no começo não havia o Universo tal como o conhecemos, havia um grande vazio escuro. Os deuses decidiram criar a tudo, porém, para isso, a energia original teria que vir do sacrifício de uma das divindades. O deus Tecuciztecatl se ofereceu e seria honrado, tornando-se o Sol. Entretanto, na hora do sacrifício ele refugou, e um outro deus mais humilde, Nanahuatzin, pulou no fogo. Tecuciztecatl, envergonhado, pulou atrás e assim, nos primórdios, foram criados dois sóis. Mas a covardia inicial de Tecuciztecatl irritou os demais deuses e ele acabou rebaixado a não brilhar tanto e a ficar no céu apenas de noite, sendo a Lua. A Terra e seus elementos, a partir da energia disponível, foram criados. A pedido do Sol, os três deuses mais importantes do panteão asteca - Quetzalcoatl, Tlaloc e Tezcatlipoca - imolaram-se e se autosacrificaram para que fosse criado o Universo com sua força original.

Mas na narrativa, este mundo criado também acabou destruído, e não uma, mas várias vezes, para que os deuses aperfeiçoassem a sua criação. Na quarta destruição do mundo no mito asteca, causada por um grande dilúvio (destruição através das águas), Coxcox e sua esposa Xochiquetzal, teriam sido os únicos sobreviventes da inundação, tendo se refugiado no tronco oco de um cipreste, que flutuou sobre a água e finalmente aportou em uma montanha em Culhuacan, aonde recriaram toda a espécie humana.

A mitologia asteca tem evidente influência da mitologia maia, que a antecedeu em alguns séculos. Na mitologia dos maias, os mitos e lendas foram esculpidos em pedra e em cerâmica, além de terem sido registrados em folhas de casca de árvore (chamados "códices"). Sua narrativa sagrada é o Popul Vuh, que é parecido a um compêndio de histórias inter-relacionadas. Seus deuses maiores eram Tzakól, que criou o universo, e Bitól, que deu as formas das coisas. A terceira divindade era Gucumatz ou, como é mais conhecida, Kukulkán (a "Serpente Emplumada").

No princípio ainda havia outros dois deuses importantes: Huracán ("aquele que tem uma só perna"), que era o Deus do vento, da tempestade e do foro, e que foi quem provocou a "Grande Inundação" (um dilúvio), por ordem dos demais deuses, enfurecidos que estavam pelas seguidas desobediências da criação original. Poucos se salvaram do desastre. Foi então Tepeu o deus que ajudou na reconstrução terrestre.

A narrativa do Popol Vuh segue então com os heróis Hunahpú e Ixbalanqué, irmãos gêmeos, que superaram muitos desafios e conseguiram até mesmo derrotar aos deuses do Xibalbá, o Submundo Maia. Deste modo, os gêmeos conseguiram "limpar" as trevas do mundo e, como prêmio, ascenderam aos céus e se tornaram o Sol (Hunahpú) e a Lua (Ixbalanqué). O pai dos gêmeos chamava-se Uno Hunahpú, que junto a seu irmão Siete Hunahpú passavam todo o tempo com jogos de bola, o que incomodou aos deuses do Xibalbá, que tentaram parar com o barulho que faziam ao jogar. Toda a mitologia mais se resume a uma luta entre o bem e o mal como origem do mundo e da vida, um movimento eterno do qual não podemos escapar, com a mística do jogo da bola emergindo como peça fundamental no Popol Vuh para a resolução de conflitos.

Não importa para onde se olhe, descrições de um dilúvio cataclísmico que destruiu o mundo podem ser encontradas em quase todas as culturas antigas... Este fato histórico é uma evidência clara de como muitas das culturas mais antigas do mundo têm histórias que descrevem um Grande Dilúvio que devastou civilizações anteriores no Planeta Terra.


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