Durante séculos intelectuais da humanidade se debruçaram em reflexões visando responder a uma pergunta: os seres humanos são inerentemente bons ou inerentemente maus? Tais reflexões levaram a uma divisão política de pensamentos em duas correntes, uma que entendia que o ser humano nasce puro, e é a sociedade quem o corrompe, enquanto outra argumentou que o ser humano ao vir ao mundo em seu estado puramente animal nasce bruto e cruel, e é a sociedade quem o corrige.
A própria divisão em duas visões completamente antagônicas sobre a possível resposta já é um sinal em si de que tal embate ideológico envolve conceitos criados pelo próprio ser humano para fazer comparações entre uns e outros. Faz parte de nossa natureza social construir balizamentos de referência cujo âmago é única e exclusivamente comparativo. Discutir se os seres humanos são bons ou maus em sua essência faz tanto sentido quanto discutir se os seres humanos são naturalmente gordos ou magros. Não há uma essência ou inerência, a ambiguidade e a variedade são parte vital da característica humana desde sempre!
Tanto a bondade quanto a maldade se fazem presentes dentro de cada um de nós, prontas para serem externalizadas em favor da autodefesa frente às condições enfrentadas no ambiente ao qual se está imerso. Naqueles ambientes carregados de adversidades e conflitos, o espírito maldoso emerge como mecanismo de defesa individual em favor da sobrevivência, enquanto naqueles envoltos por harmonia e cooperação, o espírito bondoso aflora como construtor de laços sociais de fortaleza na forja de coesão e sinergia do grupo.
Em meio a tais vetores manifestados por esta essência do espírito humano, a bondade sempre surgiu como fator agregador de construção de crescimento coletivo, enquanto a maldade sempre foi vetor de ruptura e afastamento. Enquanto uma é geradora de união, a outra é produtora de isolamentos. E tanto para o caso de uma quanto de outra, não há resposta certa na forma de cada um lidar, sendo a única opção o aprendizado para fazer as melhores escolhas que potencializem fatores agregadores e geradores do crescimento individual, e mitiguem os efeitos danosos de desagregações e rupturas.
Entre os dois extremos, não há dúvida que o mais difícil para todos é aprender a lidar e enfrentar à maldade, e saber minimizar os seus potenciais danos. A história da humanidade nos mostra o quão danoso e perverso o ser humano pode ser em suas relações sociais. E há um fato em especial na história que se destaca como o extremo de até onde a maldade humana pode chegar...
A escravidão existiu desde o início da história da humanidade. Suas chagas já estavam presentes nos mais antigos registros escritos da humanidade. Em documentos antiquíssimos como o livro do Gênesis, no Antigo Testamento da Bíblia, é narrada a venda como escravo de José, um dos filhos de Jacó, vendido por iniciativa dos próprios irmãos. O Código de Hamurabi, considerado o primeiro conjunto de leis da história humana, dividia a sociedade em três grupos: homens livres proprietários de terras, funcionários públicos e escravos. Estes são exemplos de como a perversidade desta prática é tão antígua quanto a nossa própria história civilizatória o é. E se a escravidão estava presente já nos primeiros registros existentes, é sinal que era prática que se remetia a tempos mais longínquos na história dos sapiens, sem que se possa definir qualquer data para quando ela teria sido iniciada.
O uso de mão de obra cativa foi alicerce de todas as antigas civilizações, incluindo a egípcia, a grega e a romana, em diferentes escalas também foi um dos principais negócios tanto dos vikings, na Escandinávia, como em povos pré-colombianos nas Américas, como o inca e o azteca. Também assegurou a prosperidade de Gênova, Florença e Veneza no auge do Renascimento. Até grandes intelectuais humanistas como John Locke, pensador originalmente responsável pelo conceito de liberdade na história do Ocidente, foi um dos acionistas da Royal African Company, empreendimento criado com o único propósito de traficar escravos. Não há uma única região do planeta que não tenha abrigado em algum momento de sua história passada a escravidão!
Escravo, em português. Esclave, em francês. Schiavo, em italiano. Sklave, em alemão. Slave, em inglês. Todas estas palavras são derivadas em seus respectivos idiomas da palavra em latim slavus que, por sua vez, servia para designar os eslavos, habitantes da região dos Bálcãs, do Leste da Europa e sul da Rússia, às margens do Mar Negro. Esta região foi a grande fornecedora de mão de obra cativa para o Oriente Médio e o Mediterrâneo por muitos séculos.
Presume-se que, no auge da civilização grega, 70 mil dos 155 mil habitantes da cidade de Atenas eram cativos, ou seja um pouco menos da metade de sua população. A escravidão era norma padrão. Também se presume que haveria meio milhão de escravos em Roma na mesma época na qual Jesus Cristo viveu em Jerusalém. Mais adiante, por volta de 740 d.C., cerca de cem anos após a morte do profeta Maomé, uma série espetacular de conquistas muçulmanas criou um extenso domínio intercontinental indo desde onde hoje é o Paquistão até onde é o Marrocos, passando por todo o Oriente Médio, pelo sul de França, Espanha e Portugal, e ocupando todo o norte da África. A escravidão também foi a base de expansão do islã, e como logo veremos, foi a primeira semeadora de escravizações massivas na África ao fomentar longas caravanas que cruzavam o Deserto do Saara par capturar cativos.
Em todas estas histórias, de diferentes civilizações, houve legiões de cativos sendo utilizados em trabalhos domésticos, na agricultura, como soldados, funcionários burocráticos ou como eunucos guardiões de haréns. Os eunucos eram homens privados de sua virilidade mediante a castração de seus órgãos genitais ainda na adolescência, para que perdessem seu apetite sexual. Esta prática existiu em China, Índia, Pérsia, e é citada em vários trechos da Bíblia. Na Dinastia Ming havia 100 mil eunucos na China, 70% dos quais servindo no Palácio Imperial. A incapacidade de que se reproduzissem fazia com que imperadores e reis lhes confiassem muitas vezes altos cargos públicos, já que nunca teriam herdeiros para reivindicar patrimônio e status social. Naturalmente, os índices de mortalidade dos processos de castração, com remoção total ou do pênis ou dos testículos, eram altíssimos, com cerca de 90% dos que passavam por este bárbaro processo cirúrgico rudimentar morrendo imediatamente ou alguns dias após a operação. Eram níveis de crueldade absurdos.
O ponto de partida para o maior processo de escravização registrado pela história humana teve início a partir do momento no qual uma bula do Papa da Igreja Católica deu aval para que as Grandes Navegações Portuguesas tivessem o status de "Nova Cruzada", desta vez contra os mouros e os infiéis da África. As caravelas e naus portuguesas cruzaram então os mares ostentando em suas velas a Cruz da Ordem de Cristo, herdeira da instituição criada para a realização das Cruzadas de reconquista de Jerusalém, a Ordem dos Cavaleiros Templários. Inicialmente, a "Nova Cruzada" tinha a intenção de alcançar e socorrer a um lendário reino cristão isolado na "Região das Etiópias", o qual seria comandado pelo "Preste João" (preste significava presbítero). Esta missão havia consumido ao imaginário do folclore português por décadas, e deu um verniz missionário para empreitadas cujos reais objetivos eram militares, políticos e econômicos. Cada avanço geográfico financiou o passo seguinte durante mais de um século. Se por um lado foram histórias de bravura e coragem pelo destemido enfrentamento do desconhecido, por outro semearam a tudo de mais negativo e maldoso que pode existir no espírito humano.
Ao amanhecer de 8 de agosto de 1.444 os moradores de Lagos - um pequeno vilarejo murado na região do Algarve, em Portugal - foram despertados pelas notícias recém-chegadas do mar de que meia dúzia de caravelas estavam ancoradas no cais ao pé da ladeira de casinhas brancas protegidas pelos canhões da antiga fortaleza com uma carga inusitada de 235 homens, mulheres e crianças, todos escravos que foram ali separados de suas famílias e arrematados em leilão, familiares aos quais nunca mais voltariam a ver em ser suas vidas. Estava dada a largada para o maior processo de escravização já visto no Planeta Terra.
O primeiro lote, de 46 escravos, ficou reservado ao homem de chapéu de abas largas, botas de cano comprido até os joelhos, e que montado a cavalo supervisionava toda a operação. Era o infante Dom Henrique, quinto filho do já falecido rei Dom João I, e irmão do regente do trono português, Dom Pedro I. A cena foi registrada por Gomes Eanes de Azurara, filho de padre, cronista real, cavaleiro da Ordem de Cristo, guarda-mor dos arquivos da Torre do Tombo, biógrafo de Dom Henrique, e autor dos relatos referentes às primeiras navegações portuguesas pela costa da África. Estes primeiros escravos a aportarem em Portugal eram azenegues, uma das etnias do povo berbere, habitantes da parte ocidental do Deserto do Saara.
O estabelecimento da construção de uma estrutura econômica na costa da África, como já relatado, foi custoso, demorado e árduo para Portugal. Em 1.446, uma expedição liderada por Nuno Tristão terminou em desastre depois de seus 21 tripulantes e mais 5 meninos aprendizes arriscaram-se em subir um rio em busca de escravos. Foram emboscados por uma dúzia de canoas e só os cinco aprendizes sobreviveram, tendo ficado a deriva e sendo resgatados apenas nove semanas depois.
Foram revezes como este que fizeram com que a partir de 1.448 Portugal mudasse a sua estratégia, deixando de caçar e capturar, para assim não correr risco de retaliações, e passando a comprá-los de mercadores de escravos já por lá estabelecidos, em especial devido às relações construídas com alguns dos chefes mais poderosos da Guiné, que capturavam seus inimigos para vendê-los aos portugueses.
Em 1.460, ano da morte do infante Dom Henrique, os portugueses já conheciam relativamente bem cerca de 3,5 mil quilômetros da costa da África, até a altura de onde hoje está Serra Leoa. Por volta de 1.430 tinham explorado as Ilhas Canárias e o Arquipélago dos Açores. Em 1.440, estavam colonizando a Ilha da Madeira, descoberta em 1.419. Em 1.448 construíram o Forte de Arquim, ao sul do Cabo Branco, região onde hoje fica a Mauritânia (aquele que se tornou o primeiro entreposto importante do comércio de escravos de Portugal).
O maior de todos os feitos foi a ultrapassagem do Cabo Bojador, na costa do Deserto do Saara Ocidental, um lugar mítico na imaginação dos marinheiros até o início do Século XV por causa de suas ondas fortíssimas e seus baixios traiçoeiros, com ventos que permitiam a navegação rumo ao sul, mas não o retorno em sentido oposto, tendo se tornado uma barreira psicológica para os europeus. Em 1.291, os irmãos genoveses Ugolino e Vadino Vivaldi o tinham cruzado, numa primeira tentativa de encontrar o caminho às Índias, mas ninguém nunca mais teve notícia deles. A barreira só foi efetivamente vencida em 1.434 pelo português Gil Eanes, o primeiro a ultrapassar o Cabo Bojador e voltar são e salvo para contar a história. Como já contado, o segredo para o cruzar era não resistir às fortes correntes que arremessavam os barcos ao sul, deixando a embarcação se afastar do continente até alto-mar, onde era possível encontrar ventos e correntes marinhas fluindo em sentido oposto.
O plano português de contornar à África para chegar à Índia ganhou corpo a partir de 1.453 quando os turcos-otomanos ocuparam Constantinopla, assumindo o monopólio do comércio de caravanas de mercadores. O litoral da África foi então cada vez mais sendo dominado estratégica e militarmente. Entre 1.456 e 1.460 os portugueses encontraram as 10 ilhas do Arquipélago de Cabo Verde, até então completamente desabitadas. Nos vinte anos seguintes, chegaram ao Golfo da Guiné e às Ilhas de São Tomé e Príncipe, até por fim cruzarem pela primeira vez à Linha do Equador. Em 1.488 Bartolomeu Dias circundou o Cabo da Boa Esperança e primeiro em 1.498, por Vasco da Gama, e depois em 1.500, por Pedro Álvares Cabral, foi alcançada a Índia, tendo nas décadas seguintes os navegadores portugueses alcançado a China, Indonésia e Japão.
Em todo este tempo até que conseguissem chegar à Índia, o que financiava a expansão das expedições portuguesas era o tráfego de pessoas escravizadas na África. Em 1.486, o navegador João Afonso de Aveiro foi o primeiro a subir o Rio Benim, logo chamado de "Rio dos Escravos", dando início a um tráfico restrito à costa africana. Os portugueses compravam escravos no Golfo de Benim e os revendiam na própria África na Costa do Ouro - no Senegal e no Niger - em troca deste metal precioso tão cobiçado na Europa. Com este propósito foi erguido em 1.482 o Castelo de São Jorge da Mina, que se tornou o principal entreposto de estoque de escravizados enquanto estes não eram transportados para serem negociados. Um terço dos escravos comprados pelos portugueses no fim do Século XV era revendido a mineradores africanos, cujas minas foram um segredo que ficou bem guardado durante algumas décadas, até que os portugueses descobrissem suas localizações e efetivamente as dominassem militarmente.
A outra ponta estratégica que viria a gerar um crescimento exponencial da morbidez escravocrata durante os séculos seguintes estava do outro lado do Oceano Atlântico. Portugal alcançou a costa do Brasil em 1.500, mas levou muitas décadas para efetivamente colonizar este território. À medida que foi fazendo isto de forma mais intensiva, com a ampliação de lavouras de cana de açúcar ali instaladas, a cruel dinâmica de exploração econômica de escravizados comprados na costa africana tomou um novo rumo e uma nova dimensão.
O Oceano Atlântico possui duas correntes de ventos que criaram dois eixos de navegação do tráfico de escravizados. O primeiro era dominado pelos portugueses, saindo um pouco mais ao sul da Linha do Equador, das regiões onde estão Benim, Nigéria, os dois Congos e Angola, e levando direto ao litoral brasileiro, chegando a Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, com as correntes de volta levando direto à região centro-sul do litoral africano. O segundo eixo era dominado por espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, saindo de regiões acima da Linha do Equador, entre Gana e Senegal, e levando diretamente à região do Caribe, cujas correntes de retorno passam primeiro pela Europa e só depois pela África. A primeira rota foi aquele trajeto feito por Pedro Álvares Cabral em 1.500 quando este aportou no Brasil, e a segunda foi a feita por Cristóvão Colombo em 1.492 e em outras viagens dele nos anos seguintes, aquelas que aportavam nas ilhas da América Central.
Com a chegada de Portugal à Índia, foi aberto um mercado altamente lucrativo de porcelanas, sedas e especiarias como cravo, canela, pimenta, noz-moscada, gengibre, sândalo e almíscar, produtos cultivados em Índia, Ceilão, e especialmente nas Ilhas Ternate e Tidore, no Arquipélago das Molucas, hoje pertencente à Indonésia. A Europa passou a obter estas especiarias mais baratas com Portugal do que lhe custava comprar aos mercadores muçulmanos que dominavam as rotas terrestres. Era um comércio de lucros astronômicos: a viagem de Vasco da Gama em 1.498 transportou mercadorias de volta à Europa que cobriram em 60 vezes o custo da expedição, a viagem do corsário inglês Francis Drake ao redor do mundo entre 1.577 e 1.580 gerou um lucro de 4.700% para os seus investidores.
Ao mesmo tempo foram construídas redes de comércio no continente africano que espalharam alguns produtos ali produzidos e consumidos por todos os continentes. Entre produtos vegetais comestíveis originados na África e espalhados pelo mundo através do comércio dos navios portugueses estão o dendê, o quiabo, o inhame, o sorgo, a banana da terra, o feijão fradinho, o milhete (também conhecido como painço), o tamarindo, o hibisco e a pimenta malagueta. Igualmente se origina na África a noz-de-cola, produto que séculos depois daria origem a refrigerantes gasosos como a Coca-Cola e a Pepsi-Cola.
As relações que Portugal construiu na África foram bastante distintas das construídas nas Américas e na Ásia. Inicialmente a estratégia adotada foi a de realização de razias (incursões rápidas visando saque) que começaram nas zonas mais próximas do litoral entre 1.520 e 1.570, e progrediram rapidamente, cerca de trinta quilômetros a cada década, à medida que aumentava a demanda por cativos para além do Oceano Atlântico. As principais razões da ocupação restrita na África era a resistência dos chefes locais em ceder território para estrangeiros e, principalmente, o pavor europeu das doenças epidemiológicas das moléstias tropicais. Por exemplo: entre 1.575 e 1.591, cerca de 1.700 europeus perderam a vida em Angola, sendo que só cerca de 400 em combates com os povos locais, os demais cerca de 1.300 tendo morrido em decorrências de doenças tropicais.
O coração político e econômico da África pulsava nas cabeceiras dos três mais importantes rios da região situada logo abaixo do Deserto do Saara: o Níger, o Gâmbia e o Senegal. Era o centro de gravidade da África Ocidental, dominando as artérias vitais de comércio e intercâmbio entre todos os povos das regiões costeiras a sul e a leste, assim como as famosas rotas das caravanas transaarianas que cruzavam o deserto em direção ao litoral norte, à borda do Mar Mediterrâneo, e em direção ao Sudão e ao Egito. Lá estiveram localizados os maiores estados medievais africanos: os Impérios de Gana (do Século VIII ao Século XIII), de Mali (do Século XIII ao Século XVII), de Songai (Séculos XV e XVI), e de Bornu (do Século XIV ao Século XIX). Há evidências arqueológicas de centros urbanos nesta região que remontam a cerca de 250 a.C.. Entretanto, eram estados que ocupavam áreas geográficas relativamente pequenas se comparadas aos impérios em Ásia, Europa e Américas pré-colombianas: o maior destes impérios, o Songai, abrangia uma área de menos de 1 milhão de quilômetros quadrados. Para efeito de comparação: o Império Romano chegou a ter 6,5 milhões de quilômetros quadrados, o Império Otomano teve 5,2 milhões, e o Império Inca chegou a ter 2 milhões.
Um fator foi fundamental para que o desenrolar dos fatos se tenha dado como se deu: quando Portugal chegou à costa africana, encontrou uma rede de tráfico de escravizados já montada e instalada, articulada pelos povos islâmicos que ocupavam o norte do continente. Era uma rede de caravanas que cruzavam o Deserto do Saara para obter escravizados num vil sistema de comércio de seres humanos ali existente já havia alguns séculos, levando centenas de pessoas para serem vendidas para que executassem trabalhos forçados até as margens do Oceano Índico, em viagens que também transportavam ouro, sal e tecidos por esta rota. Os principais destinos eram Zanzibar (onde hoje é a Tanzânia) e Mogadíscio, na região da Somália. Mas estas caravanas também chegavam às regiões da Arábia e da Índia. Quando as caravelas portuguesas passaram a alcançar o litoral atlântico, gradativamente as rotas se ajustaram para lhes fornecer escravos em tais portos.
O que se pode concluir a partir destas evidências é que os portugueses não ocuparam o interior do continente africano porque, além do receio das epidemias tropicais, encontraram uma rede de abastecimento que lhes levava escravos no litoral e que assim lhes mitigava em muito os riscos e os custos no processo de obtenção de tal mão de obra. Este também é o principal motivo pelo qual os portugueses não foram bem-sucedidos com a escravização dos indígenas no Brasil, pois não havia redes internas de tráfico de escravos entre os povos sul-americanos capazes de lhes oferecer cativos em larga escala e a tão baixo custo. Por isto, na ocupação da África, limitaram-se a ocupar os litorais do continente e ali estabelecer feitorias, castelos e postos de compra e venda de escravizados, porque havia povos africanos que os capturavam e os conduziam ao litoral para que fossem vendidos, o que deixava o processo muito menos custoso e arriscado do que terem eles mesmos que fazer as incursões adentrando território, como era necessário para escravizar indígenas no Brasil.
Cruelmente, esta condição econômica de exploração de tais condições de comércio desumanas fez com que a chegada de Portugal ao litoral da África levasse a quantidade de escravizações a ter um crescimento vertiginosamente exponencial ao longo dos séculos seguintes: no Brasil, em 1.574 os cativos chegados a África representavam apenas 7% da força de trabalho escravo nos engenhos, contra 93% de indígenas, em 1.591 eram 37%, e por volta de 1.638 já compunham a totalidade, incluindo aos recém-chegados da África e os crioulos (como eram chamados no Brasil os escravos descendentes de africanos nascidos no país).
Assim, a causa preponderante para a preferência por escravizados africanos é que inexistia um mercado de escravos organizado na América pré-colombiana, ainda que houvesse escravidão em pequena escala entre os indígenas que viviam no território como resultado de captura de prisioneiros em guerras intertribais. Como já dito, na África já funcionavam, desde muitos séculos antes da chegada dos portugueses, centros fornecedores de cativos com rotas de transporte cruzando o Deserto do Saara em caravanas e cortando o continente, uma logística pronta.
Era um comércio desumano, abominável e extremamente cruel. O historiador norte-americano Joseph Miller fez um cálculo assustador a respeito da mortalidade neste tráfico de cativos: ainda na África, entre 40% e 45% dos escravizados morriam no trajeto entre as zonas de captura e o litoral; do restante, entre 10% e 15% pereciam durante o período em que ficavam à espera do embarque nos portos africanos; dos sobreviventes que embarcavam nos navios, outros 10% morreriam na travessia; por fim, mais 15% morreriam nos três primeiros anos de cativeiro. Traduzindo em números absolutos, ao longo de mais de 350 anos, entre 23 e 24 milhões de seres humanos teriam sido arrancados de suas famílias e comunidades na África com destino ao Brasil, e apenas 9 milhões teriam sobrevivido aos tormentos dos três primeiros anos de escravidão.
Os participantes africanos do tráfico de escravos incluíam príncipes e ricos mercadores, uma elite da África que estava profundamente envolvida na comercialização de cativos, com o tráfico humano sendo economicamente um grande negócio, que envolvia milhares de pessoas, incluindo agentes comerciais e contadores que faziam o controle contábil das transações, com toda uma estrutura de fornecimento de água e comida, abrangendo seguradoras, estaleiros, bancos de crédito, empresas de transporte, tripulações e estruturas de apoio logístico, com uma complicada estrutura burocrática. Ao mesmo tempo, os europeus tiveram que se adaptar ao padrão monetário peculiar da África, que utilizava conchas marinhas como moeda em lugar de peças de metal ou papel. A principal delas era coletada nas praias de Angola, então sob monopólio do rei do Congo, Mbiki a Mpanzu.
Nem rupturas políticas profundas foram capazes de alterar a dinâmica de tal prática, os interesses econômicos derivados desta exploração imperavam. Um exemplo é que por problemas de falta de herdeiro para a sucessão ao trono de Portugal, de 1.580 a 1.640 o reino foi governado da Espanha, de Madrid, pelo que ficou sendo chamado de União Ibérica. Foram três reis espanhóis a terem governado Portugal neste período (todos de nome Felipe). Nem isto mudou o mercado de uso de mão de obra escravizada.
Da União Ibérica, os portugueses herdaram um inimigo com quem tinham boas relações comerciais e diplomáticas até então, mas o qual tinha problemas políticos com a Espanha. Como consequência, no Século XVII uma nova potência passou a atacar e ameaçar ao domínio português no Oceano Atlântico: as Províncias Unidas, uma ambiciosa coligação de 7 pequenas nações Protestantes Calvinistas - Holanda, Zelândia, Utrecht, Frisia, Groninga, Guéldria e Overissel, as sete nações neerlandesas -. As guerras entre Neerlandeses e a União Ibérica foi travada a nível global, com conflitos armados acontecendo no Atlântico Norte, na região de Flandres, nas costas da América e da África, e chegando até as regiões ocupadas por Portugal na Índia (em Goa), no Ceilão, na China (em Macau) e no Arquipélago das Molucas, na Indonésia.
Em decorrência de tal conflito global, na metade daquele século as 7 Províncias conquistaram e dominaram uma área de mais ou menos um milhão de quilômetros quadrados no litoral brasileiro (duas vezes o tamanho da Espanha) num trecho que no futuro seria parte dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O território foi conquistado por uma frota de 67 navios equipados com 1.170 canhões e 7 mil soldados armados. Os neerlandeses também impuseram um bloqueio na foz do Rio Tejo, em Portugal. Era uma guerra com fins religiosos (católicos contra protestantes) e naturalmente envolvendo também disputas e interesses econômicos. A paz só foi selada no Acordo de Haia, cidade da Holanda, em 1.661 d.C., e custou 25 toneladas de ouro aos cofres públicos de Portugal. Isto reescreveu alguns rumos da história, mas tampouco em nada afetou ao tráfico de mão de obra escravizada.
A dinâmica do fluxo de escravizados africanos enviados pelos portugueses para o Brasil já era relativamente significativa, mas volumosamente ainda um tanto pequena frente às dimensões que viriam a ser registradas pela história posteriormente. Por volta de 1.600, o número de africanos cativos no Brasil já era quatro vezes superior ao número de descendentes de europeus. Dos 150 mil habitantes que a colônia tinha naquela altura, 120 mil eram escravos, descendentes de africanos já libertados ou indígenas, enquanto os descendentes lusitanos somavam apenas 30 mil, havendo a relativa significância, portanto, de quatro para um. Mas a densidade populacional das cidades portuguesas nas Américas ainda era muito baixa em tais tempos: a população de Salvador, então capital do Brasil, era de 14 mil habitantes em 1.585, e ainda era de 40 mil habitantes em 1.750. Um crescimento relativamente pequeno para um período de tempo tão longo, de quase duzentos anos.
O que mudou esta história por completo em termos quantitativos e catalisou a maldade e o nível de crueldade daquele abominável processo foi a "febre do ouro", a qual mudou por completo a paisagem econômica e geográfica da América Portuguesa. Nos duzentos anos anteriores, a colonização por Portugal do território que viria a ser o Brasil se dera apenas ao longo do litoral. Entre as 16 vilas e cidades fundadas até então, só uma - São Paulo de Piratininga, de 1.554 - estava localizada além da Serra do Mar (um padrão similar à forma de ocupação portuguesa na África, com fortíssima concentração no litoral, no entorno a portos). Com a descoberta de jazidas de ouro, entre 1.700 e 1.800 foram fundadas 49 vilas, a maioria das quais no interior do continente. Só entre 1.711 e 1.714 foram criadas 7 novas vilas na região de serras e vales de Minas Gerais, entre elas a Vila Rica de Ouro Preto, descrita como "a cabeça de toda a América e, devido à opulência de suas riquezas, a mais poderosa gema de todo o Brasil".
Entre 1.700 e 1.750, o Brasil respondeu sozinho pela metade da produção mundial de ouro, tendo garimpado entre 800 e 1.000 toneladas. Uma segunda boa notícia para os portugueses na mesma região foi a descoberta de diamantes, comunicada a Portugal em 1.729. Com a assinatura do Tratado de Madrid em 1.750, o qual revogava o Tratado de Tordesilhas e reconhecia novas fronteiras entre as terras de Portugal e Espanha na América do Sul, a exploração se acentuou ainda mais.
A partir do Século XVII, estimulada pelo crescimento do consumo de açúcar na Europa e pela expansão das fazendas de cana-de-açúcar no Brasil, o tráfico de escravos explodiu. A descoberta de ouro e diamantes, e a expansão de outras culturas de cultivo, como algodão e tabaco, fizeram com que se alcançassem patamares ainda mais elevados no Século XVIII. Por isto, 85% de todas as viagens de navios negreiros aconteceram depois de 1.700. Neste período, o Rio de Janeiro se tornou o maior porto de recebimento de tráfico negreiro da história da humanidade, responsável sozinho pelo transporte de 1,5 milhão de escravos de meados do Século XVI até 1.852.
Com a “febre do ouro”, só de Portugal entre 500 e 800 mil pessoas mudaram-se para o Brasil em busca de obter fortuna com o ouro entre 1.700 e 1.800, ao mesmo tempo em que o tráfico de escravizados rumo a esta região mineira se acelerou intensamente, com cerca de 2 milhões de africanos de pele escura cruzando o Oceano Atlântico em estado de escravidão. Em cem anos, foram transportados mais do que o dobro dos duzentos anos anteriores. Até então, 60% dos escravos que chegavam ao Brasil eram das regiões de Angola e do Congo. A partir da descoberta de ouro, predominaram os escravos "mina", oriundos da faixa litorânea de Gana e da Nigéria, no Golfo de Benim, áreas onde havia minas de ouro, podendo-se encontrar escravos especializados em tal extração.
Nove em cada dez expedições de tráfico negreiro eram organizadas no Brasil. Das viagens atracadas em Luanda, Angola, entre 1.736 e 1.770, 41% tinham saído do Rio de Janeiro, 22% de Pernambuco e 22% de Salvador, tendo, portanto, 85% sido organizadas no Brasil, e apenas 15% em Portugal. O tráfico negreiro no Brasil se dividiu em quatro períodos: o primeiro chamado Ciclo da Guiné, partindo de Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau, e passando por Cabo Verde; o segundo foi o Ciclo do Congo e de Angola, que persistiu até 1.850; o terceiro foi o Ciclo da Costa da Mina (Nigéria, Benim e Togo) no Século XVIII. No Século XIX ainda houve o Ciclo de Moçambique, o quarto e último.
Aliada aos traficantes de escravos, uma nova elite militar africana surgiria a frente de estados predatórios que, apoiados por armas e recursos europeus, nasceram e se firmaram com o propósito de lucrar com a guerra contra seus vizinhos, vendidos como prisioneiros para capitães de navios portugueses, ingleses, franceses, holandeses, dinamarqueses, alemães e norte-americanos. Foi assim que floresceram os Reinos de Futa Jalom, na Alta Guiné, entre os atuais países de Senegal e Guiné-Bissau; Axante, cuja dinastia reinante sobreviveu até o Século XXI governando o interior de Gana; Daomé e Oió, entre as atuais República de Benim e Nigéria; e Cassanje e Luanda, em Angola. Todos eles alimentaram a engrenagem do tráfico, fornecendo escravos em troca de canhões, espingardas, chumbo, pólvora, tecidos, bebidas alcoólicas, rolos de fumo, barras de cobre e ferro, entre outras mercadorias.
O principal fornecedor de escravos na Costa da Mina era o Reino de Ajudá (ou Hueda). Embora fosse um território minúsculo, com apenas 64 quilômetros de comprimento por 42 de largura, e com menos de 100 mil habitantes, ele conseguia exportar 20 mil escravizados por ano. Entre 1.700 e 1.725, saíram de Ajudá mais de 400 mil escravizados, cerca de 40% daqueles que cruzaram o Oceano Atlântico neste período. O reino havia se consolidado como ponto final de inúmeras rotas de tráfico que chegavam do interior da África, onde eram vendidos escravizados oriundos de 30 diferentes grupos étnicos, transportados em caravanas muçulmanas chegadas de regiões tão longínquas quanto as fraldas do Deserto do Saara, 800 quilômetros ao norte, ou do interior da região onde hoje é o Sudão, a 1.600 quilômetros a oeste dali.
A guerra era um estado constante, e havia uma característica cultural específica que estimulava que assim o fosse: a poligamia era um traço cultural muito forte na África, reis e homens da nobreza tinham muitas esposas, o que resultava num grande número de filhos, fazendo com que todos fossem candidatos à sucessão após a morte do pai. Estas disputas de linhagem por poder estavam entre as causas da escravização, pois implicavam em conflitos armados, cujos derrotados e seus apoiadores tendiam a ser convertidos em cativos. Uma parte expressiva dos escravizados era obtida através de incursões militares entre os povoados. Conquistava-se terras para enviar sua gente para trabalhos forçados nas Américas, em troca de um fluxo de riquezas com as quais Portugal alimentava tais elites africanas, aumentando ainda mais o seu poder, o que retroalimentava o processo todo.
O conflito que foi melhor catalogado pela história ocorreu em 4 de março de 1.727, quando os moradores de Savi, capital de Ajudá, foram acordados por tiros de canhões disparados por sentinelas que guardavam as entradas da cidade. O reino estava sendo invadido pelos exércitos de Agaja, soberano do Reino de Daomé. A invasão foi implacável e a devastação foi total, estima-se que tenha causado 5 mil mortes e cerca de 10 mil pessoas tenham sido escravizadas. Os soldados de Daomé eram particularmente hábeis no uso de mosquetes, armas de fogo fornecidas pelos traficantes europeus.
O Reino de Daomé se tornou uma das peças centrais da lógica escravista. Centralizado, autocrático e militarizado mais do que qualquer outro estado africano, Daomé tinha como rival apenas ao Império Oió, seu vizinho iorubá situado onde atualmente fica a Nigéria, que o desafiara em campo de batalha inúmeras vezes nas três primeiras décadas do Século XIX. Conhecido como príncipe Gapê antes de subir ao trono, o rei Guezo era bisneto de Agaja, o conquistador de Ajudá, e governou de 1.818 a 1.858, sendo o mais longevo de todos os reis de Daomé. Sua chegada ao poder se deu por um golpe de estado contra o irmão Abandozan. Seu pai, o rei Angolô, fora assassinado de forma misteriosa em 1.797. Ele teria apontado Gapê como seu sucessor, sendo o príncipe ainda uma criança. A luta de sucessão levou à morte três príncipes - irmãos de Gapê - tendo Abandozan conseguido se impor belicamente sobre todos os demais pretendentes.
Dezenas de pessoas da corte real foram eliminadas neste processo. Abandozan teria vendido a mãe de Gapê - Nã Agotimé - uma das esposas de seu pai Angolô, como escrava para o Brasil, tendo sido ela enviada para o Maranhão. Por desavenças sobre prestações de contas do tráfico escravo, Abandozan também mandou para a cadeia Francisco Félix que, supostamente nascido em Salvador, na Bahia, era o maior dentre os traficantes da África naquele momento. Na prisão, ele recebeu a visita de Gapê, supostamente interessado em identificar a localização de sua mãe no Brasil. Os dois formaram uma aliança em pacto de sangue, a partir da qual Francisco Félix foi libertado numa fuga facilitada por 60 soldados leais a Gapê, e a partir da qual o traficante alimentou o príncipe com armas que lhe permitiram dar o golpe sobre o irmão e ascender ao trono de Daomé. Em troca, Francisco Félix recebeu favores que fizeram dele "o maior traficante de escravos de todos os tempos", como o definiu Pierre Verger.
Por volta de 1.750, o horror dominava a serra e os vales próximos à Feira de Cassanje, interior de Angola, assim descrito pelo historiador norte-americano Joseph Miller: "Ali as pessoas matavam e eram mortas como se a vida nada valesse. Não usavam roupas e consumiam carne humana e insetos vivos. Os cadáveres eram jogados nas estradas e devorados pelos famintos que por elas trafegavam. Quando estranhos se aproximavam, os fugitivos se escondiam na copa das árvores e atacavam todos os forasteiros que julgassem capazes de dominar. As guerras, agravadas por secas arrasadoras, produziam uma devastação tão absoluta que os homens mais jovens sobreviviam apenas da captura, do consumo, e da venda de outras pessoas. Cerca de 90% da população envolvida nos conflitos acabou dizimada. O território ficou quase completamente desabitado".
Na esteira da grande onda escravagista ficava um cenário de morte e ruína. No início do Século XIX, estima-se que havia mais escravos no continente africano do que nas Américas. Ao cruzar a região da Senegâmbia, o explorador escocês Mungo Park estimou em seus relatos de viagem que 3/4 da população era escrava, e assim registrou: "o trabalho aqui é todo ele feito por pessoas cativas".
Diferentemente do resto da costa da África, em Angola os portugueses se aliaram a soberanos locais para controlar diretamente o tráfico de escravizados em todas as suas etapas, da captura ao embarque nos navios que os conduziam à América, estando diretamente envolvidos em razias, sequestros, guerras e outros processos de escravização da população nativa. E ali a brutalidade e a escala foram ainda maiores do que em qualquer outra região do continente: estima-se que de um total de 10,5 milhões de cativos que chegaram à América vivos até a metade do Século XIX, pelo menos 5,7 milhões, que são 54%, eram de Angola.
Na visão europeia, a gente da África era bárbara, sem moral, sem leis, vivia em contínua guerra, era mais predisposta à preguiça, à instabilidade emocional e aos vícios, e tinha uma inviabilidade para se regrar em si mesma. Argumentos para enganar a si próprios e se camuflar frente a seus próprios níveis de barbaridade e falta de moral no abominável e maldoso trato de exploração cruel de seres humanos. A própria poligamia, característica cultural de muitos daqueles povos, era utilizada como argumento para endossar a barbaridade e a falta de moral vistas pelos europeus como a justificativa para os atos deploráveis de escravização.
A proporção do tráfico humano foi maior em relação ao Brasil, onde cerca de 70% dos 4,9 milhões de cativos que chegaram vivos até 1.850 eram originários de Angola e suas vizinhanças. Luanda foi o maior porto fornecedor de tráfico negreiro na história, tendo só dali partido 12 mil viagens transportando aproximadamente 4 milhões de escravizados, cargas humanas vivas. Em escala: em 1.798, a população do Brasil era estimada em 3,25 milhões de pessoas, sem incluir os indígenas "bravios" (ou seja, que não tinham sido incorporados à civilização colonial portuguesa). Os índios "pacificados" correspondiam a 7,7% do total, os brancos a 31,1%, negros e mulatos libertos a 12,5%, e os demais 48,7% - quase a metade, portanto - eram escravos chegados da África. Mais da metade destes 10,5 milhões de escravizados chegou à América entre 1.700 e 1.800, sendo 2 milhões só no Brasil. Entre 1.751 e 1.800 foram 3,4 milhões de escravos comercializados, entre 1.801 e 1.850 foram 3,0 milhões, e entre 1.701 e 1.750 foram 2,2 milhões. Nos períodos anteriores, o volume era menor: entre 1.501 e 1.550 tinham sido 44,5 mil, entre 1.551 e 1.600 sido 154 mil, entre 1.601 e 1.650 foram 527,7 mil, e entre 1.651 e 1.700 foram 989 mil. Uma escalada exponencialmente crescente, indicando que não há limites quando a maldade não é domada nos seres humanos. Um censo do governo português em Angola feito entre 1.777 e 1.778 demonstrou o efeito devastador deste tráfico escravista: havia duas mulheres para cada homem adulto entre 15 e 60 anos. No Brasil, a proporção era inversa.
A dinâmica interna africana por trás de tamanha crueldade deste mercado também é importante de ser registrada: um estudo feito por navios britânicos ao libertarem escravos de navios escravagistas no Oceano Atlântico mostrou que 30% dos escravizados tinham sido sequestrados por outros africanos, 11% em decorrência de processos judiciais nos quais eram acusados de diversos crimes, entre os quais o adultério, 14% foram vendidos para quitar dívidas contraídas por eles próprios ou por seus familiares, e 34% era composto por prisioneiros de guerra.
Para atender a interesses próprios, é comum da natureza humana utilizar-se de meios supostamente civilizatórios para maquiar a sua crueldade e a sua maldade em ações de barbárie cometidas. Até mesmo a lei se converteu em instrumento de escravização. Qualquer que fosse o crime cometido, a pena passou a ser a condenação à escravidão. O mercador inglês Francis Moore notou as consequências disso ao longo da costa da Senegâmbia, na África Ocidental, na década de 1.730, deixando seu relato: "Desde que o tráfico de escravos assim entrou em vigor, todas as punições passaram a ser a escravidão; havendo vantagens em tais condenações, constituíram-se um excessivo rigor punitivo, a fim de assegurar o benefício da venda do criminoso. Não só o assassinato, o roubo e o adultério eram punidos pela venda do criminoso como escravo, mas as maiores frivolidades passaram a ser penalizadas da mesma maneira".
A história de crueldade deste tráfico humano nas Américas era tão cruel quanto aquela ocorrida tanto na África quanto nos navios de transporte que cruzavam o Oceano Atlântico. Os dois principais mercados de destino em termos de volume estavam um na América do Norte e outro na América do Sul: nos Estados Unidos era reduzido o número de alforrias concedidas, o que combinado à elevada taxa de natalidade e expectativa de vida mais longa levou a um aumento de população escravizada sem necessidade alta de reposição; no Brasil ocorreu o contrário, os índices de alforria eram mais altos e a taxa de natalidade em cativeiro era inferior à dos Estados Unidos, de forma que a expectativa de vida não passava de 18,3 anos, sendo a necessidade de reposição bem mais elevada.
Entre 1.792 e 1.815, as Guerras Napoleônicas na França levaram a um amplo movimento de rupturas em favor de mais liberdade, mas estas foram em grande medida transformações brancas que mantinham a segregação racial e deixavam à margem a liberdade da população negra e escravizada. Em 1.791, a Assembleia Nacional Francesa chegou a condenar a escravidão, entretanto, em 1.802, pressionado pela sangria de recursos em função da guerra, Napoleão Bonaparte reintroduziu a escravidão em todas as colônias francesas.
Entretanto, os alicerces de transformação cultural estavam semeados, e gradativamente as barreiras foram sendo derrubadas, e nem sempre pacificamente. No Haiti - colônia francesa na América Central - houve a maior insurreição de escravizados em quase cinco séculos de escravidão nas Américas. Tratou-se de um banho de sangue que se arrastou por 12 anos. Estima-se em 100 mil o número de escravizados que se juntaram à revolta. A ampla maioria dos colonos brancos foi massacrada. Dos 40 mil soldados da França enviados para reprimir à rebelião, somente 8 mil regressaram para a Europa vivos. Foi o único país nas Américas a ter conquistado a sua independência (em 1.804) a partir de uma revolta de escravizados!
Em 1.815, reunidos no Congresso de Viena - que redesenhou as fronteiras geográficas e políticas ao fim das Guerras Napoleônicas - as principais potencias europeias (representadas por Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal, Áustria, Prússia, Rússia e Suécia) assinaram um documento no qual se declarava que o tráfico de africanos escravizados era "repugnante a todos os princípios de humanidade e moralidade universal", recomendando também que todos os países nele envolvidos o abolissem assim que possível. Apesar da ênfase nas palavras, nenhum prazo foi definido para que isto de fato acontecesse. O que, de fato, tardou em ser materializado em realidade.
México, Chile, Bolívia, França e Inglaterra aboliram o cativeiro em seus domínios entre 1.818 e 1.840. Nas décadas seguintes, seria a vez de países como Argentina, Colômbia, Dinamarca, Equador, Peru, Suécia, Tunísia, Uruguai e Venezuela. Por volta de 1.855, restavam apenas três grandes territórios escravistas nas Américas: Brasil, Cuba e Estados Unidos. A abolição nos domínios norte-americanos aconteceu em 1.865, no final de uma guerra civil na qual morreram cerca de 750 mil pessoas. No ano seguinte foi a vez de Cuba.
Nos Estados Unidos da América, a Guerra de Secessão foi a maior tragédia humanitária da história do país e teve como o seu principal motivo a luta pelo fim da escravidão. O norte do país era mais industrializado e menos dependente da agricultura, e foi onde a luta pelo fim da escravidão ganhou adesão, enquanto o sul era majoritariamente agrícola e sustentado por grandes plantações mantidas pelo trabalho da mão de obra escrava, com uma estrutura econômica mais similar à da América Latina. A eleição em 1.860 de Abraham Lincoln como presidente da república - um defensor das posições do norte - foi o gatilho para o início dos conflitos, que começaram em 1.861 quando representantes do sul do país tentaram constituir um país independente, os Estados Confederados da América, e lutaram então contra a União, aliança federativa dos estados do norte, região na qual a maioria era de imigrantes protestantes fugidos dos conflitos religiosos na Grã-Bretanha.
Nos quatro anos de luta armada que se seguiram, morreram 620 mil soldados – 260 entre os confederados e 360 nas tropas da União – mas ao somar as perdas de vidas civis, o total de mortos chegou a 750 mil. O resultado daquela guerra seria crucial para o futuro econômico dos EUA, assim como para o fim da escravização, já que após ela, isolado e como último país escravista nas Américas, o sistema escravista do Brasil ficou encurralado e sem alternativa. Ainda assim, a resistência à abolição ainda persistiu por duas décadas mais no Brasil, tendo a marcha sido bem mais lenta devido à resistência obstinada da aristocracia escravista, sustentáculo do poder político local. Em 1.871 foi proclamada a Lei do Ventre Livre, que concedia liberdade aos recém-nascidos e criava fundos para a compra da alforria de adultos. Uma segunda lei, em 1.885, declarava livre todos os sexagenários (com idade acima de 60 anos). Por fim foi assinada a Lei Áurea, em 13 de maio de 1.888, que decretou o fim da escravidão legal no Brasil. Legalmente, dava-se fim em todo o planeta à mais desumana de todas as práticas já vigentes por nossa espécie.
A escravidão esteve presente em praticamente todas as sociedades do passado humano, em todas as partes. Foi endêmica tanto na Roma Antiga quanto na África. Porém, foi o desenvolvimento das colônias de açúcar nas Américas, a partir do princípio do Século XVII, o que provocou uma escalada extrema do tráfico internacional de escravos e um aumento sem precedentes da importância da escravidão dentro da África. Em Angola, Benin, Gana e Togo, por exemplo, o número de cidadãos escravizados exportados atingiu um total acumulado superior à população que estas regiões detinham em 1.400. O recrudescimento de conflitos foi alimentado pela gigantesca importação de armas e munição que os europeus trocavam por escravos na costa do continente.
Em 1.730, cerca de 180 mil armas foram recebidas por ano só no litoral oeste do continente. Entre 1.750 e princípios do Século XIX, só a Grã-Bretanha trocou entre 283 e 394 mil armas por ano. Entre 1.750 e 1.807, os ingleses forneceram um extraordinário volume de 22 mil toneladas de pólvora, chegando a uma média de 384 mil quilos ao ano, além de 91 quilos de chumbo anuais. Um grande exemplo, entre muitos que há na história humana, de como o desenvolvimento econômico pode causar e se alimentar de subdesenvolvimento alheio em alguma outra parte, numa grande herança histórica da importância da consciência com que as escolhas são feitas, e quais consequências estas podem vir a ter a longo prazo.
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