sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A principal égide de crescimento humano reside na capacidade de lidar e enfrentar à maldade

 A bondade e a maldade estão presentes em todos os seres humanos, o mal ocupa espaços quando há a ausência do bem. Quem viveu ou vive em ambientes carregados de adversidades e conflitos exalará a maldade de forma mais intensa do que a bondade, e aqueles que viveram ou vivem em ambientes de harmonia e cooperação, serão preponderantemente bondosos. O mal emerge naqueles corações onde a virtude não é construída e conquistada, enquanto o bem é aquilo que dá sentido e unidade a todos as ideias humanas, fomentando um senso de justiça e verdade que dá coesão a nosso convício coletivo, o que é o maior dentre todos os seus propósitos.

Há bastante sinergia e convergência entre o que quase todas as sociedades historicamente aprenderam e observaram sobre este tema. Tanto nas filosofias que emergiram e fomentaram o pensar no Ocidente quanto no Oriente - nos embriões do pensamento na Grécia e na Índia - as sociedades humanas entenderam que a bondade é um reflexo de uma progressiva aproximação de contemplação do conhecimento e da verdade, como um princípio unificador da ordem e facilitador da harmonia de convívio em grandes grupos humanos, representando em si uma estratégia de sobrevivência da vida humana que alinha as nossas naturezas animal e civilizatória. Onde há estas sementes de bondade e harmonia coletiva, de respeito e amor pelo próximo e pela própria vida humana como um todo, aumentam as dificuldades para sobrar espaços através dos quais germinará a maldade.

Ainda assim, ela surgirá sempre, porque está profundamente presente na essência humana, e por isso todos tem que saber que precisarão confrontá-la ao se deparar com ela. Quando nos deparamos com a maldade, o que a história toda nos indica é que não pode haver indiferença. Há que se encontrar os melhores meios possíveis para confrontá-la e não permitir que suas sementes germinem, cresçam e se multipliquem.

A filosofia do Oriente recomenda uma linha específica de enfrentamento à maldade. No Hinduísmo, por exemplo, o enfrentamento da maldade humana se relaciona aos conceitos de karma e dharma, e a sua superação é encontrada no que é chamado em sua filosofia como autotranscendência. Trata-se de um estado de desenvolvimento espiritual interior que proporciona proteção perante a maldade alheia, um estado no qual se atinge um pleno equilíbrio emocional e espiritual.

O karma se refere à relação entre as ações humanas e as suas respectivas consequências. Neste conceito, a forma mais comum de manifestação do mal é vista como como o reflexo de um acúmulo de energias geradas por ações negativas que cada um acumulada ao longo da vida. As consequências deste acúmulo emergem através de devoluções de tais energias que retornam na forma como tudo ao redor é refletido também negativamente. Assim como tudo no universo físico, trata-se de uma relação de ação e reação. Tudo ao seu redor vai te devolver as vibrações negativas, porque se você está com um acúmulo de mais sentimentos negativos entregues às pessoas, aos outros animais e a todas as coisas que te cercam, tudo isto te entregará energias negativas de volta.

Como tudo é revertido? Com o equilíbrio definido como dharma, que se refere ao conjunto de deveres éticos e morais que cada um deve seguir na sociedade de acordo à individualidade de sua própria natureza humana. Só há equilíbrio frente ao karma que cada um acumula em sua vida quando o ser humano segue um caminho consciente de geração de boas ações, reduzindo o estoque de efeitos de todas as ações negativas passadas acumuladas.

Encontrar o seu dharma é o caminho de combate à maldade, encontrando a harmonia interna, de purificação da própria alma (associado na filosofia ocidental ao coração, que é a essência do sentimento humano de cada pessoa), obtendo equilíbrio frente a tudo que está ao seu redor, cooperando para a manutenção da ordem de convívio coletivo, e produzindo justiça nas relações sociais humanas.

Já o Budismo carrega uma doutrina cujo entendimento é muito parecido, no qual a maldade deve ser tratada por meios que façam crescer a sabedoria e a compaixão tanto dentro de si quanto nas relações sociais de convívio coletivo. Para os budistas, a maldade é tida como um reflexo da ignorância e do apego excessivo ao mundo material, com ela sendo uma consequência de três raízes do mal que partem da ignorância (avidya), gerando o apego (raga) e o ódio (dvesha), de forma que todas as pessoas precisam enfrentar e domar estas três raízes dentro de si para poder assim enfrentar e se livrar da maldade.

Ambas as visões, do Hinduísmo e do Budismo, são linhas de pensamento que defendem que não se combata a maldade com vingança ou com ódio, mas com ações virtuosas, recomendando que a maldade seja vista com compaixão, pois ela nada mais é do que a manifestação física de uma alma presa num ciclo de sofrimento. Assim, em vez de retaliações, esta deve ser enfrentada com práticas da paciência e compreensão, sendo a maldade vencida através da eliminação de sentimentos negativos como raiva, orgulho e ganância. Assim, recomenda que a maldade humana seja enfrentada de uma maneira compassiva e espiritual, cultivando compaixão e buscando no conhecimento os meios para transcender à ignorância e alcançar harmonia.

O exemplo histórico que pode ser considerado o ápice desta forma de pensar no contexto da história humana foi materializado por Mohandas Karamchand "Mahatma" Gandhi, quem defendeu a doutrina da satyagraha na luta de independência da Índia frente a Inglaterra no Século XX. A filosofia sustentada por detrás da satyagraha se sustenta na composição desta palavra no idioma hindi, a qual significa: "firmeza no caminho e na verdade". Seu conceito é o de que, acima de tudo, há que se insistir sempre na verdade, pois ela sempre prospera. Satya significa "verdade", e agraha significa "insistência educada". Ou seja, trata de insistir constantemente na verdade de um modo pacífico e educado para se alcançar aos objetivos almejados.

Assim, Gandhi embasou uma filosofia política de que a verdade e a não-violência caminham sempre juntas, e a persistência neste caminho é a única a produzir dignidade humana em favor da verdade. É um princípio que consiste no inverso da resistência bélica através da luta armada, defendendo que os direitos devem ser conquistados através de sofrimento e de formas de resistência pacífica.

Só que nem sempre este caminho é suficiente para superar a maldade imposta pela humanidade. Na história já aqui contada da guerra entre os povos maori e moriori, na Oceania, não havia solução pacífica. Muito pelo contrário, a opção por não lutar foi justamente a causa da destruição e da maldade avassaladora a eles levada pela guerra. Da mesma forma, os povos subjugados e escravizados pelo Reino de Ajudá, na África, nunca tiveram a opção de não lutar, pois eram atacados por soldados hábeis no uso de mosquetes e outras armas de fogo fornecidas por traficantes europeus, as quais fizeram com que um reino com apenas 100 mil habitantes conseguisse escravizar 20 mil seres humanos por ano. Os povos inca e asteca também não teriam, através desta estratégia, tido sucesso e revertido seus destinos de acabarem subjugados pelos conquistadores europeus.

Ter a capacidade de enfrentar e superar a maleficência é um processo catalisador, um acelerador, do crescimento individual humano. É por isso que o mal existe, porque quando obtemos ensinamentos ao lidar e vencer os desafios por ele nos impostos, através de uma busca interior profunda de conhecimento interior para seguir adiante livres dos traumas e das marcas deixadas, evoluímos em espírito e nos tornamos mais fortes. A principal égide do crescimento humano reside na capacidade de lidar e enfrentar a maldade!

Essa afirmação encontra respaldo em várias vertentes da psicologia, assim como na história evolutiva coletiva da humanidade. A maldade deve ser entendida não apenas como atos intencionais de prejudicar a alguém, mas como toda a adversidade, todos os conflitos e todos os desafios inerentes à existência do ser humano, desempenhando um papel fundamental para o desenvolvimento psicológico, social e moral de cada um dos indivíduos ao longo da história humana.

É se enfrentando ao caos que se cria a ordem. Forças destrutivas como a escravidão, as guerras e os grandes desastres naturais, todos grandes fatores de sofrimento, foram até aqui superados um a um, e levaram a humanidade a prosperar a partir do que foi aprendido em cada um destes processos, impulsionando a criação de sistemas de proteção, cooperação e justiça, e assim semeando prosperidade. A enorme capacidade humana de se adaptar e de se superar sempre esteve fortemente correlacionada a uma luta frequente de enfrentamento de forças adversas.

Psicologicamente, o enfrentamento da maldade é o que molda os nossos instintos e as nossas emoções, transformando o medo em coragem e resiliência. Foi lidando com conflitos e processos traumáticos, e celebrando triunfos sobre adversidades, que a humanidade desenvolveu seus valores e seus laços coletivos. A nível individual, o enfrentamento da maldade — seja ela manifestada em traumas, perdas, injustiças ou falhas internas — é essencial para o crescimento emocional e psicológico.

Todos os indivíduos possuem um lado oculto, composto por impulsos, emoções e características que carregam maldade. Ignorar a isto resulta em estagnação. Enfrentar e superar a isto é o que promove a verdadeira individuação! A resiliência e a capacidade de se recuperar e crescer após adversidades é um dos traços mais importantes para o bem-estar psicológico. O enfrentamento de dificuldades promove o desenvolvimento de habilidades de autocontrole, empatia e até criatividade, fortalecendo o ser humano e expandindo as suas perspectivas, levando-nos a compreender melhor aos outros e ao mundo ao nosso redor.

Lidar com a maldade — em si mesmo e nos outros — força que você questione a tudo e busque soluções que beneficiem não apenas a si mesmo, mas também a comunidade a qual você está imerso. Este crescimento moral está ligado à empatia e ao altruísmo, ajudando a encontrar o propósito de vida. A maldade, por mais desafiadora que seja, é uma força inevitável na existência humana. Enfrentá-la é o que proporciona crescimento. Confrontando-a, somos levados a desenvolver resiliência, compaixão e sabedoria. Por isto, a maldade, por mais dor que proporcione, é parte do processo de evolução humana.

A principal égide de crescimento humano reside na capacidade de lidar e enfrentar à maldade. Foi assim na evolução da história da humanidade, e é assim na história de evolução e crescimento na vida de cada um de nós.

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