segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Se há um fator onde este espírito competitivo humano desempenhou papel central foi na eclosão de tantas guerras ao longo da história

O instinto de competição é uma característica intrínseca à natureza humana. A herança de nossa natureza animal primata impulsionou a toda a espécie uma necessidade de competição natural por recursos, parceiros sexuais e status social, moldando assim o nosso comportamento e favorecendo traços como ambição e agressividade, assim como por cooperações estratégicas, uma vez que os seres humanos sempre tiveram comportamento de bando. Como já vimos, a busca por recursos incentivou o desenvolvimento da inteligência e da inovação como caminhos para a obtenção de vantagem adaptativa perante animais maiores, mais fortes e mais ferozes. Por outro lado, a disputa por parceiros alimentou uma valorização de atributos físicos e sociais desejáveis, moldando padrões de atração. E a luta por status fortaleceu hierarquias e dinâmicas de liderança, impulsionando a organização social e o progresso coletivo. O estudo da psicologia entende estes impulsos competitivos como fatores determinantes para o desenvolvimento da personalidade e a construção das relações sociais. Estudos em neurociência indicam que vitórias ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina e reforçando o comportamento competitivo, fazendo o espírito competitivo ser uma constante na raça humana, o qual moldou a construção das sociedades, impulsionou o desenvolvimento, e se tornou um fator presente nas mais diversas esferas da vida social.

Assim como a competição impulsiona o desenvolvimento, quando descontrolada, ela também pode levar a destruição, mortes em massa e sofrimento, pois se há um fator onde este espírito competitivo humano desempenhou papel central foi na eclosão de tantas guerras ao longo da história. A competição por recursos escassos - como terras férteis, água e riquezas - assim como diferenças ideológicas em torno dos modelos de sustentação de organização das sociedades humanas, foram fatores que levaram grupos e nações a entrarem em conflitos para garantir a sua subsistência e a sua prosperidade. A luta por status e poder incentivou disputas territoriais e expansionistas, alimentadas por ambição e ideais nacionalistas. A rivalidade entre culturas e religiões intensificou conflitos, que foram usados como justificativa para dominações. Psicologicamente, foi a tendência humana à lealdade grupal e a uma diferenciação primitiva entre "nós" e "eles", o que criou tensões e hostilidades que tornaram a guerra como uma consequência extrema do instinto competitivo.

Por que os seres humanos tiveram tantos conflitos extremos causadores de guerra? O historiador italiano Luigi de Porto assim definiu: "sempre ouvi dizer que a paz traz a riqueza; a riqueza, o orgulho; o orgulho, a raiva; a raiva, a guerra; a guerra, a pobreza; a pobreza, a humildade; a humildade, a paz; a paz, como já dito, traz a riqueza; e assim por diante; como um perigoso carrossel de orgulho". As guerras normalmente começam quando duas nações discordam quanto à sua força relativa, e normalmente acabam quando as nações envolvidas concordam quanto à sua força relativa. Exatamente como se fossem duas pessoas individualmente se desentendo e medindo forças, a diferença é que envolvendo uma variedade de fatores muito maior. A concordância ou a discordância resultam da combinação do mesmo grupo de fatores, com cada fator sendo capaz de promover a guerra ou a paz.

Para explicar como esta linha tênue de equilíbrio levou às complexidades e ao apogeu em conflitos bélicos no Século XX, há que se considerar o contexto já narrado de impulsão econômica a partir das inovações tecnológicas. Qual destes dois fenômenos (contemporâneos entre si) impulsionou qual: o rápido crescimento da produção industrial ou a grande explosão populacional? O aumento da população estimulou a decolagem industrial, cujas inovações por sua vez estimularam o crescimento populacional? Um não teria chegado muito longe sem o outro, mas onde foi dada a largada? Só trabalhadores de fábrica em massa poderiam operar a decolagem industrial e uma produção em escala mundial, mas só com produção industrial em massa e exportações seria possível sustentar a população crescente. Numa relação entre causas e consequências, a expansão demográfica foi uma consequência dos avanços tecnológicos que permitiram condições mais favoráveis à proliferação da vida humana, ao mesmo tempo em que este crescimento populacional consequente retroalimentava a capacidade de contínua expansão econômica e industrial.

À medida que a capacidade humana de juntar grandes aglomerações cresceu, foram intensificados, na mesma intensidade, o tamanho e a capacidade destrutiva por vias bélicas da civilização humana. Mas há uma enorme complexidade por detrás disto: não é simples mobilizar grandes exércitos de homens para se moverem juntos em direção a um campo de batalha do qual a maior parte deles não sairá com vida. É impossível organizar um exército por meio unicamente da coerção. Comandantes e soldados precisam realmente acreditar em alguma coisa pela qual lutar: família, Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro. Desde tempos muitos remotos tais feitos foram conseguidos: o exército macedônio de Alexandre, o exército romano de Júlio César, o exército huno de Átila, o exército mongol de Gêngis Khan, entre milhares de outros casos menores ao longo dos tempos.

Embora a competitividade seja fator constante no espírito humano, daí para isto vir a se tornar um conflito de grandes proporções envolve uma grande distância. Tende a haver uma correlação entre o tamanho e o nível de fragmentação das sociedades humanas, e a potencialidade para que diferenças levem a eclodir o desejo de aniquilar a um adversário. O tabuleiro da história nos mostra isto: a intensidade bélica particular em meio à fragmentação organizacional da Europa é um fato. O sociólogo russo Pitirim Sorokin se deu ao trabalho de fazer uma conta: durante mil anos, desde 901 d.C., a Rússia tinha estado em guerra por 46 anos em cada 100, e a Inglaterra, desde o tempo de Guilherme, o Conquistador (falecido em 1.087), tinha estado em guerra em algum lugar da Europa ou dos trópicos por 56 anos em cada 100.

Há alguns fatores que são reincidentes no histórico bélico da civilização humana e foram identificados por historiadores. Um deles é que as nações não estão propensas a lançar um ataque e iniciar uma guerra quando a sua posição financeira é ruim, ou quando a sua população enfrenta sérias dificuldades econômicas. Na maioria das vezes, há uma estabilidade financeira como pré-requisito para o início de um ataque que vem a culminar numa guerra. Outro fator se associa ao clima: o tempo também impacta a estratégia de ataque numa guerra. Os países ao norte do Trópico de Câncer - um território que compreende Europa, Sibéria, Japão e América do Norte - foram o palco das batalhas de pelo menos 44 guerras internacionais entre 1.840 e 1.938, e um levantamento destes ataques demonstram um padrão simples: 16 guerras na primavera, 15 no verão, 10 no outono, e somente 3 no inverno. A maior frequência é verificada nos quatro meses entre abril e julho, tendo mais da metade dos conflitos (26 de 44) sido iniciados nestes meses, sem que absolutamente nenhuma guerra tenha se iniciado entre os meses de dezembro e janeiro, quando é o ápice do inverno no Hemisfério Norte.

Que tais evidências estejam mais bem documentadas na Europa, está longe de significar que não tenham paralelos no planeta inteiro. A maior parte das provas arqueológicas e descrições orais de guerras que aconteciam antes do contato com os colonizadores europeus tornam absurdo sustentar a visão romântica de que as pessoas eram tradicionalmente pacíficas até a chegada dos europeus em seu espalhamento pelo mundo através da Era das Grandes Navegações.

Os ancestrais humanos em todos os continentes tinham um histórico de guerras e conflitos para contar, repletos de derramamento de sangue e brutalidade. Um fato, no entanto, é inquestionável: a introdução das armas de fogo, apresentadas pelos europeus, aumentou ainda mais a mortalidade das guerras. Isto é facilmente perceptível, por exemplo, nas guerras entre os maoris na Nova Zelândia entre 1.818 e 1.835, e em igual proporção tanto nas Ilhas Fiji como nas Ilhas Salomão, onde tribos usavam mosquetes em suas guerras, sendo regiões que viviam em estado de guerra endêmicos, e nas quais o "efeito europeu" foi verificado com o aumento significativo da mortalidade pelo uso posterior de machados de metal e de armas de fogo.

Uma pesquisa de causas comuns a várias guerras do Século XVIII revela um detalhe: a morte de um rei era frequentemente prenúncio de guerra, as denominadas "Guerras de Sucessão". Apenas 4 guerras de sucessão neste período não foram precedidas pela morte de um monarca: em 1.700, quando os governantes de Saxônia, Dinamarca e Rússia iniciaram uma luta armada contra a Suécia, em 1.741 quando tropas da Suécia invadiram a Rússia, em 1.786 quando Áustria e Rússia atacaram a Turquia, e em 1.792 na guerra da França contra a Áustria. Foram 8 guerras de sucessão neste período nas quais um longo reinado acabou sucedido por uma liderança visivelmente fraca.

Por outro lado, entre 1.815 e 1.939, houve 31 guerras precedidas por tumultos civis sérios buscando revoluções ou revoltas em uma das nações que entraram em conflito. Ainda que neste período também tenham acontecido guerras não precedidas por agitações civis, assim como nem sempre agitações tiveram como consequência uma guerra, tendo sido relevante a quantidade de conflitos gerados por este motivo durante o Século XIX e o início do Século XX.

Desde a Guerra dos Cem Anos, que começou em 1.328, até a Guerra do Vietnã, que durou de 1.955 a 1.975 (mais de seis séculos depois), uma causa importante e frequente de conflitos internacionais foi uma nítida tendência a favorecer a guerras no exterior como uma forma de desviar a atenção de mazelas internas de uma nação, numa busca à criação de bodes expiatórios estrangeiros para se tornarem alvos quando a manutenção de poder estava ameaçada internamente. Este é um fator a mais para explicar a dinâmica que leva disputas por poder a se transformar em conflitos de grande proporção.

Um grande fato histórico é que a Europa teve um longo período de prevalecimento de conflitos bélicos curtos e rápidos. A Guerra de Sucessão da Polônia, basicamente uma guerra inútil entre a França e a Áustria, foi seguida, em cinco anos, pela Guerra de Sucessão da Áustria, a qual depois de oito anos foi tão inconclusiva na maior parte das frentes de batalha, que o tratado de paz assinado em 1.748 praticamente confirmou a mesma situação anterior ao conflito para todos os lados. Esta guerra vã foi seguida, apenas oito anos mais tarde, pela Guerra dos Sete Anos, que terminou com uma clara vitória da Grã-Bretanha no mar e no além-mar, embora em solo europeu o resultado possa ser considerado duvidoso.

Mesmo a paz entre ingleses e franceses que se seguiu ao Tratado de Paris, em 1.763, não durou muito, terminando após quinze anos, quando a revolta das colônias norte-americanas terminou com o predomínio da Inglaterra sobre a França. Por mais de um século, não houve grandes conflitos tão decisivos quanto as guerras revolucionárias francesas, que a partir de 1.792 alastraram-se durante uma década por toda a Europa e além-mar, os quais terminaram com a França dominante no continente europeu, e a Inglaterra dominante nos mares, na América e no oriente, mas sem se resolver a questão crucial: qual era a nação mais poderosa, França ou Inglaterra? O Tratado de Amiens, assinado em 1.802, durou pouco mais de um ano, quando começaram as Guerras Napoleônicas, que finalmente produziram vencedores incontestáveis e um agradável período de paz na Europa.

Há historiadores que defendem que a Guerra dos Sete Anos não era desejada nem por Inglaterra e nem por França. O longo conflito que expulsou a França do Canadá e que preparou o caminho para a Independência dos Estados Unidos, teria sido "não intencional". As duas nações se esforçaram por um caminho de paz, porém ambas queriam mandar na América do Norte, já que para ambos os governos o controle das colônias vinha em primeiro lugar. As declarações em favor da paz que encheram as malas diplomáticas foram sinceras, mas foram sufocadas pela certeza de que haveria mais a se ganhar através da luta do que de negociações dados os interesses econômicos em torno da geração de riquezas na América do Norte.

Guerras sempre impuseram custos elevados à população civil, e a grande maioria provocou consequências internas às nações quando tais custo sobrepuseram limites aceitos pela sociedade. No Século XVIII, as revoluções nos Estados Unidos na década de 70 e na França na década de 90 foram em parte iniciadas pela revolta da população em relação aos altos impostos que as guerras anteriores tornaram necessários.

Em geral, as evidências gerais sugerem que quando o vencedor de uma guerra é forte o bastante para impor termos de um tratado de paz mais severo, a probabilidade de se prolongar o período de paz nos pós-conflitos é maior. Tratados de paz severos parecem ser basicamente o resultado de uma guerra encerrada com uma vitória decisiva. Uma vitória mais contundente tende a promover uma paz mais duradoura. Guerras decisivas deixaram o poderio militar das alianças rivais desequilibrado e mal distribuído, o que apresentou uma tendência a produzir longos períodos de paz internacional. Guerras de final duvidoso, ao contrário, tendem a produzir períodos mais curtos de paz. Durante combates mais prolongados, alianças têm maior dificuldade de derrotar a aliança rival, com muitas destas guerras terminando praticamente em impasses, com um poderio militar mais equilibrado dos dois lados.

Uma diferença vital entre as guerras dos Séculos XVIII e XIX é que neste último os conflitos tenderam a ser mais decisivos, o que explica em parte um período repleto de guerras seguido por outro de relativa tranquilidade. Enquanto no Século XVIII houve guerras longas e inconclusivas, seguidas por curtos períodos de paz, a partir de 1.815 se notam guerras mais curtas e decisivas. Fato é que os avanços tecnológicos e o aperfeiçoamento das táticas militares em função de tais avanços, contribuíram também para uma maior discrepância entre os lados envolvidos nos conflitos, estimulando as vitórias a serem mais contundentes e decisivas.

Entre 1.700 e 1.815, a Europa experimentou 7 guerras que duraram 7 anos ou mais cada uma, mas desde então nenhum conflito na Europa prolongou-se tanto, os meses de guerra passaram então a ser menos numerosos, porém mais letais. Estas 7 guerras que duraram 7 anos ou mais foram guerras gerais, isto é, travadas por muitas nações. Durante os 99 anos que separaram a derrota de Napoleão e o começo da Primeiro Guerra Mundial, houve apenas 1 guerra geral no Hemisfério Norte: a Guerra da Criméia, significativamente a mais longa na Europa naquele período.

O Século XIX foi uma época de rápidas inovações mecânicas nos armamentos. Para a indiscutível melhoria de seu poderio naval, a Inglaterra construiu navios de guerra caríssimos, que fizeram os navios anteriores parecerem impotentes. A melhor embarcação existente em 1.867 correspondia a toda a esquadra britânica de 1.857, e a melhor de 1.877 tinha o poder de fogo igual ou superior à combinação de todos os navios de guerra de dez anos antes. Em 1.905, foi lançado ao mar em Portsmouth o H.M.S. Dreadnought, um navio de guerra de 18 mil toneladas que superou tanto a todos os anteriores, que obrigou à Alemanha e à própria Grã-Bretanha a reformarem inteiramente todas as suas esquadras. Uma das facetas mais impressionantes desta era das maravilhas mecânicas foi o ganho de agilidade nas manobras de guerra. Nos navios de guerra, o vapor substituía as velas, e o ferro à madeira. Em terra, as ferrovias substituíam as carroças, e o telégrafo elétrico tomava lugar aos mensageiros. A organização dos exércitos ficou mais eficiente, e seus equipamentos foram substituídos pelo fuzil de retrocarga, pelas metralhadoras e pelos canhões. As armas estavam tão avançadas, que muitos analistas acreditavam que as guerras de longa duração pertenciam ao passado. Isto foi uma combinação de erro de leitura estratégica a um orgulho e prepotência de civilizações que erradamente passaram a se achar invencíveis, e tais equívocos, como logo será detalhado, levaram aos erros de tomada de decisão que conduziram a humanidade ao período de guerras mais destrutivas e mortais de toda a sua história, na primeira metade do Século XX, o qual quase levou a humanidade a se aniquilar. Antes de entrar neste período, no entanto, vamos nos aprofundar em fatos dos períodos imediatamente anteriores que ajudarão a uma melhor compreensão deste processo.

Considerando o conceito de guerra geral como sendo a participação de ao menos 5 potências, 3 das quais de grande porte, entre 1.700 e 1.815 houve 9 guerras gerais, e o período de 1.815 a 1.930 teve 2, a Guerra Austro-Prussiana e a Primeira Guerra Mundial. Com uma definição mais rigorosa, sendo guerra geral os conflitos envolvendo 8 nações, sendo 4 das quais de grande porte, teriam sido 6 guerras gerais entre 1.700 e 1.815, e o período de 1.815 a 1.930 teria tido somente 1, a Primeira Guerra Mundial.

Houve dois longos períodos que foram notavelmente pacíficos: um entre a Batalha de Waterloo (1.815) e as guerras curtas de 1.848 ou a Guerra da Criméia em 1.853; e o outro desde o fim da Guerra Franco-Prussiana de 1.871 até o fim do século, embora a opinião mais comum aponte o ano de 1.914, que marcou o início da Primeira Guerra Mundial, como a data de encerramento deste longo período de paz. Tais períodos de paz apontam a influência de poderosos estadistas. No primeiro período, lorde Palmerston, da Inglaterra, teria sido o pacificador, e no segundo período, Otto von Bismarck, da Alemanha. Mas os talentos de ambos como estadistas dependeram das ferramentas militares oferecidas pela nação de cada um: Palmerston tinha o apoio da mais poderosa marinha do mundo naquele momento da história, enquanto Bismarck contava com o exército mais poderoso.

A Guerra das Sete Semanas, que aconteceu entre junho e agosto de 1.866, entre Áustria e Prússia, foi uma entre algumas numa farta lista de conflitos curtos na segunda metade do Século XIX. Nos Anos 1.880 ocorreu uma ainda mais breve, uma batalha feroz com duração de apenas duas semanas entre a Sérvia e a Bulgária. Uma década depois, Grécia e Turquia lutaram um suas fronteiras montanhosas, em mais um conflito de curta duração.

A Guerra das Sete Semanas começou com a invasão da Prússia ao território da Áustria. Em menos de três semanas, mais de 200 mil prussianos ("alemães"), e mais de 200 austríacos e saxões se enfrentavam em Sadowa, perto do rio Elba. Era um confronto entre os dois maiores exércitos que já tinham sido reunidos até então na história em um campo de batalha. Em menos de 12 horas de combate, os austríacos já batiam em retirada, deixando para trás um quinto de seus homens mortos ou sendo prisioneiros dos prussianos. Três semanas depois, Áustria e Prússia aceitaram um acordo de paz. Aquele conflito de 1.866 mostrou a eficiência dos novos fuzis de antecarga em comparação aos fuzis de retrocarga dos austríacos. A tecnologia mais uma vez era fator diferencial em batalhas. Aproximadamente cinquenta anos depois, aqueles dois inimigos estariam unidos do mesmo lado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Em 1.870, a Guerra da Prússia comprovou que a meticulosa organização do sistema ferroviário era capaz de agilizar o transporte de um grande exército até o campo de batalha. A rapidez do ataque da Prússia surpreendeu à França e aos analistas militares da época em toda a Europa. Em aproximadamente 17 dias, a Alemanha deslocou à linha de frente de ataque cerca de 440 mil homens, 135 mil cavalos e 14 mil veículos de combate num comboio de 1.200 trens. Após dois meses de combate, a Prússia impôs um cerco a Paris, demonstrando como as novas técnicas militares eram implacáveis, e levavam a guerra a um outro patamar.

No século seguinte à Batalha de Waterloo, as guerras mais longas foram travadas fora do continente europeu. Na Ásia, entre 1.851 a 1.864, a Guerra Civil Taiping deixou 20 milhões de mortos na China, a partir de uma rebelião camponesa liderada por Hung Hsui-Chuan. No contexto europeu, os conflitos nas colônias começaram a dominar o calendário. Embora o número de vítimas e o custo anual de um destes embates fossem frequentemente inferiores a um mês de guerra na Europa, muitos deles se tornaram sérios e surpreendentemente difíceis de serem dominados. Talvez a mais longa guerra internacional do Século XIX tenha sido entre França e Argélia, que em 1.830 era uma república independente cujo território ia dos limites do Deserto do Saara até a acidentada costa do Mar Mediterrâneo.

Por gerações, piratas argelinos partiam de seus portos para atacar a navios e portos franceses. Em maio de 1.830, então, o governo da França enviou 9 navios de linha, 56 fragatas, corvetas e brigues, 8 barcos a vapor e uma flotilha de pequenas embarcações, no total envolvendo 37 mil homens e 4 mil cavalos. Os portos foram logo conquistados, entretanto a conquista total da Argélia só aconteceu depois de 17 anos e muitas campanhas, porque se um território pequeno com população esparsa era mais facilmente conquistado, um território extenso e com milhões de habitantes era muito mais complicado. Assim, com 965 quilômetros de extensão e então com 3 milhões de habitantes, a Argélia não era presa fácil a um invasor. Os verões extensos e o solo rochoso também favoreciam à defesa, além de que era uma nação relativamente unida pela fé em comum no islamismo. Assim, o poder do exército invasor não dependia da superioridade em diversas técnicas de guerra. A força da artilharia francesa, vital em tantas guerras na Europa, era menos devastadora na Argélia, onde o transporte de armas pesadas para o interior do país era árduo, além de ser um prenúncio em alto e bom som para a defesa sobre os planos de ataque franceses. Tudo isto, fez a guerra se prolongar pó um período muito maior do que o inicialmente esperado. Situação análoga viria a acontecer mais de um século depois com os Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Este "jogo de gato e rato" se intensificou quando estas táticas de guerrilha foram colocadas em prática pelos argelinos pela primeira vez na história, já em 1.830, assim como veio a ser feito por Cuba na guerra contra a Espanha entre 1.870 e 1.890, pelos bôeres contra a Grã-Bretanha na virada do século, e pelo Vietnã primeiro contra a França e depois contra os Estados Unidos, a partir de 1.945. A resposta das potências militares à guerrilha era sempre mandar mais reforços, um processo dispendioso e lento, e que na maioria das vezes se mostrou ao final não suficientemente eficaz.

Uma grande verdade na história das guerras é que o otimismo exagerado é fator causal da geração de conflitos. A Primeira Guerra Mundial muito provavelmente é o exemplo mais clássico. Às vésperas de uma guerra que mataria mais soldados e envolveria mais nações do que qualquer outra antes dela na história, acreditava-se que a guerra iminente seria curta, de três a seis meses no máximo. Se a duração e a crueldade da Primeira Grande Guerra tivessem sido previstas, os esforços para preservar a paz em 1.914 teriam sido muito mais vigorosos. Uma das razões pelas quais não se imaginava uma guerra longa era a crença generalizada de que a opinião pública civilizada se rebelaria contra os transtornos provocados pelo conflito. Mas o consolo seria a vitória, que ambos os lados esperavam obter convictamente. Mesmo a Rússia, a França e a Áustria, derrotadas na última guerra imponente da qual tinham participado, esperavam vencer. Enquanto os generais alemães previam que, decorridas as primeiras seis semanas do início da guerra, sua linha de frente se aproximaria de Paris, muitos generais franceses tinham certeza de que levariam mais ou menos este mesmo tempo para chegar ao rio Reno. Todas as frentes estavam otimistas às vésperas do combate, a ortodoxia era a necessidade de uma vitória rápida e decisiva, pois a impossibilidade econômica de uma guerra longa era certeza de todos.

A explicação para o otimismo se encontrava não só na série de guerras curtas travadas havia pouco tempo na Europa, como na crescente rede de integração comercial e financeira no mundo ocidental. Na posição de maior potência financeira mundial no início do Século XX, a Inglaterra acreditava que seria a última nação a sofrer as consequências de um colapso econômico decorrente da guerra. Em sua lógica, os adversários, afetados primeiro, buscariam a rendição antes de um estrago maior. Já os alemães, apostavam em sua moderna tecnologia militar, a mais avançada naquele momento, para gerar um conflito curto. Todos erraram suas previsões, e todos sofreram severas consequências.

Entre 1.860 e 1.914, praticamente todas as 9 guerras ocorridas na Europa terminaram em menos de 1 ano. As guerras registradas nas Américas também passaram a ser mais curtas do que as anteriores, ainda que não tão curtas quanto as europeias. A Guerra Civil de Secessão iniciada em 1.861 nos Estados Unidos, a qual durou até 1.865, partiu de uma longa controvérsia sobre a continuidade do uso dos fluxos de escravização dos nativos da África, e deixou 600 mil mortos. Os Estados Confederados, do sul, que eram grandes oligarquias escravocratas, tentaram a sua independência, mas acabaram derrotados pelos estados do norte. Neste período nas Américas - a década de 1.860 - tanto esta Guerra Civil Norte-Americana, como a Guerra do Paraguai e a Expedição Francesa ao México, todas estenderam-se por pelo menos 4 anos cada uma. Em 1.879, a Guerra do Pacífico, envolvendo Chile, Bolívia e Peru, também durou aproximadamente 4 anos.

Na Europa, embora muitas guerras longas no Século XVIII também tivessem se iniciado com declarações otimistas, a maioria das guerras do Século XIX tinham sido breves, e isto parece ter apagado o conhecimento de tempos mais remotos. Em 1.700, quando as províncias do norte se uniram para atacar à Suécia, uma vitória rápida parecia bem provável, mas os conflitos levaram 21 anos. Em maio de 1.702, em Londres, quando o conselho de ministros ingleses elaborou uma declaração de guerra à França, esperava uma batalha rápida e uma "boa paz em pouco tempo", a guerra durou mais de uma década. Os governantes da Rússia estavam certos de que a invasão à Polônia em 1.733 não encontraria resistência. Os líderes de Inglaterra, França, Prússia, Áustria, Portugal e Espanha quando começaram a se enfrentar em 1.756, não previam que o conflito se tornaria a Guerra dos Sete Anos.

Em 1.859, o imperador austríaco Francisco José acreditava que sua guerra contra a França e a Itália seria afortunadamente curta, e foi curta, mas para ele não foi afortunada. Em 1.866, às vésperas da guerra entre a Áustria e a Prússia, os austríacos novamente esperaram a vitória, que novamente não aconteceu. Quando os Estados Unidos e os rebeldes confederados iniciaram as lutas em 1.861, pouquíssimos líderes - ou nenhum, talvez - imaginavam uma guerra que duraria 4 anos e mataria mais de meio milhão de pessoas. De modo similar, a guerra de 1.904-1.905 entre Rússia e Japão, a guerra de 1.911-1.912 entre Itália e Turquia, e as duas Guerras dos Bálcãs em 1.912-1.913, todas cometeram o mesmo deslize da crença em conflitos rápidos. O otimismo às vésperas da Primeira Guerra Mundial fez parte de uma longa, mas quase despercebida tradição. E as lições do tempo parecem não ter sido totalmente entendidas, pois em 2.022, quando a Rússia atacou à Ucrânia, o discurso de um conflito rápido também estava no centro da retórica. Frequentemente, o extremo otimismo do início de muitas guerras está ligado ao extremo pessimismo do final delas.

Por que as guerras gerais eram frequentemente mais longas? Por algumas razões: primeiro, em um conflito com muitas nações envolvidas, a força militar tendia a ser distribuída com mais equilíbrio entre os dois lados, e quanto mais equilibradas as forças, mais improvável é uma conclusão rápida; segundo, porque uma guerra geral costumava envolver várias frentes de batalha, tanto no mar quanto em terra, dificilmente havendo vitórias contundentes em todos os palcos envolvidos, prolongando o tempo até um dos lados obter supremacia; terceiro, porque numa aliança entre muitas nações a coordenação das campanhas não tinha a mesma eficiência, por serem múltiplos tomadores de decisão, levando-se mais tempo para se obter consensos na definição das estratégias a serem escolhidas. Vamos então à narrativa dos processos que levaram às duas maiores guerras gerais da história da humanidade.

Guerra e paz são fases flutuantes de uma relação entre nações. E o oportunismo permeia todo este relacionamento. Uma ideia que nasceu no Século XIX e se fortaleceu no Século XX foi a de que a prosperidade da humanidade dependeria de discussões racionais e não de ameaças. Os alicerces da paz seriam as instituições e invenções que promoviam o intercâmbio de ideias e produtos: parlamentos, conferências internacionais, popularização da imprensa e da informação, educação compulsória, bibliotecas públicas, meios de transporte, e o comércio. Uma nação ganhava mais quando sua política comercial enriquecia seus vizinhos em vez de empobrecê-los, construindo uma interdependência entre nações, e não a rivalidade entre elas. A ignorância e os mal-entendidos é que seriam as sementes das guerras. As duas grandes guerras mundiais endossam esta visão?

A Europa vinha de um longo período de paz, entre 1.815 e 1.914 o continente havia enfrentado uma única guerra que envolveu mais do que três grandes nações, a Guerra da Criméia, que durou três anos, quando Grã-Bretanha e França tomaram partido da Turquia contra a Rússia, que permaneceu sozinha durante o confronto. Estima-se que este conflito tenha gerado aproximadamente 650 mil mortes. Entre 1.900 e 1.914, a guerra mais importante foi entre Rússia e Japão, que estavam ambos determinados a expandir os seus domínios através das frias regiões do nordeste da Ásia. Este breve conflito estourou na Manchúria em 8 de fevereiro de 1.904 e deu início a profundas mudanças políticas, acelerando o processo que levou à revolução popular na Rússia, a qual abordaremos mais detalhadamente a seguir.

Também havia agitações políticas crescentes na virada do Século XIX para o Século XX marcadas por atos terroristas do Movimento Anarquista. Em 1.894, Sadi Carnot, presidente da França, viajava de carruagem em Lyon quando um conhecido anarquista italiano, o jovem Sante Geronimo Caserio, lançou-se sobre ele e o apunhalou, matando-o. Em 1.897, o primeiro-ministro espanhol Antonio Cánovas del Castillo passava um feriado na estação de águas Santa Aguada, em Gipuzkoa, quando foi morto a tiros por outro anarquista italiano, Michele Angiolillo. Em 1.898, a imperatriz da Áustria passeava incógnita pelas ruas de Genebra - um ato inacreditável para a monarca de uma das cinco maiores potências do mundo naquele momento - quando foi apunhalada até a morte por outro anarquista italiano. Do outro lado do oceano, em 1.901 o presidente dos Estados Unidos, William McKinley, foi morto pelo anarquista Leon Czolgosz. Na história humana, o terrorismo é uma velha atividade, a qual aparece, desaparece e reaparece constantemente.

Dentro deste mesmo contexto político de tentativa de imposições ideológicas, tensões e conflitos também estavam se manifestando onde minorias étnicas num país, ou do outro lado de uma fronteira, testavam forças de forma crescente. Assim se deu naquele momento nos casos da Irlanda, na Grã-Bretanha, como também nos Bálcãs, entre eslavos e alemães, e ainda nos Alpes, entre italianos e austríacos. As duas Grandes Guerras Mundiais no Século XX eclodiram em regiões nas quais grandes potências defendiam sua soberania e seu prestígio perante outros grupos étnicos!

Nos Bálcãs, três povos e suas respectivas religiões competiam. Os turcos do Império Otomano não detinham mais o controle da região, mas grandes populações muçulmanas haviam permanecido nela. Em Sarajevo, metade da população era muçulmana e frequentava cultos em cerca de cem mesquitas. Como Sarajevo fazia parte do Império Austro-Húngaro, os muçulmanos que ali habitavam eram governados por austríacos católicos sediados em Viena. A mesma cidade abrigava uma grande população Cristã Ortodoxa, ligada à religião do Antigo Império Romano do Oriente, cuja sede havia migrado havia muitos anos de Constantinopla para a Rússia, gente leal ao novo Reino da Sérvia, do outro lado da fronteira com o Império Austro-Húngaro, numa "irmandade eslava". Foi em meio a este caldeirão de seguidores do Cristianismo Católico, do Cristianismo Ortodoxo, e do Islamismo, que eclodiu a Primeira Guerra Mundial.

Foi um patriota da "irmandade eslava" - que unia ortodoxos da Áustria-Hungria à Sérvia e à Rússia - de nome Gavrilo Princip, membro de uma sociedade secreta chamada "Mão Negra", quem recebeu do exército sérvio seis bombas e quatro revólveres para executar um atentado em Sarajevo contra o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da monarquia do Império Austro-Húngaro. Em 28 de junho de 1.914, enquanto Ferdinando fazia a inspeção militar oficial de suas tropas, acompanhado por sua esposa Sofia, numa limusine conversível que passava de capota abaixada, eles foram alvos de uma saraivada de tiros que matou ao casal real. Os austríacos ficaram revoltados! A frouxidão de controle da Sérvia foi responsabilizada pelo assassinato, com endosso indignado da Alemanha. A Sérvia pediu desculpas, porém não com rapidez suficiente.

Apenas um rio separava Belgrado, capital do país que não tinha acesso ao mar, da Áustria-Hungria. Em 29 de julho de 1.914, um mês após o assassinato, um primeiro ataque militar austríaco aconteceu sobre a capital sérvia. Prontamente a Alemanha se pôs ao lado do Império Austro-Húngaro, e a Rússia se pôs ao lado da Sérvia. Dentro de umas poucas semanas, outras potências tinham aderido ao conflito: França e Grã-Bretanha, com medo da ascensão econômica da emergente Alemanha, aliaram-se à Rússia, enquanto o Império Otomano (Turquia) e a Bulgária aliaram-se à Alemanha. Logo o Japão foi mais um a aderir contra a Alemanha, mas disponibilizando apenas a sua marinha, negando-se a enviar seu exército. A Itália, para surpresa geral, apoiou a França e Inglaterra, colocando-se contra os alemães.

O desenho do conflito inicial estava formado, de um lado um eixo central formado por Alemanha, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano, do outro os aliados eram Rússia, Sérvia, Itália, França e Grã-Bretanha (junto a suas colônias). A Bélgica tinha a intenção de ser neutra, mas invadida pela Alemanha, para que esta alcançasse Paris, foi uma mais a se alinhar a estes aliados. Entre os países neutros, na parte oriental do continente estavam Grécia, Romênia e Albânia, na parte central a Suíça, e na parte ocidental, Espanha, Portugal e Holanda, assim como os países nórdicos também se mantiveram neutros (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia). Com o decorrer dos conflitos, Portugal, Romênia e Grécia acabaram sendo forçados a abandonar a sua neutralidade.

A Alemanha no início do Século XX era a maior produtora de máquinas e produtos químicos na Europa. Inglaterra e França, incapazes de igualar o poderio industrial de seu rival, precisavam importar produtos em larga escala dos Estados Unidos, estratégia sem a qual já teriam sido derrotadas no conflito já em seu primeiro ano, derrotadas pelas fábricas, siderúrgicas, minas de carvão, oficinas de munição e estaleiros de construção naval dos alemães.

Uma economia mais produtiva possibilitava que um grande número de homens fosse incorporado rapidamente aos combates, enquanto mulheres eram deslocadas para trabalhar em fábricas de munições. Enquanto nas Guerras Napoleônicas um país dispunha de cerca de 12% de seu produto interno total para investir em seu poderio militar, na Primeira Guerra Mundial os países já conseguiam se dispor a gastar até 50% de seu produto interno. Isto fez com que o número de mortos e feridos já nos primeiros meses de combate fosse muito superior a todas as estimativas.

Em maio de 1.915, o Império Otomano decidiu deportar os armênios cristãos, que lentamente, carregando a todos os seus pertences, cruzaram da Anatólia para o Deserto da Síria. Durante o caminho, homens, mulheres e crianças foram assassinados por soldados e civis turcos, tendo morrido de 600 mil a 1 milhão de pessoas durante este genocídio. O nível de destruição era altíssimo, ninguém estimou que fosse ser tamanho. No fim de 1.916, muitas das forças em guerra passavam por um momento de descontentamento tão generalizado que possibilidades de motins eram bastante reais. As mortes eram muitas, as condições nas trincheiras durante o inverno eram abomináveis, e a vitória não parecia ao alcance de nenhum dos lados. O moral baixo dos militares contaminava a população civil. O primeiro exército a se desintegrar poderia determinar o rumo da guerra.

A península turca de Gallipoli era estratégica, porque controlava a curta e estreita rota marítima do Estreito de Dardanelos, que unia Mar Mediterrâneo e Mar Negro, com menos de 27 milhas de comprimento. Antes da Primeira Guerra Mundial começar, os alemães perceberam a importância estratégica deste controle e se aliaram à Turquia menos de uma semana antes do início dos conflitos, assinando secretamente uma aliança militar. Em abril de 1.915, tropas de Grã-Bretanha, França, Austrália e Nova Zelândia tentaram tomá-lo de alemães e turcos, mas não conseguiram. O controle impedia que a Rússia pudesse utilizar ao Mar Báltico, impedindo que seus navios levassem os grãos que alimentariam a seus aliados ocidentais, ou que os russos recebessem armas e munições por aquela via. Os russos tinham abundância de soldados, mas uma terrível escassez de armamentos pesados e de roupas apropriadas para enfrentar às baixas temperaturas do inverno rigoroso. A Rússia estava semi-estrangulada por sua geografia peculiar, e este estrangulamento econômico imposto pelo longo bloqueio de guerra culminaria com a revolução dos líderes trabalhistas que rompeu em 1.917 - a Revolução Bolchevique - o que levou à saída da Rússia do conflito.

Os bloqueios militares impostos pela guerra fizeram com que a Rússia vivesse uma ruptura na rotina de suas atividades econômicas, com a inflação atingindo níveis estratosféricos. As estradas de ferro não davam conta de oferecer carregamento de comida e suprimentos suficientes. Entre 1.913 e 1.917 o preço da farinha triplicou e do sal quintuplicou, o preço da manteiga aumentou mais de oito vezes. Muitas famílias passaram a passar fome. Na Rússia o povo sempre foi, via de regra, ultrapatriótico, mas as condições econômicas deterioradas e a possibilidade de ser derrotada no terceiro conflito consecutivo (perdeu a Guerra da Criméia nos Anos 1.850, e a guerra contra o Japão em 1.905) fizeram com que crescesse o sentimento de desapontamento em relação à família real, foco tradicional de lealdade patriótica. A popularidade do czar Nicolau II ruiu, e em março de 1.917 ele foi obrigado a abdicar.

No lugar do czar Nicolau II, uma coalizão assumiu o governo. Entretanto, membros do extremamente organizado Partido Bolchevique estavam certos de que somente eles poderiam dar esperança ao povo russo. O líder deste movimento, Vladimir Ulianov, que desde 1.901 havia adotado o pseudônimo de Lenin, vivia exilado, tendo passado períodos em Inglaterra, França, Áustria e Suíça. Em abril de 1.917, financiado pela Alemanha, Lenin e alguns companheiros regressaram clandestinamente à Rússia para formar as bases do que batizou como "uma ditadura revolucionário-democrática do proletariado e do campesinato". Ainda que ditadura e democracia fossem opostos que nunca tiveram pontos em comum, estas eram as bases ideológicas defendidas por seu movimento. No dia 6 de novembro, comandados por Leon Trotsky, os revolucionários tomaram durante a madrugada a estações de trem e de correios, a companhia telefônica, bancos e centrais de distribuição de energia elétrica, tomando São Petersburgo. Em Moscou, o Kremiln foi invadido. O golpe estava dado com sucesso, e Lenin tornava-se oficialmente o líder do primeiro Conselho de Comissários do Povo.

Não muito depois da Revolução Russa, em 1.918, Lenin assinou com Alemanha e Turquia o Tratado de Paz de Brest-Litovsk, cedendo parte de seu território a Alemanha, Romênia e Turquia. Pouco depois perdeu ainda territórios para Polônia e Finlândia, e viu as três províncias bálticas - Lituânia, Letônia e Estônia - tornarem-se independentes. A Rússia perdia assim uma vasta extensão de terras produtoras de grãos, o que intensificaria a escassez de comida.

Os Estados Unidos tentaram se manter um país neutro na Primeira Guerra Mundial, mas várias embarcações de bandeira norte-americana foram constantemente afundadas por submarinos alemães, assim em abril de 1.917 o Congresso aprovou a entrada dos Estados Unidos da América na guerra contra a Alemanha. Gradativamente os rumos do conflito estavam passando por profundas mudanças que alterariam os rumos finais.

A Alemanha, a grande potência emergente que despontava como potencial vencedora, ia se enfraquecendo cada vez mais. Em setembro de 1.918, seus aliados estavam fartos do conflito: a Bulgária assinou um armistício, o Império Austro-Húngaro estava em frangalhos e se fragmentou, com Iugoslávia, Tchecoslováquia e Hungria formando suas próprias nações; no fim de outubro foi a vez do Império Otomano (Turquia) assinar uma trégua, e logo a seguir a Áustria (o que havia restado da dissolução do Império Austro-Húngaro) fez um pedido de rendição. A Alemanha ficou sozinha!

Nos dez primeiros dias de novembro de 1.918, civis alemães fizeram um movimento crescente de amotinações, os quais levaram o imperador Wilhelm II a abdicar do poder. Em 11 de novembro a Alemanha assinou um armistício. A Primeira Guerra Mundial chegava assim ao fim. O Tratado de Versalhes restabeleceu a paz, tentando semear a construção de uma Liga das Nações como estratégia de evitar futuros conflitos.

A Primeira Guerra Mundial não foi apenas dramática enquanto durou - entre 1.914 e 1.918 deixou aproximadamente 10 milhões de mortos, entre militares e civis - mas teve também efeitos profundos, ajudando a impulsionar a Revolução Russa, sendo uma das causas da Grande Depressão Econômica a partir de 1.929 que se estendeu pelos Anos 1.930, a qual estimulou a ascensão de Adolf Hitler e do Nazismo na Alemanha, ajudando assim a provocar a Segunda Guerra Mundial, a qual acabou com o apogeu da Europa Ocidental, acelerando a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética como potências mundiais. Assim, antes de se aprofundar na Segunda Guerra Mundial, para entendê-la é fundamental se aprofundar no período entre guerras e compreender como a incapacidade de solucionar conflitos foi fator determinante para a eclosão de um conflito ainda maior.

No saldo final dos conflitos, os sérvios foram os que mais sofreram, com um em cada quatro homens entre 15 e 49 anos tendo morrido no campo de batalha. Turquia, França, Romênia e Alemanha perderam de 13% a 15% dos homens nesta faixa etária. O Império Austro-Húngaro perdeu 9%, a Itália 7% e a Grã-Bretanha 6%. Foi uma fase terrível nos anos seguintes por falta de noivos para as mulheres. Ademais, nos quatro anos durante os quais duraram a guerra, um soldado para cada quatro mortos por balas, estilhaços ou explosivos de alta potência, havia morrido por causa de alguma doença, tendo a malária tido papel de destaque. Os efeitos foram devastadores: a Primeira Guerra Mundial desfez ligações de comércio, destruiu vilarejos rurais, devastou enormes áreas de pasto e matou milhões de cabeças de gado, impactando a capacidade econômica agrícola e pecuária, avariou centenas de ferrovias e rodovias, e afundou mais navios cargueiros do que toda a quantidade que existia em 1.900. As consequências indiretas sobre a saúde pública global foram a assinatura final dos anos de conflito: após o fim da guerra um mortal surto de influenza (gripe) disseminou-se pelo mundo, atacando em especial às zonas portuárias em todo o planeta. A pandemia, que ficou batizada como "Gripe Espanhola", durou de janeiro de 1.918 a dezembro de 1.920, infectando 500 milhões de pessoas (cerca de um quarto da população mundial da época) e deixando um saldo de cerca de 50 milhões de mortos, muito mais do que os 10 milhões que tinham morrido em batalha durante toda a Primeira Guerra Mundial.

Economicamente, o grande beneficiário ao fim dos conflitos foram os Estados Unidos, cujas indústrias aumentaram enquanto seus competidores europeus estavam absorvidos pelas batalhas. O Japão também se beneficiou, e pela primeira vez em muitos séculos um país do Leste Asiático foi louvado como um dos líderes mundiais, alçando-se entre as cinco principais economias do planeta. Ao fim da guerra, a Europa tinha um grupo de novos países cujas fronteiras nacionais precisavam ser demarcadas, com uma incrível marca de 12.500 milhas de linhas novas nos mapas. Havia 27 países com novas fronteiras. O mapa da Europa às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial se restringia a Grã-Bretanha, França, Espanha e Portugal a oeste, Itália, Suíça, Bélgica e Holanda ao centro, Suécia, Noruega e Dinamarca ao norte, e a leste Alemanha, Áustria-Hungria, Sérvia (ex-principado do Império Austro-Húngaro), Romênia, Bulgária, Albânia e Grécia, com os limites com a Ásia tendo a Rússia a norte e a Turquia ao sul. Após o conflito, surgiram como novos países independentes: Finlândia, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Lituânia, Letônia e Estônia, além da divisão e formação de Áustria e Hungria como dois países separados.

A Primeira Guerra Mundial foi longa por causa dos impasses nas trincheiras, com a mudança das tecnologias tendo forçado a um foco na defesa, para dificultar a agilidade de deslocamento das tropas. Ao seu final, o Tratado de Versalhes condenou formalmente a Alemanha e seus aliados como agressores. Os líderes alemães tiveram de concordar com as duras condições impostas como punição a seu país pela agressão praticada, num suposto ato de defesa da moralidade internacional. Suas colônias ultramarinas foram confiscadas e os territórios distribuídos entre cinco vizinhos europeus, navios de guerra alemães foram destruídos, e forças estrangeiras ocuparam uma vasta faixa de seu território.

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