Fonte: SCIELO (https://www.scielo.br/j/tem/a/xwzFYh95SXTjV9SyDvSyXpR/?lang=pt)
Título do artigo: "Revisitando as origens malgaxes" (Les origines malgaches revisitées / Malagasy origins revisited)
Autor: Gwyn Campbell, professor do Departamento de História da McGill University, em Montreal, Canadá.
Artigo recebido em outubro de 2005 e aprovado para publicação em dezembro de 2005. Comunicação apresentada na Conferência Internacional "Monsoons and Migrations: Unleashing Dhow Synergies", realizada durante o oitavo ZIFF, Festival dos Dhow Countries, nos dias 4 e 6 de julho de 2005.
Os malgaxes representam um grupo étnico equivalente à metade da população da ilha de Madagascar, na costa leste da África. A população malgaxe é dividida em dois grupos: os Merina Sihanaka, das terras altas, e os Betsileo, dos platôs. Recai um grande mistério sobre a origem geográfica de seus ancestrais.
O elemento genético sobre a dupla origem do malgaxe pode ser rastreado até meados do Século XX, com resultados sobre a distribuição do grupo sanguíneo. Um amplo levantamento da diversidade genética em toda a ilha foi realizado de 2008 a 2018, num projeto chamado "MAGE" (Madagascar, Antropologia Genética Etno-linguística).
Cerca de 3 mil habitantes de Madagascar participaram do estudo e forneceram sua saliva para estudo genético, com 300 aldeias em Madagascar sendo amostradas em diversidade genética, linguística e cultural. A pesquisa foi liderada e realizada por pesquisadores e acadêmicos malgaxes e europeus, com o estudo demonstrando que todos os malgaxes têm uma ascendência africana e asiática mista.
Há muito tempo a origem dos malgaxes intriga os investigadores e, apesar da volumosa pesquisa multidisciplinar, a questão permanece como um enigma. Há diferentes interpretações sobre a migração para Madagascar, em particular as propostas que defendem a presença africana, associada ou não à indonésia, e as que privilegiam a sul-asiática. Este artigo analisou as motivações e as rotas utilizadas pelos protomalgaxes para chegar a Madagascar.
Este é um dos últimos grandes mistérios da história a persistir: qual seria a origem da população da ilha de Madagascar, os chamados malgaxes? Historiadores, antropólogos, arqueólogos, lingüistas, paleobotânicos e geneticistas têm se debruçado sobre o assunto com o intuito de solucionar ou, pelo menos, contribuir para sua solução. Imitando a expedição Kon-Tiki, aventureiros reproduziram antigos modelos de canoas e navegaram pelo Oceano Índico, e para mais longe, em busca de explicações. A expedição Kon-Tiki foi realizada pelo navegador escandinavo Thor Heyerdahl, que partiu do Peru, em 1947, e percorreu 8 mil quilômetros pelo Oceano Pacífico até a Polinésia, numa embarcação similar às utilizadas pelo Império Inca.
A ilha de Madagascar foi avistada por marinheiros portugueses em 1.500 d.C., tendo recebido a primeira visita intencional em 1.506. Desde então, os europeus começaram a especular sobre a origem da população da ilha, pois excluídos os suaílis (ou swahili) e os indianos (conhecidos como karana) eram poucas as comunidades que participavam das rotas do comércio internacional. Segundo os investigadores, os suaílis chegaram a Madagascar oriundos da costa leste do continente africano e do Oriente Médio entre os Séculos IX e X. Já os indianos tinham chegado da região de Gujarat, na Índia, entre os séculos XI e XII. Além destes dois grupos, havia também um pequeno grupo malgaxe, assimilado à cultura árabe (chamado de antalaotra) que se mantinha próximo aos suaílis. Assim, parecia existirem em Madagascar dois grupos étnicos básicos: um de pele mais clara e com características físicas de malaios, ocupando o planalto central, e outro de pele mais escura, de pele negra, habitando as planícies da ilha.
Foi no Século XIX que a Escola Britânica, a qual reunia missionários e membros das sociedades eruditas estabelecidas em Londres, levantou o tema. Estes investigadores chegaram à conclusão de que todos os habitantes de Madagascar falavam variações de uma língua de origem australásia, então classificada como malaia ou malaio-polinésia, o que indicava uma inevitável ligação entre os antepassados dos malgaxes contemporâneos e a região chamada malaio-polinésia.
Baseados em fundamentos fisiológicos e culturais - como a clara pigmentação da pele e características físicas reconhecidas como malaias - a construção de cabanas retangulares, e o uso da técnica de rizicultura irrigada, que os estudiosos associados à Escola Britânica concluíram que os ancestrais dos merinas e possivelmente dos betsileos, que ocupavam as terras montanhosas de Madagascar, eram malaio-polinésios.
Entretanto, a origem das populações que habitavam a área de planície, as terras mais baixas, e tinham uma aparência chamada "negróide", permanecia problemática, já que eles também falavam variações da mesma língua australásia. Esperava-se que as tradições indígenas ajudassem a elucidar o mistério da origem dos protomalgaxes, mas os únicos grupos que possuíam uma idéia clara de suas origens eram os suaílis, os indianos e os zafiraminia da costa sudeste, que reivindicavam terem seus ancestrais chegado de Meca, da região da ARábia Saudita, por via marítima, no Século XIV. As tradições das demais comunidades malgaxes eram vagas, indicando apenas que seus antepassados longínquos migraram para Madagascar de algum lugar do ultramar.
Ao mesmo tempo, o nome Madagascar oferecia poucas indicações sobre os primeiros habitantes. Tradicionalmente, a ilha era designada Izao rehetra izao (que quer dizer "este conjunto", ou "tudo isto"), conforme o conceito malgaxe de que a ilha era o centro do universo. Também era chamada de Nosin-dambo (Ilha dos Javalis) e, durante o período de Radama I, Ny anivon'ny riaka (Terra no Centro da Inundação), segundo James Sibree.
Em vários textos árabes, a ilha era designada como Kamar ou Komr (Ilha da Lua) ou Bukini, e o arquipélago de Comores, localizado próximo a Madagascar, era denominado Komair (Pequeno Komr). O explorador inglês Richard Burton acreditava que o nome Madagascar era uma derivação de Mogadíscio, nome adotado depois que o sheik daquela cidade invadiu a ilha.
As tradições merinas acabaram por complicar mais o quadro das populações encontradas em Madagascar. Os merinas reivindicam que seus ancestrais fizeram parte de um dos últimos grupos de imigrantes que chegaram a Madagascar, em conseqüência de um naufrágio nas costas da ilha, em princípios do século XVI. Devido à hostilidade da população local e à existência de doenças na região costeira, os protomerinas rapidamente exploraram os caminhos que levavam ao planalto central, onde encontraram os vazimba, uma população da idade da pedra, formada por caçadores-coletores, de pele escura, e que falavam uma língua desconhecida. Como dominavam a tecnologia do ferro, rapidamente conquistaram os vazimba, que ou fugiram em direção a oeste ou foram assimilados por seus conquistadores. Membros da Escola Britânica assumiram, então, que os vazimba eram um grupo indígena de Madagascar ou parte dos primeiros imigrantes africanos, possivelmente ligados aos vazimba do leste do continente africano ou ao grupo khoi.
Influências das culturas africanas, como a pecuária, também estavam difundidas entre a população de pele mais escura que habitava as planícies das regiões a oeste de Madagascar antes da chegada dos merinas. Entretanto, como as populações que ocupavam as planícies falavam dialetos da mesma língua do grupo merina, isto indicava que seus antepassados vieram da Australásia e poderiam ter realizado casamentos exogâmicos com africanos, depois de sua chegada à ilha.
O domínio deste pensamento da Escola Britânica durou até 1895 quando, com o controle francês sobre Madagascar, cresceu uma nova ortodoxia, baseada na interpretação de Alfred Grandidier e seu filho, Guillaume Grandidier. Pesquisadores incansáveis, os Grandidiers levantaram a hipótese de que Madagascar poderia ter sido visitada, em tempos remotos, por babilônios, fenícios, gregos, romanos, judeus e árabes9, e que seria possível ter havido também uma subseqüente colonização judaica em Nosy Boraha (Santa Maria), uma ilha a nordeste.
Quanto à questão-chave sobre as origens dos habitantes de Madagascar, os Grandidiers estavam convencidos de que haviam encontrado a solução do problema: levando em consideração a extensão geográfica da ilha, o fato de que, com pequenas variações dialetais, toda a sua população falava a mesma língua (fenômeno sem precedente no continente africano), os Grandidiers argumentaram que os antepassados dos malgaxes eram australásios: os ancestrais dos habitantes das terras montanhosas, de pele mais clara, seriam malaio-polinésios, e os que habitavam as planícies e que tinham a pele mais escura seriam melanésios, chamados "negros melanésios".
Possuidores, desde tempos antigos, de excelentes conhecimentos de navegação, capacidade de construção de embarcações marítimas e movidos de espírito aventureiro, estes grupos teriam navegado pelo Oceano Pacífico, colonizando diversas ilhas, chegando inclusive até a Ilha da Páscoa. Assim como navegaram para leste, também o fizeram para oeste, percorrendo 4.800 quilômetros através do Oceano Índico até alcançarem Madagascar, colonizada graças a uma série de ondas migratórias que tiveram início aproximadamente em 1.500 a.C., e que continuaram até a chegada dos protomerinas.
Esta provável trajetória mostrou-se possível em agosto de 1883, quando correntes equatoriais trouxeram até a costa leste de Madagascar pedras-pomes lançadas pelo vulcão Krakatoa, na Indonésia, três meses depois de sua erupção. A teoria dos Grandidiers também recebeu o apoio de estudos que demonstraram a difusão de pirogas, ou canoas com um flutuador paralelo, no Oceano Índico, revelando um padrão de difusão em direção a oeste: da Indonésia à costa do Sri-Lanka, para então seguir até o sudeste da Índia e Madagascar. Entretanto, a difusão das embarcações teve alcance limitado no continente africano. Somente uma estreita faixa da costa da África Oriental, em frente à região noroeste de Madagascar, parece ter sido exposta à embarcação.
Alfred e Guillaume Grandidier demonstraram que os africanos orientais, como os khois, os cuxitas e os bantos, não possuíam os conhecimentos necessários para navegar além das águas costeiras e, caso tivessem tentado cruzar o canal de Moçambique (aproximadamente 300 quilômetros nas áreas mais estreitas), encontrariam dificuldades, incluindo as perigosas correntes e as frequentes rajadas de vento, que provocaram inúmeros acidentes e a morte de hábeis marinheiros europeus. Assim, segundo a Teoria dos Grandidiers, a população de Madagascar de descendência genuinamente africana seria um produto de tempos posteriores, predominantemente do Século XIX, decorrente do comércio de escravos.
A Teoria dos Grandidier ganhou imediatamente o apoio do governo francês, interessado em distanciar Madagascar do resto do continente africano e das áreas do sul e do leste da África, que estavam sob controle formal ou informal britânico (incluindo a África oriental portuguesa). A única exceção deste vasto território era a Somália, que se encontrava sob domínio francês. Deste momento em diante, Madagascar passou a ser classificada pelos franceses, ao lado de suas possessões do Oceano Pacífico, e não em conjunto com a África continental, classificação aceita pelos britânicos que, na sequência, excluíram a ilha do campo de estudos africanos. A Teoria dos Grandidier também favorecia os merinas, pois justificava o arraigado racismo contra os africanos e seus descendentes, e fundamentava sua classificação como mainty, ou seja, como pessoas essencialmente impuras e servis, considerados estrangeiros, sem direito a reivindicar a verdadeira ascendência malgaxe.
A maior parte dos acadêmicos recebeu positivamente as afirmações do missionário e lingüista Otto Christian Dahl, quando ele reforçou a Teoria dos Grandidier, apontando grande afinidade entre a língua malgaxe e a manyaan, falada em Kalimantan, sudeste de Bornéu, como um indicador da exata origem dos protomalgaxes.
Baseado na ausência de influência do sânscrito na língua malgaxe, Dahl afirmou que os protomalgaxes abandonaram suas terras antes da chamada "indianização" que alcançou a Indonésia aproximadamente em 400 d.C.. Num estudo detalhado sobre a expansão da influência indiana na Indonésia, J.C. Van Leur argumentou que os protomalgaxes devem ter saído da Indonésia antes de 41 d.C.. Por sua vez, Wolfgang Marshall argumentou ser a língua malgaxe muito próxima da língua franca indonésio-malaia, falada nos primeiros séculos da era comum (d.C.). Já J. Innes Miller contribuiu com a teoria de Grandidier de que as primeiras imigrações aconteceram aproximadamente em 1.500 a.C., quando o poderio marítimo do reino indiano de Kalinga estava no seu apogeu. Para os antalaotras zatiraminia, do sudeste de Madagascar, que reivindicavam ser oriundos da Arábia, Paul Ottino primeiramente chegou a propor uma origem de Mangalore (Índia), mas depois lhes atribuiu uma origem malaio-sumatra.
NUma outra corrente, surgiram teorias a respeito de uma emigração de africanos para Madagascar que tiveram início com a própria Escola Britânica. Mas foi Gabriel Ferrand, arabista contemporâneo de Alfred Grandidier, o primeiro a propor a idéia de que Madagascar havia sido colonizada por uma maioria predominante de africanos, ou por uma combinação de indonésios e africanos. Ferrand argumentou que a migração dos protomalgaxes para o oeste da ilha foi o resultado do envolvimento dos indonésios no comércio marítimo de longa distância, especialmente durante o apogeu do império comercial de Srivijaya, localizado em Palembang, na Sumatra, entre os Séculos VII e XII. Ferrand estimou que as colônias comerciais indonésias surgiram neste período, primeiro na Índia e depois na costa leste do continente africano, originárias de um grupo protomalgaxe que havia migrado para Madagascar.
A chamada "Tese Africana" argumenta que a migração do continente para a ilha permaneceu negligenciada até 1959, quando George Murdock propôs uma nova hipótese. Segundo sua análise, imigrantes indonésios introduziram plantas e técnicas de cultivo oriundas diretamente do sudeste asiático na África Ocidental e Oriental. Os gêneros agrícolas mais significativos foram a banana, o inhame e o taro (Colocasia antiquorum), que se espalharam ao longo do continente africano até a zona de floresta da África ocidental, onde, segundo Murdock, contribuíram de forma fundamental para o início da expansão banto para o nordeste da floresta equatorial. Em 1962, Roland Olivier sugeriu uma correção à teoria de Murdock, ao propor que os bantos encontraram as plantas e as sementes de origem indonésia no decorrer da sua migração do norte para o sul da floresta equatorial.
Desde os Anos 1970, variações da Tese Africana ganharam apoio crescente dos historiadores de Madagascar. Raymond Kent (1972) defendeu que os indonésios fundaram o Grande Zimbabue antes de escaparem dos bantos e cruzarem o canal de Moçambique para estabelecerem a dinastia Menabe Sakalava, inaugurando o modelo para os reinos de Boina Sakala e Merina. Outros, como Pierre Vérin, defenderam que os protomalgaxes chegaram a Madagascar cruzando as ilhas Comores, enquanto, numa versão revista de sua teoria das origens indonésias, Otto Dahl estimou que os protomalgaxes participaram da formação do já mencionado império comercial Srivijaya e emigraram primeiro de Kalimantan (Bornéu) para Sumatra (Ilha Bangka) e, posteriormente, de Sumatra em direção a oeste, aproximadamente no Século VII. Além disto, investigações de geneticistas indicaram que todos os malgaxes possuíam características de indonésios e africanos (bantos), ou seja, que houve mistura entre eles em alguma etapa antiga da história dos dois grupos.
Diferentemente da posição assumida pelos historiadores de Madagascar, a maioria dos estudiosos anglófonos da África oriental e austral se mostraram francamente favoráveis a uma posição denominada "afrocêntrica", atitude que diminuía a importância das forças externas e valorizava o dinamismo das comunidades africanas bantos, em especial os cuxitas e os que efetivamente falavam línguas banto. O resultado desta discussão foi que se perpetuou a exclusão de Madagascar da área de estudos africanos e se minimizou o impacto da influência indonésia na África.
Ao adiantar a data da primeira leva da imigração banto para aproximadamente 3.000 a.C., os acadêmicos rejeitaram a possibilidade de qualquer presença indonésia na África em época tão remota. De fato, a ortodoxia recente afirma que as comunidades lingüísticas banto eram constituídas de populações agrícolas altamente empreendedoras, possivelmente os componentes centrais do que Christopher Ehret identifica como "uma era clássica africana", que durou mais de dois mil anos, até aproximadamente 400 d.C.. Ao chegarem à África central e centro-oeste, em aproximadamente 1.000 a.C., os bantos adotaram e adaptaram as técnicas de pecuária dos vizinhos localizados a nordeste, os cuxitas, assim como possivelmente também os grãos, como o sorgo e o milhete, e, provavelmente, também desenvolveram ou adotaram a tecnologia do ferro em torno de ou anteriormente a 500 a.C.. Os imigrantes bantos teriam expandido a base de sua economia e, com a utilização de utensílios de ferro, intensificaram a produção agrícola através de técnicas como o desmatamento da floresta para preparar o solo para o cultivo. Utilizando uma economia mista, os grupos bantos chegaram ao Oceano Índico, aproximadamente no início do primeiro milênio d.C., depois de uma rápida expansão nas direções leste e sul pela área de savanas, onde as técnicas de cultivo de sorgo foram introduzidas e alcançaram a região ao norte de Natal (África do Sul), aproximadamente em 250 d.C..
A existência de várias espécies sul-asiáticas, como a cana-de-açúcar, o inhame asiático, a banana e o taro (um outro tipo de inhame cultivado, também da espécie colocasia esculenta) que chegaram à costa leste do continente africano entre os Séculos I e III d.C., permitiu alguns botânicos e lingüistas defenderem a existência de influência indonésia na África Oriental, assim como na língua kaskazi, falada na costa suaíli (Tanzânia/Quênia). Contudo, a maioria dos acadêmicos que defendem a Tese Africana, chamados "afrocêntricos", aponta para uma total ausência de evidência arqueológica que comprove a presença de indonésios na África Oriental. Se tivessem sido os primeiros a chegar, certamente teriam utilizado seus conhecimentos agrícolas e a tecnologia do ferro para colonizar a região, o que não parece ter ocorrido.
Assim, J.M. Blaut descartou o argumento de uma contribuição sul-asiática para o desenvolvimento da agricultura na África e para a expansão banto como, no mínimo, remota. Mais apropriadamente, os acadêmicos defensores da Tese Africana consideram provável que elementos da complexa agricultura sul-asiática tenham chegado à costa leste do continente africano através de dispersão natural, acompanhando as correntes oceânicas. Os cocos, por exemplo, podem boiar em água salgada por quatro meses sem se deteriorar e, com a corrente marítima favorável, poderiam, neste tempo, ter percorrido as 3 mil milhas que separam as duas costas. Outra possibilidade é que estas culturas tenham sido introduzidas no continente africano pelos comerciantes árabes ou indianos, cuja presença é comprovada a partir do primeiro século d.C.. Somente a partir deste momento os grãos sul-asiáticos começaram a chegar à costa leste da África, difundidos lentamente através do território até chegar às terras montanhosas do Quênia e do Malauí, aproximadamente em 800 d.C., após o início da produtividade agrícola e das conseqüentes migrações dos bantos por todo o território da África oriental e austral.
A maioria dos investigadores aceita que a primeira ocupação de Madagascar teve início entre o começo da era comum e os anos 300-400 d.C., como resultado seja da imigração direta da Indonésia, seja através da Índia, ou ainda via Comores, em direção ao norte de Madagascar. Os estudiosos que optam pela Tese Africana aceitam esta possibilidade, mas se inclinam, entretanto, para a opção da colonização direta, ao invés daquela através da África Oriental. James Allen defende que os indonésios provavelmente chegaram a Madagascar no primeiro século da era comum, diretamente da Indonésia, ou fazendo escala nas colônias indonésias, no sul da Índia. Embarcações poderiam facilmente zarpar do sudoeste asiático, durante os meses de verão, para o norte e o noroeste de Madagascar e, para chegar à costa nordeste da ilha, usar a seu favor os ventos ao redor do Cabo Ambre, regressando com os ventos das estações mais frias, quando também era mais fácil velejar do nordeste de Madagascar até a região noroeste da ilha, assim como para Comores e para a costa leste do continente africano.
Alguns estudiosos reivindicam a existência de evidência literária para uma migração ainda mais antiga. Segundo Kobishchanow, Madagascar seria uma ilha ou um arquipélago mencionado no primeiro século da era cristã por Diodorus Siculus, que velejou pela Somália e afirmou ser este território habitado por pessoas felizes e sábias.
Ossos de hipopótamos talhados com utensílios de ferro encontrados em Lamboharana e Ambolisatra, ao norte de Toliara, no sudoeste de Madagascar, são evidências de presença humana na ilha, entre o começo do Século I a.C. e o Século IV a.C.. Entretanto, evidências de presença humana na costa nordeste da ilha (datadas entre os séculos I e VIII) apontam para uma presença temporária de caçadores-coletores, e não para qualquer tipo de ocupação associada às origens africanas ou protomalgaxes destes grupos.
Em Madagascar (Nosy Mangabe), assim como em Comores, a primeira evidência de fixação humana permanente data do século VIII. Daí em diante, há evidências de expansão da colonização, algumas vezes temporária, em Comores e em Madagascar, ao longo do vale Mananara, 80 quilômetros ao sul de Nosy Mangabe, assim como na baía de Irodo, no nordeste da costa.
Entretanto, Henry Wright considera que tais comunidades seriam tão pequenas que não dariam conta da demanda de cônjuges, carecendo de laços externos para garantir a perpetuação do grupo. Somente a partir do Século X desenvolveram-se ao longo da maior parte da costa noroeste malgaxe algumas áreas de fixação permanente, enquanto as primeiras áreas de ocupação permanente significativa nas ilhas Comores e na própria costa noroeste de Madagascar, tiveram início no Século XI, com a incorporação destas regiões à rede comercial islâmica. Esta constatação fortalece o ponto de vista defendido por Michael Mollat de que a maior onda migratória protomalgaxe oriunda da Indonésia teria ocorrido durante o apogeu da influência de Srivijaya, o já mencionado império de Sumatra, entre os Séculos X e XII.
Um tema relativamente pouco abordado por historiadores é o das motivações que teriam levado os protomalgaxes a se estabelecerem em Madagascar. Migrações têm sido geralmente analisadas em função de fatores como "estímulo" e "competição". Inicialmente, na Escola Britânica prevaleceram as teorias ligadas à idéia do estímulo; já os Grandidier defendiam que o "espírito aventureiro" teria impulsionado os australásios em sua expansão oceânica. Vérin procurou fatores mais pragmáticos, especialmente a tranqüilidade do oceano, que permitia a navegação costeira e em alto-mar, assim como a disponibilidade de produtos florestais, tais como a resina e a pedra-sabão, que foram transformados em vasos e largamente utilizados no sistema de comércio oceânico, o que também relaciona a fixação desta população à expansão do comércio e da cultura suaíli-árabe na região.
Entretanto, a fixação em território virgem é sempre difícil. Madagascar está localizada fora das principais rotas comerciais oceânicas, as correntes no canal de Moçambique são problemáticas, a viagem pela costa malgaxe é dificultada por manguezais, falésias, bosques e rios com crocodilos gigantes. Além disto, Madagascar carecia dos três principais produtos de exportação africanos: marfim, escravos e ouro. Como enfatizaram Ottino, Allen e Dahl, diante da ausência de atrativos favorecedores, a motivação para a migração deve ser buscada em outros fatores como, principalmente, o avanço árabe-suaíli pela costa oriental africana. Certamente, havia uma inimizade comercial em 945 d.C., quando Buzurg ibn Shahriyar testemunhou o ataque de uma esquadra de mais de mil embarcações waq waq (indonésios ou malgaxes) à ilha de Kanbalu (possivelmente a ilha de Pemba), com o objetivo de controlar e assegurar o comércio, especialmente de marfim, carapaça de tartaruga e âmbar, para vender na Indonésia e na China, além de escravos.
O que Pierre Vérin denominou "primeira civilização malgaxe" surgiu mais tarde, entre os séculos XII e XV, no nordeste e no noroeste da ilha. Estes primeiros assentamentos populacionais se fundamentavam num comércio internacional vigoroso, que exportava arroz, gado e ardósia para a rede comercial suaíli e importava tecidos, pérolas e cerâmicas de origem chinesa e árabe para Madagascar.
A maioria dos acadêmicos concorda que os protomerinas constituíram a última das diferentes ondas de imigrações indonésias para Madagascar. As tradições orais merinas enfatizam sua chegada a Madagascar no começo do século XVI. Entretanto, há que se notar que os portugueses que chegaram à ilha na mesma época não assinalam a presença de indonésios na parte ocidental do Oceano Índico, ainda que, paralelamente, existam notícias de que, por volta de 1508, eles tenham incendiado dois portos islâmicos no noroeste de Madagascar, indicando uma já importante presença muçulmana na região. Posteriormente, os portugueses inspecionaram a ilha e, em torno de 1518, relataram que os malgaxes não-muçulmanos "não navegam para portos de outrem, nem permitem que outros venham aos seus".
A maioria das análises dos especialistas enfatiza que os protomerinas chegaram a Madagascar depois dos antalaotra (que chagaram entre os séculos IX e X) e dos indianos karana (que chegarm entre os séculos XI e XII) todavia, precisariam ter chegado muito antes do século XVI e migrando rapidamente da região costeira para o planalto no interior, que já estava ocupado pelos vazimba. Devido a esta nova cronologia, foi necessário rever a linha do tempo em relação aos protomerinas, localizando sua chegada à ilha no Século X, o que combina com a última evidência textual do Século XII de uma "viagem indonésia" a Madagascar e a chegada, no Século XIV, a Imerina, no planalto central. Entretanto, esta mudança é problemática, pois a evidência arqueológica mais antiga da ocupação humana do planalto central data da metade do Século XIV, e os laços comerciais com os antalaotras remontam apenas ao Século XV, não havendo nenhuma evidência de grupos anteriores.
Atualmente, predomina entre os acadêmicos a hipótese de que, nos séculos próximos ao começo da era comum (d.C.) houve uma transformação no grupo relacionado aos manyaan de Bornéu, que controlavam as principais rotas comerciais marítimas da faixa norte do oceano Índico à Índia. Este grupo, então, velejou até a costa leste da África, onde se misturou com os grupos de língua banto, antes de seguir até Madagascar. Outra opção é que estes grupos tenham navegado diretamente até lá. Entretanto, não há evidência de fixação de população de origem indonésia na costa leste da África ou de presença humana permanente em Madagascar antes do Século VIII d.C.. Ao lado destas dúvidas mais remotas, como foi mostrado acima, também o período da última migração indonésia (protomerina) continua sendo um problema não solucionado.
Por fim, é importante reconhecer que o momento em que os protomalgaxes saíram de suas terras e chegaram a Madagascar, as rotas que seguiram e os motivos que os levaram a abandonar o local de origem e migrar permanecem desconhecidos. É possível apenas afirmar que a origem dos malgaxes tem ocupado a atenção dos estudiosos, mas que, apesar da extensão das pesquisas recentes e do acúmulo de informações de diferentes ordens, estas migrações permanecem ainda como um enigma.

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