sábado, 25 de outubro de 2025

As habilidades que levaram os seres humanos a encontrar formas de superar as dificuldades que enfrentaram em suas trajetórias ao longo da história

O fato mais importante que precisamos entender sobre as habilidades humanas - o grande diferencial para que a civilização viesse a obter o tamanho de escala que tem hoje - é que elas, as nossas habilidades, precisam ser trabalhadas e desenvolvidas. Elas são aquilo que nos separa entre as trajetórias de progressão das de regressão, e não são acaso, estando relacionadas à nossa capacidade (individual e coletivamente) de transformar fracassos em sucessos.

Começando literalmente pelo início, o ponto de partida para esta compreensão é que nossas habilidades têm uma forte correlação com uma característica natural marcante de nossa espécie: os cuidados recebidos na infância. A capacidade cognitiva dos adultos humanos é fortemente influenciada pelo ambiente social vivido durante a infância. Por conta disto, a civilização humana aprendeu a dar muita atenção ao desenvolvimento infantil, e a construir uma rede de conexões com o máximo de proteção à ingenuidade dos filhotes durante as suas fases iniciais de desenvolvimento e aprendizado. Este é o baluarte da nossa essência de desenvolvimento individual e coletivo.

Por toda parte na história humana, em qualquer parte do planeta, os seres humanos encontraram formas de superar as dificuldades que enfrentaram em suas trajetórias, e pavimentaram caminhos para seguir evoluindo. As mãos, os cérebros e as escolhas humanas estão por trás das grandes transformações vivenciadas pelo conjunto de nossa espécie ao longo da história. Podemos constatar isto em pequenos detalhes e evidências de coisas que passam desapercebidas a olhos menos atentos. Por exemplo: as plantas cultivadas hoje fornecem frutos maiores do que seus ancestrais silvestres. Foi através da seleção humana, que escolheu conscientemente os frutos maiores, mais saudáveis e com mais suco em suas polpas para plantá-los, que tal metamorfose aconteceu ao longo dos tempos. As ervilhas atuais são 10 vezes maiores do que suas versões silvestres, as maçãs têm o triplo do tamanho, as espigas de milho são dezenas de vezes maiores. Este aumento de tamanho frente aos ancestrais silvestres também é bastante nítido em morangos, framboesas e outras frutas, com o aumento de tamanho tendo ocorrido ao longo de séculos, de geração em geração. Cada vez que seres humanos separavam os frutos maiores e mais suculentos e os replantavam, descartando os menores e menos saborosos, um pouco deste processo de transformação acontecia, de forma paulatina.

Nossas habilidades humanas estão por detrás de cada detalhe da edificação civilizatória da humanidade, e da marca deixada por esta em nosso planeta. São caminhos fluídos de escolhas que forjaram quem somos, e que seguirão eternamente forjando quem viremos a ser. É um processo de evolução e amadurecimento equivalente àquele que cada um vive em sua vida. A diferença é que no coletivo o produto gerado é uma sequência de uma soma de escolhas impostas pela harmonização do convívio em sociedade. Mas os resultados finais derivam igualmente das consequências de cada escolha feita.

Cada caminho indica uma trajetória própria, cada qual com suas próprias consequências, e todas derivadas das escolhas que foram sendo feitas. Nem toda sociedade adota prontamente qualquer inovação que lhe seja útil, algumas delas são mais receptivas e outras mais resistentes perante as inovações. Ao longo dos tempos, no laboratório coletivo da história, as escolhas foram sendo feitas, com opções sendo descartadas, outras alternativas testadas, havendo uma transformação sanfonada constante, num ir e vir de construções, desconstruções e reconstruções.

A cadeira de evolução e desenvolvimento das habilidades humanas nasce a partir de nossa natureza animal e nunca deixa de encontrar lições do ambiente natural no qual a humanidade vive imersa. É um ciclo eterno de aprendizado e reaprendizados. As lições estão ao nosso redor o tempo inteiro, e são percebidas pelo olhar e pela capacidade de interpretação de cada um que nasce, cresce e encerra o ciclo de convívio dentro dela. Dentro destes processes, os seres humanos intercambiam constantemente estes aprendizados diferenciados, encontrando solidez na força do grupo, tendo a vida em bando sempre sido um dos grandes diferenciais humanos. Neste processo de trocas e de formulações de crenças, amadureceu-se a capacidade de entendimento da nossa relação com tudo. O conhecimento acumulado pelo coletivo humano é um estoque que move as gerações que se sucedem a desenvolverem cada vez mais habilidades e a construir cada vez mais consciência, tanto sobre si quanto sobre tudo que nos cerca.

Toda a evolução se baseia em diferenças e não em igualdades. É assim como acontece em todo o reino animal e em todos os processos de seleção natural impostos pela natureza. Cada pessoa carrega um código genético próprio e é exposta desde o nascimento a diferentes influências no ambiente no qual vive. As diferenças moldam suas crenças e levam ao desenvolvimento de diferentes qualidades, carregando diferentes chances de sobrevivência e de reprodução.

Da mesma forma ocorre na evolução da coletividade. O domínio de técnicas agrícolas e de criação de animais conferiu a diversos povos uma vantagem competitiva e demográfica que os levou a expansões de escala continental. O desenvolvimento específico de algumas habilidades durante este processo deixou uma marca na distribuição sapiens pelo globo terrestre a partir dela. Tais marcas vieram sendo deixadas em nossa distribuição pelo planeta. Por exemplo: as línguas e culturas da família indo-europeia, todas derivadas de um tronco linguístico e cultural em comum, dominaram praticamente toda a região entre a Índia e o oeste europeu, com raríssimas exceções em presença de troncos linguísticos que não o indo-europeu nesta região (como é o caso das línguas dos bascos, dos húngaros e dos finlandeses). Da mesma forma, pautada por habilidades especificamente desenvolvidas, a história de ocupação de absolutamente todos os continentes do Planeta Terra ao longo da história traz complicadas misturas de migrações, conflitos e guerras, redes de cooperação e de trocas comerciais, diplomacias e alianças, as quais juntaram e sobrepuseram populações, e montaram o mapa de diversidade cultural da humanidade ao longo dos tempos.

Tanto na diversidade quanto na concentração dos idiomas falados, esta marca foi deixada e se nota presente. Dado o isolamento e a passagem do tempo, as línguas sofrem alterações de pronúncia, vocabulário e gramática pela tendência a se assumir funções idiossincráticas regionais, sofrendo "mutações" aparentemente aleatórias. Uma dinâmica toda ela muito parecida, mas em escala muito menor, ao processo causado pelo isolamento das constantes trocas de letras químicas do DNA que acometeram todos os seres vivos conforme os milênios e milhões de anos foram se passando.

Se o "estado da natureza" do Homo sapiens tivesse persistido indefinidamente, o mapa linguístico do planeta teria ficado absurdamente diversificado, bem mais do que os cerca de seis mil idiomas que sobreviveram até o Século XXI. Ao longo da história, processos políticos de dominação foram forças centrípetas, centralizadoras, os quais impediram as forças centrífugas, descentralizadoras, de diferenciação linguística se impusessem. Toda esta dinâmica é fortemente relacionada pelas habilidades específicas e compartilhadas desenvolvidas pelos povos que vieram a obter maior presença e maior dominância.

Por exemplo: o grego e o latim descendem de uma língua pré-histórica perdida, falada há vários milhares de anos, e tanto o hebraico quanto o árabe são línguas semitas, com tantas semelhanças que também descendem de um outro idioma antiquíssimo e desaparecido. Os grupos que falam idiomas do grupo indo-europeu e do grupo semita se separaram e diferenciaram numa época ainda mais antiga, possivelmente na Era do Gelo, o que seria o tempo suficiente para que estas línguas tenham tido tempo de se diferenciar tanto.

Ao mesmo tempo, bolsões com imensa diversidade de idiomas persistiram, sobretudo na Nova Guiné e na América do Sul. O continente sul-americano, aliás, que é o responsável sozinho por 1/4 do total de famílias linguísticas do planeta (108 famílias sul-americanas dentro de um total de 420 no planeta inteiro). Estima-se que à época da chegada dos europeus à América do Sul o número era muito maior, chegando a cerca de 1.500 línguas. É importante ainda notar que, do total de grupos linguísticos sul-americanos, metade corresponde a línguas isoladas, sem nenhuma relação claramente discernível de parentesco com qualquer outro idioma conhecido.

De tempos em tempos, este processo de acúmulo de habilidades e conhecimentos passou por momentos de forte inflexão. Assim se deu com a Revolução Agrícola, quando a humanidade trocou hábitos nômades e de caça-coleta pelo assentamento, a produção de alimentos e a criação de animais, e voltou a ocorrer no primeiro milênio antes do ano zero da Era Cristã, durante o qual amadureceram de forma definitiva 3 ordens: a primeira foi a econômica, a ordem monetária; a segunda foi a política, a ordem imperial; e a terceira foi a religiosa, a ordem dos valores e crenças. Estas três ordens, como já narrado, fortificaram os alicerces civilizatórios da convivência humana.

A humanidade à medida que cresceu e se adensou, integrou-se e se conectou cada vez mais, intensificando as suas trocas. Este processo levou a criatividade humana a desenvolver meios para a facilitação de tais trocas. A principal delas foi o dinheiro, que foi criado muitas vezes e em muitos lugares diferentes. Seu desenvolvimento não exigiu nenhum progresso tecnológico, sendo uma revolução puramente mental: a invenção de fatores de troca que existiam apenas na imaginação coletiva das pessoas. Dinheiro é qualquer coisa que as pessoas estejam dispostas a usar para representar valor. Existiram muitos tipos diferentes de dinheiro muito antes da criação das moedas e dos papéis-moedas. Ele já existia muito antes da invenção da cunhagem que inventou a moeda (uma peça padronizada de metal gravado). Na história humana, foram utilizadas como unidades monetárias: conchas, sal, gado, couro, grãos, contas, tecidos, e notas promissórias. Conchas de cauri, também conhecidas como búzios, foram usadas como dinheiro por 4 mil anos em toda a África, no sul e no leste da Ásia, e em toda a Oceania!

Sistemas comerciais complexos só funcionam sob a crença em algum tipo de dinheiro como sistema de trocas, no qual haja uma confiança coletiva mútua, tendo sido o método mais eficiente e universal já inventado. A primeira moeda forte - aceita por longas distâncias geográficas - que se tem notícia de ter sido criada no planeta foi o denário, utilizado pelo Império Romano, aceita como fator de troca até mesmo em regiões que não estavam sob o controle de Roma. Elas foram imitadas no mundo muçulmano, onde foram chamadas de dinares.

Tal método criativo de trocas comerciais não tem um similar na história: enquanto as nossas religiões nos pedem para acreditarmos em algo, o dinheiro só nos pede para acreditar que outras pessoas acreditam em algo. O dinheiro é o único sistema de crenças criado pelo homem que não discrimina com base em religião, gênero, raça, idade ou orientação sexual. Através do dinheiro, até pessoas que não se conhecem e não confiam umas nas outras são capazes de cooperar de maneira efetiva. Mas como toda criação humana, seus fatores não são integralmente positivos, pois, por outro lado, o dinheiro não respeita os limites de "valor inestimável", como honra, lealdade, moral e amor, sempre podendo vir a corromper a valores humanos.

Em meio a todo o processo de desenvolvimento criativo das habilidades humanas, forças geográficas, biológicas e econômicas sempre criaram, e continuam criando, restrições; entretanto, ainda assim, sempre houve muito espaço para desdobramentos inesperados, que não parecem ter ligação com qualquer lei ou regras deterministas. Um exemplo: quando Constantino assumiu o trono do Império Romano, em 306 d.C., o Cristianismo não passava de uma seita oriental esotérica. Parecia uma ideia absurda e exótica que, bem pouco tempo depois, viria a se tornar a religião oficial de Roma. Mais exemplos: em outubro de 1.913, os bolcheviques eram apenas uma pequena facção radical russa, não parecia lógico que em apenas quatro anos dominariam o país; assim como em 600 d.C. a ideia de que um bando de árabes do deserto logo conquistaria uma extensa faixa de terra do Oceano Atlântico até a Índia parecia muito absurda. E mais: se o exército do Império Bizantino tivesse conseguido conter o ataque inicial, o Islamismo provavelmente nunca teria deixado de ser um culto restrito a poucos em uma região isolada.

A história não pode ser explicada de forma determinista porque é caótica, são muitas forças em ação e interações complexas demais para serem previsíveis. Assim como na astronomia do universo interestelar, variações extremamente pequenas na intensidade das forças que estão em ação, e na maneira como elas interagem, produzem diferenças de resultado gigantescas.

Mas mais forte do que forças do acaso, demonstrou-se a força das habilidades humana para superar, criativamente, aos entraves surgidos em sua caminhada. A capacidade humana de superação de barreiras sempre demonstrou todos os altos limites de resiliência e persistência de nossa espécie. Na África, por exemplo, o Deserto do Saara era uma barreira intransponível de acesso ao centro-sul do continente, do qual ocupa um quarto do território; porém, caravanas de comércio o cruzavam sempre, ainda que o seu calor escaldante restringisse maiores quantidades de fluxo humano. Havia um fator a mais para dificultar a logística de movimentação: a ampla maioria dos rios da África não eram navegáveis por grandes embarcações, já que tinham muitas corredeiras e cachoeiras. Em seu litoral, só 2% da costa tinha ilhas ou penínsulas que facilitassem a construção de portos (enquanto no Mar Mediterrâneo 33% do litoral era favorável). Comparativamente às condições geográficas para dispersão favoráveis na Eurásia, já intensamente abordadas nas reflexões sobre nossa terra, tais áreas impuseram limites na capacidade de adensamentos e construções de rotas de conexão entre os diferentes povos que aí habitavam. Ainda assim, apesar de todas estas dificuldades, rotas comerciais foram estabelecidas percorrendo longas distâncias, sendo a principal delas a que ligava Marrakesh a Timbuktu.

A expansão dos ancestrais dos agricultores bantos das savanas ocidentais para o sul da África começou por volta de 3.000 a.C. Eles criavam gado e tinham culturas agrícolas de clima úmido, como o inhame, mas não conheciam metais, e ainda se dedicavam muito à caça, à pesca e à coleta. Posteriormente perderam o gado bovino por causa de uma doença transmitida pelas moscas tsé-tsé, que erradicou seus rebanhos. Por volta de 1.000 a.C., os bantos chegaram à região onde hoje é o Quênia e aos Grandes Lagos, onde encontraram um caldeirão racial de agricultores e pastores cultivando milhete e sorgo. Eram povos de origem afro-asiáticas e nilo-saarianas. A partir dali seguiram se expandindo com suas culturas agrícolas de áreas úmidas, e no século seguinte chegaram e ocuparam o lado oriental do continente.

Por volta do ano 1.000 d.C. a África abrigava todos os cinco principais grupos humanos - negros, brancos, pigmeus africanos, coissãs e asiáticos - que correspondem a quase todas as grandes divisões mais ancestrais da humanidade. Como única exceção entre os grupos ancestrais originais mais antigos a estar fora da África estão os aborígenes da Austrália e os povos nativos das Américas. Neste caldeirão cultural africano, os negros ocuparam a maior parte da África a partir de 1.400 d.C., dominando ao Saara meridional e à maior parte subsaariana do continente, os brancos - com destaque para egípcios e marroquinos - ocupavam o norte do Deserto do Saara, com tanto negros quanto brancos africanos dependendo de atividades agrícolas e pastoris para a sua sobrevivência.

Nossas habilidades cresceram à medida que nossa evolução viabilizou aglomerados humanos em escala crescente, numa marcha cujos fatores evolutivos na maioria das vezes não tiveram nada de pacíficos. A cadeia de grandes transformações históricas da humanidade é formada por uma infinidade de grandes feitos político-militares e econômicos que impuseram grandes transformações sociais e culturais numa rede crescente de conexões entre povos.

Foram muitos os marcos de inovação nesta trajetória, muitas das quais floresceram primeiro na Ásia e só depois migraram para a Europa. Em 868 d.C. foi impresso na China o primeiro livro, os quais até então precisavam sempre ser escritos a mão. Foi somente séculos depois, na Alemanha, que a invenção da imprensa causaria um crescimento exponencial na capacidade de emissão de livros e de multiplicação de conhecimento. Em 1.044, também na China, é inventada a pólvora, a partir de uma mistura de enxofre, salitre e carvão, três ingredientes abundantes no solo chinês. A invenção aconteceu por acidente, feita por alquimistas taoistas que buscavam criar um elixir da vida, com o produto sendo usado pelos chineses apenas como fogos de artifício, para fins de celebração. Será somente 600 anos depois, na Europa, que seu poder explosivo será convertido em armas de guerra e destruição, quando os canhões se tornariam um fator decisivo nos campos de batalha.

A capacidade humana de organizar um expressivo poderio militar também viveu diferentes pontos inflexivos revolucionários. Grandes e lendários exércitos tinham existido em tempos remotos e realizado grandes conquistas, entretanto a primeira revolução de maior magnitude em termos de poderio militar se deu com o Império Romano, o qual proporcionou uma revolução na capacidade logística de movimentação de grandes exércitos. Mais de um milênio depois, uma nova revolução militar com grande poder de escala veio a emergir a partir da Ásia. Em 1.206, Gêngis Khan (nascido com o nome Temudjin), um exímio cavaleiro e mestre em disparar flechas com ponta de ferro enquanto cavalgava, montou um exército de 130 mil homens e deu início às conquistas do Império Mongol.

Sua origem partiu de um povo que não tinha cultivo nem irrigação, e que nunca se estabelecia num mesmo lugar, sendo seminômade. Porém, com o domínio diferenciado de uso de cavalos como armas de combate, seu exército teve a capacidade de superar a barreira imposta pela Muralha da China, tendo em 1.215 conquistado Pequim, marco de início da expansão mongol. A partir de então conquistou ao Império Tangute e lançou as bases para a conquista do restante da China. Foi conquistando terras e estendeu seu império em direção ao oeste e ao sul, construindo o maior império que a humanidade já viu, controlando quase 20 milhões de quilômetros quadrados, com domínios que iam desde o rio Danúbio, na Europa, até Hong Kong, no extremo oriente da Ásia (como referência: o Império Macedônio de Alexandre, o Grande, e o Império Romano, dos Césares, abrangeram uma extensão de cerca de 4.900 quilômetros cada um).

O caldeirão de miscigenação em meio a este processo de ampliação cada vez maior da capacidade de inovação que acelerou a marcha de integração da raça humana foi um epicentro de formação de grandes centros de aglomerados humanos concentrando populações cada vez maiores convivendo juntas. Com exceção de uma - a China - as 6 nações mais populosas do mundo no Século XXI são caldeirões de raças, onde a conquista da unificação política em torno de centenas de línguas e grupos étnicos distintos pode ser considerada relativamente recente dentro da linha histórica de longo prazo da história humana. São estes os casos, no Século XXI, de Estados Unidos, Rússia, Índia, Indonésia e Brasil.

Já a China, que foi unificada politicamente em 221 a.C., e teve desde então basicamente só um sistema de escrita, a longevidade no tempo deste processo fez com que 2/3 de sua população fale mandarim, e o outro 1/3 fale dialetos muito similares ao mandarim (assim como entre eles). Este processo de homogeneização se deu mesmo diante de barreiras geográficas (a China setentrional e a China meridional têm clima e meio ambiente diferentes, com o norte sendo mais seco e frio, e o sul mais úmido e quente) e de diferenças étnicas (há diferenças genéticas que envolveram uma longa história de isolamento moderado entre o norte e o sul da China).

Aqueles que usavam a língua chinesa original (o mandarim e seus sete dialetos próximos) substituíram e converteram linguisticamente outros grupos étnicos, os quais eles consideravam primitivos e inferiores, num processo sangrento e bastante violento de dominação. A história registrada da Dinastia Zhou - de 1.100 a 221 a.C. - descreve a conquista e a absorção da maioria da população e das línguas não-chinesas. A China setentrional era originalmente ocupada por falantes do chinês e de outras línguas sino-tibetanas, com diferentes partes do sul ocupadas por falantes das famílias linguísticas miao-iao, austro-asiática e tai-kadai, que foram todas conquistadas e substituídas por falantes sino-tibetanos.

Um motim linguístico ainda mais drástico deve ter passado impetuosamente sobre o sudeste da Ásia para o sul da China, pois em Tailândia, Mianmar, Laos, Camboja, Vietnã e Malásia peninsular, quaisquer que fossem as línguas faladas originalmente ali, elas foram completamente extintas, já que todas as línguas modernas destes países parecem ser invasoras relativamente recentes oriundas sobretudo do sul da China e em alguns casos da Indonésia.

A história civilizatória daquela parte da Ásia indica os seus primeiros sinais cerca de dois milênios após o verificado (e já narrado) no Oriente Médio. A primeira prova de algo diferente da caça-coleta na Ásia oriental surge na China, onde restos de plantações e ossos de animais domésticos, além de cerâmica e ferramentas de pedra polida, surgem por volta de 7.500 a.C.. O conhecimento e as habilidades dos povos que habitaram estas regiões tiveram um desenvolvimento próprio. Os primeiros sinais arqueológicos de algo diferente no reino austronésio provem da região onde hoje está Taiwan, a partir do quarto milênio a.C. (entre 4.000 e 3.000 a.C.) com ferramentas de pedra polida e um estilo de cerâmica decorativa característica, chamada ta-pen-keng, que surgem em sítios arqueológicos repletos de ossos de peixe e conchas de molusco, assim como chumbadas e enxós próprios para fazer canoas. Este povo evidentemente tinha embarcações próprias para a pesca em mar aberto. As evidências arqueológicas e linguísticas indicam que a colonização da região de Taiwan nesta época ocorreu a partir da costa da China meridional, e na fase seguinte com a colonização das ilhas de Filipinas e Indonésia. O estreito que separa Taiwan da China foi a base de expansão das habilidades de navegação que levou esta população a explorar os oceanos, levando os artefatos da cultura ta-pen-keng de Madagascar à Ilha de Páscoa. A inovação tecnológica que deu início a esta expansão foi a invenção da canoa com duplos flutuadores laterais, formados por troncos menores paralelos ao casco que davam estabilidade para enfrentar ondas fortes.

A capacidade de inovação não se deu somente no litoral e na exploração em mar aberto do oceano, mas também na região continental, com destaque para a extraordinária tradição chinesa de metalurgia do bronze, que teve suas origens no terceiro milênio a.C. (entre 3.000 e 2.000) resultando na mais antiga produção de ferro verificada neste planeta! As cidades fortificadas também surgiram no local nesta mesma época, com a presença de cemitérios muito simples e muito suntuosos (um anúncio de que ali havia existência de diferenças entre classes sociais). A existência de sociedades estratificadas, com governantes capazes de mobilizar grandes forças de trabalho, é comprovada por imensas muralhas de defesa, grandes palácios, e o Grande Canal - o mais extenso do mundo - com mais de 1.600 quilômetros de comprimento de norte a sul. O conhecimento arqueológico sobre o surgimento destas cidades é complementado pelos relatos escritos das primeiras dinastias, remontando à Dinastia Xia, a qual surgiu por volta de 2.000 a.C.. As três primeiras dinastias da China - Xia, Shang e Zhou - surgiram na parte setentrional, ao norte, e seus estados organizados se espalharam para o sul, culminando na unificação política da China sob a Dinastia Qin, em 221 a.C..

Os povos iam se diferenciando de acordo às habilidades específicas que conseguiam desenvolver e isto, como é muito característico da natureza competitiva humana, é verificado, como diversas vezes relatado aqui, entre os mais diferentes grupos humanos que se espalharam por todas as partes do planeta. Naquela região há evidências apontando para que tudo se tenha dado da mesma forma: escritas preservadas do primeiro milênio a.C. mostram que o chinês étnico já se sentia culturalmente superior aos "bárbaros" não-chineses. Um escritor da Dinastia Zhou deixou descrito em sua obra, no primeiro milênio a.C., que "os povos das tribos selvagens tinham todos suas várias naturezas, as quais não se pode alterar. Uns usavam cabelos soltos e tatuavam o corpo, outros comiam os alimentos crus, sem cozinhá-los no fogo". A mesma história evolutiva de desenvolvimento de habilidades verificada em todas as variantes da espécie humanas que se dispersaram pelo planeta, em todos os continentes.

Independente das alternativas de eventuais vias, o propósito aqui proposto vem sendo o de extração de lições de como a história evolutiva humana caminhou, e o que ela nos tem a ensinar. O comércio, os impérios e as religiões levaram o Homo sapiens a uma sociedade global. Houve um processo de expansão e unificação que não foi linear nem ininterrupto. Numa perspectiva de longo prazo, a transição de uma infinidade de culturas menores em algumas culturas maiores foi um resultado inevitável da dinâmica desta história humana. Independente dos meios, estratégias e valores, todos os impérios na história acreditaram firmemente que trabalhavam para construir um bem-estar geral, acreditando que enfrentavam a bárbaros - seus dominados - a quem deveriam levar conhecimento e benefícios culturais, em prol do desenvolvimento destes outros povos. Todos acreditavam que tinham uma missão de doutrinar e educar.

São muitas as sagas de exploração na história humana. A mais marcante e já narrada foi a Era das Grandes Navegações que partiu da Península Ibérica para contornar a África, alcançar à Ásia, e em meio ao processo descobrir a existência das Américas. A saga ainda mais grandiosa já amplamente descrita daqui, mas das quais não temos a mesma riqueza de registros históricos, foi a dos antigos navegadores que partiram do extremo sudeste da Ásia e saltaram de ilha e ilha, explorando terras ultra remotas ao longo da Oceania. Houve outras, como por exemplo a dos escandinavos da Noruega que colonizaram a Islândia em 874 d.C., a Groenlândia em 986 d.C., e visitaram várias vezes a costa nordeste da América do Norte muitíssimo antes de Cristóvão Colombo ter colocado seus pés na América Central. Este povo viking visitou a região entre 1.000 e 1.350 (o único sítio arqueológico deles que foi encontrado na América do Norte está em Terra Nova, em território hoje pertencente ao Canadá, a região possivelmente descrita como Vinland nas sagas escandinavas, as quais também mencionam desembarques mais ao norte, na costa de Labrador e na Ilha de Baffin).

Todo este esforço de resiliência, superação, desenvolvimento de conhecimentos tecnológicos, e de construção de conexões geográficas, somaram-se para acelerar a marcha de integração da raça humana espalhada pelo Planeta Terra. Os grandes desafios apareciam constantemente, mas eram transformados em combustível de ampliação da capacidade de superação, e desta forma eram ardorosamente superados. Um grande marco de superação, por exemplo, foi a vitória sobre a epidemia da 'peste negra', que se iniciou na Europa a partir de 1.348 e causou a morte de mais de 20 milhões de pessoas (um terço da população total do continente!). Poderia ter sido um empecilho à prosperidade europeia, mas foi o contrário disto.

Mas muitas vezes foram detalhes do destino os que determinaram se a história toma um rumo ou outro. Por exemplo, entre 1.405 e 1.433, viagens marítimas do almirante Zheng He, da Dinastia Ming, na China, levaram 7 grandes armadas de 300 embarcações e 30 mil pessoas (muito maiores do que as portuguesas e espanholas de décadas depois) até a Indonésia, o Sri Lanka, a Índia, o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho, e a África oriental, tendo chegado até o porto de Melinde, no Quênia. Seus objetivos nunca foram de conquista, eram meramente diplomáticos. Quando o poder político na China mudou em 1.430, as viagens foram abruptamente encerradas, perdendo-se todos os conhecimentos técnicos e geográficos que tinham sido adquiridos. Estas expedições de Zheng He são uma prova de que a Europa não desfrutava de uma vantagem tecnológica excepcional naqueles tempos. O diferencial europeu foi a ambição insaciável e até então inigualável de explorar e conquistar o desconhecido a partir de um experimento na Península Ibérica.

Em história não existe "se", existe o que aconteceu e o que não aconteceu. Mas é impossível não criar hipóteses do que poderia ter acontecido de diferente na história se as frotas de Zheng He tivessem seguido sua exploração pelo litoral oriental da África e ido além do Quênia, alcançando e avançando após encontrar pontos onde hoje estão os territórios da Tanzânia, de Moçambique e da África do Sul, até cruzar o Cabo das Tormentas no sentido inverso ao cruzado por Bartolomeu Dias e Vasco da Gama nos Anos 1.490, para descobrir que a partir dali seria possível subir a costa até alcançar a Europa pelo outro lado? A história econômica do planeta nos últimos séculos muito provavelmente teria sido outra!

Na maior parte da Idade Média, a Europa setentrional era considerada um rincão atrasado, obscuro e pouco convidativo, cheio de fanáticos religiosos. Tudo isso mudou na segunda metade do Século XV, primeiro quando os navios portugueses começaram a contornar a África e se lançar no Oceano Índico – e depois, sobretudo, com a chegada espanhola às Américas. De uma hora para outra, alguns dos reinos europeus mais poderosos se viram no controle de amplas regiões do globo terrestre, e intelectuais europeus se viram expostos a uma imensidade de ideias sociais, científicas e políticas nunca antes imaginadas. O resultado desta enxurrada de novas ideias veio a ser conhecido como "Iluminismo".

Muitas vezes é difícil se lembrar o quanto alguns de nossos conhecimentos são recentes no desenrolar da história humana: até o Século XVII nenhum ser humano sabia que os dinossauros tinham existido na Terra; desconhecia-se a existência de fósseis destes animais pré-históricos. Até o Século XIX ninguém no Ocidente sabia que o universo existia antes de outubro de 4.004 a.C., data da criação segundo descrita pelo Livro do Gênesis. O conhecimento da existência de descendentes mais antigos da raça humana só surgiu após os descobrimentos na caverna Brixham, em Devon, na Inglaterra, em 1.858, de machados e pedra que só podiam ter sido feitos por seres humanos e estavam ao lado de restos de ursos-da-caverna, rinocerontes-lanudos e outras espécies extintas de animais que tinham vivido havia milênios, tudo descoberto embaixo de uma cobertura intacta de pedras.

A história de evolução das habilidades humanas está não só associada à capacidade de acúmulo e compartilhamento coletivo de técnicas e conhecimentos, como a fatores temporais associados à capacidade humana de fazer novas descobertas a partir de seu conhecimento acumulado, e do despertar da curiosidade de entendimento das dinâmicas e razões que dão uma resposta a tudo. É um ciclo progressivo de evolução na capacidade de conhecer e lidar com tudo que está a seu redor. Um ciclo contínuo!

O Iluminismo foi um marco que assinalou uma ruptura fundamental na história humana, levando o Ocidente a uma cadeia de acontecimentos marcantes e transformadores, como a Revolução Francesa, a Guerra de Independência dos Estados Unidos, a Revolução Industrial, e o Fim da Escravidão. Tudo isto foi o resultado desta ruptura, a qual introduziu uma possibilidade simplesmente inexistente até então: a transformação da sociedade em conformidade com um ideal racional.

As sociedades pré-iluministas eram baseadas na comunidade, no status, na autoridade e no sagrado. Nelas, os seres humanos não agiam por conta própria, eram escravos dos costumes, agentes de foças sociais inexoráveis projetadas por poderes sobrenaturais. As sociedades pós-iluministas passaram a ter a capacidade de intervir de forma consciente e mudar sua própria história, transformando o seu curso.

Por três séculos a Europa foi amplamente regida por monarquias absolutistas. Os aristocratas (a nobreza) compunham o Primeiro Estado, o clero (a igreja) compunha o Segundo Estado, e todos os demais formavam o Terceiro Estado, com cada um destes três estados sujeitos a diferentes leis. A nobreza e o clero não pagavam impostos, enquanto sobre todos os demais cidadãos incidiam os mais variados tributos. A realeza monárquica (família real), a nobreza e o clero desfrutavam de um estilo de vida luxuoso, ao passo que o restante da população vivia na mais abjeta pobreza.

A vida nas cidades do Século XVIII era árida e insalubre, e nas aldeias fora da cidade era provavelmente ainda pior. O regime começou a ruir com a Revolução Francesa. Em 4 de agosto de 1.789, as leis na França foram totalmente reformuladas por uma Assembleia Nacional Constituinte. Os impostos passaram a incidir sobre todo cidadão e toda e qualquer propriedade, sob uma carga tributária proporcional e universal. Várias décadas de instabilidade e beligerância se seguiram após estas deliberações, acarretando muita violência, sofrimento, instabilidade e guerras. Não obstante, foi graças a ela que os franceses não se viram atados a instituições extrativistas que lhes bloqueavam o crescimento econômico e a prosperidade coletiva. E influenciaram a todo o Ocidente a seguir o mesmo caminho.

Ao mesmo tempo em que o avanço dos conhecimentos científicos levava cada vez mais a questionamentos racionais, a Europa também vivia um processo de deslumbramento em torno das liberdades civis que emergiram das descobertas e convívios com os povos nativos que eles encontraram nas Américas. A ideia de que os ideais de liberdade, igualdade e democracia são de alguma maneira produtos da "tradição ocidental" causaria uma enorme surpresa em pensadores europeus do Século XVIII, pois os pensadores do Iluminismo que propunham estas ideias as atribuíam a estrangeiros selvagens, que supostamente não saberiam o que é a ordem. Entre os intelectuais europeus, os relatos das experiências entre nativos das Américas se tornaram recordes de venda de livros na Europa, como foram os casos de relatos como "Le grand voyage du pays des Hurons" ("A grande viagem à terra dos Hurões", sendo este um grupo de agricultores indígenas que ocupava as terras da América do Norte, organizados em tribos de até mil membros), livro escrito por Gabriel Sagard Theodat, assim como "Relations des jésuites" ("Relatos dos jesuítas"), trabalho muito mais extenso e com vários autores, publicado entre 1.633 e 1.673. Como escreveu o padre Lejeune, superior dos jesuítas no Canadá nos Anos 1.630: "praticamente nenhum deles (nativos) é incapaz de conversar ou arrazoar muito bem, e em bons termos, sobre os assuntos que são de seu conhecimento. Os conselhos, que se reúnem quase todos os dias nas aldeias e tratam sobre quase todos os assuntos, aperfeiçoam sua capacidade de se expressar e falar". Percepção complementada pelas observações do padre Lallemant: "posso dizer que, no que se refere à inteligência, eles não são, de maneira nenhuma, inferiores aos europeus. Eu nunca teria acreditado que, sem instrução, a natureza poderia proporcionar uma eloquência extremamente ágil e vigorosa como a que admirei, ou uma visão mais clara nos assuntos públicos, ou uma administração mais circunspecta em coisas a que estão acostumados".

Foi em meio a este intercâmbio cultural que emergiram questionamentos críticos às crenças religiosas então vigentes: “se fosse possível que Deus tivesse rebaixado seus critérios o suficiente para vir à Terra, teria vindo à vista de todos, descendo em triunfo, com pompa e majestade publicamente, indo de nação em nação realizando grandes milagres, conferindo a todos os povos as mesmas leis, de forma que todos tivessem a mesma religião, uniformemente difundida, ao invés de existirem quinhentas ou seiscentas religiões diferentes, o que seria um indício de terem sido estas um produto humano e não sobre-humano”. A partir de reflexões como estas, a capacidade de questionamento a tudo ganha então proporções novas, que levam a escalas de exploração e busca de conhecimento e entendimento acelerados.

O caldeirão cultural e a configuração política da Europa proporcionaram particularidades próprias que afetaram a evolução da dinâmica dos acontecimentos: a balcanização geográfica do continente - ou seja, a sua situação geopolítica de intensa fragmentação - resultou em muitos pequenos estados independentes e rivais, e centros de inovação que concorriam entre si. Se um estado não descobrisse uma inovação, outro o faria, e a concorrência levava os vizinhos a tentar fazer o mesmo, buscando se copiar mutuamente, do contrário seriam conquistados ou deixados para trás no aspecto econômico. Ao invés disto representar uma barreira, foi um catalisador, porque havia fluidez de informação e conhecimento compartilhado entre as fronteiras, e o que não era aceito por qualquer parte, acabava evoluindo em outra parte, até amadurecer a ponto de se transformar numa verdade difícil de ser questionada, vindo a ser adotada, com adaptações à realidade cultural de cada um, por todos.

Assim, a busca por inovação e desenvolvimento de novas tecnologias se alastrava com mais facilidade. Explorando a evolução do conhecimento, as habilidades humanas foram dando saltos evolutivos nas mais diferentes frentes de criação. Entre as muitas histórias aqui já narradas sobre tal processo paulatino, podem ser acrescentadas mais algumas inovações importantes: em 1.335 o primeiro relógio público foi instalado no alto da torre de uma igreja em Milão, em 1.350 foram inventados os óculos de leitura, entre 1.500 e 1.650 todo o conhecimento da fabricação de espelhos e lentes era um segredo tecnológico "guardado a sete chaves" por Veneza, cidade que, ao mesmo tempo em que era a capital do luxo, da vaidade e da moda, dominava a tecnologia responsável pelo salto de conhecimento óptico que levou às criações do microscópio e do telescópio, responsáveis pelos maiores avanços científicos daquele período. Foram séculos seguidos de processos que amadureciam em diferentes frentes.

Durante os Séculos XVIII e XIX os governos europeus foram pouco a pouco assimilando a ideia de que todo governo deveria exercer de modo adequado a sua autoridade sobre uma população de língua e cultura uniformes. Nunca havia existido nada remotamente parecido em nenhum período anterior da história da Europa. Na verdade, aquela era uma busca praticamente pelo sistema que existia daquela mesma forma, havia séculos, na China. Assim, havia forças divergentes por um lado, e outras convergentes por outro, que estavam prestes a entrar em rota de colisão, e o resultado deste encontro seria a égide de pilares novos, disruptivos, e completamente revolucionários, os quais dariam início a um processo de crescimento exponencialmente acelerado a ser iniciado a partir de então. Tudo passaria então a ganhar uma dimensão muito maior do que tudo que havia existido até ali!

Um primeiro ponto de partida desta escala de acontecimentos se inicia com a primeira guerra a ter verdadeiramente envolvido a todos os Estados da Europa, que aconteceu entre 1.618 e 1.648. A Guerra dos Trinta Anos pode ser resumida como um conflito religioso entre nações católicas e protestantes, tendo sido, portanto, um conflito bélico dentro da Cristandade. Tais embates devastaram mais de 900 cidades na região onde hoje é a Alemanha, a qual teve a sua população total na época reduzida de 21 para 13 milhões de pessoas. Só depois que todos os Estados envolvidos, de ambos os lados, estavam exauridos por causa do conflito, construiu-se um acordo de paz - o Tratado de Vestfália - o qual foi o primeiro grande marco na história do Ocidente de construção de um diálogo pragmático e racionalizado entre nações, reconhecendo a soberania e a independência como valores universalmente reconhecidos, buscando conciliar as diferenças, e a partir disto construindo as bases do direito internacional, através da definição de regras para privilegiar o respeito, o diálogo e o entendimento, que inauguraram as referências de relações diplomáticas na busca de conciliação de interesses de forma não bélica entre as nações. A partir de então, a linguagem e as formalidades jurídicas foram assumidas como um arquétipo a ser trilhado em favor da construção do diálogo organizado, fazendo nascer uma nova ordem entre as nações.

Um marco nestas relações políticas eclodiu nas ilhas britânicas a partir da Revolução Gloriosa, em 1.688. A partir dela, a Monarquia perdeu o direito de demitir magistrados e de dissolver o Parlamento. Neste processo de ruptura, deixou-se de falar em direito divino dos reis da Inglaterra, e foram estabelecidas regras fiscais de controle das despesas do país, com o rei não podendo mais gastar o patrimônio do Estado como lhe parecesse melhor, devendo submeter seus planos ao Parlamento.

Em 1.689 foi assinada a carta que ficou conhecida como "Bill of Rights" (Declaração de Direitos), a qual foi o primeiro pilar estrutural da democracia inglesa. Este momento histórico marcou em definitivo a separação dos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Nascia o constitucionalismo, com o reconhecimento de um rol de liberdades fundamentais e direitos para todos os cidadãos, fazendo nascer conceitos relevantes como governo representativo e responsabilidades políticas, todos com a construção de um arcabouço jurídico para que estes pilares prevalecessem. A arrecadação de impostos deixava de ser para o bem do soberano e passava a ser para o provento da coletividade. Foi um marco de amadurecimento das habilidades e conhecimentos humanos em favor da construção de pilares civilizatórios mais igualitários, capazes de propiciar maiores ganhos coletivos.

A Inglaterra foi o primeiro lugar no qual se uniram três elementos que se transformaram nos pilares sócio-políticos do Ocidente: poder político forte na harmonização em prol de todos, respeito irrestrito à lei, e responsabilidade dos governantes sobre os governados. Um quarto passo foi agregado primeiro na formação dos Estados Unidos, e posteriormente e de forma mais sólida na revolução na França: a importância dada a cada indivíduo às suas aspirações legítimas e à sua dignidade individual. Formavam-se assim então os quatro componentes da ordem política do Ocidente.

Com estes pilares fincados, as bases estavam prontas para a construção de estruturas muito maiores. A velocidade das transformações se intensificou: entre 1.698 e 1.769, a tecnologia das máquinas a vapor foram as primeiras a dar sinal do poder de transformação da aplicação dos conhecimentos científicos à dinâmica produtiva da humanidade, os quais proporcionavam saltos paulatinos de inovação. Era a largada para o processo de aceleração da produção industrial através de máquinas que substituíam as forças corporais humana e animal para gerar produtos numa escala nunca antes vista. Entre 1.760 e 1.830 aconteceu a Revolução Industrial na Inglaterra, com fábricas em cidades como Manchester, Yorkshire, Birmingham e Leeds acelerando ferozmente ao processo produtivo. Uma dinâmica retroalimentada por cada vez mais evoluções tecnológicas, com um novo salto (desta vez na capacidade logística) sendo dado a partir da criação de ferrovias e da criação de trens para deslocar grandes quantidades por longas distâncias.

Em 1.775, 80% da produção da economia mundial era gerada pela Ásia. O início da Era Moderna tinha sido uma época de ouro para o Império Otomano no Mediterrâneo, para o Império Safávida na Pérsia, para o Império Mogol na Índia, e para as Dinastias Ming e Qing na China, que espalhavam seus produtos a partir do oriente para todo o ocidente. De 1.850 em diante, tudo mudou, com a dominação pelos europeus se sustentando no complexo militar-industrial-científico e na magia da evolução tecnológica, alimentada pelos fortes investimentos em pesquisas científicas iniciado pela Inglaterra. É por tal época, em 1.776, que o escocês Adam Smith publicou o livro "A Riqueza das Nações", inaugurando o conceito de conhecimento científico sobre a dinâmica da economia e inaugurando o conceito de quanto supostamente mais lucro houver, mais riqueza e prosperidade coletiva haveria.

Bem perto dali, uma nova revolução logo sacudiria aos alicerces sociais da Europa. A deterioração do sistema monárquico na França vivia um longo processo de deterioração, em função de uma carga de impostos cada vez mais agressiva e onerosa. A Guerra dos Sete Anos contra a Inglaterra, entre 1.756 e 1.763 (na qual a França perdeu o Canadá para os ingleses) foi particularmente onerosa. Para tentar reverter as consequências desta crise política, em 1.789 uma Assembleia de Notáveis tentou, mas não conseguiu, construir um consenso, decretando que só um órgão mais representativo, os Estados-Gerais - que não eram convocados desde 1.614 - poderia construir uma reforma que equacionasse os problemas franceses.

Quando este grupo se reuniu em Versalhes, ficou claro que não seria possível se chegar a nenhum acordo, pois havia um impasse intransponível, com a reunião encerrada em 5 de maio de 1.789. Quatro dias depois, em 9 de julho, foi convocada uma Assembleia Nacional Constituinte. Os ânimos pelo país estava se exaltando, e em 14 de julho (portanto, cinco dias depois) houve a Queda da Bastilha e o início de uma revolução popular. Em decorrência, em 4 de agosto a Assembleia promulgou uma Nova Constituição, que abolia os privilégios especiais do Primeiro e do Segundo Estados (nobreza e clero).

A Revolução Francesa foi um marco de referência para a ideologia política de todo o Ocidente. Quando os deputados se reuniram no Congresso para tentar encontrar um reordenamento para o caos de terror e mortes imposto às ruas de Paris, aqueles dias definiram as referências de pensamento que perduraria nos séculos seguintes. Rapidamente, dois grupos se antagonizaram, um sentado à direita e outro à esquerda do Congresso. Do lado direito da convenção estavam os chamados "girondinos", que ganharam este nome porque muitos de seus líderes eram provenientes da região da Gironda, ao sudoeste da França, que tem como principal cidade a Bordeaux. Do lado esquerdo estava o grupo inicialmente chamado de "montanha", mas que logo passaria a ser conhecido como "jacobinos", pelo fato de seu principal centro de discussões e reflexões ficar num mosteiro dominicano localizado na rua Saint-Jacques. No meio deles, o maior dos três grupos, com posições chamadas de "centro", formado por um grupo de deputados que ficou sendo chamado de "planície".

Os girondinos eram um grupo composto por burgueses, um grupo de empreendedores que tinham ascendido na escala social, e que entendiam que já era suficiente ter dado fim aos privilégios da monarquia, defendendo que se evitassem excessos para garantir estabilidade social. Já os jacobinos queriam manter o radicalismo até que fossem atendidas todas as demandas dos "sans-culottes", o grupo que representava a parte mais humilde e de baixa renda da população francesa. Pelos interesses da nação se justificariam quaisquer atos, qualquer pessoa que se colocasse contra o que eles consideravam ser os interesses maiores da nação deveria ser levada à guilhotina, que lhe decretava a sentença de morte.

Seguiu-se uma radicalização, com a organização de diferentes clubes políticos locais, dentre os quais se destacou os já citados jacobinos, o qual assumiria as rédeas da revolução. A versão definitiva da Constituição foi promulgada somente em 29 de setembro de 1.791, convertendo a França numa monarquia constitucional sob igualdade de direitos a todos os homens.

A dinâmica da revolução se viu irreversivelmente modificada pela guerra que irrompeu em 1.792 entre a França e a "Primeira Coalizão" de nações monarquistas-absolutistas liderada pela Áustria. O resultado foi o período chamado de "terror", sob o comando da facção jacobina liderada por Maximilien de Robespierre e Louis Antoine de Saint-Just, no qual foram executados na guilhotina o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, além de um enorme número de aristocratas e contra-revolucionários, e até mesmo personagens centrais da própria revolução, como os líderes populares Brissot, Danton e Desmoulins, que ao final não eram considerados suficientemente radicais, o que serviu de argumentação para que fossem mortos.

O terror logo saiu de controle. Praticamente todos os líderes girondinos foram levados à execução em praça pública através da guilhotina. Depois passou-se a dar o mesmo destino aos líderes jacobinos considerados demasiadamente moderados, até que os próprios líderes jacobinos Robespierre e Saint-Just viessem também a ser executados, em julho de 1.794. O Tribunal Revolucionário ordenou a execução de mais de 17 mil sentenças de morte! Entre aqueles que vieram a ser mortos pela guilhotina esteve um dos maiores químicos de todos os tempos, responsável por descobertas que revolucionaram a ciência: Antoine-Laurent de Lavoisier, executado em 1.794 aos 51 anos de vida. Na sua sentença de morte, o juiz deixou escrito: "a revolução não precisa de cientistas".

A ordem foi aos poucos sendo restabelecida por um Diretório, do qual fazia parte uma liderança militar que veio a ter especial destaque no reestabelecimento da ordem, o general Napoleão Bonaparte, cuja influência cresceu a partir de 1.799 devido às suas vitórias na Guerra da Segunda Coalizão, que durou até 1.801. A França sob a liderança militar de Napoleão passou então a derrubar todas as demais monarquias a seu redor na Europa até 1.815, quando o seu exército acabou vindo a ser derrotado pela Inglaterra.

Depois de instalado um estado de terror, não é toda a sociedade que consegue se reerguer e se reorganizar para retomar um rumo próspero. Um claro exemplo disto são os países da África que passaram por guerras civis na segunda metade do Século XX - como foram os casos de Angola, Camarões, Chade, Congo, Libéria, Serra Leoa, Sudão e Zimbabwe - que ao final de tais conflitos não conseguiram regressar ao padrão social e econômico que detinham antes do início de tais guerras. Experiência similar também à vivida pelo Haiti na América Central.

As Guerras Napoleônicas e as decorrentes vitórias impostas aos sistemas monárquicos de seus vizinhos europeus, levaram a uma fragilização política que teve consequências nas Américas, dando fim do colonialismo na região, onde apenas os Estados Unidos eram independentes (desde 1.776).

O enfraquecimento dos poderes monárquicos europeus levou a processos de independência de Equador em 1.809, de Chile e México em 1.810, de Venezuela e Paraguai em 1.811, da Argentina em 1.816, de Peru e Colômbia em 1.821, do Brasil em 1.822, e da Bolívia em 1.825. O Brasil, porém, com uma particularidade frente a todos os demais casos, já que a sua independência não foi conquistada por líderes burgueses republicano-democratas influenciados pelos ideais da Revolução Francesa, senão por um monarquista membro da realeza (Dom Pedro I, filho do rei de Portugal, Dom João VI). No Brasil, ideais republicano-democratas só vieram a ser implementados em 1.889 (esta exceção se deu porque houve um único caso de fuga de Família Real na história para fora da Europa, quando em 1.808 a realeza portuguesa, junto a pouco menos de 15.000 membros da nobreza, abandonaram Lisboa, fugindo de Napoleão Bonaparte e seu exército, e rumaram para o Rio de Janeiro, que foi alçado a ser a capital do Império Português).

O primeiro grito de independência da América espanhola se escutou no Peru em 1.809, mas ele foi logo sufocado. Depois, em 1.810, foi um padre católico, Miguel Hidalgo y Costilla, quem liderou uma violenta revolta no México, a qual também acabou controlada. Seguiu-se então, por todos os lados da América Latina, os bem-sucedidos processos de independência da Espanha, todos eles liderados por militares. A Argentina se libertou, tendo seu primeiro diretor supremo sido Juan Martin de Pueyrredón. No Chile sob a liderança de Bernardo O'Higgins. Depois, Venezuela, Colômbia e Peru se tornaram livres. Na Venezuela, a libertação foi levada adiante por Simón Jose Antonio de la Santíssima Trindad de Bolívar y Palacios - ou simplesmente Simón Bolívar - militar de origem aristocrática que também teve papel ativo nos processos de libertação de Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá e Peru. Todas estas libertações foram seguidas por processos ditatoriais, que não deram qualquer margem a ideais democráticos. Houve exceções, como Francisco de San Martín y Matorras, grande nome nas guerras de libertação na Argentina, no Chile, e também no Peru. O general San Martín acreditava fielmente que os militares não deveriam governar. Toda a região vivia imersa em elevados níveis de desigualdades socioeconômicas decorrentes dos modelos colonialistas meramente exploratórios dos quais se libertaram, os quais foram causadores de processos políticos complexos.

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