DIAMOND, Jared. Colapso. Editora Record, 2007. (627 páginas)
- Entenda-se como colapso quando há uma drástica redução da população e/ou da complexidade política, econômica e social numa área considerável e cuja consequência se alastra por um longo período de tempo. O fenômeno do colapso é, portanto, uma forma extrema de diversos tipos mais brandos de declínio, sendo um tanto arbitrário decidir quão drástico é um declínio de uma sociedade a ponto de que seja considerado um colapso.
- Colapsos são processos contínuos derivados de efeitos ambientais, econômicos, políticos e culturais, estes últimos quase sempre associados a crenças de natureza religiosa que impeçam a implementação de remédios capazes de reverter os efeitos colapsantes. Fenômenos pontuais não são capazes de produzir um colapso, mesmo que gerem crises. É o que aconteceu, por exemplo, em 1815, quando uma enorme erupção no vulcão Tambora, na Indonésia, lançou tanta poeira na atmosfera terrestre superior, que a quantidade de luz do sol que chegava à superfície do planeta diminuiu a ponto de afetar as colheitas na América do Norte e na Europa devido às temperaturas muito frias, gerando fome e mortes a nível global. O ano de 1816 ficou conhecido como "o ano sem verão". Até que a poeira se acomodou, as condições se reestabeleceram e a crise não se tornou um colapso.
- Um dos maiores exemplos de como a cultura e as crenças religiosas podem impedir tomadas de decisão eficientes para impedir colapsos de uma sociedade é visto na história da Ilha de Páscoa, no meio do Oceano Pacífico, o lugar mais isolado do planeta. As terras mais próximas dali são a costa do Chile, cerca de 3.700 quilômetros a leste, e as Ilhas Pitcairn, na Polinésia, a cerca de 2.000 quilômetros a oeste. Uma ilha triangular formada inteiramente por três vulcões que se ergueram do oceano: Poike, o mais velho, no canto sul do triângulo, Rano Kau no canto sudoeste, e Terevaka, o mais novo dos três, no canto norte, cuja erupção, há cerca de 200 mil anos, liberou a lava que hoje compõe 95% da superfície da ilha, que tem 170 quilômetros quadrados e chega a 510 metros de altitude. O oceano ao redor tem águas frias demais para a formação de recifes de corais. E o vento que corta a ilha é forte demais, dificultando a formação de árvores frutíferas.
- No meio da ilha está a pedreira de Rano Raraku, uma cratera vulcânica quase circular de 550 metros de diâmetro, onde podem ser encontradas, não concluídas e abandonadas pelo tempo, 397 estátuas de pedra representando de modo estilizado um torso humano masculino; a maioria delas entre 4,5 e 6 metros de comprimento, embora a maior delas tenha mais de 20 metros de altura, do tamanho de um pequeno edifício. Estas estátuas pesam desde 10 até 270 toneladas, encontrando-se em diferentes estágios de conclusão. Espalhadas pelo chão da cratera estão as picaretas de pedra, brocas e martelos utilizados para suas elaborações. Da pedreira partem estradas de transporte através de um desfiladeiro com cerca de 7,5 metros de largura irradiando-se a norte, sul e oeste até a costa da ilha, a 15 quilômetros de distância dali. Espalhadas pelas estradas estão 97 outras estátuas abandonadas durante o transporte. Ao longo da costa da ilha estão dispostas cerca de 300 plataformas, um terço delas servindo de suporte para 393 outras estátuas que chegaram a seu destino final. Na maior destas plataformas, Ahu Tongariki, está a maior dentre todas as estátuas, pesando 88 toneladas.
- O primeiro navegador europeu a ter aportado em Páscoa foi o holandês Jacob Roggeveen, em 5 de abril de 1.722. Quando lá chegaram foram recebidos por um grupo insular de poucos milhares de polinésios, detentores de alguns poucos barcos mal vedados com não mais do que três metros de comprimento, nos quais entravam no máximo duas pessoas. Certamente, eram canoas incapazes de fazer qualquer travessia marítima até o pedaço de terra mais próximo dali. Não havia animais terrestres, toda a alimentação deles saía do mar. Naturalmente, e o registraram no diário de bordo, ficaram assombrados e incrédulos com o tamanho das estátuas de pedra que ali encontraram. Sobre a ilha relataram no diário: "vista de alguma distância achamos que era arenosa, sua aparência desolada não era capaz de provocar qualquer impressão além de uma singular pobreza e aridez".
- Outro problema associado à geografia da ilha de Páscoa é a água doce. O solo vulcânico é poroso, assim as águas de chuva infiltram-se rapidamente por ele, consequentemente os suprimentos de água potável sempre foram limitados, formando-se apenas um fluxo intermitente, na encosta do monte Terevaka, e há lagoas e pântanos no fundo das três crateras vulcânicas que compõem a ilha. Além destas fontes, só era possível obter acesso a água com a escavação de poços em lugares onde há acúmulo de água relativamente próximo à superfície. Para suprir a escassez de água potável, havia um hábito exacerbado dos insulares de beber caldo de cana de açúcar. Por isso, nos esqueletos ancestrais encontrados na ilha há uma proeminência de dentes com cáries não encontrada nos restos de esqueletos de qualquer outra população humana pré-histórica em qualquer outra parte do planeta.
- A população nativa original da ilha tinha laços genéticos e linguísticos com os polinésios. Isto ficou explícito já em 1.774, quando um tripulante da esquadra do capitão James Cook de origem no Taiti, foi o primeiro visitante a se descobrir capaz de conversar com os insulares, os quais falavam um dialeto polinésio oriental relacionado ao das ilhas do Havaí e das Marquesas, muito próximo ao dialeto conhecido como antigo mangarevano. Seus anzóis, enxós, arpões e limas de coral assemelhavam-se muito aos antigos modelos das Ilhas Marquesas. Suas plantações cultivavam bananas, taros, cana de açúcar e amoras, produtos tipicamente polinésios.
- A expansão marítima polinésia foi o mais dramático surto de expansão e exploração da pré-história humana. Até 1.200 a.C., os seres humanos que tinham se espalhado pelas ilhas da Indonésia, pela Austrália e pela Nova Guiné, ainda não tinham avançado muito além das Ilhas Salomão, a leste da Nova Guiné. Por volta desta época, um grupo de agricultores navegadores, aparentemente originário do arquipélago de Bismarck, a noroeste da Nova Guiné, atravessou quase dois mil quilômetros de mar aberto para alcançar Ilhas Fiji, Samoa e Tonga. Apesar de não ter bússolas, escrita e instrumento de metal, eles eram mestres na arte da navegação a na tecnologia de canoas a vela, além de exímios conhecedores dos voos dos bandos de aves marinhas, que parece ter sido o que lhes guiava a encontrar novas terras, permitindo-lhes uma ocupação de povoamento de oeste para leste em águas oceânicas cujos ventos e correntes marítimas do Oceano Pacífico, que tem direção de leste para oeste. O principal rastro para um mapeamento desta expansão foram os lastros deixados por sua cerâmica de estilo lapita.
- Um espaço muito maior de águas a serem navegadas separa-os então da polinésia oriental, onde estão as ilhas Cook, Sociedade, Marquesas, Austrais, Tuamotu, Havaí, Nova Zelândia, Pitcairn, Henderson e Páscoa. Assim, após uma "longa pausa", com o avanço tecnológico das canoas e das técnicas de navegação polinésia, em algum momento entre 500 d.C. e 900 d.C. estes povos cruzaram estas distâncias e alcançaram algumas destas ilhas. Somente por volta de 1.200 d.C. seres humanos chegariam pela primeira vez à Nova Zelândia, o último destes pontos a ter sido ocupado. Antes disto, a Ilha de Páscoa já havia sido ocupada. Segundo a tradição oral de mitos e lendas do povo nativo que aí vivia à época do primeiro contato com navegadores europeus, o líder desta expedição que povoou a ilha se chamaria Hotu Matu'a.
- Tanto as tradições orais preservadas pelos insulares quanto as pesquisas arqueológicas sugerem que o território da ilha era dividido em 12 subterritórios, cada qual pertencente a um clã ou grupo de linhagem, com cada área tendo um chefe único, uma plataforma cerimonial (chamadas "ahu") principal, que servia de base para as estátuas (chamadas "moai"). A ampla maioria era localizada sempre na costa, e todas com as estátuas voltadas e olhando para dentro da terra, em direção ao território de seu clã. Eles competiam, a princípio pacificamente, tentando superar aos demais clãs na construção de plataformas e estátuas. O ahu é retangular, cujos lados são lajes de pedra pesando toneladas cada uma, com o interior com recheio de cascalhos, sobre os cais eram erguidas as estátuas conduzidas até ali desde as longínquas pedreiras. Nos fundos dos ahu havia crematórios, onde há restos mortais de milhares de corpos.
- Para o deslocamento dos ahus e moais das pedreiras até a costa, tanto a tradição oral insular quanto as evidências arqueológicas apontam para um uso intensivo de madeira para a construção dos trilhos, trenós e cordas utilizados para mover as pedras que pesavam toneladas. A vegetação da ilha é árida, mas não foi sempre assim. Estudos de palinologia, isto é, análise de pólen depositados nos sedimentos do fundo de pântanos e lagoas, provam que a ilha não teve um passado árido, mas sim coberto por uma floresta subtropical de grandes árvores e bosques frondosos, na qual se destacavam enormes palmeiras com mais de vinte metros de altura. Todas árvores hoje extintas na Ilha de Páscoa. Ao mesmo tempo, há ossos de golfinho entre os depósitos mais antigos da ilha, animal que só podia ter sido pescado pelos pascoenses antigos através do uso de grandes canoas oceânicas já não mais existentes à época da chegada dos primeiros europeus, que só testemunharam a existência, em 1.722, de árvores com menos de três metros de altura na ilha.
- Mapeando as antigas sementes encontradas enterradas por datação radiocarbônica, pode-se identificar que a partir de meados de 900 d.C. há diminuição da vegetação nativa gradativamente crescente até os entornos de 1.300 e atingiu o seu auge por volta de 1.400. Por volta de 1.440 d.C., os restos de carvão resultantes de queimadas da mata desaparecem dos vestígios arqueológicos. Nos montes de dejetos estudados pelos arqueólogos, os ossos de golfinho desaparecem a partir de mais ou menos 1.500 em diante, indicando a já não existência de madeiras grandes o suficiente para produzir canoas oceânicas. Nos fogões das casas, a partir de mais ou menos 1.640 d.C. não há mais vestígios de carvão de madeira, com o surgimento de sinais de queima de ervas e mato para que fosse feito fogo, dando sinais da extinção por completo das florestas nativas de árvores altas e grossas.
- Em seu auge, estima-se que a população da Ilha de Páscoa deve ter sido superior a 20 mil habitantes em algum momento entre 1.400 e 1.500, é o que indicam os registros arqueológicos de construções antigas encontrado. A partir de então o desmatamento causou diminuição abrupta das colheitas, uma vez que levou à erosão pelo vento e pela chuva, comprovada nas amostras de sedimentos do solo antigo estudadas pelo aumento de íons metálicos oriundos da terra em meio a tais sedimentos. Sem a vegetação mais densa, o solo ficou mais exposto ao calor do sol e teve menos restos de folhas para lhe gerar adubos naturais, passando por ressecamento e perda de nutrientes, tornando-se mais árido. Os registros orais dos sobreviventes relatam tempos de grandes fomes. Ao tempo do primeiro contato com os navegantes europeus, em 1.722, a população da ilha já havia sido reduzida em mais de 70%. AS epidemias de varíola que chegaram junto com os europeus, acabaram de devastar ao povo "rapa nui" que havia sobrevivido a tal saga. Sete oitavos do povo morreu então de varíola nas décadas seguintes.
- Na tradição oral insular dos rapa nui, cita-se que pelos chefes e sacerdotes relacionarem-se com os deuses, o povo tinha prosperidade e colheitas abundantes, obtidas pelas grandes cerimônias de adoração a seus deuses, mas que esta sociedade ruiu em guerras civis comandadas por líderes militares chamados matatoa depois que a prosperidade das plantações acabou, derrubando-se os antigos cultos e substituindo-os por novos. Os relatos referentes a tais tempos de escassez passam a conter histórias obsessivamente repletas de canibalismo, que passou a ser fator comum.
- Histórias de colapsos no passado não ficaram restritas a ilhas isoladas no meio do oceano, também aconteceram na América pré-colombiana. A mais conhecida é a do Império Maia, mas ela não foi a única. Os europeus, ao aprofundarem suas explorações após terem aportado no continente, encontraram ruínas abandonadas a sudoeste dos Estados Unidos no território então ocupado pelos povos nativos da etnia navarro, que lhes transmitiram que aquelas construções haviam pertencido aos anasazi (cujo significado é "antigos" na língua navarro). Estudos arqueológicos posteriores identificaram sinais de uma grande sociedade complexamente organizada, geograficamente extensa, e regionalmente integrada que deixou sinais de ter vivido ali de cerca de 600 d.C. até aproximadamente 1.200 d.C.. Estudos das camadas subterrâneas do solo indicaram períodos de grandes secas por volta de seu abandono, assim como os registros arqueológicos indicaram sinais de muitos conflitos bélicos.
- É uma história parecida à do povo maia, o qual viveu na Península de Yucatán (hoje parte do México) e na América Central. As cidades maias acabaram abandonadas e só começaram a ser redescobertas a partir de 1.839 pelas explorações de um rico advogado norte-americano chamado John Stephens junto a um projetista inglês de nome Frederick Catherwood. E desde então, ao longo dos Séculos XX e XXI mais e mais cidades foram sendo encontradas em meio à densa selva que cresceu sobre suas ruínas.
- Por toda a Mesoamérica não havia materiais de metal nem animais grandes o bastante para carregar carga ou puxar arado. Todos os utensílios humanos dos povos nativos que ali viveram eram feitos à base de pedra e madeira, e foram com estes recursos que estes povos construíram os grandes templos que viriam a ser encontrados séculos depois em meio à densa selva.
- Os conhecimentos dos maias foram herdados de povos que habitaram as regiões próximas na Mesoamérica antes deles: a agricultura era praticada desde 3.000 a.C., há restos de cerâmica datados de 2.500 a.C., indícios de formação de grandes aldeias desde 1.500 a.C., cidades do povo olmeca construídas a partir de 1.200 a.C., e a escrita surgiu ali com o povo zapoteca na região de Oaxaca por volta de 600 a.C.. Na região propriamente ocupada pelo Império Maia, aldeias e cerâmica aparecem a partir de 1.000 a.C., grandes edificações de pedra a partir de 500 a.C., e a escrita por volta de 400 a.C., feita com cascas de árvore e gesso, ou gravada em pedra nos monumentos, fazendo menção sempre a reis e à nobreza, e às suas grandes conquistas. Quase todos os livros em cascas de árvore e gesso elaborados pelos maias foram destruídos pelos padres católicos espanhóis para apagar qualquer rastro do que consideravam crenças pagãs, tendo somente 4 livros sobrevivido a tal destruição, os quais contém tratados de astronomia referentes aos movimentos do céu noturno, e com referências ao calendário.
- Os calendários na Mesoamérica surgiram fora da região maia, sendo conhecidos dois complementares, um solar de 365 dias e um ritual de 260 dias. Já o famoso Calendário Maia gravado em pedra se inicia no dia 11 de agosto de 3.114 a.C., sem que tenha ficado preservado o porquê deste registro histórico ter se iniciado em tal data. Seu calendário de conta longa nomeava as datas em unidades de dias (kin), 20 dias (uinal), 360 dias (tun), 7.200 dias (katunn) que são aproximadamente 20 anos, e em 144.000 dias (baktun) que são aproximadamente 400 anos. Toda a história maia transcorreu nos baktuns 8, 9 e 10. Era este calendário com o Longo Ciclo Maia em pedra que findava em 21 de dezembro de 2.012 d.C..
- O período clássico da civilização maia se iniciou por volta de 250 d.C., com o surgimento dos primeiros reis e dinastias. O rei funcionava como um sacerdote, responsável por ministrar rituais astronômicos e através deles proporcionar chuva, colheitas e prosperidade para todo o povo. Era comum que em tempos de seca houvesse revoluções políticas pela derrubada e substituição do rei. O último registro histórico entalhado encontrado em um monumento se refere ao ano 909 d.C., no baktun 10 do calendário maia. Os registros arqueológicos indicam tal acontecimento já em meio a um processo de uma drástica redução populacional, com uma população ainda existindo posteriormente, mas já não mais em seu apogeu.
- A região que foi habitada pelos maias tem como característica a alternância entre períodos de intensas chuvas e de longas estiagens e secas. Assim, a grande parte das cidades maias cresceu em torno de grandes reservatórios naturais de água chamados cenotes, em torno dos quais eles construíram suas crenças religiosas e a sua mitologia. E tendo os maias sido o único povo da América pré-colombiana a haver deixado registros escritos, isto permitiu uma reconstrução mais fidedigna de parte de sua história e de suas crenças.
- Sua sociedade foi basicamente construída em torno de uma agricultura de subsistência. A análise científica isotópica dos restos mortais encontrados nos sítios arqueológicos permitiu a reconstrução de sua dieta alimentar, composta em 70% por produtos derivados do milho. Eles também consumiam feijão, abóbora, mel de abelhas, peixes e muito restritivamente, com indícios bem maior de consumo pelos membros de sua elite política e religiosa, alguma carne de veado, que eram caçados nos bosques.
- Há indícios deixados no solo de efeitos de desmatamento e erosão das encostas que causaram uma diminuição na quantidade de terras cultiváveis, exacerbando um período de secas antropogênicas resultantes da redução de árvores, em muito causadas pela demanda de produção de gesso para a construção dos grandes templos, o que teria causado um esgotamento de nutrientes do solo. São indícios de um crescimento populacional maia que teria superado os recursos naturais disponíveis, gerando restrições na capacidade de abastecimento alimentar que teriam provocado guerras e induzido a um abandono paulatino das grandes cidades, com os maias sobreviventes migrando para outras regiões que tinham reservatórios de água maiores.
- A história de colapsos humanos também nos mostra que não basta repetir soluções que deram certo num lugar em outro, pois nem sempre o que dá certo para um, necessariamente dará para outro. A história de ocupação da Islândia, próximo ao Ártico mostra isto. Os primeiros escandinavos a aportarem naquela grande ilha remota eram navegadores do povo viking. Ao lá chegarem, encontraram enormes campos de gramíneas verdes similares aos que tinham na Dinamarca e na Noruega. Um quarto da área da ilha era florestada. Os campos islandeses eram parecidos, mas não eram iguais, e eles só descobriram isto quando já era muito tarde. Os campos que habitavam antes tinham sido formados por atividade vulcânica antiga e estiveram completamente tomados por geleiras durante a Era do Gelo, tornando-se solos pesados, comprimidos pela abrasão das geleiras contra as camadas de rocha abaixo delas e pela emersão de lama marinha, por isto não eram solos frágeis, eram mais resistentes. Na ilha que abriga a Islândia a atividade vulcânica era bem mais recente, com um solo mais pueril e vulnerável à ação dos ventos. Quando os colonos vikings chegaram, derrubaram muitas árvores para ampliar as pastagens e para obter lenha e madeira de construção. Cerca de 80% da floresta original foi derrubada em algumas décadas. O solo mais frágil perante a erosão não se recuperou, o ambiente logo se tornou árido, com apenas 1% da área ainda florestada, com o local tendo assim se tornado um deserto feito pelo homem. Não havia conhecimento científico de que a vegetação e o solo eram muito mais frágeis dos que aqueles com as quais estavam acostumados. Somente fizeram como sempre faziam. Não funcionou.
- Sem conseguir cultivar alimentos na Groenlândia, os nórdicos acabaram forçados abandonar à região. Se tivessem aprendido o manuseio do ambiente com aqueles que ali encontraram, não teriam precisado abandonar a região. O povo inuit (popularmente chamado de esquimós) chegou à região por volta do ano 1.000 d.C. migrando a partir do extremo norte das Américas. Detinham um conhecimento milenar acumulado pelos povos que ocupavam a região do Ártico, cujo desenvolvimento cultural adaptado ao clima de extremo frio, construindo iglus sob a neve, tornando-se exímios caçadores de baleias e focas, de forma que assim conseguiam alimentar uma população bem maior em seus povoados do que a dos nórdicos que tinham alcançado à Groenlândia, além de usar a gordura de baleia como combustível, dispensando a necessidade de queima de madeira. Caçavam no mar usando caiaques de seis metros de extensão feitos com couro de foca - chamados umiaques - usando arpões, arpões e bexigas de pele foca cheias de ar como boias, com uma técnica só possível porque as pontas dos arpões facilmente se desencaixavam da hasta uma vez que uma baleia era atingida, deixando as boias atadas ao animal, que tinha dificuldade para submergir, sendo forçado a voltar à superfície diversas vezes, até que demonstrasse exaustão, quanto então os caçadores voltavam a se aproximar com os umiaques para enfim utilizar as lanças para concluir a caça. Os vikings tinham embarcações com tecnologia para navegações de mais longo alcance, mas não dominavam tais técnicas de caça em alto mar. E nem tentaram aprendê-la, pois por suas próprias barreiras culturais, consideravam os inuits abrutalhados que nada lhes teriam a ensinar. Por que não de adaptaram? Por fatores intrínsecos à nossa humanidade: os valores aos quais as pessoas e as sociedades humanas se apegam mais fervorosamente em condições inadequadas são aqueles que antes eram fonte de seus maiores triunfos sobre as adversidades de outrora sob outras condições. Por isto a história humana sempre foi repleta de choques culturais.
- Antes das indústrias se desenvolverem, a madeira e a lenha eram os recursos básicos da humanidade para energia, construção, habitação e navegação. A gestão dos bosques fornecedores de madeira é uma atividade chamada silvicultura, e existe desde tempos remotos como atividade focada em impedir que colapsos ambientais extinguissem florestas. Assim como aconteceu na Ilha de Páscoa, na Mesoamérica Maia ou na Groenlândia, também ocorreu em outras regiões desde tempos muito remotos na história humana, só que os próprios seres humanos foram capazes de reverter o quadro e impedir uma deterioração completa.
- Os grandes latifúndios agrícolas do Império Romano precisaram se preocupar em se planejar para que pudessem zelar pelo suprimento de madeira do qual necessitavam. No Império Bizantino, já no Século V, na costa do mar Adriático, havia plantações de pinheiro manso com a mesma preocupação. Os visigodos, no Século VII, quando confrontados com uma escassez crescente de madeira, trabalham na gestão e na preservação de suas florestas de carvalhos e pinheiros. Os casos mais emblemáticos entre os mais antigos em eficiência para reflorestamento, no entanto, são os da Alemanha no Século XIV, sobretudo na região de Nuremberg, e no Japão no Século XVI, onde ações pensadas de regeneração florestal foram empregadas, nos primeiros passos do que veio a ser a silvicultura moderna.
- Um caso emblemático é a Ilha de Hispaniola, na América Central. Esta ilha é cortada por uma fronteira de 193 quilômetros que separa a República Dominicana e o Haiti, países que ocupam cada um deles um lado da ilha. Originalmente, toda a ilha era amplamente florestada. Desde a chegada dos europeus ali, em 1.492, ambos os lados perderam suas florestas, mas o Haiti perdeu muito pais. Ao fim do Século XX, quinhentos anos depois, pouco menos de 30% do lado dominicano tinha florestas, enquanto apenas 1% do lado haitiano as tinham. Tais desflorestamentos provocaram erosão e perda de fertilidade do solo, assoreamento de rios, e diminuição de chuvas, problemas que ambos os países enfrentaram, mas um claramente mais do que o outro. Mas ao contrário do que intuitivamente pode sugerir o senso comum, o lado mais pobre desmatou mais, não o mais rico. Embora ambos os países tenham um histórico de pobreza, no Haiti o problema cresceu muito mais do que na República Dominicana, cuja renda per capita ao fim do Século XX era cinco vezes superior à haitiana. Proporcionalmente aos altos níveis de pobreza, a corrupção e a incapacidade da gestão pública para definir e fazer com que áreas de proteção ambiental fossem respeitadas, fizeram com que a luta de subsistência de camadas mais pobres haitianas levasse a um nível de devastação maior. Para qualquer pensamento inclinado a caricaturar a história do desflorestamento como "determinismo ambiental", o caso de Hispaniola é um antídoto eficaz.
- Colapsos sempre afetam as sociedades humanas, mas as respostas da sociedade às situações enfrentadas fazem muita diferença. Como diz um velho ditado: o que mais importa não é o que acontece conosco, o que mais importa e a forma como reagimos ao que acontece conosco. Ações e inações humanas são aquilo que verdadeiramente faz a diferença, sempre!
- O destino de uma sociedade repousa em suas próprias mãos e depende substancialmente de suas próprias escolhas. Há que se entender e avaliar quais são os recursos renováveis, aqueles que podem ser explorados indefinidamente, desde que sejam removidos a uma taxa inferior à de sua regeneração, para que não acabem sendo extinguidos.
- Quando a colonização europeia começou na Austrália, em 1.788 d.C., o continente já era ocupado havia 40 mil anos pelos aborígenes, povos que não tinham desenvolvido a agricultura e eram nômades. A ocupação da Austrália pelo Império Britânico foi feita por imigrantes que lá chegaram não em buaca de melhores condições de vida, mas por terem sido obrigados a ir para lá. Para aliviar a sua sociedade de uma grande quantidade de prisioneiros pobres, diminuindo riscos de rebeliões nas prisões, a lei da Inglaterra enviava ao longínquo e desértico continente australiano a pessoas condenadas por pequenos roubos ou dívidas não pagas, em frotas para lá enviadas de 1.788 até 1.868, que chegaram a Sydney, Melbourne, Brisbane, Perth e Hobart, que vieram a ser as regiões mais densamwnte povoadas da Austrália no século seguinte.
- Decisões desastrosas que levam a colapsos podem acontecer por diversas razões. Ocorrem quando os responsáveis pelas tomadas de decisão não conseguem antever, ou ao menos entender as consequências, o problema que está por surgir, porque podem não ter tido experiências prévias parecidas que lhes permitisse estar sensíveis e conscientes das consequências. É comum que a percepção destas seja muitas vezes prejudicada quando há uma distância longa e uma evolução paulatina entre causa e consequência, sendo ainda pior se sujeita a frequentes variações, quando a degradação vai acontecendo em ciclos. Isto acontece tanto coletivamente, quanto individualmente na trajetória de nossas próprias vidas pessoais.
- Além disto, um fator de dificuldade a mais é que muitas vezes há a percepção e a identificação do problema que está em curso, mas não se consegue agir para solucionar o processo que o causa e resolver o problema, o que pode acontecer por diversas razões. Só a força da consciência dos tamanhos das consequências para ajudar nestes casos a se gerar poder de convencimento para alertar os pontos que precisam de correção e tratamento.
- Porém, o problema mais comum, que ocorre na maioria das vezes nas sociedades humanas, tem fatores causadores de colapso ainda mais complexos, quando há a consciência e o conhecimento dos problemas, mas não há capacidade de organização da coletividade para conseguir conciliar os interesses em torno das soluções aplicáveis, não sendo possível harmonizar os conflitos de interesse envolvidos, comumente associados ao despotismo de um líder ou de um grupo detentor de poder a se impor como déspotas que se creem donos da razão absoluta e que tem poder militar para impor a sua vontade sobre a maioria. A maior de todas as forças que costuma aparecer nestes casos para afetar a insensatez política é a luxúria pelo poder, combinada a uma ausência de capacidade institucional e organizacional coletiva a zelar pelo interesse da maioria. O comportamento instintivo da natureza humana se manifesta naqueles que estão causando danos coletivos sob a seguinte forma de pensar: "se eu não estivesse causando este dano, alguém o estaria causando no meu lugar, pois a oportunidade está dada, de forma que não há sentido em ser comedido". Por isto a experiência coletiva humana nos indica que só uma regulamentação controlada pela maioria pode ser eficiente contra danos causados individualmente. E ainda assim, estas experiências antigas na história humana de colapsos coletivos o provam, não há certeza do quanto se é capaz de impedir colapsos de acontecerem. O segredo de sucesso ou fracasso está em se saber a quais valores fundamentais se apegar, a quais descartar e a quais substituir. Por isto, um pensador religioso do Século IV (Agostinho de Hipona) pedia em suas preces pessoais: "Senhor, dai-me coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para suportar o que não pode ser mudado, e sabedoria para saber distinguir uma coisa da outra".
- Estas são as causas mais comuns da incapacidade de resolver os problemas percebidos. Assim como ocorre coletivamente, individualmente também é muito comum que algumas características humanas interfiram na nossa capacidade como indivíduos de resolver os nossos problemas. É sempre bom lembrar que o coletivo humano não passa da soma de todas as individualidades que o formam. A cultura de uma sociedade, as suas características emocionais coletivas, são tão só a soma de características mais reproduzidas pela maioria daqueles que formam tal grupo. A persistência nos erros, a teimosia e a resistência a mudanças, a recusa em se interferir a partir de sinais e resultados negativos, e a estagnação mental, aparecem primeiro como características individuais, antes de se manifestarem socialmente pelo coletivo dos grupos humanos. O favorecimento de grupos exclusivos a seus próprios interesses, sobrepondo-os ao interesse coletivo, mostra-se um fator autodestrutivo a longo prazo.
- Quando há consciência dos efeitos das ações coletivas e há capacidade de regulamentar e ordenar as tomadas de decisão coletivas que impactam uma sociedade inteira, há meios para se evitar colapsos. Em toda sociedade humana politicamente complexa nas quais as pessoas encontram outros indivíduos com quem não têm vínculo familiar ou relacionamento de clã, a regulamentação do governo foi criada justamente por ser necessária para o cumprimento de princípios morais, um primeiro passo principal de nossa humanidade necessário para evocar comportamentos virtuosos.
- Há dois tipos de escolha que são cruciais para o sucesso ou para o fracasso: planejamento de longo prazo e vontade de reconsiderar antigos valores. Também podemos reconhecer o papel crucial destas mesmas duas ecolhas para o resultado de nossas vidas. Individualmente, na esfera das escolhas pessoais, os paralelos são: entender aonde quero chegar como pessoa, e constantemente refletir e se autoavaliar para saber se as suas atitudes te estão levando em direção a onde você quer chegar ou não.
- Temos a oportunidade de aprender com os erros de gente distante de nós - tanto geograficamente no espaço físico como historicamente no espaço temporal - para titar proveito, fazer a diferença e nos guiar em direção às melhores escolhas que estão a nosso alcance.
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